Conje ou conge?

Dada a sagacidade dos últimos cartuns, memes e comentários, desconfio que seja óbvio para a maioria – mas vi algumas pessoas de esquerda problematizando um de nossos poucos consolos cotidianos, em meio a tanta notícia absurda, que é esculhambar com a indigência linguística, lógico-argumentativa, comportamental da rat family, do melindroso Marreco de Curitiba, de toda essa manada que alega ter estudado em “ravard” sem conhecer a tabuada. Nosso sarcasmo não seria também o preconceito linguístico e a arrogância intelectual que tanto nos esforçamos para evitar? Muita gente faz essa pergunta com sinceridade, e ela me parece válida. A resposta é não.

A famigerada marcha do orgulho hétero explica. Como qualquer pessoa, os orgulhosos héteros também necessitam de dinheiro e companhia, de comida, diversão e arte, também buscam reconhecimento, amor e conforto, e ficam frustrados e infelizes quando não conseguem o que desejam; mas nem por isso é justificável que marchem por direitos básicos, à maneira dos vilipendiados, dos perseguidos, dos massacrados, dos que sofrem por motivos sistêmicos, motivos religiosos, ideológicos, políticos, geográficos, de classe, raça, gênero, orientação sexual, condição social, financeira. Mesmo porque, se analisadas a fundo, a raiz das tristezas e frustrações dos orgulhosos héteros, embora eles externalizem a culpa, está nos próprios orgulhosos héteros, muitas vezes em orgulhosos héteros igualmente frustrados e infelizes – e não na falta de direitos básicos, e mesmo de privilégios.

Do mesmo modo, não convém cogitar pegar leve com a burrice dos canalhas, pois tal preocupação seria injusta com aqueles que não tiveram chance de aprender. Uma coisa é fazer piada com a linguagem de alguém que mal tinha o que comer e precisou enfrentar intempéries inimagináveis por sua sobrevivência, outra é esculachar com as patetices de quem teve todas as oportunidades do mundo, não aprendeu nada, e mesmo assim se deu bem em nossa demeritocracia; um coisa é zombar de um analfabeto, outra é avacalhar com a insipiência de gurus terraplanistas, de promotores que confundem Engels com Hegel, de energúmenos incapazes ler um teleprompter mas que ainda assim chamam estudantes e educadores de idiotas úteis, de um verme que não perde a chance arrogar erudição citando Horácio em latim, ainda que todos conheçamos seu português desprezível [e a maior ironia é que, quando estiveram frente a frente, a Jararaca sem estudo jantou o pomposo Marreco de Curitiba]. Esculhambar com quadrúpedes desse quilate não apenas é aceitável, como também nossa obrigação cívica.

juiz-fascista-moro

Mas e o gado – como lidar com a parvoíce dos minions? Em primeiro lugar, é preciso avaliar o contexto, se os arredores estão seguros. A estupidez é feroz, e uma piada bem bolada pode ser respondida com um coice. Não quero ver ninguém aqui se lascando por um witticism. Também recomendo evitar os chatos – uma infestação de bots e zumbis tampouco será proveitosa. A maioria não passará pela peneira, mas são normas de segurança. Excluídos tais riscos, sugiro ainda avaliar se o minion em questão é ignorante porque não teve oportunidade de aprender, ou se sua mendicância cerebral provém da teimosia. Se o sujeito não estudou, seria uma malvadeza fazer piadas sobre sua estultice – mas calma lá, recomendo evitar apenas o ad hominem; não precisa pegar leve com os bandidos de estimação que ele cultua.

Agora se a pessoa é burra por teimosia, meu amigo, não tenha dó: esmague o infame. Houve a época de se tentar dialogar, houve a época de ignorá-los em nome da sanidade, mas ele insiste em nos arrastar para o abismo – então é chegada a época de bater. Exponha sua cegueira, atropele seus memes, destroce seu moralismo, massacre seus mitos, estraçalhe TODA E QUALQUER maluquice que o asno trouxer à tona. É tudo culpa dele. Não foi por falta de aviso – não está sendo por falta de aviso –, portanto não nos privemos de nossa perspicácia. Certas amizades não valem o sacrifício de uma boa piada.

E assim, encerrada a questão, aproveito o momento para também expor uma dúvida sincera. Qual a nova grafia, “conje” ou “conge”?

2 pensamentos sobre “Conje ou conge?

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