Praias infestadas por máquinas destruidoras de carne humana

A premissa do filme Tubarão (1975), dirigido por Spielberg a partir do romance de Peter Benchley, por improvável que pareça, é bastante semelhante à de Um Inimigo do Povo, peça escrita em 1882 pelo norueguês Henrik Ibsen, que foi sensação numa Europa dominada pelo teatro francês.

Em Tubarão, que é melhor que sua herança cinematográfica faz parecer, conhecemos a cidade costeira de Amity Island, que tem no turismo sua principal fonte de renda. Após um violento ataque de tubarão, o delegado Martin Brody sugere ao prefeito Hendricks que sejam interditadas até segunda ordem as praias da cidade, o que acarretaria em grande prejuízo para a população, uma vez que estavam no início da alta temporada. Após mais dois ataques, finalmente, as praias são fechadas; o público temeroso clama por vingança e o xerife parte para a caça do enorme animal.

Um Inimigo do Povo começa com praticamente a mesma história, inclusive com a envolvente presença do prefeito, da mídia, e da família do protagonista. A diferença básica é que o balneário em que vive o Dr. Stockman é atacado não por um gigantesco e assustador assassino dos mares, mas pela invisível e silenciosa contaminação da água.

A comparação entre obras e suportes tão diferentes pode parecer inusitada, quiçá esdrúxula, porém uma rápida análise em nossos medos mais íntimos revelará que tememos mais os tubarões pernambucanos que, por exemplo, a poluição que assola a Baía de Guanabara, ainda que, entre as duas, seja a última que tem mais risco de afligir seus banhistas diretamente.

Enquanto no filme de Spielberg os poucos, porém cruéis, ataques do tubarão branco traumatizam os banhistas de Amity Island, os inúmeros casos de doenças no balneário norueguês, além de detalhados relatórios científicos, em nada influem na decisão de sua população. Para evitar prejuízos financeiros, o prefeito (irmão de Dr. Stockman), os jornalistas e o povo decidem liberar o acesso à praia, e nada fazem para impedir sua contaminação. Dezenas de doentes discretamente alojados em suas câmaras escuras não carregam o apelo gráfico de uma única vítima da violência marinha.

ibsen

Mesmo em posse de documentos e argumentos que comprovam seu discurso (afinal, ele pensa apenas no bem do povo), Dr. Stockman é pressionado por quase todos da cidade a negar o problema, ainda que essa atitude ponha em risco a vida de muitas pessoas. Descobre-se que, intimamente, muitos dos habitantes concordam com ele, tendo até defendido sua proposta anteriormente; porém, após ele ser declarado inimigo do povo, ninguém tem coragem de bater de frente contra a maioria e sua discordante decisão unânime. “O partido político é uma máquina de moer carne… carne humana!”, afirma Stockman, numa metáfora semelhante à feita com o tubarão branco: “uma máquina de comer”. A mentira sobre si mesmo, e até para si mesmo, é uma das bases morais do cidadão civilizado. A peça de Ibsen é uma tradução narrativa do aforismo de Nelson Rodrigues, que afirma ser burra toda a unanimidade.

Assim, enquanto em Tubarão assistimos à luta do indivíduo contra a natureza, em Um Inimigo do Povo vemos a batalha do indivíduo contra uma sociedade egoísta, hipócrita e estúpida, definitivamente muito mais perniciosa e com potencial de destruição muito maior que o de um terrível monstro marinho engolidor de pessoas – batalha de modo algum aterrorizante, porém muito mais perturbadora.

Numa Tela Brilhante: Black Mirror

I could be bound in a nutshell, and count myself a king of infinite space.

Hamlet, Shakespeare.

Meu desejo, na verdade, seria fazer apenas um longo elogio sobre a série britânica Black Mirror, e dar conta de minhas intenções. Mas elogios só interessam a quem recebe ou a quem idolatra. Qualquer linha duma sinopse funcionaria melhor ao meu propósito, que é divulgar a série a quem não conhece, e esperar comentários muito mais reveladores e brilhantes de outros expectadores. Digo isso, que uma sinopse funcionaria, porque o forte da série está exatamente em seus roteiros, apesar de não dever nada em relação aos aspectos técnicos das melhores produções audiovisuais: os atores são ótimos, a fotografia é correta, a trilha sonora é interessante, assim como a montagem e os efeitos especiais. Mas o ponto alto mesmo são os roteiros. Bastante comparada com Além da Imaginação, Black Mirror nos apresenta algumas das distopias mais contundentes dos últimos anos.

Creio não ser preciso gastar muito tempo explicando o que são distopias, pois aqueles que acompanham a história do cinema, da literatura, dos quadrinhos, ainda que não as conheçam por esse nome, são capazes de percebê-las como um padrão de tom em certas obras. Pois bem, a distopia é o anti-lugar, a projeção de um mundo indesejável, terrível, apocalíptico, o oposto da utopia. Na ficção, essa projeção pessimista pode estar direcionada em diversos aspectos morais de uma sociedade, como os excessos do governo (1984, V de Vingança), das corporações (Akira, Mad Max) da sociedade em si (Laranja Mecânica), da tecnologia (O Exterminador do Futuro). Há outros tipos de distopia, mas não pretendo destrinchar um por um.

Os episódios de Black Mirror podem se encaixar em diversas destas categorias, mas o elo entre eles é o uso exagerado das tecnologias domésticas. Se a tecnologia sempre foi, pretensamente, um meio de facilitar a vida das pessoas, este discurso ignora, ou prefere esconder, que apesar dos indiscutíveis benefícios, cada nova invenção acarreta numa nova série de problemas para a humanidade. Charles Brooker, o criador da série, pretende discutir estes problemas, os efeitos colaterais duma nova doença mundial: os abusos das gravações de imagens, o voyeurismo, a procrastinação, a crença ou idolatria cega no que é compartilhado oficialmente, a perda de tempo, as “necessidades” inúteis, a estupidez coletiva, a sedução do poder, o culto à bobagem, a tecnologia como substituição (mas não solução) para os males de nossa natureza frágil, o vício na tecnologia como um fim em si.

Os episódios não mantêm relação entre si. Black Mirror (até agora) tem apenas duas temporadas de três episódios. Temporadas curtas demais, para quem está habituado ao formato das séries dramáticas norte-americanas, com doze; mas não tão diferente da métrica de outros seriados britânicos, como Sherlock, pra citar um exemplo recente.

As premissas dos seis episódios são instigantes:

S01E01 – O primeiro-ministro da Inglaterra recebe um vídeo em que uma princesa amada pela Família Real, em prantos, lhe dita a ordem do sequestrador: ele deve fazer sexo com um porco, ao vivo, numa transmissão nacional.

S01E02 – A rotina de um homem desesperado, pois trabalha junto com uma multidão idiotizada, pedalando o dia inteiro em bicicletas ergométricas, em troca de pontos para comprarem futilidades virtuais.

S01E03 – Todos têm uma espécie de chip implantado abaixo da orelha que grava tudo o que é visto e ouvido, além de ser facilmente exibido, como uma projeção de slides. Assim, todas as relações sociais giram em torno dessas projeções.

S02E01 – Uma viúva de luto contrata os serviços para que um software faça o papel de seu marido morto (bastante semelhante à premissa de Ela, de Spike Jonze).

S02E02 – Uma mulher é caçada por assassinos grotescos enquanto uma multidão filma tudo tranquilamente com seus celulares.

S02E03 – Um desenho animado manipulado ao vivo por um cidadão comum concorre a um cargo político após esculachar um candidato.

Surpreende que, na maioria dos episódios, o mundo seja fisicamente igual ao que vivemos. Não há espaço para vales inóspitos, cidades na lua, animais esquisitos, carros voadores, espaçonaves, bazucas modernosas, robôs gigantes, essas coisas que estamos acostumados a ver nas ficções cientificas distópicas. As armas mais violentas são a câmera, o teclado e a estupidez generalizada.

Parte-se, em muitas vezes, de casos particulares para mostrar como a multidão estupidificada tem voz cada vez mais forte, por conta destas tecnologias. A multidão que se compraz em torturar uma criminosa sem memória; a multidão que financia os malabarismos dos poderosos; a multidão que ataca escondido detrás da tela luminosa. Destas telas e monitores vem o título. Black Mirror abre com uma tela rachada. Enquanto olhamos para nosso smartphone, ele nos reflete, reflete nosso lado obscuro, sem que percebamos. Sim, de alguma forma, fazemos parte dessa multidão.

Apesar de geralmente mostrar esta projeção maldita num futuro hipotético, as distopias respondem a anseios e dúvidas imediatas. Vemos uma obra de ficção e, ao perceber que o personagem está prestes a se dar mal, pensamos: “eu não faria isso”. Com Black Mirror, a sensação é mais amarga: “fazemos isso diariamente”. O mais importante, portanto, é o que podemos descobrir sobre nós mesmos enquanto nos divertimos com tais ficções.

O insuportável sofrimento dos outros

Por algum tempo relutei em assistir No, último filme do chileno Pablo Larraín, que concorreu contra Amour (de Michael Haneke) ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013. Penso que meu motivo, se não justo, é ao menos compreensível: o outro filme de Larraín que conheço, jubilosamente intitulado Tony Manero, mesmo sendo uma obra-prima, é simplesmente o filme mais pesado que eu já vi. Ao terminá-lo, o fel transbordava por minha boca, um amargor que durou mais de uma semana. Assim deduzi que No, por se tratar da ditadura chilena, também o seria.

Fui muito bobo, pois não poderia estar mais errado. Um trailer daria conta de me mostrar que o filme, camaradas, não é nada pesado. Por sorte, minha irmã é a cinéfila mais idiossincrática que eu conheço, da espécie que começa a ver a lista do Oscar pelos concorrentes a Filme Estrangeiro. Foi ela, portanto, que me contou que o filme na verdade é sobre a gigantesca contribuição que um publicitário teve para a queda do General Pinochet.

Em 1988, após grande pressão internacional, o general, já com quinze anos de ditadura, abre um plebiscito para saber se a população desejaria que ele permanecesse por mais oito anos no governo. “Sim” ou “não”? O célebre publicitário René Saavedra é contratado para coordenar a propaganda da oposição ao general. Se antes queriam denunciar os atos de tortura do governo (o tipo de propaganda-denúncia que não interessa ao cidadão comum), após sua chegada decidem basear suas propagandas na previsão de um futuro alegre para o país. O álacre é o melhor convencimento. Os momentos de pura tensão do filme estão no prato mais alto da balança; estão em menor quantidade, por exemplo, que as divertidas gravações dos comerciais do partido do “não”.

A questão é que em nenhum momento desisti de minha intenção de ver o filme. Apenas adiei a tarefa continuamente, como se fosse uma daquelas atividades indispensáveis, porém jamais urgentes, que nunca riscamos da lista de afazeres: comprar uma estante, fazer abdominais, ler A Montanha Mágica. Há meses já tinha o filme gravado no HD da Sky, e sempre que cogitava vê-lo, escolhia outro. Eu pensava que era mais um filme-denúncia-fundamental.

A triste verdade é que estamos sempre cansados, quando se trata de um filme-denúncia-fundamental. Nossa resistência a eles é naturalmente nutrida com água, sol e oxigênio, e nada mais. Adiamos ao máximo ver aquela obra-prima sobre a situação no Egito ou sobre a fome na Etiópia que nossos colegas acadêmicos tanto recomendam, porque sabemos que ela nos perturbará profundamente. Já sabemos que o mundo é cruel e que enquanto nos divertimos com produções de Hollywood, as injustiças ocorrem a cada segundo, sem parar, em todos os lugares; grandes números não tocam o coração de ninguém, mas nem por isso queremos ser atingidos por cada infelicidade particular que reside num ponto fixo do planeta. Precisamos respirar um ar leve de vez em quando.

Creio ser este o único motivo que justificaria tanta resistência das pessoas a filmes de países de história recente maculados pela severidade e truculência, como o Irã ou a República Tcheca. Tomemos o caso deste último: vejo muitos cinéfilos que levam em conta somente seu imaginário raso, o de que se trata de um lugar em que todas as narrativas das décadas passadas são propagandas soviéticas camufladas, e todas as narrativas das décadas recentes são a denúncia desse período. Ignoram toda a hilária e agridoce extravagância sexual de autores como Kundera e Hrabal, e até de americanos como Roth e Chabon, com personagens que já se aventuraram em Praga. Ignoram, também, aquela série de filmes divertidos e fundamentais que fizeram a cabeça do mundo nos anos sessenta; filmes que abocanharam dois Oscars de Filme Estrangeiro, dos três que concorreram em três anos seguidos; o cinema que revelou o brilhantismo de Milos Forman, diretor de Um Estranho no Ninho e Amadeus; o país marcado exatamente pelo humor, pela sensualidade, pelas grandes canecas de cerveja, pela profundidade com que estuda a natureza humana. Tal resistência não se justificaria por qualquer outro motivo que não o puro preconceito contra a densidade, a lentidão e a pretensão que estão somente na cabeça desse tipo de expectador. Exatamente como minha relutância em ver No.

No entanto, essa mesma pessoa espera com ansiedade filmes violentos, se provindos de países que alardeiam alegria ou qualidade de vida (ou, no mínimo, a liberdade). A violência gráfica nos filmes de diretores como Padilha, Tarantino, Robert Rodriguez, Oliver Stone, Guy Ritchie ou Scorsese, apesar de bem mais palpáveis que em muitos dos filmes-denúncia que relutamos em ver, são bem mais palatáveis. Apreciamos a violência, mas não suportamos o sofrimento.

E qual a diferença?

Em primeiro lugar, não há simpatia nos filmes violentos. Ver um gangster entrar num banco e rapidamente assassinar meia dúzia de funcionários é bem mais fácil de digerir que a árdua trajetória de um pianista judeu que luta para sobreviver em tempos brucutus. É mais fácil tolerar o sofrimento de um mafioso psicopata que o de uma criança faminta dos olhos grandes.

E há também a identificação com a História. Saber que realmente aconteceu, perto de nós, é sempre terrível. No romance Noturno do Chile, de Roberto Bolaño, descobrimos com horror que no casarão onde os poetas se reuniam, a poucos metros do salão onde ocorriam os maravilhosos saraus, eram aplicadas sessões de tortura. O mesmo ocorre conosco e o mundo cão que nos rodeia. Incomoda demais saber que neste mesmo planeta em que respiramos e sorrimos e dançamos e vivemos felizes, pessoas são atacadas, exploradas e massacradas todos os dias, e suas vozes morrerão sem que tenham a chance de contar sua história… O mundo lá fora sempre foi pior.

Os Trilhos do Cinema

Eu já fui muito mais impertinente. Antigamente eu não podia conhecer ninguém que saía logo perguntando quais filmes, livros ou bandas consumiu nos últimos tempos. Devem se lembrar. Eu era como um repórter, escrevendo sem parar naqueles caderninhos de aro de metal. Alguém mentia dizendo que leu Grande: Sertão Veredas, e lá estava eu, meses depois, com o livro na mão, bombardeando o sujeito com perguntas e comentários, até ele admitir seu ato vergonhoso.

Mas isso acabou. Ou conseguem falar sobre tudo, ou não mentem mais. Ainda estou seguindo as listas daquele tempo. Hoje em dia eu só pergunto o que andam bebendo e comendo de diferente, e meu estômago é maior que a Arena Fonte Nova (estes dias me chamaram de Pantagruel). Toda essa tergiversação é para contar que neste último carnaval troquei o “Ziguiriguidum” por uma montanha de filmes e comida. Engordei três quilos. Comi bolinhos de bacalhau, filés de atum, pizzas, lasanhas, asas de frango, carne assada, sorvete, e cachorros quentes estragados; por causa dos últimos, só quero falar de filmes.

O Oscar está chegando, e os concorrentes do ano passado me parecem tecnicamente mais criativos. Se O Artista tem o pesadelo sonoro do protagonista, uma cena realmente bem bolada, Hugo Cabret consegue dar sentido extra a certas cenas em 3D. Paguei a mais principalmente para ver a clássica filmagem da chegada de um trem, com as pessoas fugindo do teatro. Imagine que fugiam de um negócio silencioso, plano, sem cores, e que hoje sorrimos de engenhocas futuristas, barulhentas e realistas, que saem da tela. Mas no filme de Scorsese apenas as pessoas saltam aos nossos olhos. De primeira não entendi, já que as cenas dos filmes Meliès eram todas em 3D. Então me toquei: quando passa os filmes dele, em especial Viagem à Lua, Scorsese está recontando, está fazendo uma paráfrase, e quando passa outros filmes, ele apenas faz uma citação, e deixa igualzinho. Não faz diferença na compreensão do filme, mas não podemos negar que é um acréscimo de linguagem do 3D. Isto se torna mais interessante se levarmos em conta sua temática, e a do Artista.

Mas voltando ao meu ziguiriguidum particular, um dos melhores que vi em meu recesso foi As Aventuras de Tintin, que nem concorreu ao Oscar de animação. Tem um plano-sequência sensacional. Há certo receio em se admitir isso, pois é um filme de animação. O plano-sequência é aquela tomada longa, sem cortes. Pra mim é o suprassumo do virtuosismo cinematográfico. Supõe-se que ele deve ser filmado do começo ao fim, exaustivamente, sem pausa para os atores tomar uma água, geralmente ensaiado e filmado várias vezes antes de dar certo, como na abertura de A Marca da Maldade. Por isso não parece ser tão espetacular numa animação, que é tudo feito em estúdio.

Outros de meus planos-sequência favoritos:

As de Paul Thomas Anderson

A abertura de Durval Discos

A fuga em Filhos da Esperança

A festa em O Barco

E em a Regra do Jogo

Festim Diabólico

A cena do estádio em O Segredo de Seus Olhos.

Vocês viram esse último? A câmera se aproxima sobre o estádio distante, o jogo é percebido, uma bola bate na trave, a torcida vibra enquanto avançamos rumo a ela, nossos personagens procuram uma pessoa e quando finalmente o encontram a torcida vai abaixo com um gol, ele escapa, seguido pelos detetives por um banheiro, por uma escadaria, por corredores, até que salta de um lugar muito alto, entra dentro do campo e é atacado por um dos jogadores. Um plano-sequência deve ser descrito sem pontos.

Diferentemente de Houston ou Welles, esta cena não foi feita de uma vez só. O diretor, Juan José Campanella usou um horror de efeitos especiais, ao custo de uma fortuna, e não vi ninguém criticando de sua artificialidade, apesar de, em termos técnicos, não ser tão diferente assim da realização da de Tintin. Penso que a grandiosidade em ambas está no desenho da cena, e nisso a animação de Spielberg é insuperável.

Aliás, foi em outra animação que vi uma grande sacada. Todo mundo sabe que os tons amarelados, sépia, preto e branco eram os padrões das câmeras de antigamente. Assim, quando o cinema em cores dominou as produções, estes tons eram usados para retratar o passado, recordações, flashbacks. Isto se transformou em linguagem; uma maneira especifica de comunicação. Animações coloridas, sem tradição de preto e branco, até hoje usam o bom e velho sépia para contar o passado. Mesmo obras de outras mídias se utilizam deste artifício, como os quadrinhos, que sempre tiveram as cores à sua disposição.

Kung Fu Panda 2 é um dos exemplos mais exuberantes de animações produzidas em computador. As cores estouram em nossos olhos, como fogos de artifício. Mas quando o urso se lembra do seu passado, voilà! Volta-se ao estilo de animação tradicional, sem todos aqueles efeitos, como se recontasse a própria história do cinema, como se dissessem “era assim que se fazia, e é assim que vamos representar o passado, nas animações”. Não sei se foram os primeiros a fazer isso, mas se não é uma ideia genial, é no mínimo absolutamente brilhante.

Assistir ao Oscar

Quando tinha uns seis anos, também fui acometido pela interessante febre que contagia certas crianças: passei a colecionar um monte de coisas. No princípio, álbuns com as figurinhas que vinham com o chocolate Surpresa, que tenho até hoje (de um deles nutri uma longa paixão pela paleontologia). Mas eram muito fáceis de completar, pois só tinham trinta figuras. Depois passei aos álbuns do chiclete Ping Pong, com cem. Além disso, colecionei tazos, geloucos, minicraques e um monte de coisas que não vinham com doces, salgadinhos ou refrigerantes.

Mas chega uma idade, lá pelo começo da adolescência, que a gente fica meio com vergonha de catar embalagens ou copos plásticos usados para trocar por brinquedinhos coloridos, mesmo estando doido pra fazer isso.

Hoje em dia, não posso dizer que coleciono nada. Compro e acumulo livros, mas o colecionador de verdade escolhe primeiras edições autografadas, esse tipo de coisa, e jamais aceitaria a ideia de ler um livro emprestado. Eu sempre fui mais atraído pela ideia de completar o álbum, e qualquer um sabe que a biblioteca completa é um devaneio borgiano. Em vez disso, substituí por listas minha antiga mania. 100 filmes essenciais, 100 romances de 1923 pra cá , 1001 coisas para fazer antes de morrer. Completar uma delas é bem mais difícil e emocionante que colar figurinhas de chiclete.

Uma lista que de tempo em tempo dou uma conferida é essa do Oscar. Eu sei que na prática a do Globo de Ouro e a de Cannes são até mais sérias e justas, e também dou uma olhada nelas de vez em quando. Mas ainda assim, o Oscar é praticamente um sinônimo de premiação para uma arte. Eisner: “o Oscar das HQs”; Tony: “o Oscar do teatro”; Jabuti: “o Oscar da literatura brasileira”. Entre os prêmios, talvez só não seja mais importante que o Nobel (Al Gore poderia dizer).

Li ontem que premiar obras imerecidas é um costume milenar, e devo reconhecer que o Oscar respeita esta tradição. Já assisti a vários “melhores” filmes, principalmente da década de 70 pra cá. Se ele fosse mais justo, possivelmente eu deixaria de ver Kramer vs. Kramer, que é pior que Apocalipse Now, ou Operação França, inferior a Laranja Mecânica e A Última Sessão de Cinema, e que gostei bastante. Os perdedores viraram clássicos independentemente do prêmio, e são muito mais vistos. Agradeço à falta de visão dos votantes (quem gosta de justiça, deverá conferir os vencedores em língua estrangeira. Estão lá, praticamente escondidos, filmes como Trens Estritamente Vigiados, Mephisto, Z, Kolya, mais um monte de De Sicas, Fellinis, Bergmans, Kurosawas).

Também andei pensando em como ficou mais divertido assistir às premiações. Comecei a vê-las no tempo que ia guardando minhas coleções na gaveta. Elas eram muito longas, chatíssimas, eu não entendia quase nada de inglês, tampouco de cinema, e não tinha visto nenhum dos filmes. Um dos poucos discursos legais aconteceu praticamente esses dias. Na primeira premiação que vi, em 1998, torci para Titanic, um estouro midiático que só tive a chance de ver uns seis meses depois, em vídeo. Na segunda, para O Resgate do Soldado Ryan, porque era do único diretor concorrente que eu sabia o nome, Spielberg. Na terceira, por O Sexto Sentido, porque assistia a muitos filmes de terror.

Todas estas razões são estúpidas, mas refletem seu período. Estávamos à mercê das distribuidoras. Mesmo quem vivia em cidades com cinema, geralmente só podia ver os filmes depois da premiação, quando finalmente eram exibidos. Daí que a maioria assistia à premiação com o olhar viciado. Este é o preconceito no sentido mais puro da palavra: julgar sem conhecer.

Vez ou outra, algum escapava e era lançado antes, e era ainda pior que não conhecer nada. Quem só visse um e não gostasse, involuntariamente torcia contra, sem ter visto os outros; e vice-versa. Não faz muito tempo que cometi esse equívoco. Em 2007, meus favoritos eram Os Infiltrados e O Labirinto do Fauno. Torci por eles, como é de se esperar, e fiquei indignado quando o segundo perdeu para um filme desconhecido. Meu Deus, a fantasia de Guillermo del Toro era boa demais para sequer dar a chance! Mas A Vida dos Outros me deu vergonha, porque de fato consegue ser melhor.

E isto é o que mais mudou de lá pra cá. Hoje este tipo de problema não existe mais. É possível ver tudinho antes, ler críticas, comentar com os amigos, ver de novo, mesmo com dez filmes concorrendo (fala sério. Argo e O Lado Bom da Vida?). Agora a gente assiste à premiação realmente preparados, com disposição para criticar os comentários dos especialistas da Globo e para reclamar no Facebook das escolhas absurdas daqueles caras.

As Brincadeiras de Borges.

A escrita tem esta peculiaridade de independer do meio em que é transmitida: narradas, lidas, declamadas, as palavras ficam as mesmas. Não importa se meu Brás Cubas é de 1881 ou de 2012, lá está o narrador dizendo, com as mesmas palavras, que não transmitiu “o legado de nossa miséria” (por outro lado, lemos Dante, Cervantes, Goethe, sempre em traduções renovadas, revistas, revisitadas. Há sempre uma estranheza em lê-los nos idiomas em que escreveram; são ricos em arcaísmos e expressões inusitadas [jamais antiquados]). Já um Hamlet encenado em 1605 é inevitavelmente diferente dum atual. No mínimo faltam os escarros e escárnios do público. Hoje se respeita demais os concertos, óperas e sonatas; vamos muitas vezes despejando um bolinho de dinheiro antes de entrar, sempre de calças e sapatos, em silêncio, batendo palmas nos momentos devidos, para não atrapalhar os músicos que apresentam a obra de um artista consagrado que provavelmente levou uma tomatada em algum momento de sua vida. A vaia ficou restrita ao futebol.

Mas a questão é que, devido a seu caráter ao mesmo tempo imutável (em relação à forma) e maleável (ao formato), fica mais fácil acreditar num texto em primeira pessoa; está tudo lá do mesmo jeito. Num filme narrado assim, por mais que haja a suspensão da descrença, pensamos que não há o que temer, pois se trata de um ator, este que está sendo assassinado. E não há como o mais novo Lincoln nos convencer para além das portas do cinema, pois sabemos da inexistência das filmadoras em sua época. São tempos bem diferentes daqueles em que se corria de trens.

Mas quando li O Gato Preto pela primeira vez, na adolescência, pensei aterrorizado que Poe tinha matado a esposa! Agora me parece ingênuo, uma vez que estudei as diferenças entre autor e narrador, e as funções da primeira pessoa ao se contar uma história; mas mesmo com tudo isso, quem lê obras como Nove Noites ou os livros de W. G. Sebald pode confundir as vozes que ali estão. Ambos (autores) incluem fotos de si mesmo nos paratextos (Bernardo Carvalho na orelha da edição em brochura, Sebald no meio de Os Anéis de Saturno), ou informações biográficas que se confundem com a obra ficcional. Recentemente James Frey causou escândalo ao vender como não-ficção seu A Million Little Pieces, com muitos trechos inventados, o que lhe trouxe problemas com a Oprah.

No cinema isso me parece muito mais bem feito quando a ficção se mistura ao documentário. A Bruxa de Blair realmente parece um filme amador, e o final em aberto, sem monstros, assusta. Já o Sacha-Baron-Cohen se transforma nos personagens dos filmes que lança, apesar de que hoje em dia ele está muito famoso. Quando fez Borat, muita gente pensou que era um documentário de verdade. O Joaquin Phoenix também causou polêmica ao endoidecer por um ano inteiro, sem aparente motivo.

Como disse, passei a me instruir sobre as diversas formas de narrar, e seus truques. Mas logo no começo, caiu-me nas mãos o meu primeiro Borges. Isso é um choque, para um leitor inexperiente. O argentino, também consciente destas artimanhas narrativas, escreveu contos com elementos do ensaio acadêmico, com toda a erudição possível, se apoiando numa pretensa infalibilidade dos doutores. Eu não sabia que ele era um brincalhão, e apesar do livro se chamar Ficções, acreditava em algumas daquelas narrativas maravilhosas (principalmente no ensaio sobre um sujeito que reescreveu o Quixote de cabo a rabo e, de acordo com os argumentos do ensaio, criou uma obra original).

Com Bioy Casares, inventou não só um pseudônimo para seus contos policiais, mas um autor, com estilo e personalidades próprias, e que como pessoa me parece mais real que o Pynchon e o Trevisan. Depois, com seus próprios nomes, criticavam os textos do sujeito, conforme aprenderam com o Swift. O próprio pseudo-autor, Bustus Domecq, fazia críticas de obras de arte modernistas que não existiam. Quem não sabia do segredo realmente acreditava; hoje estes textos vêm assinados pela dupla.

Veja o que os dois dizem numa propaganda de coalhada:

“Quem tem saúde tem esperança, e quem tem esperança tem tudo – dizem os árabes, esses musculosos falcões do deserto, mas eles têm por trás da esperança algo que luta por sua saúde: a coalhada.”

Isto estava numa propaganda que fizeram juntos. Também diziam que o iogurte aproxima o homem da imortalidade e na Bulgária, onde é um alimento apreciado, proliferam os centenários. “O exemplo clássico é dos onze irmãos Petkof que chegaram todos aos cem anos, com exceção de María Petkof, morta aos 91”.

E aí está. Além de seu grande poder descritivo e argumentativo, Borges, com ou sem Casares, trazia fontes e exemplos dos lugares mais remotos e inacessíveis da história do planeta. Como se ele mesmo possuísse um Aleph, e pudesse ver tudo. No entanto, não era todo mundo que tinha acesso aos mesmos volumes raros e esquecidos de sua biblioteca. Outros não tinham capacidade de ler tantos textos complicados nos mais diversos idiomas.

Mas o criador da Biblioteca de Babel não podia contar com a invenção do Google. Sem um motivo específico, resolvi conferir como estava em minha Bíblia a tradução de certo versículo que ele cita. Não existia! A partir de então, passei a verificar com mais atenção alguns desses nomes estranhos que ele citava, jogando no Google. A mais divertida eu descobri antes de digitar a palavra, e está  no conto “A Loteria da Babilônia”:

Para indagar as íntimas esperanças e os íntimos terrores de cada um, dispunham de astrólogos e de espiões. Havia certos leões de pedra, havia uma latrina sagrada chamada Qaphqa, havia algumas fendas no poeirento aqueduto que, conforme a opinião geral, levavam à Companhia; as pessoas malignas ou benévolas depositavam delações nesses sítios.

A falta de informação é a origem de certas crenças. Me perguntei, pasmo, de onde ele tirava estas informações. O segredo é bem simples. Nós, os leitores, tendemos a simplesmente pular os nomes próprios de idiomas deveras estranhos, a não ser que já sejam famosos, ou os lemos sem atenção. Lembramos pouco de nomes árabes, suecos, russos, japoneses. Daí que o “q” e o “a” juntos são muito estranhos para que lhe dispensemos um pensamento mais profundo. Parece árabe. O “ph” soa diferente, principalmente em português, como as coisas do idioma antigo. Mas basta uma lida em voz alta, e lá está um escritor bastante conhecido. Depois disso parei de procurar, repetindo sozinho o nome do sagrado Qaphqa.