Cotidianas (III)

Para não se perder nesse buraco negro do insight que é o Facebook, volta e meia reúno aqui as Contradições Cotidianas que posto lá. (Procurem as outras: a I, a II e a III). Ano passado, dado o contexto, rebatizei a série por “Cotidianas”.

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Leftsplaining: explicação longa para qualquer babaquice dita pelos fascistas. Bolsonaro fala que a Terra tem a forma de arminha e lá vem o textão com evidências científicas do contrário. Eduardo viu no YouTube que depois da guerra Hitler fugiu para o Brasil, deixou a barba crescer, e passou a se chamar Lula, e lá vem o vídeo em que um renomado historiador alemão explica o que realmente aconteceu. Carluxo diz que comer cocô é bom e voilà: uma sequência de depoimentos de chefs e nutricionistas nos explicam que é ruim. A asneira é uma tática dos parvos e perversos para colonizar as mentes que eles não ludibriaram. Só precisam de um minuto para roubar nossa atenção, enquanto precisamos de muito tempo para argumentar qualquer coisa decentemente. Por isso tenho um método infalível para lidar com as idiotices do clã: considero ABSOLUTAMENTE TUDO o que eles disserem mentira, besteira, escroto, ou ridículo. Se porventura ficar em dúvida, é porque não li direito, pois com certeza será mentira, besteira, escroto ou ridículo. Nunca falhou. Só não preciso de um textão que me explique como ou por quê…

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Ridendo castigat Moro.

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Há um ano publiquei um texto chamado “A diversidade do insulto”, e para discorrer sobre a escatologia usei como exemplo o outro Moro, Tomás Moro (Morus, More) soltando os demônios pra cima de Lutero (nem cito aqui – é barra pesada). Aí esta semana vem nosso Moro, o melindroso Marreco de Curitiba, me prova que até no papel de escroque é bem chinfrim. Imagine você falando mal de alguém numa conversa privada, e que esse alguém seja o MBL – Moro podia se referir aos “arrombados do MBL”, àquele “bando de cuzão do MBL”, “renca de escroto do caralho do MBL”, mas não, e AINDA PEDIU DESCULPAS por chamá-los de –

“tontos”.

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Recapitulando: Cunha “combatendo a corrupção”, “terraplanistas em todo o globo”, generais “comunistas”, anarco-capitalistas; e agora o gado questiona a legalidade dos métodos dos jornalistas que divulgaram os MÉTODOS ILEGAIS da corja.

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A balbúrdia comendo solta no #14J e eu só imaginando aquela alcateia de conspiradores, viciados em celular como qualquer um de nós, se coçando para combinar umas maracutaias, porém se cagando de medo de conversar pelas redes sociais onde tanto chafurdaram nos últimos anos.

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Nossos números são ridículos. O que um deputado gasta mensalmente com sobremesa dá pra bancar o projeto de um escritor ambicioso; as gorjetas que estudantes e cientistas ganham são tão irrisórias quanto o número de estudantes e cientistas que ganham algo – um peteleco na economia do país, mas toda a diferença para eles (nós). Diante do festim dos responsáveis, não há como aceitar que não há dinheiro; muito menos que esse dinheiro será remanejado para prioridades, porque EDUCAÇÃO E CIÊNCIA SÃO PRIORIDADES. Eles querem justificar de tudo quanto é jeito, mas sabemos que os cortes são apenas uma etapa do projeto fascista: a curto prazo, acabar com a cultura, a educação, a ciência; a longo prazo, acabar com tudo isso aqui. Estão cumprindo o que prometeram.

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Sabe quando você está levando umas cervas geladas pra casa de alguém e tira uma da sacola pra ir bebendo no caminho? Por isso o número quebrado – 39. [Ma in Spagna son già mille e tre.]

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Witzel, JB, Trump são caricaturas daqueles vilões ressentidos e manipuladores contra os quais crescemos acostumados a torcer em filmes, gibis, desenhos animados, e que lá pelo final da adolescência, no auge da arrogância intelectual por termos lido Salinger, Watchmen e visto os primeiros Kubricks, aprendemos a rechaçar por conta de seu maniqueísmo, porque “na vida real as pessoas têm muitas nuances”. Parece que o jogo virou para os roteiristas da Disney e do Capitão Planeta, não é mesmo?

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Esse Ministro do Desmatamento é a cara do advogado do Rei do Crime.

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Alguém podia fazer uma página tipo “A fantástica fábrica de cortinas de fumaça” só pra mostrar o que cada fala bizarra do Bozo e sua trupe visa ocultar. Nela haveria postagens como “A esdrúxula acusação a Leo di Caprio faz a gente esquecer que Carluxo é suspeito de envolvimento na morte de Marielle” ou “O comentário aleatório sobre os roqueiros é para desconcentrar a raiva que sentimos dos PMs”. Garanto que eles têm um catálogo de declarações bizarras para soltarem a cada nova tragédia ou escândalo (o que acontece ao menos duas vezes por semana). “A fantástica fábrica de cortinas de fumaça” – fica aí a ideia.

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Minha suspensão da descrença me faz acreditar de boas em Demogorgon e otherside e Eleven, mas quem já traduziu qualquer coisa sabe que forçaram a barra com aquela menina vertendo um ÁUDIO DO RUSSO sem saber nada do idioma.

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Vendo esse clipe de Baco Exu do Blues me vem uma listona de obras de arte excelentes produzidas no país nos últimos tempos, e sou impelido a acreditar (uma crença cega, talvez) de que apenas a beleza salvará o Brasil.

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A morte dos monstros não é nada silenciosa [se quiser eu conto como foi a de Mussolini].

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Alguém me diz se faz sentido um negro, uma mulher, um gay sentir medo de sair na rua, e um nazista achar de boas esfregar sua suástica na cara de todo mundo? Sabemos de antemão que nossa polícia necrófila não fará nada com eles. Expor por expor não adianta, pois é exatamente o que eles querem. O correto é chegar na voadora, dar murro na cara, cadeirada nas costas, chute nas costelas, e só depois disso expor esses caras. Expor o inchaço, expor a suástica melada de sangue. Bater em nazista não se configura violência. Os nazistas precisam sentir medo.

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Não dá pra relativizar a destruição. Quando mataram Marielle, vi muita gente acusando a esquerda de politizar a morte dela, vejam bem, o assassinato de uma POLÍTICA. Acabou que meses depois foram os fascistas que politizaram (ainda mais) o crime, ao quebrar a placa em sua homenagem. Politizaram, mas em favor dos criminosos (eles próprios). Agora estão dizendo a mesma coisa da morte de Ágatha – resultado da política do mesmo homem que quebrou a placa de Marielle, espécie de Wilson Fisk que atira a esmo de helicópteros enquanto dança ao som dos fuzis. Estão acusando a esquerda de politizar o crime, mas na verdade eles que estão tentando despolitizá-lo. Se Ágatha fosse meia década mais velha, tentariam distorcer ou justificar a morte; como não têm o que dizer sobre uma criança fuzilada por eles, pintam o assassinato como uma eventualidade resultante do intenso combate ao tráfico. Mas é tudo muito óbvio: as “eventualidades” têm lugar, cor e condição financeira, as “eventualidades” não ocorrem eventualmente; Witzel sempre foi um assassino e quem o colocou lá tem sua parcela de culpa, sem mais.

Destruição é destruição, não dá pra relativizar isso. Se alguém tenta justificar, distorcer ou mostrar um hipotético lado positivo de assassinatos de inocentes, desaparecimentos, tortura, incêndios de museus e florestas, desabamentos, o aparelhamento ou censura de nossa produção intelectual, de toda essa destruição sistemática, já faz muito tempo que essa pessoa deixou de ser humana. Quem viu Bacurau já sabe o que fazer.

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Há muita gente relacionando os movimentos no Chile com o filme do Coringa, e concordo. Pra mim é uma simbiose: a realidade influencia a ficção, que, por sua vez, influencia a realidade. Por sinal, os pescadores removendo o óleo da praia na tora me lembra muito Bacurau. Só o povo poderá salvar o povo.

Um pensamento sobre “Cotidianas (III)

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