Meu “Kit Comunista”

Comecemos a “doutrinação” o quanto antes. A resistência por enquanto é pacífica, porém precisa ser severa, para que não chegue ao ponto de requerer armas. Precisamos ocupar todos os espaços, incansavelmente – não somente a Av. Paulista, o Eixo Monumental, a Barra, mas também as ruas de nossas cidades pequenas, as ruas de Nova York, Londres, Berlim – a ONU, o Vaticano, o que for. Ninguém solta a mão, ninguém dá brecha. Pensei nessa lista há uns dias e desisti; mas então, num desses eventos, uma pessoa pediu sugestões de leitura aos debatedores; dois dias depois, vi nas ruas essa magnífica curadoria de livros que foi a eleição. Como sempre me pedem indicações, inclusive esta semana me pediram bastante, voilà. Penso mais no nazismo, e são apenas sugestões, ninguém realmente precisa ver nada;  acho que cada um pode montar o seu kit comunista pessoal; ou mesmo fazer kits comunistas temáticos, kits comunistas só com obras de capa vermelha, kits comunistas para adolescentes furiosos. No meu, não incluí músicas, que estão em minha Playlist do Apocalipse, uma mistura líquida de luto e revolta. Me concentrei em livros e filmes, e minha única restrição é que tenham sido lançados no Brasil. Não há ordem aqui – ordem, sabemos, é coisa de militar (esta é a piada).

The Wall – (Alan Parker)

Todo mundo conhece Roger Waters e o Pink Floyd, mas talvez nem todas tenham visto esse filme, uma espécie de musical psicodélico. No entanto, agora faz mais sentido cantar “Hey, kids, leave the teachers alone!”  Também sugiro a poesia de Roberto Piva.

Berlim – Joseph Roth

Série de crônicas que cobrem a ascensão gradual da barbárie na Berlim dos anos 30, escritas no momento em que a coisa crescia. É um livro curto e de prosa leve, apesar do peso que há em lê-lo hoje, com o conhecimento do que seria o futuro daquelas pessoas, e de como aquilo é semelhante ao que estamos vivendo. A ser visto com o filme O Ovo da Serpente.

A Arquitetura da Destruição

Neste documentário, o sueco Peter Cohen discorre sobre a estética nazista, reacionária às artes de vanguarda, e defende que a barbárie nazista foi também um projeto estético, um delírio de um megalomaníaco pintor frustrado, o próprio Hitler. Lembra algo?

George Orwell

A maioria haverá de pensar em A Revolução dos Bichos e 1984, mas eu penso principalmente na não ficção. Orwell viveu entre mendigos, entrou em minas de carvão, serviu na Ásia e resistiu na Catalunha, e escreveu ensaios como “Reflexões sobre Gandhi”, “Como morrem os pobres”, “Atirar num elefante” e “O Enforcado”. Para mim o ensaísta mais pertinente do século XX, junto com James Baldwin.

Investigação sobre um Cidadão acima de Qualquer Suspeita (Elio Petri)

Um inspetor de reputação ilibada assassina sua amante e começa a plantar pistas escandalosas contra si, para ver se será acusado pela polícia. Sobre como a justiça realmente funciona para os eleitos, sobre como o discurso se adequa aos interesses. Lembra algo (II)?

O Complô (Will Eisner)

Nesse quadrinho, Eisner conta a história do Protocolo dos Sábios de Sião, um panfleto mentiroso que denunciava uma suposta conspiração judaica para dominar o mundo, e que foi bastante usado pelos nazistas para incitar a população alemã a se revoltar contra os judeus. Lembra algo (III)? – tá, parei. A ser lido com Pape Satàn Aleppe, as “bustinas” de Umberto Eco.

O Grande Ditador (Charles Chaplin)

Por causa desta cena:

https://www.youtube.com/watch?v=R9RLNhK8UiQ

Ryzsard Kapuscinski

Esse escritor polonês passou décadas viajando por países de terceiro mundo, como correspondente de um jornal, enquanto fazia anotações particulares em caderninhos. Após se aposentar, transformou essas anotações em obras-primas como O Xá dos Xás, sobre Reza Pahlavi e o Irã, e O Imperador, sobre Hailé Selassié e a Etiópia.

Amém (Costa-Gavras)

Um soldado nazista que acreditava nas mentiras do partido descobre por acaso que um processo químico inventado por ele estava sendo usado para assassinar judeus. Ao tentar denunciar isso ao Papa Pio XII, não recebe resposta. Sobre a cumplicidade da igreja católica com o holocausto e como muitos nazistas não eram exatamente maus, mas apenas pessoas que foram enganadas.

Cumbe (Marcelo D’Salete)

Foi por essa HQ sobre escravos revoltosos que D’Salete ganhou o Eisner, maior prêmio do quadrinho mundial. Além de D’Salete ser um gênio da composição de página, toda sua obra é perfurante, com destaque para Angola Janga, um calhamaço sobre a resistência de Zumbi dos Palmares, e dos contos de Encruzilhada, sobre o racismo cotidiano numa metrópole. A ser lido com a poesia de Auden e a de Szymborska. 

Casablanca (Michael Curtis)

Casablanca é uma cidade costeira marroquina que, durante a durante a Segunda Guerra, foi a última parada dos judeus que fugiam do nazismo. O filme, witty e bittersweet, é uma história sobre como nossas complicações amorosas operam em tempos de guerra.

TAZ (Hakim Bey)

Como as próprias revoluções estão sujeitas à autodestruição, Hakim Bey apresenta as Zona Autônomas Temporárias, interregnos anarquistas que surgem entre a ascensão e a corrupção da tomada revoltosa. Vale checar a coleção Baderna, das editoras Conrad e Veneta e A Busca pela Imortalidade, de John Gray. Ou a série Mr. Robot. 

Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla)

Um filme selvagem, hipnótico e perturbador baseado na história real do criminoso que assombrou São Paulo nos anos 60. Este ano completa 50 anos, porém o que ele denuncia permanece fresco, como se tivesse sido lançado hoje, uma vez que estamos estagnados, sem resolver nenhum de nossos problemas históricos. A ser visto com os cartuns que Millôr fez nos anos 60 e 70.

Lacombe Lucien (Louis Malle)

A entrada num grupo de resistência é recusado a um jovem francês, que se torna colaboracionista. Sobre como o ressentimento corrói almas, e como uma única pessoa armada pode controlar todo um grupo. A se ver com Sunshine – O Despertar de um Século, Tony Manero, O Conformista, o cinema neorrealista em geral.

V de Vingança (Alan Moore e David Lloyd)

Também bastante conhecido por ter virado filme, é a história de um Revolucionário misterioso que tenta destruir sozinho um estado totalitário distópico. A ser visto com O Grupo Baader-Meinhof e a série Black Mirror. E tudo mais de Moore, principalmente Watchmen.

Aquarius (Kléber Mendonça Filho)

Nesse filme, que rendeu represálias ao diretor pelo foratemer em Cannes, é contada a história de uma jornalista que defende com unhas e dentes seu apartamento ameaçado pelos donos de uma construtora. Saí do cinema com vontade de jogar pedras na FIESP. O cinema pernambucano atual é, em si, resistência, é som e fúria; vejam também O Som ao Redor e Recife Frio, vejam A Febre do Rato, vejam tudo.

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O direito de interpretar Hamlet

Na última edição da revista Barril saiu um ensaio meu em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural. Confira também este ensaio que publiquei lá ano passado, A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas, e esta crítica algo ensaística de uma peça que vi este ano. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; tem muita coisa massa lá.

Praias infestadas por máquinas destruidoras de carne humana

A premissa do filme Tubarão (1975), dirigido por Spielberg a partir do romance de Peter Benchley, por improvável que pareça, é bastante semelhante à de Um Inimigo do Povo, peça escrita em 1882 pelo norueguês Henrik Ibsen, que foi sensação numa Europa dominada pelo teatro francês.

Em Tubarão, que é melhor que sua herança cinematográfica faz parecer, conhecemos a cidade costeira de Amity Island, que tem no turismo sua principal fonte de renda. Após um violento ataque de tubarão, o delegado Martin Brody sugere ao prefeito Hendricks que sejam interditadas até segunda ordem as praias da cidade, o que acarretaria em grande prejuízo para a população, uma vez que estavam no início da alta temporada. Após mais dois ataques, finalmente, as praias são fechadas; o público temeroso clama por vingança e o xerife parte para a caça do enorme animal.

Um Inimigo do Povo começa com praticamente a mesma história, inclusive com a envolvente presença do prefeito, da mídia, e da família do protagonista. A diferença básica é que o balneário em que vive o Dr. Stockman é atacado não por um gigantesco e assustador assassino dos mares, mas pela invisível e silenciosa contaminação da água.

A comparação entre obras e suportes tão diferentes pode parecer inusitada, quiçá esdrúxula, porém uma rápida análise em nossos medos mais íntimos revelará que tememos mais os tubarões pernambucanos que, por exemplo, a poluição que assola a Baía de Guanabara, ainda que, entre as duas, seja a última que tem mais risco de afligir seus banhistas diretamente.

Enquanto no filme de Spielberg os poucos, porém cruéis, ataques do tubarão branco traumatizam os banhistas de Amity Island, os inúmeros casos de doenças no balneário norueguês, além de detalhados relatórios científicos, em nada influem na decisão de sua população. Para evitar prejuízos financeiros, o prefeito (irmão de Dr. Stockman), os jornalistas e o povo decidem liberar o acesso à praia, e nada fazem para impedir sua contaminação. Dezenas de doentes discretamente alojados em suas câmaras escuras não carregam o apelo gráfico de uma única vítima da violência marinha.

ibsen

Mesmo em posse de documentos e argumentos que comprovam seu discurso (afinal, ele pensa apenas no bem do povo), Dr. Stockman é pressionado por quase todos da cidade a negar o problema, ainda que essa atitude ponha em risco a vida de muitas pessoas. Descobre-se que, intimamente, muitos dos habitantes concordam com ele, tendo até defendido sua proposta anteriormente; porém, após ele ser declarado inimigo do povo, ninguém tem coragem de bater de frente contra a maioria e sua discordante decisão unânime. “O partido político é uma máquina de moer carne… carne humana!”, afirma Stockman, numa metáfora semelhante à feita com o tubarão branco: “uma máquina de comer”. A mentira sobre si mesmo, e até para si mesmo, é uma das bases morais do cidadão civilizado. A peça de Ibsen é uma tradução narrativa do aforismo de Nelson Rodrigues, que afirma ser burra toda a unanimidade.

Assim, enquanto em Tubarão assistimos à luta do indivíduo contra a natureza, em Um Inimigo do Povo vemos a batalha do indivíduo contra uma sociedade egoísta, hipócrita e estúpida, definitivamente muito mais perniciosa e com potencial de destruição muito maior que o de um terrível monstro marinho engolidor de pessoas – batalha de modo algum aterrorizante, porém muito mais perturbadora.

Numa Tela Brilhante: Black Mirror

I could be bound in a nutshell, and count myself a king of infinite space.

Hamlet, Shakespeare.

Meu desejo, na verdade, seria fazer apenas um longo elogio sobre a série britânica Black Mirror, e dar conta de minhas intenções. Mas elogios só interessam a quem recebe ou a quem idolatra. Qualquer linha duma sinopse funcionaria melhor ao meu propósito, que é divulgar a série a quem não conhece, e esperar comentários muito mais reveladores e brilhantes de outros expectadores. Digo isso, que uma sinopse funcionaria, porque o forte da série está exatamente em seus roteiros, apesar de não dever nada em relação aos aspectos técnicos das melhores produções audiovisuais: os atores são ótimos, a fotografia é correta, a trilha sonora é interessante, assim como a montagem e os efeitos especiais. Mas o ponto alto mesmo são os roteiros. Bastante comparada com Além da Imaginação, Black Mirror nos apresenta algumas das distopias mais contundentes dos últimos anos.

Creio não ser preciso gastar muito tempo explicando o que são distopias, pois aqueles que acompanham a história do cinema, da literatura, dos quadrinhos, ainda que não as conheçam por esse nome, são capazes de percebê-las como um padrão de tom em certas obras. Pois bem, a distopia é o anti-lugar, a projeção de um mundo indesejável, terrível, apocalíptico, o oposto da utopia. Na ficção, essa projeção pessimista pode estar direcionada em diversos aspectos morais de uma sociedade, como os excessos do governo (1984, V de Vingança), das corporações (Akira, Mad Max) da sociedade em si (Laranja Mecânica), da tecnologia (O Exterminador do Futuro). Há outros tipos de distopia, mas não pretendo destrinchar um por um.

Os episódios de Black Mirror podem se encaixar em diversas destas categorias, mas o elo entre eles é o uso exagerado das tecnologias domésticas. Se a tecnologia sempre foi, pretensamente, um meio de facilitar a vida das pessoas, este discurso ignora, ou prefere esconder, que apesar dos indiscutíveis benefícios, cada nova invenção acarreta numa nova série de problemas para a humanidade. Charles Brooker, o criador da série, pretende discutir estes problemas, os efeitos colaterais duma nova doença mundial: os abusos das gravações de imagens, o voyeurismo, a procrastinação, a crença ou idolatria cega no que é compartilhado oficialmente, a perda de tempo, as “necessidades” inúteis, a estupidez coletiva, a sedução do poder, o culto à bobagem, a tecnologia como substituição (mas não solução) para os males de nossa natureza frágil, o vício na tecnologia como um fim em si.

Os episódios não mantêm relação entre si. Black Mirror (até agora) tem apenas duas temporadas de três episódios. Temporadas curtas demais, para quem está habituado ao formato das séries dramáticas norte-americanas, com doze; mas não tão diferente da métrica de outros seriados britânicos, como Sherlock, pra citar um exemplo recente.

As premissas dos seis episódios são instigantes:

S01E01 – O primeiro-ministro da Inglaterra recebe um vídeo em que uma princesa amada pela Família Real, em prantos, lhe dita a ordem do sequestrador: ele deve fazer sexo com um porco, ao vivo, numa transmissão nacional.

S01E02 – A rotina de um homem desesperado, pois trabalha junto com uma multidão idiotizada, pedalando o dia inteiro em bicicletas ergométricas, em troca de pontos para comprarem futilidades virtuais.

S01E03 – Todos têm uma espécie de chip implantado abaixo da orelha que grava tudo o que é visto e ouvido, além de ser facilmente exibido, como uma projeção de slides. Assim, todas as relações sociais giram em torno dessas projeções.

S02E01 – Uma viúva de luto contrata os serviços para que um software faça o papel de seu marido morto (bastante semelhante à premissa de Ela, de Spike Jonze).

S02E02 – Uma mulher é caçada por assassinos grotescos enquanto uma multidão filma tudo tranquilamente com seus celulares.

S02E03 – Um desenho animado manipulado ao vivo por um cidadão comum concorre a um cargo político após esculachar um candidato.

Surpreende que, na maioria dos episódios, o mundo seja fisicamente igual ao que vivemos. Não há espaço para vales inóspitos, cidades na lua, animais esquisitos, carros voadores, espaçonaves, bazucas modernosas, robôs gigantes, essas coisas que estamos acostumados a ver nas ficções cientificas distópicas. As armas mais violentas são a câmera, o teclado e a estupidez generalizada.

Parte-se, em muitas vezes, de casos particulares para mostrar como a multidão estupidificada tem voz cada vez mais forte, por conta destas tecnologias. A multidão que se compraz em torturar uma criminosa sem memória; a multidão que financia os malabarismos dos poderosos; a multidão que ataca escondido detrás da tela luminosa. Destas telas e monitores vem o título. Black Mirror abre com uma tela rachada. Enquanto olhamos para nosso smartphone, ele nos reflete, reflete nosso lado obscuro, sem que percebamos. Sim, de alguma forma, fazemos parte dessa multidão.

Apesar de geralmente mostrar esta projeção maldita num futuro hipotético, as distopias respondem a anseios e dúvidas imediatas. Vemos uma obra de ficção e, ao perceber que o personagem está prestes a se dar mal, pensamos: “eu não faria isso”. Com Black Mirror, a sensação é mais amarga: “fazemos isso diariamente”. O mais importante, portanto, é o que podemos descobrir sobre nós mesmos enquanto nos divertimos com tais ficções.

O insuportável sofrimento dos outros

Por algum tempo relutei em assistir No, último filme do chileno Pablo Larraín, que concorreu contra Amour (de Michael Haneke) ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013. Penso que meu motivo, se não justo, é ao menos compreensível: o outro filme de Larraín que conheço, jubilosamente intitulado Tony Manero, mesmo sendo uma obra-prima, é simplesmente o filme mais pesado que eu já vi. Ao terminá-lo, o fel transbordava por minha boca, um amargor que durou mais de uma semana. Assim deduzi que No, por se tratar da ditadura chilena, também o seria.

Fui muito bobo, pois não poderia estar mais errado. Um trailer daria conta de me mostrar que o filme, camaradas, não é nada pesado. Por sorte, minha irmã é a cinéfila mais idiossincrática que eu conheço, da espécie que começa a ver a lista do Oscar pelos concorrentes a Filme Estrangeiro. Foi ela, portanto, que me contou que o filme na verdade é sobre a gigantesca contribuição que um publicitário teve para a queda do General Pinochet.

Em 1988, após grande pressão internacional, o general, já com quinze anos de ditadura, abre um plebiscito para saber se a população desejaria que ele permanecesse por mais oito anos no governo. “Sim” ou “não”? O célebre publicitário René Saavedra é contratado para coordenar a propaganda da oposição ao general. Se antes queriam denunciar os atos de tortura do governo (o tipo de propaganda-denúncia que não interessa ao cidadão comum), após sua chegada decidem basear suas propagandas na previsão de um futuro alegre para o país. O álacre é o melhor convencimento. Os momentos de pura tensão do filme estão no prato mais alto da balança; estão em menor quantidade, por exemplo, que as divertidas gravações dos comerciais do partido do “não”.

A questão é que em nenhum momento desisti de minha intenção de ver o filme. Apenas adiei a tarefa continuamente, como se fosse uma daquelas atividades indispensáveis, porém jamais urgentes, que nunca riscamos da lista de afazeres: comprar uma estante, fazer abdominais, ler A Montanha Mágica. Há meses já tinha o filme gravado no HD da Sky, e sempre que cogitava vê-lo, escolhia outro. Eu pensava que era mais um filme-denúncia-fundamental.

A triste verdade é que estamos sempre cansados, quando se trata de um filme-denúncia-fundamental. Nossa resistência a eles é naturalmente nutrida com água, sol e oxigênio, e nada mais. Adiamos ao máximo ver aquela obra-prima sobre a situação no Egito ou sobre a fome na Etiópia que nossos colegas acadêmicos tanto recomendam, porque sabemos que ela nos perturbará profundamente. Já sabemos que o mundo é cruel e que enquanto nos divertimos com produções de Hollywood, as injustiças ocorrem a cada segundo, sem parar, em todos os lugares; grandes números não tocam o coração de ninguém, mas nem por isso queremos ser atingidos por cada infelicidade particular que reside num ponto fixo do planeta. Precisamos respirar um ar leve de vez em quando.

Creio ser este o único motivo que justificaria tanta resistência das pessoas a filmes de países de história recente maculados pela severidade e truculência, como o Irã ou a República Tcheca. Tomemos o caso deste último: vejo muitos cinéfilos que levam em conta somente seu imaginário raso, o de que se trata de um lugar em que todas as narrativas das décadas passadas são propagandas soviéticas camufladas, e todas as narrativas das décadas recentes são a denúncia desse período. Ignoram toda a hilária e agridoce extravagância sexual de autores como Kundera e Hrabal, e até de americanos como Roth e Chabon, com personagens que já se aventuraram em Praga. Ignoram, também, aquela série de filmes divertidos e fundamentais que fizeram a cabeça do mundo nos anos sessenta; filmes que abocanharam dois Oscars de Filme Estrangeiro, dos três que concorreram em três anos seguidos; o cinema que revelou o brilhantismo de Milos Forman, diretor de Um Estranho no Ninho e Amadeus; o país marcado exatamente pelo humor, pela sensualidade, pelas grandes canecas de cerveja, pela profundidade com que estuda a natureza humana. Tal resistência não se justificaria por qualquer outro motivo que não o puro preconceito contra a densidade, a lentidão e a pretensão que estão somente na cabeça desse tipo de expectador. Exatamente como minha relutância em ver No.

No entanto, essa mesma pessoa espera com ansiedade filmes violentos, se provindos de países que alardeiam alegria ou qualidade de vida (ou, no mínimo, a liberdade). A violência gráfica nos filmes de diretores como Padilha, Tarantino, Robert Rodriguez, Oliver Stone, Guy Ritchie ou Scorsese, apesar de bem mais palpáveis que em muitos dos filmes-denúncia que relutamos em ver, são bem mais palatáveis. Apreciamos a violência, mas não suportamos o sofrimento.

E qual a diferença?

Em primeiro lugar, não há simpatia nos filmes violentos. Ver um gangster entrar num banco e rapidamente assassinar meia dúzia de funcionários é bem mais fácil de digerir que a árdua trajetória de um pianista judeu que luta para sobreviver em tempos brucutus. É mais fácil tolerar o sofrimento de um mafioso psicopata que o de uma criança faminta dos olhos grandes.

E há também a identificação com a História. Saber que realmente aconteceu, perto de nós, é sempre terrível. No romance Noturno do Chile, de Roberto Bolaño, descobrimos com horror que no casarão onde os poetas se reuniam, a poucos metros do salão onde ocorriam os maravilhosos saraus, eram aplicadas sessões de tortura. O mesmo ocorre conosco e o mundo cão que nos rodeia. Incomoda demais saber que neste mesmo planeta em que respiramos e sorrimos e dançamos e vivemos felizes, pessoas são atacadas, exploradas e massacradas todos os dias, e suas vozes morrerão sem que tenham a chance de contar sua história… O mundo lá fora sempre foi pior.

Os Trilhos do Cinema

Eu já fui muito mais impertinente. Antigamente eu não podia conhecer ninguém que saía logo perguntando quais filmes, livros ou bandas consumiu nos últimos tempos. Devem se lembrar. Eu era como um repórter, escrevendo sem parar naqueles caderninhos de aro de metal. Alguém mentia dizendo que leu Grande: Sertão Veredas, e lá estava eu, meses depois, com o livro na mão, bombardeando o sujeito com perguntas e comentários, até ele admitir seu ato vergonhoso.

Mas isso acabou. Ou conseguem falar sobre tudo, ou não mentem mais. Ainda estou seguindo as listas daquele tempo. Hoje em dia eu só pergunto o que andam bebendo e comendo de diferente, e meu estômago é maior que a Arena Fonte Nova (estes dias me chamaram de Pantagruel). Toda essa tergiversação é para contar que neste último carnaval troquei o “Ziguiriguidum” por uma montanha de filmes e comida. Engordei três quilos. Comi bolinhos de bacalhau, filés de atum, pizzas, lasanhas, asas de frango, carne assada, sorvete, e cachorros quentes estragados; por causa dos últimos, só quero falar de filmes.

O Oscar está chegando, e os concorrentes do ano passado me parecem tecnicamente mais criativos. Se O Artista tem o pesadelo sonoro do protagonista, uma cena realmente bem bolada, Hugo Cabret consegue dar sentido extra a certas cenas em 3D. Paguei a mais principalmente para ver a clássica filmagem da chegada de um trem, com as pessoas fugindo do teatro. Imagine que fugiam de um negócio silencioso, plano, sem cores, e que hoje sorrimos de engenhocas futuristas, barulhentas e realistas, que saem da tela. Mas no filme de Scorsese apenas as pessoas saltam aos nossos olhos. De primeira não entendi, já que as cenas dos filmes Meliès eram todas em 3D. Então me toquei: quando passa os filmes dele, em especial Viagem à Lua, Scorsese está recontando, está fazendo uma paráfrase, e quando passa outros filmes, ele apenas faz uma citação, e deixa igualzinho. Não faz diferença na compreensão do filme, mas não podemos negar que é um acréscimo de linguagem do 3D. Isto se torna mais interessante se levarmos em conta sua temática, e a do Artista.

Mas voltando ao meu ziguiriguidum particular, um dos melhores que vi em meu recesso foi As Aventuras de Tintin, que nem concorreu ao Oscar de animação. Tem um plano-sequência sensacional. Há certo receio em se admitir isso, pois é um filme de animação. O plano-sequência é aquela tomada longa, sem cortes. Pra mim é o suprassumo do virtuosismo cinematográfico. Supõe-se que ele deve ser filmado do começo ao fim, exaustivamente, sem pausa para os atores tomar uma água, geralmente ensaiado e filmado várias vezes antes de dar certo, como na abertura de A Marca da Maldade. Por isso não parece ser tão espetacular numa animação, que é tudo feito em estúdio.

Outros de meus planos-sequência favoritos:

As de Paul Thomas Anderson

A abertura de Durval Discos

A fuga em Filhos da Esperança

A festa em O Barco

E em a Regra do Jogo

Festim Diabólico

A cena do estádio em O Segredo de Seus Olhos.

Vocês viram esse último? A câmera se aproxima sobre o estádio distante, o jogo é percebido, uma bola bate na trave, a torcida vibra enquanto avançamos rumo a ela, nossos personagens procuram uma pessoa e quando finalmente o encontram a torcida vai abaixo com um gol, ele escapa, seguido pelos detetives por um banheiro, por uma escadaria, por corredores, até que salta de um lugar muito alto, entra dentro do campo e é atacado por um dos jogadores. Um plano-sequência deve ser descrito sem pontos.

Diferentemente de Houston ou Welles, esta cena não foi feita de uma vez só. O diretor, Juan José Campanella usou um horror de efeitos especiais, ao custo de uma fortuna, e não vi ninguém criticando de sua artificialidade, apesar de, em termos técnicos, não ser tão diferente assim da realização da de Tintin. Penso que a grandiosidade em ambas está no desenho da cena, e nisso a animação de Spielberg é insuperável.

Aliás, foi em outra animação que vi uma grande sacada. Todo mundo sabe que os tons amarelados, sépia, preto e branco eram os padrões das câmeras de antigamente. Assim, quando o cinema em cores dominou as produções, estes tons eram usados para retratar o passado, recordações, flashbacks. Isto se transformou em linguagem; uma maneira especifica de comunicação. Animações coloridas, sem tradição de preto e branco, até hoje usam o bom e velho sépia para contar o passado. Mesmo obras de outras mídias se utilizam deste artifício, como os quadrinhos, que sempre tiveram as cores à sua disposição.

Kung Fu Panda 2 é um dos exemplos mais exuberantes de animações produzidas em computador. As cores estouram em nossos olhos, como fogos de artifício. Mas quando o urso se lembra do seu passado, voilà! Volta-se ao estilo de animação tradicional, sem todos aqueles efeitos, como se recontasse a própria história do cinema, como se dissessem “era assim que se fazia, e é assim que vamos representar o passado, nas animações”. Não sei se foram os primeiros a fazer isso, mas se não é uma ideia genial, é no mínimo absolutamente brilhante.