O Gado de Pancada

São tempos difíceis, meus caros, mas a quarentena para evitar o contágio do coronavírus nunca foi motivo para negligenciarmos outros aspectos de nossa saúde. O risco mais grave e imediato não elimina os ricos menores: precisamos cuidar também de nossa saúde mental. A letargia é nociva e a longo prazo pode ser irreversível. Como qualquer músculo dos braços ou das pernas, o cérebro atrofia com a falta de exercícios rotineiros. Obviamente, você pode aproveitar a quarentena para tirar do papel projetos intelectuais ambiciosos, rever Six Feet Under, encarar O Paraíso Perdido, terminar de escrever aquele velho livro de contos policiais, aprender latim com Frederico Lourenço, ou apenas desfrutar de todo o entretenimento gratuito que a internet nos oferece, sem metafísica, sem mais compromissos com os meses que se sucederão. De minha parte, nesta quarentena abri os olhos para a importância do gado de pancada.

Sabemos que muitas vezes o gado é alguém cuja convivência, não fosse pela doença da polarização, seria aprazível, até mesmo desejável – e sabemos disso por termos convivido com essas pessoas antes da generalizada seca de inteligência que agora nos assola. O gado do convívio não nos deseja o mal pessoal, porém sua obstinação e ignorância nos causa mal coletivo, à distância, a longo prazo. Durante muito tempo tentamos discutir a sério com essas pessoas, mas não existe resiliência que supere a burrice arrogante, a teimosia. Fatos e argumentos lógicos de nada servem. Essas pessoas merecem apenas nosso desprezo.

O gado de pancada precisa ser alguém com quem não nos importamos; ao menos alguém que não importamos em humilhar gratuitamente. L’Art pour l’art: bater motivado apenas pelo nobre exercício de bater. Toda essa tensão demanda um destinatário, não é mesmo? Mesmo assim, não corra riscos desnecessários: escolha alguém que não irá até sua casa lhe acertar uma bifa no pé do ouvido, e consequentemente passar o coronavírus não apenas a você, mas também à sua família e à comunidade ao redor. É preciso o mínimo de consciência cívica. Deixemos a porradaria para depois da crise sanitária.

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O gado de pancada ideal, por sua vez, seria alguém em que nos permitiríamos o luxo de despejar ofensas gratuitas e baixas sem qualquer compadecimento. Se você sente receios em chamar alguém de quadrúpede, imbecil, jumento, palhaço, analfabeto, idiota, esgoto, lixo, pilantra, escória, desgraçado, escumalha, canalha, hipócrita, mongoloide, esse não é um gado de pancada ideal, ou talvez isso não seja para você, acontece. Mas saiba que o gado brasileiro poderia figurar entre aqueles animais de Baudelaire, “latindo, berrando, uivando, rastejando na jaula de nossos vícios”, porém enquanto Baudelaire lhes dedica o fel, o gado de pancada é tão patético que é digno somente de nosso escárnio. Não sinta pena; o gado de pancada tem a cabeça dura, capaz de suportar umas boas marretadas de vez em quando. Como eu disse há um ano, esculhambar com esses quadrúpedes não apenas é aceitável, como também nossa obrigação cívica.

São ricas as maneiras de se insultar um gado de pancada. Algumas são variações das próprias respostas que eles usam. Assim como eles respondiam “mimimi” para qualquer argumentação discordante, por elaborada que fosse, podemos dizer “mumumu” sempre que abrirem a boca. Se diziam “chola mais”, podemos retrucar com “muge mais”. Quando afirmam que não têm bandido de estimação, é porque hoje adotaram um jumento de estimação – um jumento decidido a montar neles todos os dias.

Seja multimídia: mande memes, figurinhas, fotomontagens, charges, áudios de berrantes, vídeos de boiadas no Mato Grosso. Tudo é válido, inclusive chamá-los de comunistas. Depois de abatidos, a carne deles sempre será vermelha. A depender da situação, você pode até mesmo apelar para a escatologia, ao modo de Zé de Abreu. O segredo é jamais prestar atenção no que eles vomitarem de volta.

Caso se sinta na necessidade de um insulto mais elaborado, aviso de antemão que eles não causarão tanto efeito; a boiada, sabemos, é composta basicamente de iletrados. Mas em épocas de quarentena, as ofensas elaboradas podem ser divertidíssimas contra os que arrogam intelectualidade, ou para compartilhar entre os amigos de resistência. Após uma tarde de redondilhas rimadas que esculachavam com o bozo, José Francisco Botelho me instigou a escrever uns versos de escárnio:

Quando o jumento abre a boca
derrama chuvas de bosta
mas a boiada acha pouco
tomar estrume nos cornos
ficar com cheiro de fossa
e se debanda em estouro
soltando mugidos mornos
levando o burro nas costas
com destino ao matadouro
como se fossem lanceiros
ao derradeiro combate.
Mal sabem que seu papel
nessa batalha vencida
não é sangrar no ataque
e sim virarem comida
pros carcarás do quartel
que já amolam peixeiras
facões, espetos, cutelos
e se preparam pro abate
de tanta carne vermelha.

Confesso que tem pouquíssimo apelo em meio ao gado de pancada, que jamais leria tal volume de texto, mas saí bastante satisfeito, após uma semana insultando diariamente um animal do grupo de minha família. Não abuse dos insultos com um único gado de pancada, ou o prazer do exercício se diluirá. Assim como algumas pessoas mantêm uma lista de contatinhos, mantenho um curral com gados de pancada. Isso nunca se fez tão necessário. Adote um gado de pancada, compartilhe-o com seus amigos. E nunca se esqueça, em hipótese alguma: jamais dê importância ao que o gado de pancada está mugindo.

Este texto dialoga diretamente com dois textos que escrevi antes, Conge ou conje? e A Diversidade do Insulto.

Revistas: Serrote 34 + Barril 21

Semana passada saiu uma tradução minha do divertidíssimo ensaio “Uma apologia dos ociosos”, de Robert Louis Stevenson, na edição 34 da revista Serrote, minha publicação favorita. Vale a pena.

Após uma pausa de dois anos, saiu também a edição 21 da revista Barril, na qual sou editor de literatura, e onde já publiquei alguns ensaios e traduções. Tudo vale a pena.

NOTAS INSENSÍVEIS SOBRE O CORONAVÍRUS

Já é certo que vou pegar o coronavírus. Horas antes de entrar no ônibus para SP, minha irmã falou para eu não vir e respondi com chacota. Minha irmã é Cassandra de Troia; tudo o que ela fala é recebido com chacota e depois acontece, portanto já está escrito que vou pegar o coronavírus.

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Por outro lado, se fizer sentido a preocupação excessiva com minha avó, pelo que leio no grupo de whatsapp da família, é porque Irecê já está nos lugares de risco, e se é pra pegar coronavírus de um jeito ou de outro, pelo menos aqui em SP vou resolvendo minhas coisas.

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Minha preocupação é não me deixarem entrar no RS em maio. Espero que até lá a quarentena não faça mais sentido (se por falta ou por excesso, vai depender da higiene de vocês).

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De acordo com os gráficos comparativos que compartilhei hoje cedo, a gente deveria estar mais preocupado com a tuberculose que com o coronavírus.

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De acordo com os gráficos comparativos que não compartilhei hoje cedo, estou mais preocupado com o dólar a cinco pilas que com o coronavírus.

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Antes da praga rogada por minha irmã, passei uns dias lendo sobre grandes endemias, epidemias, pandemias da História, e pra mim o coronavírus é tipo um Paulo Henrique Ganso das doenças: muita expectativa, pouco resultado.

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Claro, são milhares de mortos. Mas são milhares de mortos na China. Falemos a verdade, o mundo só ficou preocupado de verdade depois das centenas na Itália.

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Uma quadra de Quintana:

A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais…

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É a mesma lógica do ataque terrorista no Líbano na véspera do atentado na França.

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Ah, não se lembram do atentado em Beirute?

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Em abril meu compadre volta da Itália, após vários meses. Logo, não deixarei ele ver a afilhada.

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Escrevi sobre a competição de tragédias há uns anos, e o coronavírus é o Paulo Henrique Ganso das doenças.

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Em um mundo com muito menos pessoas, e menos preparo ainda, a Peste de Justiniano matava dez mil por dia.

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A Praga Antonina matou cinco milhões de pessoas.

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A Peste Negra matou vinte milhões em seis anos – um quarto da população europeia da época.

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Não entendo nada de medicina, então posso apenas especular que essas doenças não seriam tão fatais hoje em dia.

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Torço para o coronavírus não se alastrar na Índia.

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Há um século, no recorte de apenas 18 meses, a Gripe Espanhola matou entre 50 e 100 milhões de pessoas no mundo inteiro, mas principalmente na Índia.

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A Gripe Espanhola matou um presidente brasileiro.

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Na primeira gestão desse presidente, fizeram uma revolta porque ele tornou obrigatória a vacina contra a varíola.

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Hoje tem gente que não acredita em vacina.

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O atual presidente nega dados científicos.

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Muita gente acredita no atual presidente.

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Hoje tem gente que faz “revolta de apoio”.

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Idosos estão no grupo de risco do coronavírus.

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O atual presidente brasileiro passará por uma nova cirurgia.

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Não se trata de torcida para que o atual presidente pegue o coronavírus.

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Minha insensibilidade tem limites.

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Trata-se de uma sugestão.

Antologia Macabra

 

Traduzi este lindo volume de contos de horror em homenagem a Stephen King, editado por Hans-Åke Lilja, que sai ainda este mês pela DarkSide Books. Destaco um conto experimental do próprio King, com fluxo de consciência e intervenções metalinguísticas e reflexões críticas sobre o horror e tudo o que temos direito; além de um divertidíssimo conto do sueco Jon Ajvide Linqvist, autor de Deixe ela entrar, sobre guris que jogam o RPG baseado em The Call of Cthulhu, na pegada de Stranger Things. Também há contos formidáveis de mestres do horror e weird fiction como Clive Barker, Brian Keene, Ramsey Campbell, entre outros – uma beleza. Na página da editora há mais informações. Eles também publicaram uma entrevista com Lilja. O livro é ilustrado pelo mestre Odilon Redon.

 

Cotidianas (III)

Para não se perder nesse buraco negro do insight que é o Facebook, volta e meia reúno aqui as Contradições Cotidianas que posto lá. (Procurem as outras: a I, a II e a III). Ano passado, dado o contexto, rebatizei a série por “Cotidianas”.

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Leftsplaining: explicação longa para qualquer babaquice dita pelos fascistas. Bolsonaro fala que a Terra tem a forma de arminha e lá vem o textão com evidências científicas do contrário. Eduardo viu no YouTube que depois da guerra Hitler fugiu para o Brasil, deixou a barba crescer, e passou a se chamar Lula, e lá vem o vídeo em que um renomado historiador alemão explica o que realmente aconteceu. Carluxo diz que comer cocô é bom e voilà: uma sequência de depoimentos de chefs e nutricionistas nos explicam que é ruim. A asneira é uma tática dos parvos e perversos para colonizar as mentes que eles não ludibriaram. Só precisam de um minuto para roubar nossa atenção, enquanto precisamos de muito tempo para argumentar qualquer coisa decentemente. Por isso tenho um método infalível para lidar com as idiotices do clã: considero ABSOLUTAMENTE TUDO o que eles disserem mentira, besteira, escroto, ou ridículo. Se porventura ficar em dúvida, é porque não li direito, pois com certeza será mentira, besteira, escroto ou ridículo. Nunca falhou. Só não preciso de um textão que me explique como ou por quê…

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Ridendo castigat Moro.

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Há um ano publiquei um texto chamado “A diversidade do insulto”, e para discorrer sobre a escatologia usei como exemplo o outro Moro, Tomás Moro (Morus, More) soltando os demônios pra cima de Lutero (nem cito aqui – é barra pesada). Aí esta semana vem nosso Moro, o melindroso Marreco de Curitiba, me prova que até no papel de escroque é bem chinfrim. Imagine você falando mal de alguém numa conversa privada, e que esse alguém seja o MBL – Moro podia se referir aos “arrombados do MBL”, àquele “bando de cuzão do MBL”, “renca de escroto do caralho do MBL”, mas não, e AINDA PEDIU DESCULPAS por chamá-los de –

“tontos”.

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Recapitulando: Cunha “combatendo a corrupção”, “terraplanistas em todo o globo”, generais “comunistas”, anarco-capitalistas; e agora o gado questiona a legalidade dos métodos dos jornalistas que divulgaram os MÉTODOS ILEGAIS da corja.

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A balbúrdia comendo solta no #14J e eu só imaginando aquela alcateia de conspiradores, viciados em celular como qualquer um de nós, se coçando para combinar umas maracutaias, porém se cagando de medo de conversar pelas redes sociais onde tanto chafurdaram nos últimos anos.

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Nossos números são ridículos. O que um deputado gasta mensalmente com sobremesa dá pra bancar o projeto de um escritor ambicioso; as gorjetas que estudantes e cientistas ganham são tão irrisórias quanto o número de estudantes e cientistas que ganham algo – um peteleco na economia do país, mas toda a diferença para eles (nós). Diante do festim dos responsáveis, não há como aceitar que não há dinheiro; muito menos que esse dinheiro será remanejado para prioridades, porque EDUCAÇÃO E CIÊNCIA SÃO PRIORIDADES. Eles querem justificar de tudo quanto é jeito, mas sabemos que os cortes são apenas uma etapa do projeto fascista: a curto prazo, acabar com a cultura, a educação, a ciência; a longo prazo, acabar com tudo isso aqui. Estão cumprindo o que prometeram.

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Sabe quando você está levando umas cervas geladas pra casa de alguém e tira uma da sacola pra ir bebendo no caminho? Por isso o número quebrado – 39. [Ma in Spagna son già mille e tre.]

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Witzel, JB, Trump são caricaturas daqueles vilões ressentidos e manipuladores contra os quais crescemos acostumados a torcer em filmes, gibis, desenhos animados, e que lá pelo final da adolescência, no auge da arrogância intelectual por termos lido Salinger, Watchmen e visto os primeiros Kubricks, aprendemos a rechaçar por conta de seu maniqueísmo, porque “na vida real as pessoas têm muitas nuances”. Parece que o jogo virou para os roteiristas da Disney e do Capitão Planeta, não é mesmo?

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Esse Ministro do Desmatamento é a cara do advogado do Rei do Crime.

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Alguém podia fazer uma página tipo “A fantástica fábrica de cortinas de fumaça” só pra mostrar o que cada fala bizarra do Bozo e sua trupe visa ocultar. Nela haveria postagens como “A esdrúxula acusação a Leo di Caprio faz a gente esquecer que Carluxo é suspeito de envolvimento na morte de Marielle” ou “O comentário aleatório sobre os roqueiros é para desconcentrar a raiva que sentimos dos PMs”. Garanto que eles têm um catálogo de declarações bizarras para soltarem a cada nova tragédia ou escândalo (o que acontece ao menos duas vezes por semana). “A fantástica fábrica de cortinas de fumaça” – fica aí a ideia.

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Minha suspensão da descrença me faz acreditar de boas em Demogorgon e otherside e Eleven, mas quem já traduziu qualquer coisa sabe que forçaram a barra com aquela menina vertendo um ÁUDIO DO RUSSO sem saber nada do idioma.

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Vendo esse clipe de Baco Exu do Blues me vem uma listona de obras de arte excelentes produzidas no país nos últimos tempos, e sou impelido a acreditar (uma crença cega, talvez) de que apenas a beleza salvará o Brasil.

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A morte dos monstros não é nada silenciosa [se quiser eu conto como foi a de Mussolini].

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Alguém me diz se faz sentido um negro, uma mulher, um gay sentir medo de sair na rua, e um nazista achar de boas esfregar sua suástica na cara de todo mundo? Sabemos de antemão que nossa polícia necrófila não fará nada com eles. Expor por expor não adianta, pois é exatamente o que eles querem. O correto é chegar na voadora, dar murro na cara, cadeirada nas costas, chute nas costelas, e só depois disso expor esses caras. Expor o inchaço, expor a suástica melada de sangue. Bater em nazista não se configura violência. Os nazistas precisam sentir medo.

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Não dá pra relativizar a destruição. Quando mataram Marielle, vi muita gente acusando a esquerda de politizar a morte dela, vejam bem, o assassinato de uma POLÍTICA. Acabou que meses depois foram os fascistas que politizaram (ainda mais) o crime, ao quebrar a placa em sua homenagem. Politizaram, mas em favor dos criminosos (eles próprios). Agora estão dizendo a mesma coisa da morte de Ágatha – resultado da política do mesmo homem que quebrou a placa de Marielle, espécie de Wilson Fisk que atira a esmo de helicópteros enquanto dança ao som dos fuzis. Estão acusando a esquerda de politizar o crime, mas na verdade eles que estão tentando despolitizá-lo. Se Ágatha fosse meia década mais velha, tentariam distorcer ou justificar a morte; como não têm o que dizer sobre uma criança fuzilada por eles, pintam o assassinato como uma eventualidade resultante do intenso combate ao tráfico. Mas é tudo muito óbvio: as “eventualidades” têm lugar, cor e condição financeira, as “eventualidades” não ocorrem eventualmente; Witzel sempre foi um assassino e quem o colocou lá tem sua parcela de culpa, sem mais.

Destruição é destruição, não dá pra relativizar isso. Se alguém tenta justificar, distorcer ou mostrar um hipotético lado positivo de assassinatos de inocentes, desaparecimentos, tortura, incêndios de museus e florestas, desabamentos, o aparelhamento ou censura de nossa produção intelectual, de toda essa destruição sistemática, já faz muito tempo que essa pessoa deixou de ser humana. Quem viu Bacurau já sabe o que fazer.

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Há muita gente relacionando os movimentos no Chile com o filme do Coringa, e concordo. Pra mim é uma simbiose: a realidade influencia a ficção, que, por sua vez, influencia a realidade. Por sinal, os pescadores removendo o óleo da praia na tora me lembra muito Bacurau. Só o povo poderá salvar o povo.

O Médico e o Monstro e Outros Experimentos

 

Já está quase pra sair pela DarkSide Books O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, volume de contos e novelas de Robert Louis Stevenson em que fiz a tradução, introdução e as notas. Completam o livro, além da história do título, outras sete narrativas de horror, mistério e fantasia, algumas das quais inéditas no Brasil (até onde sei), e um ensaio de Marcel Schwob. Além disso, o livro tem ilustrações absurdas de Alcimar Frazão, que é um monstro. Informações de compra ou sobre o livro, no site da editora.

Vejam também este booktrailer, que lindo:

https://www.darksidebooks.com.br/o-medico-e-o-monstro-e-outros-experimentos-drk-x/p

 

Dois Ensaios – Karel Čapek

Meu grande vício este ano foi a obra de Karel Čapek. Li Histórias Apócrifas há três anos, e consegui convencer muita gente a ir atrás do livro apenas mencionando um conto genial sobre um padeiro que aprecia as ideias de Jesus Cristo, mas o odeia por ter acabado com seu comércio. Foi o primeiro de uma sequência de obras tchecas, húngaras, polonesas, ucranianas que li na época. Desenvolvi um preconceito com obras desses lugares: acho que todas serão geniais. Minha teoria é que um livro meia-boca escrito em inglês ou francês é facilmente traduzível, pronunciável, vendável – é bem mais fácil (menos difícil, vá) se arriscar a publicá-lo em outro país; mas se alguém correu atrás de um tradutor, um preparador do tcheco, e depois ainda de divulgar esses caras de nomes complicados, uma trabalheira, é porque esses livros devem compensar o esforço por sua qualidade. Minha experiência apenas reforça esse preconceito.

Então este ano finalmente me aventurei a ler A Guerra das Salamandras, nada menos que uma distopia polifônica com um humor à Sterne. Muito antes de Orwell ou de O Planeta dos Macacos, Čapek imaginou as questões sociais, políticas, econômicas, biológicas, filosóficas, teológicas e até linguísticas que viriam à tona com o surgimento de salamandras superdesenvolvidas que suplantassem as atividades humanas. Além do enredo sensacional, a narrativa é contada por meio de artigos científicos, recortes de jornal, relatórios de reuniões, manifestos, ensaios filosóficos, fluxos de consciência, metalinguagem. Muitos a leem como metáfora para a ascensão do nazismo, e faz sentido. Durante vários anos Čapek foi cotado para receber um Nobel, mas não ganhou devido à influência dos nazistas na Academia Sueca. Ele foi um dos mais famosos antifascistas de sua época, e quando Hitler invadiu Praga, sua casa foi uma das primeiras a serem vasculhadas, porém àquela altura ele já havia morrido. Seu irmão Josef não teve a mesma sorte, e foi morto num campo de concentração.

Os irmãos Čapek também são famosos por terem inventado a palavra “robô”, derivadas de robota, trabalhos forçados, em tcheco. Diz a lenda que Josef é seu verdadeiro inventor, enquanto Karel foi o primeiro a registrá-la, na peça R.U.R., também traduzido por aqui como A Fábrica de Robôs. Li essa peça imediatamente após A Guerra das Salamandras, e fiquei igualmente empolgado. Na sequência li um volume americano, Toward the Radical Center, com três peças na íntegra, além de inúmeros contos, ensaios, textos biográficos – e minha sensação é que se Čapek não houvesse escrito em tcheco, uma língua pouco falada, ele seria muito mais celebrado. Basta pensar que outro grande escritor tcheco da época, Franz Kafka, escreveu em alemão e é reconhecido internacionalmente. Mas essa foi uma decisão deliberada; Čapek era poliglota, chegou a traduzir para o tcheco alguns poemas franceses, e junto com Jaroslav Hašek foi um dos primeiros escritores de expressão tcheca, abrindo caminho para outros grandes autores como Bohumil Hrabal e Milan Kundera.

Ele também inventou o conto de detetive existencialista – à maneira de Poe, Conan Doyle e Chesterton, porém muitas vezes sem a solução final, pois o que importava para ele eram os percursos da investigação. Apenas imaginem a destreza de um conto de detetive sem a resolução, mas que mesmo assim consiga ser empolgante até o final. Uma das peças do volume, traduzida como The Makropulos Street, fala sobre as implicações morais, sociais e filosóficas na vida de uma mulher imortal. Outra, Mother, por sua vez, é uma das mais tocantes obras declaradamente antifascistas de todos os tempos – impossível sair incólume da história da mãe que perde o marido e os filhos para a guerra, o fanatismo, os riscos voluntários, as provas de virilidade, os martírios da honra desmotivada, comuns entre os homens até hoje. Porém mesmo quando ele escreve sobre coisas que em si não me interessam nem um pouco, como jardinagem ou aspiradores de pó, Čapek me diz mais que muita gente falando sobre o amor, a guerra, a morte.

Depois disso, passei o resto do ano enchendo o saco das pessoas, tagarelando sobre Čapek em bares, restaurantes, pontos de ônibus, nas redes sociais. Um amigo fez um samba de brincadeira, apenas com o nome Čapek Čapek Čapek. Alguns editores se interessaram, mas esbarraram na dificuldade que seria arranjar um bom tradutor de tcheco, ainda que o fato de estar em domínio público facilitem os trâmites da publicação. Certa tarde, há algumas semanas, descobri que sairia uma nova tradução de R.U.R., feita a partir do inglês por uma amiga minha, e isso me instigou a também traduzir do inglês dois ensaios curtos presentes no Toward the Radical Center que provavelmente não sairiam aqui por tão cedo. Chamam-se, na tradução, “Boa Vontade” e “Elogio aos Desastrados”. Para tanto, reativei meu perfil no Issuu, que fiz em 2013 para publicar traduções de ensaios em domínio público, onde já postei Thomas de Quincey, Virginia Woolf, G. K. Chesterton, e desde então estava parado. Os ensaios de Čapek estão no link abaixo. Espero que apreciem a leitura.