O azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina

Não gosto de funk, não suporto o “Despacito”, odeio pagode e sertanejo, mas conheço até bem isso tudo. Ao contrário de outros tipos de informação – como a palavra ou as imagens – que precisam do mínimo de atenção para serem captados, a música pode nos alcançar naturalmente, mesmo enquanto estamos de olhos fechados, sem pensar em nada, no fim de um cochilo fora de hora. Não que eu precise explicar, mas conheço as novidades do funk, do pagode e do sertanejo porque frequento uma academia e sou um boêmio eclético – mais fácil deixar de ir a um lugar por causa das pessoas que o frequentam que pelo tipo de música que toca nele, especialmente aqui no sertão da Bahia, um lugar surreal onde se ouve de tudo nos botecos, de jazz improvisado a thrash metal, mas em proporção desigual. Ah, vou falar logo a verdade: volta e meia me envolvo com garotas que amam tudo o que odeio. Mas a questão mesmo é que enquanto os textos e os memes hoje em dia circulam em bolhas de conteúdo, a música as estoura e acaba chegando aos ouvidos que mais as evitam. Mesmo que você goste apenas do pagodão, eventualmente escutará a “Habanera” num filme policial ou “Chop Suey” num vídeo de seu youtuber favorito.

Nenhum problema até então. Para isso existem as paredes e os fones de ouvido. E no geral isso me é benéfico, pois foi assim que descobri muitas músicas que adoro em gêneros que conheço muito pouco, como o samba, o rap, o hip hop. Mas a questão fica cabeluda quando transformam isso em imposição: pior, quando também a enfiam a política nela. O tempo corrói tudo, mas a política é mais rápida, barata e eficiente. A política corrói até a matemática. E o maior problema da polarização política é a homogeneização das pessoas. No meio dessa bagunça atual, acaba-se por supor que o cidadão de direita deve ser um branquelo rico, cristão, a favor das armas, leitor de Chesterton, contra o aborto e a maconha, e os direitos humanos, das mulheres, dos negros e de quem vai na parada gay, que tenha o cabelo curto e a barba bem-feita, que use ternos e cheire bem, jamais use vermelho, e que o esquerdista seja o oposto disso tudo.

Por causa da dissonância política, sujeitos como Rodrigo Constantino são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Chico Buarque. Por causa da dissonância política, sujeitos como Paulo Nogueira são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Lobão. Mas na verdade os extremistas são a mesma coisa. Uns fazem manifestação para impedir a exibição do documentário O Jardim das Aflições, mas acham um horror, um descalabro, uma ofensa aos direitos do cidadão, que os outros façam o mesmo para censurar a palestra de Judith Butler. Ambos são idiotas, no sentido mais intrínseco do termo, o daquele que age contra si mesmo acreditando atuar em favor próprio. Lutar pelo irrevogável direito de calar o próximo apenas atiça a curiosidade de quem não conhecia o objeto de seu desprezo. O filme é um sucesso, suponho que devido a um público de direita, mas por causa dos esquerdistas; muitos deles, afinal, só foram atrás de Butler após as tentativas de embargo dos direitistas.

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Mas eis que resolveram transformar em política a música comercial, e, de acordo com aqueles padrões de homogeneização, quem não gosta de funk é de direita, porém se você é mesmo de esquerda, deve não apenas se dispor a escutar, mas apreciar o funk em todos os seus aspectos. Aí começa o conflito, primeiro porque, bem, há muitos sujeitos de direita que adoram descer até o chão (como deve haver muito mais que nem sabem quem diabos é Chesterton); segundo porque, bem, pelo meu conhecimento dos funks, quase todos eles falam basicamente sobre armas e regiões genitais femininas, isso quando não misturam logo tudo e falam sobre bundas-granadas, ou alguma metáfora do tipo.

Aí, assim como muitos direitistas se incomodam em gostar de qualquer coisa que os esquerdistas defendem, fica difícil para um suposto intelectual feminista a favor dos direitos humanos defender as letras das músicas que os seus inimigos direitistas odeiam. Muitos deles caem numa hermenêutica ridícula para tentar explicar o valor de canções monossilábicas criadas unicamente com o propósito de entreter um público específico, já formado (e também gerar dinheiro, sucesso, likes). Repetindo, não há problema algum em criar, gostar, dançar, em suma, se divertir com a música comercial popular – meu problema é com quem tenta politizá-la com teses forçadas que tentam justificar seu valor intelectual e artístico, como se a música precisasse de uma validação acadêmica. Meu problema é com os ataques furiosos contra qualquer um que ouse questionar esses trabalhos. É a mesma “hermenêutica do assassino” de que falei em outro texto.

Mas pior ainda é quem tenta problematizá-la para que se adeque aos seus próprios valores e crenças. Dia desses li uma carta de uma jornalista a um funkeiro em que, após mencionar sua “poesia musicada”, ela propõe a alteração de um verso machista. A solução que ela oferece é mais sem sal que “Amor, I love you”. Apesar de alegar gostar de funk, o que ela propõe alterar é exatamente o que está em qualquer letra do gênero. A impressão deixada é a de alguém que afirma gostar de algo apenas para se integrar, ou em nome de uma ideia, mas não por apreciar de verdade. Nada que não encontramos às pencas na faculdade de letras e nas redes sociais. Nem precisamos checar a biografia da remetente e do destinatário para sabermos que têm origens opostas. Imaginem então como não enchem o saco de quem tem o leque de assuntos mais amplo. Concordo com Carol Bensimon, quando diz que seu compromisso é não cair nos discursos engajados, ao menos dentro de sua obra.

O resultado da politização e tentativa de justificativa acadêmica da música comercial popular é apenas um deslocamento aberrante, como um candidato a deputado que finge apreciar buchada de bode para ganhar uns votos, um ariano fantasiado de indiano para receber o cachê de uma propaganda, Antônio Prata fugindo da torcida de seu próprio time, Ronaldinho Gaúcho recebendo um prêmio da ABL, um autor de novelas da globo dar uma carteirada de intelectual-criador para desancar o político que detesta. Criticar o machismo numa letra de funk é reclamar do azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina. Por mais que alguns cantores tentem se meter, a música comercial não tem nada a ver com ideologia política. Eu não gosto de funk, mas nada tenho contra os funkeiros. Que eles toquem a sua ladainha à vontade: bebo minha cerveja na mesa enquanto eles, na pista, balançam as suas bundas em paz.

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Lista de HQs para Paty

Volta e meia alguém me pede alguma lista. Nunca nego, nunca entrego. Faz mais de um ano, uma amiga me pediu uma de HQs – uma lista pessoal, não exatamente Os Fundamentais Que Todo Mundo Tem Que Conhecer – e coloquei aquelas que mal folheei a primeira vez, já pensei na releitura. Mandei pra ela uma listona seca, apenas título e autor, e só agora tomei coragem pra escrever umas duas linhas pra cada. Tudo publicado no Brasil: ao contrário de obras do cinema e da literatura, os quadrinhos brasileiros são vendidos aqui num bolo só, do mundo todo, de todo tipo, e são consumidos e apreciadas assim. A coisa mais saudável. Minha lista também é uma misturona doida, não tem ordem nenhuma.

 

 

Fun home – Alison Bechdel

Bechdel evoca autores como Joyce, Proust e Camus para recontar a história de sua criação numa casa de funerais, e da morte de seu pai, um misterioso professor de literatura. Apesar do texto denso, cheio de camadas, a narrativa é muito clara. Todo ano releio e percebo algo novo.

Lavagem – Shiko

“Gótico Sulista” sobre um casal que vive num mangue. A editora da Mino a usa como exemplo para explicar porque jamais pede patrocínios culturais. “Nada contra”, afirma Janaína de Luna, “mas não é todo mundo que quer seu nome associado a alguém que publica histórias sobre pessoas comidas por porcos ou coisa parecida.”

Laços – Vitor e Lu Caffaggi

Bem antes de Stranger Things, os irmãos Caffaggi se apropriaram de ícones temáticos dos anos 80 e fizeram a história mais legal da coleção de graphic novels adultas com os personagens da Turma da Mônica.

Diomedes – Lourenço Mutarelli

História em quatro partes sobre o desaparecimento de um mágico, protagonizado por um investigador tosco, gordão e bocó, porém insistente. Repleto de cenas e páginas geniais, minha favorita é uma perseguição com um trator, com “trilha” de Tom Zé.

 

 

Aqui – Richard McGuire

A história do mundo no canto de uma sala, vista de um único ângulo, em que épocas diversas se sobrepõem numa mesma página. Só lendo pra entender. Imagino “Aqui”, o volume impresso, como uma tradução palpável do “Aleph” de Borges.

Goela Negra – Antoine Ozanan (roteiro) e Lelis (arte)

Quadrinho brutal sobre a vida dos trabalhadores das minas de carvão na França anterior aos movimentos sociais. A arte é tão bonita que às vezes apenas fico olhando para as páginas como quem admira uma obra numa parede. Dá pra viver só de reler tudo da Mino.

Ordinário – Rafael Sica

Em suas tirinhas mudas experimentais Rafael Sica realiza uma contundente interpretação do desespero metropolitano e do delírio pós-moderno e do incessante conflito do eu contra o espaço, os eventos, os outros, o próprio eu.

Macanudo – Liniers

Já as tirinhas de Liniers seguem aquela linha agridoce de Mafalda e Calvin, ora melancólico, ora metafísico, poético às vezes, sempre sagaz.

 

 

Bando de dois – Danilo Beyruth

Rosa meets Leone. Dois cangaceiros sobreviventes de uma chacina decidem recuperar as cabeças de seus companheiros degolados. Preciso dizer mais?

Habibi – Craig Thompson

Épico sobre as transformações de duas crianças árabes que escapam da escravidão. Imagine a diligência para se desenhar um único arabesco de um tapete: Thompson demorou anos com centenas deles. Agora imagine um roteiro tecido com tanta ou mais minúcia.

Fracasso de público – Alex Robinson

Um quadrinista virgem, um pretendente a escritor, uma jornalista alcóolatra, um historiador tranquilo, um velho ranzinza explorado pelo mercado das HQs de Heróis. Acompanhamos lentamente, apreciando a evolução de cada personagem e, como em Ferrante ou Friends, acabamos por conhecer aquelas pessoas. Meus diálogos favoritos, junto com os de Ódio.

Estigmas – Claudio Piersanti (roteiro) e Lorenzo Mattotti (arte)

Um homem ordinário recebe por milagre as chagas de Cristo em suas mãos. Chega um momento em que parece que o livro vai estourar em nossa frente. A única HQ a me trazer o arrepio inexplicável daquela cena da explosão em Fonte da Vida ou da crise de Marcel em Sodoma e Gomorra.

 

 

Ódio – Peter Bagge

A hilária vida de um sujeito sem muitas perspectivas na Seattle dos anos 90. Diálogos surreais. Por durante vários anos também reli religiosamente. Há páginas das quais até hoje me basta um vislumbre para eu chorar de rir.

Três sombras – Cyril Pedrosa

Três seres aparecem numa fazenda pacata para levar o filho de um camponês, que faz de tudo para proteger seu filho. Fábula sobre a paternidade e a persistência. Desenho exuberante, páginas perfeitas.

O gato do rabino – Joann Sfar

O gato de um rabino argelino engole um papagaio e aprende a conversar. Não demora a falar umas verdades inconvenientes para os homens de Deus, a mentir, e a desejar fazer o Bar Mitzvah.

A pior banda do mundo – José Carlos Fernandes

Coletânea vertiginosa de histórias fantásticas curtas, à Borges e Calvino, que giram em torno duma banda de jazz que não consegue tocar nada. Filosófico, poético e erudito, tem a melhor galeria de personagens que já vi.

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Jimmy Corrigan – Chris Ware

Livro grande, lento, e triste sobre uma família. Tempos mortos, repetições, a distância, o tédio. Ware subverte a narrativa dos quadrinhos de modo ainda mais extremo que McGuire. Uso sempre em minhas aulas certa página circular que conta uma história de gerações de maneira brilhante.

 

 

Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

Provavelmente o quadrinho feito por brasileiros mais conhecido mundo afora, a série Daytripper é uma sobre Brás de Oliva Domingos, escritor de obituários, um brasileiro comum, que ama, come, sofre, viaja, grita, caminha, trabalha, envelhece, e morre, e morre, e morre, e morre…

Do inferno – Alan Moore (roteiro) e Eddie Campbell (arte)

Reconstituição minuciosa da história dos crimes de Whitechapel, em que se apresenta uma teoria para quem seria Jack, o estripador. Monumental e ambiciosa, Moore e Campbell dão uma de escritores do século XIX.

Corto Maltese – Hugo Pratt

A série de aventuras do marinheiro corso tem precisão matemática. Sempre chegamos ao único final possível. Numas das histórias, ele vem à Bahia e se envolve numa intriga com o cangaceiro Corisco. Um dos preto e brancos que mais me encantam.

Pílulas Azuis – Frederik Peeters

Bela memória de um homem que se apaixona por uma garota com AIDS. A Nemo anda lançando HQs fundamentais para compreendermos o outro, importantíssimas nestes tempos miseráveis. Não acredito que possa ser uma boa pessoa alguém que torça o nariz para qualquer HQ da Nemo.

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Cumbe – Marcelo D’Salete

Contos sobre a luta dos escravos no Brasil colonial. Os objetos e cenas cortadas pela metade de seus quadros são mosaicos de páginas perfeitas. D’Salete é um dos maiores narradores das HQs hoje, o que se comprova com Encruzilhada, passado na atualidade.

Outras listas:

Sobre a escrita

Os dez livros que TODOS devem ler

Vinte livros de ensaios imperdíveis

Off-10 – meus livros desconhecidos favoritos

Cosmópolis-província – outras impressões de SP

Em fevereiro cheguei em SP. Minhas primeiras impressões foram postadas aqui em março. Depois acrescentei mais algumas num texto ficcional. Talvez este possa ser lido como uma sequência.  

São Paulo é mesmo uma cidade cosmopolita. Sete horas da manhã de um domingo frio e acordo por causa do diabo de um galo.

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Gregório Duvivier: Na última coluna, falei mal do Rio e bem de São Paulo. Ofendi profundamente muitos paulistanos. Recebi uma enxurrada de e-mails: ‘Você fala assim porque não mora aqui. É fácil falar bem, quero ver se mudar pra cá`. Não se elogia São Paulo impunemente. Elogiar a cidade é trair o espírito paulistano. Parece que existe um acordo telepático: ‘Pessoal, vamos combinar que a gente odeia isso aqui? Ótimo.’ Em minha experiência limitada, vejo que isso se repete em quase todas as capitais brasileiras que conheço. A diferença é que enquanto um paulistano aceita tranquilamente que esculhambemos a sua cidade, vai um forasteiro falar mal de Salvador pra um soteropolitano pra tu ver o tamanho da chinelada!

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Ilustração: Peu Dourado

Jamais imaginei que ficaria chocado numa exposição de arte. Fui no MASP, e lá estava uma fila de obras cobertas por flanelas pretas. O CONTEÚDO DE ALGUMAS IMAGENS PODE SER IMPRÓPRIO PARA MENORES. Nem era assim tão hardcore. Só umas mulheres nuas, nada que meu filho de quatro anos nunca tivesse visto. Eis o cosmopolitismo de verdade: absorve até o provincianismo mais cafona.

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Sábado à noite, eu subindo a Rua Augusta bêbado e do nada uma mulher agarra meu pau e não quer soltar mais, me fazendo propostas libidinosas no ouvido. Apesar de me apertar como uma leiteira, tiro sua mão calmamente. “Obrigado, moça, mas não vou querer não.” Mal dou dois passos e ela, do meio da multidão, me grita que queria devolver meu celular. É por esse tipo de coisa que (1) sempre tento falar de boa com o povo e (2) nunca terei um iphone.

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Roteiro para uma primeira tirinha sobre os grevistas

BALADEIRO
(Deitando-se. Relógio de parede marca 21h30) Hoje não!

MILITANTE
(Fechando o laptop) Hoje não!

DEPUTADO
(Recusando um saco de dinheiro) Hoje não!

PLAYBOY
(Batendo ponto numa obra, de capacete, carregando uma marreta e uma marmita) Hoje sim!

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“Veja bem, eu não tive muita oportunidade, não estudei, vim da Bahia jovem, ralei muito, e graças a Deus, hoje meu filho pode fazer uma faculdade. Nada contra, ele pode fazer o que quiser, mas o problema é que ele vive caindo na conversinha dos amigos. Tu acredita que ele quer fazer direito, sendo que antes já cursou arquitetura e fisioterapia? Nem gosto de me meter, mas acho mesmo que ele deveria estudar era música.” Achei tão anti-intuitivo que ganhei meu dia.

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Os jornais anunciando que Temer e Aécio são uns canalhas me lembram aqueles cientistas que levam anos e gastam uma fortuna pra descobrir que café tira o sono, que correr faz a gente suar, ou que sexo faz bem.  A diferença é que enquanto os Sheldons anunciam suas notícias com entusiasmo, a mocinha do plantão da Globo segurava as lágrimas como um menino que deixou o sorvete cair, mas tem vergonha de chorar em público.

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uma-das-paredes-do-cinemaTrês lugares favoritos: o CCSP, a Tapera Taperá, a Caixa Belas Artes. Três lugares que me envergonho em dizer que ainda não fui: o estádio do Morumbi, o topo do Edifício Martinelli e o Templo de Salomão. Três que não fui, quero ir um dia (na vida), mas não me envergonho: o DOM, o bar do Astor, uma dessas salas IMAX.

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Não tem jeito, na segunda palavra sempre entrego minha origem. O “DIa/tarDI/noiTI” não deixa dúvidas: eis um nordestino. Logo ficam todos piabando para me declarar sua baianidade. “Cocos, na fronteira com Minas, conhece?”, afirma a bancária, “você vai se lembrar de Cocos em Grande Sertão: Veredas.” O cabeleireiro é de Itabuna e adora Lençois, o churrasqueiro não quer voltar nunca mais pra Euclides da Cunha, o colega de curso cresceu com amigos meus em Morro do Chapéu, o estranho saiu de Ruy Barbosa em 1963 e nunca ouviu falar de Luiz Eduardo Magalhães. Outro estranho gosta de pescar quando vai pra lá. E tome-lhe Quinjingues, Coités e Jequiriçás que todos acham que conheço, uma vez que todos conhecem Irecê. Aqui é a cidade mais populosa de meu estado natal: todo mundo é baiano, menos o último uber, que era nascido e crescido em Jaçanã.

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Existe sim amor, existe amor pra caralho em SP. Mas… né?

 

O vazio, o Satanás, o esprit d’escalier

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Publiquei umas coisas nas últimas semanas, mas andei ocupado demais pra divulgar por aqui. A revista Barril, de Salvador, republicou o texto mais legal que já escrevi neste blog, o ensaio A declarar nada, sobre a linguagem empolada, os textos vazios, o que caracteriza os discursos que, por excesso, acabam por não dizerem muita coisa. Antes, já saiu lá O direito de interpretar Hamlet, em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural, e ano passado saiu A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; sempre tem muita coisa foda lá.

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Pouco depois, o brasiliense Danilão, o cara mais legal do Facebook, me convidou para escrever na lindíssima Revista Seca. Mandei uma série de notas estranhas com as quais estava trabalhando na época, para um curso de escrita com Paloma Vidal. Em Plurais, mudanças, objetos essenciais, falo sobre a primeira pessoal do plural num ensaio de Virginia Woolf, apresento minha versão do Satanás e discorro sobre minhas mudanças e os objetos realmente essenciais.

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Por fim, semana passada saiu um ensaio que fiz para o Blog do IMS, Declínio e queda do esprit d’escalier, o texto que me deu mais trabalho pra escrever este ano, e também meu favorito. Entre um monte de coisas, cito um ex-presidente, parodio uma hashtag famosa e evoco Laranja Mecânica ao discorrer sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato. Quem quiser, pode também conferir o primeiro texto que publiquei lá, há alguns meses, Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

Longa jornada dentro da noite

Apesar de no meio da semana o frio repentino ter invadido as moradias brasileiras pelas janelas e noticiários, suave era a noite de sexta em que o escritor mato-grossense Joca Reiners Terron, de 49 anos, anunciou os poetas que se apresentariam: Angélica Freitas, Fabiano Calixto, ele próprio, Júlia de Carvalho Hansen, Leda Cartum e Nuno Ramos. “É chegado o tempo dos poetas menores”, emendou em seguida. “A fama de vocês nunca vai ultrapassar o círculo familiar, ou talvez chegue a um ou dois amigos bacanas que se reuniram depois da janta ao redor de uma garrafa de vinho tinto.”

Cerca de quarenta pessoas escutavam a transcriação feita por ele a partir de um texto do sérvio Charles Simic. Sendo alto, troncudo, barbudo e careca, seu capote escuro contribuía para que se parecesse com um espião germânico. “Quando você lê um poema, o que importa não é entendê-lo”, continuou, agora com um parágrafo do catalão Jaime Gil de Biedma, também recriado por ele. A luz era baixa. O minúsculo palco era adornado por lâmpadas vermelhas e amarelas enfileiradas como num enfeite de natal. “O que importa é que se goste. Se você gostar, vai entender cada coisa que haja pra se entender nele. Em um bom poema não é possível se distinguir entre emoção e inteligência.”

O Estúdio Fita Crepe é uma apertada casa de música experimental que fica no primeiro andar de um prédio na Consolação, em São Paulo – um cubo de madeira feito na unha pelo dono, seguindo uma estrutura de isolamento acústico chamada “box in the box”. “Sarau não, pelo amor de deus”, reclamou, “o que fazemos é o oposto de sarau”. Era a quinta edição do Zapoeta, evento do qual ele é um dos curadores e mentores intelectuais. “Surgiu do zap-zap, quer dizer, do WhatsApp”, brincou. “Comecei a mandar poemas inéditos para um grupo de amigos através do aplicativo. Eu colocava um fundo sonoro e falava os poemas diretamente no celular”. Após sua breve aparição, Terron acompanhou os outros poetas da porta de entrada, como um leão de chácara que controla o fluxo de uma boate. “Daí minhas amigas Juliana Vettore e Joana Reiss resolveram ampliar o grupo, convidar outros poetas, e criaram o evento.”

Terron tem participação ativa na vida literária paulistana. Dá palestras, ministra cursos, faz performances e, boêmio, toma umas com literatos de toda estirpe, de aspirantes malditos a veteranos premiados. A disposição para dialogar com novos escritores talvez seja herança do tempo em que ele tinha a Ciência do Acidente, editora independente que durou de 1998 a 2004. “Prefiro conviver com meus personagens que suportar a realidade”, contou. Além dele próprio, editou vários do que atualmente são figuras carimbadas no mundo literário nacional, como Glauco Mattoso, Ronaldo Bressane e Marçal Aquino. Em 2007, passou um mês no Egito, como parte do projeto Amores Expressos. De suas noites árabes saiu Do fundo do poço se vê a lua, seu primeiro romance pela Companhia das Letras, casa em que permanece. “Escrever todos os dias é um plano de fuga e ao mesmo tempo uma desculpa que serve para escapar das obrigações que a realidade impõe.”

ndn jocaO ano de 2017 lhe tem sido especial, pois finalmente foi publicado Noite Dentro da Noite – Uma Autobiografia, sua obra mais ambiciosa. Nele é narrada a movediça história de um menino de onze anos que perde a memória após bater a cabeça numa brincadeira de pique-esconde, no dia em que nevou numa cidadezinha paranaense chamada Medianeira. A partir daí inicia-se a labiríntica investigação de sua existência, semelhante à do Rei Édipo, em que são costuradas histórias aparentemente desconexas. Guerrilheiros do Araguaia, cientistas nazistas, índios com poderes mágicos, estudantes psicopatas e uma planta-monstro chamada pyhareryepypepyhare fazem companhia a personagens baseados em pessoas reais, como Hilda Hilst, Curt Meyer-Clason, Elisabeth Föster-Nietzsche, irmã do filósofo famoso, e até mesmo um sindicalista que concorreu à presidência em 1989 – mencionado apenas por epítetos como “o metalúrgico comunista”.

“O processo de escrita desse romance, que se iniciou em 2007, envolveu centenas de leituras e outras experiências que esqueci por completo ao encerrar o trabalho”, afirmou. “Preenchi três cadernos de cem páginas com anotações, esquemas, esboços, que em grande parte não foram usados para nada. Apaguei cerca de trinta mil palavras da versão final, às quais provavelmente nunca voltarei.” De acordo com ele, o subtítulo “uma autobiografia” foi a última coisa a ser inserida no livro. Logo nas primeiras páginas descobre-se ser isso um artifício como o da Autobiografia de Alice B. Toklas, romance que poderia ser classificado como não ficção, não tivesse na verdade sido escrito por Gertrude Stein. No caso de Terron, a história do menino sem nome é contada segunda pessoa, principalmente por Curt Meyer-Clason, que detém informações detalhadas até mesmo sobre seus medos mais íntimos.

Conforme se avança, fica mais complicado. Conhecemos a suspeita família do protagonista (chamado apenas “você”) que viaja de Medianeira até Curva de Rio Sujo, cidade imaginária na fronteira do Mato Grosso com o Paraguai, que já batizou um volume de contos de Terron (este livro serve de base para o filme Não devore meu coração, dirigido por Felipe Bragança, previsto para estrear em novembro). Seus tios, como o autor, têm por sobrenome Reiners; sua suposta mãe é conhecida como “a rata”. Suas histórias também são contadas em segunda pessoa: não raro Curt Meyer-Clason conta ao menino o que a rata contara numa gravação, que, por sua vez, era algo que Karl Reiners havia contado pra ela décadas antes. Além das vozes, nessa viagem ao fim da noite os episódios se misturam: lugares (Ilha Grande, Bernburg, Curva de Rio Sujo, Medianeira, Casa do Sol) e épocas (1989, 1975, 1964, 1942) podem acontecer numa mesma página, um mise en abyme, como dois espelhos que se encaram – a noite dentro da noite.

“O livro tem muitas chaves de leitura” comentou o autor. “Pelas resenhas e ensaios mais criativos que gerou, ele parece exigir um esforço interpretativo, o que é bastante satisfatório, num tempo em que tudo passa muito fugazmente.” E, apesar da narrativa nebulosa e maleável, as descrições de ambientes e ações são realizadas em prosa palpável e objetiva, especialmente nas cenas violentas – um espancamento num pântano, uma explosão num banheiro escolar, uma perseguição numa ilha inóspita, um ataque terrorista numa grande cidade. “Enquanto escrevo eu me torno um especialista naqueles assuntos correlatos e marginais que alimentam a escrita. Depois que termino, mal me recordo do que se tratavam”, completou.

Quando chegou sua vez, Terron não usava mais o capote. Declamou um poema de sua autoria chamado “O sonâmbulo canta seus sonhos no topo do edifício em chamas”, parte de um livro inédito. A fala era acompanhada pelas distorções de seu amigo Mário Cappi, guitarrista da banda de jazz experimental Hurtmold. “Quem sabe/ os sonhos não sejam a vigília e tudo esteja ao contrário? Eu estou vivo/ e vocês estão mortos, mas ninguém se importa”, recitou com melancolia. Apesar de ter vários projetos de livro em andamento, Terron não sabe a qual deles se dedicará nos próximos anos. Enquanto o público esvaziava a salinha apertada, ele conversava com os poetas e tomava uma cerveja. Não estava tarde. A noite, lá fora, ainda escondia outra noite dentro de si.

Contradições Cotidianas (III)

Outras contradições cotidianas aqui. Seus princípios aqui.

Olho por olho, post por post, logro por logro. A existência desse “debate” sequer faz sentido, mas se mesmo após uma argumentação sólida e fundamentada seu camarada ainda insistir que o nazismo foi de esquerda, a única réplica que ele merece é que o stalinismo foi de direita.

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Onipresente é o mal, o mal não escolhe lado, o engenho do mal nunca para, o mal está em cada um. Há quem troque o mal por deus. Há quem o substitua pelo pensamento. Em ambos os modos, é muito perigoso reduzir o mundo a única linha reta. O mal é democrático. O mal não tem ideologia.

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A cana está pros infortúnios do boêmio como Deus para os sucessos do evangélico. Coisas ruins acontecem com todos, mas basta o sujeito esquecer as chaves na casa de alguém: “bêbado?” O cachaceiro torce o pé num paralelo irregular e lá vem a ladainha: “já tá virando alcoolismo!” Arruma uma inflamação na garganta e tem que explicar que tinha uns quinze dias que não tomava uma: “deve ter sido a abstinência então.” Seu conhecido, em outra cidade, é assaltado: “mas também queria o que, andando pra cima e pra baixo com um pé de cana daqueles?” Sofre um acidente de trem e comentam no funeral: “Era só uma questão de tempo… Do jeito que esse sacana bebia, se não fosse de acidente seria de cirrose.”

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Uma lógica rasteira: pegue qualquer coisa que seu inimigo tenha em comum com alguém abominável, notório por isso e nada mais. Coloque ambos numa tabela e enumere essas coisas em comum. Seu inimigo, por associação, será interpretado como abominável, mesmo que essas coisas em comum não tenham qualquer relação com a abominação em si.

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Das obras de arte chatas, nenhuma pior que as performáticas. Você pode fechar o livro ou passar direto pela escultura sem graça sempre que lhe der vontade; você pode ignorar o link, pausar o vídeo ou sair da sala de cinema. Mas a bailarina enrolada em fita crepe tem seus olhos de peixe morto sobre você; o ator no papel de estátua na peça onde não nada acontece está consciente de todos os que se levantam, seja para aplaudir ou para ir embora; o instrumentista emburrado te joga uma maldição enquanto você cochila na cadeira acolchoada. Escolha bem seu espetáculo antes de sair de casa. Você não vai querer arrumar problemas com essa gente.

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Majin Boo é uma poderosa criança crescida, rechonchuda e rosada; Trump também é uma poderosa criança crescida, rechonchuda e rosada; Majin Boo gargalha enquanto devora pessoas, logo, Trump também devora pessoas. Ok, ok, estou pior que Kataguiri, falando de desenhos animados… usemos um exemplo mais realista. Os inquisidores católicos distorciam informações para disseminar o medo e a discórdia, acusar seus adversários, e ganhar poder; o MBL distorce informações para disseminar o medo e a discórdia, acusar seus adversários, e ganhar poder. Os inquisidores torturavam e queimavam pessoas, logo… O MBL, até onde sei, não. Mas se fossemos seguir a lógica argumentativa que eles próprios usam, é óbvio que sim, dãa. Matemática elementar, diriam.

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Afirmo não ter mais disposição pra discutir nada (ninguém tem mais). Aí recebo o comentário: “temo ter de que pagar por nossa preguiça”. Não tema. Pagaremos por nossa preguiça, mas se nos esforçarmos pagaremos do mesmo jeito (e mais a taxa extra que pagaremos com nossa disposição desperdiçada).