Os Sem-Boca, a Bandeira da Síria

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, tanta ideia misturada, que às vezes me perco e me esqueço de divulgar aqui.

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Ilustração: Amine Barbuda

Finalmente saiu a nova edição da Revista Barril, da qual agora sou editor de literatura, além de continuar como colaborador. Nessa edição, publiquei a tradução de um conto atordoante do francês Marcel Schwob, Os Sem-Boca. Nem preciso dizer para conferir os outros textos da revista, que está linda. Caso queira conferir o que já publiquei lá antes, é só clicar neste link.

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Poucos dias depois, saiu meu último ensaio no Blog do IMS, A Bandeira da Síria em seu Perfil, Dessa vez escrevo sobre a guerra disfarçada do Brasil, e sobre como nossa resistência caótica não dará conta de freá-la se assim continuar. Confiram também os outros ensaios que publiquei lá.

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Oito maneiras possíveis de enfrentar o MBL (sem se estressar muito)

A política é o ópio do povo. E, apesar da aversão aos extremistas, sintetizados na figura de Bolsonaro, penso ser o MBL mais difícil de se combater, tamanho o convencimento de seu cinismo e hipocrisia. São “sem partido”, mas lançam candidatos. Enquanto Bolsonaro é escancarado, o MBL é aquele primo que nos pirraçava o dia inteiro, sempre na ausência dos adultos, até não aguentarmos mais e darmos um tapa nele, para então ele berrar para nossas mães que foi espancado. Talvez não sejam fascistas num sentido literal, mas, como bem afirmou Mark Bray: “Embora seja verdade que o epíteto “fascista” perde parte da força se aplicado de forma muito di­fusa, um elemento fundamental do antifascismo é promover a organização contra políticas fascistas e contra políticas fascistoides, em solidariedade a todos aqueles que sofrem e lutam. Questões con­ceituais deveriam influenciar nossas estratégias e táticas, não nossa solidariedade”.

01 – Entender a guerra

Saiba escolher “o que” e “como”. Na guerra não existe isso de se rebaixar ao nível do adversário, pois seguimos lógicas diferentes. Não queira discutir com eles e seus seguidores do modo com que você discute com os seus amigos. Eles não estão dispostos a ouvir seus argumentos, a ler suas fontes, sequer a abrir seus links. Por isso, seja claro, o mais sintético e elementar possível, e não perca muito tempo tentando desmentir toda e cada bobagem deles.

02 – A sala não é lugar de jogar lixo

Critique sem compartilhar. Sabe aquela máxima “falem mal, mas falem de mim”? Podia ser o lema dos caras. Ao compartilhar algo para criticar, muitas vezes você está divulgando algo para pessoas que de outro modo não a veriam. A depender, você ainda corre o risco de ser mal interpretado por quem lê o post original, mas não a sua legenda. A contagem de compartilhamentos é uma coisa rígida que ignora a sua intenção de discordar.

03 – Evitar os apaixonados

Mude de assunto. Sabe aquele seu amigo apaixonado? Por mais que, racionalmente, ele entenda que a pessoa não o deseja de volta, e todos de fora vejam a solução com clareza, ele não consegue resistir. Não o alimente. Você não pode fazer nada, além de evitar falar do assunto quando seu amigo o traz à tona.

04 – Textão é alimento e exercício, não arma

A arma deve atingir na hora. Use o textão para informar, estimular, difundir, em momentos oportunos, mas não para ganhar uma treta. O textão é particular, é uma experiência íntima. Imagine-se numa indaga de boteco, com várias pessoas; você pararia para ler? Nem nos julgamentos estão fazendo isso. Em casa, textão; na rua, máximas.

05 – Olho por olho, meme por meme

Olho por olho, meme por meme. Esses caras mentem, distorcem e simplificam tudo. Daí Gregório Duvivier vem com quinze minutos de fontes explícitas, o Casal Nerd vem com anos de estudos, e eles treplicam com “é mentira”, ou “é canalha”, ou “é petista”. Quando alguém disser que o nazismo era de esquerda, a única resposta digna é “Sério? Mas tudo bem, pois Churchill, que derrotou Hitler, também era”, e eles que se virem para provar o contrário.

06 – Não limpar a sujeira com mais sujeira

Não é porque Alexandre Frota é inimigo dos caras que ele é seu amigo. Por outro lado, não é porque você discorda de algumas políticas de Freixo, que ele é seu inimigo, ou amigo dos caras. Saber escolher também com quem lutar.

07 – Não falar mal de parentes na frente de estranhos

Seus companheiros têm defeitos: não os exponha. É aquela lógica do brasileiro que fala mal do Brasil o dia inteiro, mas quando aparece um argentino, aqui é o melhor lugar do mundo. Discussões públicas sobre incoerências internas fornecem material para esses sujeitos. Nessa hora eles ouvirão com bastante atenção, e farão questão de exagerar tudo o que puderem. Deixe os problemas internos para lugares privados.

08 – Lembrar desta foto

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Sempre escrevo contra essa tendência a politizar tudo, a bradar por qualquer coisa, do humor de meu avô a uma trupicada num paralelo mal colocado. Porém vejo gente aparentemente sensata afirmando que as pessoas estão politizando o assassinato de Marielle, veja bem, que estão politizando a execução de um POLÍTICO.
 
A comparação é desagradável, mas, para o bem ou para o mal, Marielle é Franz Ferdinand. É tempo de largarmos os melindres e verbalizarmos esta guerra o quanto antes. Não importa a sua posição, nem o que você defenda, nos próximos meses você verá coisas que preferirá esquecer. Você fará coisas que preferirá esquecer. E depois do tumulto, você fingirá que se esqueceu dessas coisas, e um dia de fato se esquecerá dessas coisas, porque assim sempre foi.
 
Mas agora, bem, agora não há tempo para pensar nisso; agora vemos que nunca houve diálogo, que a nossa Noite dos Cristais será mais cruel, e que resta pouco tempo pra nos prepararmos. Mas ainda há tempo.

Somos todos críticos

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Em meu último texto para o Blog do IMS, Somos todos críticos, eu catalogo algumas das diversas formas de feedback, do elogio de mãe ao insulto gratuito.

Antes, já havia publicado o ensaio Declínio e queda do esprit d’escalier, sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato, e Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, a desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

 

O azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina

Não gosto de funk, não suporto o “Despacito”, odeio pagode e sertanejo, mas conheço até bem isso tudo. Ao contrário de outros tipos de informação – como a palavra ou as imagens – que precisam do mínimo de atenção para serem captados, a música pode nos alcançar naturalmente, mesmo enquanto estamos de olhos fechados, sem pensar em nada, no fim de um cochilo fora de hora. Não que eu precise explicar, mas conheço as novidades do funk, do pagode e do sertanejo porque frequento uma academia e sou um boêmio eclético – mais fácil deixar de ir a um lugar por causa das pessoas que o frequentam que pelo tipo de música que toca nele, especialmente aqui no sertão da Bahia, um lugar surreal onde se ouve de tudo nos botecos, de jazz improvisado a thrash metal, mas em proporção desigual. Ah, vou falar logo a verdade: volta e meia me envolvo com garotas que amam tudo o que odeio. Mas a questão mesmo é que enquanto os textos e os memes hoje em dia circulam em bolhas de conteúdo, a música as estoura e acaba chegando aos ouvidos que mais as evitam. Mesmo que você goste apenas do pagodão, eventualmente escutará a “Habanera” num filme policial ou “Chop Suey” num vídeo de seu youtuber favorito.

Nenhum problema até então. Para isso existem as paredes e os fones de ouvido. E no geral isso me é benéfico, pois foi assim que descobri muitas músicas que adoro em gêneros que conheço muito pouco, como o samba, o rap, o hip hop. Mas a questão fica cabeluda quando transformam isso em imposição: pior, quando também a enfiam a política nela. O tempo corrói tudo, mas a política é mais rápida, barata e eficiente. A política corrói até a matemática. E o maior problema da polarização política é a homogeneização das pessoas. No meio dessa bagunça atual, acaba-se por supor que o cidadão de direita deve ser um branquelo rico, cristão, a favor das armas, leitor de Chesterton, contra o aborto e a maconha, e os direitos humanos, das mulheres, dos negros e de quem vai na parada gay, que tenha o cabelo curto e a barba bem-feita, que use ternos e cheire bem, jamais use vermelho, e que o esquerdista seja o oposto disso tudo.

Por causa da dissonância política, sujeitos como Rodrigo Constantino são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Chico Buarque. Por causa da dissonância política, sujeitos como Paulo Nogueira são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Lobão. Mas na verdade os extremistas são a mesma coisa. Uns fazem manifestação para impedir a exibição do documentário O Jardim das Aflições, mas acham um horror, um descalabro, uma ofensa aos direitos do cidadão, que os outros façam o mesmo para censurar a palestra de Judith Butler. Ambos são idiotas, no sentido mais intrínseco do termo, o daquele que age contra si mesmo acreditando atuar em favor próprio. Lutar pelo irrevogável direito de calar o próximo apenas atiça a curiosidade de quem não conhecia o objeto de seu desprezo. O filme é um sucesso, suponho que devido a um público de direita, mas por causa dos esquerdistas; muitos deles, afinal, só foram atrás de Butler após as tentativas de embargo dos direitistas.

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Mas eis que resolveram transformar em política a música comercial, e, de acordo com aqueles padrões de homogeneização, quem não gosta de funk é de direita, porém se você é mesmo de esquerda, deve não apenas se dispor a escutar, mas apreciar o funk em todos os seus aspectos. Aí começa o conflito, primeiro porque, bem, há muitos sujeitos de direita que adoram descer até o chão (como deve haver muito mais que nem sabem quem diabos é Chesterton); segundo porque, bem, pelo meu conhecimento dos funks, quase todos eles falam basicamente sobre armas e regiões genitais femininas, isso quando não misturam logo tudo e falam sobre bundas-granadas, ou alguma metáfora do tipo.

Aí, assim como muitos direitistas se incomodam em gostar de qualquer coisa que os esquerdistas defendem, fica difícil para um suposto intelectual feminista a favor dos direitos humanos defender as letras das músicas que os seus inimigos direitistas odeiam. Muitos deles caem numa hermenêutica ridícula para tentar explicar o valor de canções monossilábicas criadas unicamente com o propósito de entreter um público específico, já formado (e também gerar dinheiro, sucesso, likes). Repetindo, não há problema algum em criar, gostar, dançar, em suma, se divertir com a música comercial popular – meu problema é com quem tenta politizá-la com teses forçadas que tentam justificar seu valor intelectual e artístico, como se a música precisasse de uma validação acadêmica. Meu problema é com os ataques furiosos contra qualquer um que ouse questionar esses trabalhos. É a mesma “hermenêutica do assassino” de que falei em outro texto.

Mas pior ainda é quem tenta problematizá-la para que se adeque aos seus próprios valores e crenças. Dia desses li uma carta de uma jornalista a um funkeiro em que, após mencionar sua “poesia musicada”, ela propõe a alteração de um verso machista. A solução que ela oferece é mais sem sal que “Amor, I love you”. Apesar de alegar gostar de funk, o que ela propõe alterar é exatamente o que está em qualquer letra do gênero. A impressão deixada é a de alguém que afirma gostar de algo apenas para se integrar, ou em nome de uma ideia, mas não por apreciar de verdade. Nada que não encontramos às pencas na faculdade de letras e nas redes sociais. Nem precisamos checar a biografia da remetente e do destinatário para sabermos que têm origens opostas. Imaginem então como não enchem o saco de quem tem o leque de assuntos mais amplo. Concordo com Carol Bensimon, quando diz que seu compromisso é não cair nos discursos engajados, ao menos dentro de sua obra.

O resultado da politização e tentativa de justificativa acadêmica da música comercial popular é apenas um deslocamento aberrante, como um candidato a deputado que finge apreciar buchada de bode para ganhar uns votos, um ariano fantasiado de indiano para receber o cachê de uma propaganda, Antônio Prata fugindo da torcida de seu próprio time, Ronaldinho Gaúcho recebendo um prêmio da ABL, um autor de novelas da globo dar uma carteirada de intelectual-criador para desancar o político que detesta. Criticar o machismo numa letra de funk é reclamar do azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina. Por mais que alguns cantores tentem se meter, a música comercial não tem nada a ver com ideologia política. Eu não gosto de funk, mas nada tenho contra os funkeiros. Que eles toquem a sua ladainha à vontade: bebo minha cerveja na mesa enquanto eles, na pista, balançam as suas bundas em paz.

Lista de HQs para Paty

Volta e meia alguém me pede alguma lista. Nunca nego, nunca entrego. Faz mais de um ano, uma amiga me pediu uma de HQs – uma lista pessoal, não exatamente Os Fundamentais Que Todo Mundo Tem Que Conhecer – e coloquei aquelas que mal folheei a primeira vez, já pensei na releitura. Mandei pra ela uma listona seca, apenas título e autor, e só agora tomei coragem pra escrever umas duas linhas pra cada. Tudo publicado no Brasil: ao contrário de obras do cinema e da literatura, os quadrinhos brasileiros são vendidos aqui num bolo só, do mundo todo, de todo tipo, e são consumidos e apreciadas assim. A coisa mais saudável. Minha lista também é uma misturona doida, não tem ordem nenhuma.

 

 

Fun home – Alison Bechdel

Bechdel evoca autores como Joyce, Proust e Camus para recontar a história de sua criação numa casa de funerais, e da morte de seu pai, um misterioso professor de literatura. Apesar do texto denso, cheio de camadas, a narrativa é muito clara. Todo ano releio e percebo algo novo.

Lavagem – Shiko

“Gótico Sulista” sobre um casal que vive num mangue. A editora da Mino a usa como exemplo para explicar porque jamais pede patrocínios culturais. “Nada contra”, afirma Janaína de Luna, “mas não é todo mundo que quer seu nome associado a alguém que publica histórias sobre pessoas comidas por porcos ou coisa parecida.”

Laços – Vitor e Lu Caffaggi

Bem antes de Stranger Things, os irmãos Caffaggi se apropriaram de ícones temáticos dos anos 80 e fizeram a história mais legal da coleção de graphic novels adultas com os personagens da Turma da Mônica.

Diomedes – Lourenço Mutarelli

História em quatro partes sobre o desaparecimento de um mágico, protagonizado por um investigador tosco, gordão e bocó, porém insistente. Repleto de cenas e páginas geniais, minha favorita é uma perseguição com um trator, com “trilha” de Tom Zé.

 

 

Aqui – Richard McGuire

A história do mundo no canto de uma sala, vista de um único ângulo, em que épocas diversas se sobrepõem numa mesma página. Só lendo pra entender. Imagino “Aqui”, o volume impresso, como uma tradução palpável do “Aleph” de Borges.

Goela Negra – Antoine Ozanan (roteiro) e Lelis (arte)

Quadrinho brutal sobre a vida dos trabalhadores das minas de carvão na França anterior aos movimentos sociais. A arte é tão bonita que às vezes apenas fico olhando para as páginas como quem admira uma obra numa parede. Dá pra viver só de reler tudo da Mino.

Ordinário – Rafael Sica

Em suas tirinhas mudas experimentais Rafael Sica realiza uma contundente interpretação do desespero metropolitano e do delírio pós-moderno e do incessante conflito do eu contra o espaço, os eventos, os outros, o próprio eu.

Macanudo – Liniers

Já as tirinhas de Liniers seguem aquela linha agridoce de Mafalda e Calvin, ora melancólico, ora metafísico, poético às vezes, sempre sagaz.

 

 

Bando de dois – Danilo Beyruth

Rosa meets Leone. Dois cangaceiros sobreviventes de uma chacina decidem recuperar as cabeças de seus companheiros degolados. Preciso dizer mais?

Habibi – Craig Thompson

Épico sobre as transformações de duas crianças árabes que escapam da escravidão. Imagine a diligência para se desenhar um único arabesco de um tapete: Thompson demorou anos com centenas deles. Agora imagine um roteiro tecido com tanta ou mais minúcia.

Fracasso de público – Alex Robinson

Um quadrinista virgem, um pretendente a escritor, uma jornalista alcóolatra, um historiador tranquilo, um velho ranzinza explorado pelo mercado das HQs de Heróis. Acompanhamos lentamente, apreciando a evolução de cada personagem e, como em Ferrante ou Friends, acabamos por conhecer aquelas pessoas. Meus diálogos favoritos, junto com os de Ódio.

Estigmas – Claudio Piersanti (roteiro) e Lorenzo Mattotti (arte)

Um homem ordinário recebe por milagre as chagas de Cristo em suas mãos. Chega um momento em que parece que o livro vai estourar em nossa frente. A única HQ a me trazer o arrepio inexplicável daquela cena da explosão em Fonte da Vida ou da crise de Marcel em Sodoma e Gomorra.

 

 

Ódio – Peter Bagge

A hilária vida de um sujeito sem muitas perspectivas na Seattle dos anos 90. Diálogos surreais. Por durante vários anos também reli religiosamente. Há páginas das quais até hoje me basta um vislumbre para eu chorar de rir.

Três sombras – Cyril Pedrosa

Três seres aparecem numa fazenda pacata para levar o filho de um camponês, que faz de tudo para proteger seu filho. Fábula sobre a paternidade e a persistência. Desenho exuberante, páginas perfeitas.

O gato do rabino – Joann Sfar

O gato de um rabino argelino engole um papagaio e aprende a conversar. Não demora a falar umas verdades inconvenientes para os homens de Deus, a mentir, e a desejar fazer o Bar Mitzvah.

A pior banda do mundo – José Carlos Fernandes

Coletânea vertiginosa de histórias fantásticas curtas, à Borges e Calvino, que giram em torno duma banda de jazz que não consegue tocar nada. Filosófico, poético e erudito, tem a melhor galeria de personagens que já vi.

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Jimmy Corrigan – Chris Ware

Livro grande, lento, e triste sobre uma família. Tempos mortos, repetições, a distância, o tédio. Ware subverte a narrativa dos quadrinhos de modo ainda mais extremo que McGuire. Uso sempre em minhas aulas certa página circular que conta uma história de gerações de maneira brilhante.

 

 

Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

Provavelmente o quadrinho feito por brasileiros mais conhecido mundo afora, a série Daytripper é uma sobre Brás de Oliva Domingos, escritor de obituários, um brasileiro comum, que ama, come, sofre, viaja, grita, caminha, trabalha, envelhece, e morre, e morre, e morre, e morre…

Do inferno – Alan Moore (roteiro) e Eddie Campbell (arte)

Reconstituição minuciosa da história dos crimes de Whitechapel, em que se apresenta uma teoria para quem seria Jack, o estripador. Monumental e ambiciosa, Moore e Campbell dão uma de escritores do século XIX.

Corto Maltese – Hugo Pratt

A série de aventuras do marinheiro corso tem precisão matemática. Sempre chegamos ao único final possível. Numas das histórias, ele vem à Bahia e se envolve numa intriga com o cangaceiro Corisco. Um dos preto e brancos que mais me encantam.

Pílulas Azuis – Frederik Peeters

Bela memória de um homem que se apaixona por uma garota com AIDS. A Nemo anda lançando HQs fundamentais para compreendermos o outro, importantíssimas nestes tempos miseráveis. Não acredito que possa ser uma boa pessoa alguém que torça o nariz para qualquer HQ da Nemo.

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Cumbe – Marcelo D’Salete

Contos sobre a luta dos escravos no Brasil colonial. Os objetos e cenas cortadas pela metade de seus quadros são mosaicos de páginas perfeitas. D’Salete é um dos maiores narradores das HQs hoje, o que se comprova com Encruzilhada, passado na atualidade.

Outras listas:

Sobre a escrita

Os dez livros que TODOS devem ler

Vinte livros de ensaios imperdíveis

Off-10 – meus livros desconhecidos favoritos

Cosmópolis-província – outras impressões de SP

Em fevereiro cheguei em SP. Minhas primeiras impressões foram postadas aqui em março. Depois acrescentei mais algumas num texto ficcional. Talvez este possa ser lido como uma sequência.  

São Paulo é mesmo uma cidade cosmopolita. Sete horas da manhã de um domingo frio e acordo por causa do diabo de um galo.

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Gregório Duvivier: Na última coluna, falei mal do Rio e bem de São Paulo. Ofendi profundamente muitos paulistanos. Recebi uma enxurrada de e-mails: ‘Você fala assim porque não mora aqui. É fácil falar bem, quero ver se mudar pra cá`. Não se elogia São Paulo impunemente. Elogiar a cidade é trair o espírito paulistano. Parece que existe um acordo telepático: ‘Pessoal, vamos combinar que a gente odeia isso aqui? Ótimo.’ Em minha experiência limitada, vejo que isso se repete em quase todas as capitais brasileiras que conheço. A diferença é que enquanto um paulistano aceita tranquilamente que esculhambemos a sua cidade, vai um forasteiro falar mal de Salvador pra um soteropolitano pra tu ver o tamanho da chinelada!

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Ilustração: Peu Dourado

Jamais imaginei que ficaria chocado numa exposição de arte. Fui no MASP, e lá estava uma fila de obras cobertas por flanelas pretas. O CONTEÚDO DE ALGUMAS IMAGENS PODE SER IMPRÓPRIO PARA MENORES. Nem era assim tão hardcore. Só umas mulheres nuas, nada que meu filho de quatro anos nunca tivesse visto. Eis o cosmopolitismo de verdade: absorve até o provincianismo mais cafona.

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Sábado à noite, eu subindo a Rua Augusta bêbado e do nada uma mulher agarra meu pau e não quer soltar mais, me fazendo propostas libidinosas no ouvido. Apesar de me apertar como uma leiteira, tiro sua mão calmamente. “Obrigado, moça, mas não vou querer não.” Mal dou dois passos e ela, do meio da multidão, me grita que queria devolver meu celular. É por esse tipo de coisa que (1) sempre tento falar de boa com o povo e (2) nunca terei um iphone.

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Roteiro para uma primeira tirinha sobre os grevistas

BALADEIRO
(Deitando-se. Relógio de parede marca 21h30) Hoje não!

MILITANTE
(Fechando o laptop) Hoje não!

DEPUTADO
(Recusando um saco de dinheiro) Hoje não!

PLAYBOY
(Batendo ponto numa obra, de capacete, carregando uma marreta e uma marmita) Hoje sim!

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“Veja bem, eu não tive muita oportunidade, não estudei, vim da Bahia jovem, ralei muito, e graças a Deus, hoje meu filho pode fazer uma faculdade. Nada contra, ele pode fazer o que quiser, mas o problema é que ele vive caindo na conversinha dos amigos. Tu acredita que ele quer fazer direito, sendo que antes já cursou arquitetura e fisioterapia? Nem gosto de me meter, mas acho mesmo que ele deveria estudar era música.” Achei tão anti-intuitivo que ganhei meu dia.

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Os jornais anunciando que Temer e Aécio são uns canalhas me lembram aqueles cientistas que levam anos e gastam uma fortuna pra descobrir que café tira o sono, que correr faz a gente suar, ou que sexo faz bem.  A diferença é que enquanto os Sheldons anunciam suas notícias com entusiasmo, a mocinha do plantão da Globo segurava as lágrimas como um menino que deixou o sorvete cair, mas tem vergonha de chorar em público.

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uma-das-paredes-do-cinemaTrês lugares favoritos: o CCSP, a Tapera Taperá, a Caixa Belas Artes. Três lugares que me envergonho em dizer que ainda não fui: o estádio do Morumbi, o topo do Edifício Martinelli e o Templo de Salomão. Três que não fui, quero ir um dia (na vida), mas não me envergonho: o DOM, o bar do Astor, uma dessas salas IMAX.

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Não tem jeito, na segunda palavra sempre entrego minha origem. O “DIa/tarDI/noiTI” não deixa dúvidas: eis um nordestino. Logo ficam todos piabando para me declarar sua baianidade. “Cocos, na fronteira com Minas, conhece?”, afirma a bancária, “você vai se lembrar de Cocos em Grande Sertão: Veredas.” O cabeleireiro é de Itabuna e adora Lençois, o churrasqueiro não quer voltar nunca mais pra Euclides da Cunha, o colega de curso cresceu com amigos meus em Morro do Chapéu, o estranho saiu de Ruy Barbosa em 1963 e nunca ouviu falar de Luiz Eduardo Magalhães. Outro estranho gosta de pescar quando vai pra lá. E tome-lhe Quinjingues, Coités e Jequiriçás que todos acham que conheço, uma vez que todos conhecem Irecê. Aqui é a cidade mais populosa de meu estado natal: todo mundo é baiano, menos o último uber, que era nascido e crescido em Jaçanã.

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Existe sim amor, existe amor pra caralho em SP. Mas… né?