“Sonho americano?” (artigo no Blog da DS) + FestFronteira Experience

Publiquei no blog da editora DarkSide Books um artigo chamado “Sonho Americano?”, sobre os últimos romances que traduzi, Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, e O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock.

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Amanhã participarei do FestFronteira Experience com José Francisco Botelho e mediação de Vera Medeiros. Provavelmente falaremos de canas, sotaques, resenhas, nossas respectivas viagens (dele para o Nordeste e minha para o Sul), e inclusive de literatura.

 

Psicopata americano + O mal nosso de cada dia

Estão em pré-venda mais dois livros que traduzi para a DarkSide Books, Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, e O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock.

Quando comecei a traduzir Psicopata Americano, tinha apenas uma noção da história, pois nem tinha visto o filme ainda, e não sabia que era um romance experimental, repleto de jogos de linguagem e invenções narrativas. Além disso, é o livro mais violento que já li, com doses fartas de um humor pesado e incômodo. Causou polêmica por tentarem censurá-lo no começo da década de 90, quando ninguém sonhava que o herói do protagonista se tornaria presidente dos Estados Unidos.

 

Fico feliz demais por finalmente ver O Mal Nosso de Cada Dia pronto (tenho até um caso curioso do processo tradutório pra contar depois). Nesse romance, acompanhamos um ex-combatente de guerra que faz sacrifícios por sua esposa com câncer, um casal de serial killers, um policial corrupto, e uma inesquecível dupla de pastores. O livro já foi classificado como thriller, “Ohio” Gothic, grit lit, várias coisas, mas basta saber que é um romance pesado, violento e melancólico, de prosa exuberante, na pegada de Flannery O’Connor e Cormac McCarthy. Assim como Psicopata Americano, tem muito a dizer sobre as pessoas que votaram em Trump, mas agora na posição oposta da pirâmide social. Em setembro sai uma adaptação cinematográfica pela Netflix.

Sobre outras traduções:
Antologia Macabra – Hans-Ake Lilja
O Médico e o Monstro e Outros Experimentos – Robert Louis Stevenson Apologia dos Ociosos – Robert Louis Stevenson
Dois ensaios – Karel Capek

No silêncio da rima oculta

No silêncio da rima oculta
(Paulo Raviere)

No silêncio da rima oculta
Reverbera uma resposta
Quem tem ouvido a
Posso até fazer uma

Rima nenhuma será dita
Pois o sentido está claro
Se você não
No papo de

No lugar da rima ausente
Somente um espaço vazio
Como a cuca do
Que hoje preside o

No silêncio da rima oculta
Reverbera uma resposta:
Aquele filho da
Não vale uma ruma de

Cotidianas (Coronarovírus Covard-17)

Para não se perder nesse buraco negro do insight que é o Facebook, volta e meia reúno aqui as Contradições Cotidianas que posto lá. (Procurem as outras: a I, a II e a III). Há dois anos, dado o contexto, rebatizei a série por “Cotidianas”.

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Bolsonaro pula num esgoto.

MINIONS: Milagre, a água está pura! Cisnes e golfinhos foram avistados nela. Quem bebe desta água está ungido.

REALIDADE: Bolsonaro polui um esgoto.

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Bolsonaro é o barômetro da ignorância. Há um mês escrevi um texto humorístico em que evidenciava certa despreocupação com o corona; aí, poucos dias depois, ele fez aquele pronunciamento antalógico do “histórico de atleta”, e me vi pesquisando mais, levando isso a sério, comecei o isolamento. Toda vez que ele abre a boca, indica um caminho que devemos evitar. Seria até reconfortante termos esse instrumento infalível, que aponta com precisão para onde venta a estupidez – seria reconfortante, se ele apenas apontasse.

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Aprendam de uma vez por todas: neoliberais não choram. Eles fazem conta, mesmo quando as pessoas estão a morrer à sua volta.

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Obviamente, o comércio de bebidas não está preocupado.

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É de lascar o esforço intelectual desse quadrúpede pra ler umas merdas mal escritas num teleprompter. Falta soltar fumaça pelos ouvidos. Mais dois minutos e ele tem um piripaque, desmonta a carcaça toda, pega fogo. Imagine um energúmeno desses num debate ao vivo. A linguagem desse animal só pode ser o coice e o relincho mesmo, não tem jeito.

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O momento de afastar o jumento é agora, hoje mesmo. Se ninguém botar umas rédeas nesse animal, o país verá uma mortandade sem precedentes (conforme estamos avisando), e ele ainda conseguirá contornar a situação depois que a crise passar. Nunca duvide da canalhice dele e da imbecilidade desse povo que o elegeu.

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Gente no mundo inteiro levou o meme a sério e agora tenta escrever o seu Rei Lear – mas só tenho visto diários da quarentena. Nada contra, tenho até amigos diaristas, e não duvido que criarão belas obras sobre a coisa toda, à maneira de Montaigne ou De Maistre ou Defoe ou Sontag ou até Ferrante (terremoto), ou talvez algum diário adquira importância histórica – para quem não vive agora ou quem é jovem demais para compreender, mais por força do que é relatado que pela qualidade da prosa em si; MAS, exceto por diários de uma fuga do Irã, de um contaminado, de um profissional de saúde, dos bastidores políticos, de Allan Sieber, a última coisa que me instiga nesta quarentena são diários desta quarentena.

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Alguém tá sabendo da praga de gafanhotos?

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Há meia década escrevi breve um texto chamado “Praias infestadas por máquinas destruidoras de carne humana”, em que comparo a peça “Um inimigo do povo”, de Ibsen, com o filme “Tubarão”, de Spielberg. Embora tenham muitas semelhanças, a grande diferença está na natureza do que os protagonistas estão enfrentando. Um grande e sanguinário tubarão branco é muito mais assustador que um rio poluído, muito embora este seja mais nocivo. A questão é que as cinco ou seis mortes pelos dentes do tubarão são ruidosas, rubras, imediatas, e as dezenas de mortes pela poluição do rio são lentas, pálidas, mofinas, não apelam a nossos sentidos.

Pois bem, acabo de ler que a quarentena na China poderá salvar muito mais gente, pessoas que morreriam por conta dos altíssimos índices de poluição do país, do que pelo coronavírus em si. A questão é que essas seriam mortes longas e silenciosas, que não se tornam notícia, não abalam os nossos instintos. E agora, como ninguém sai de casa, ninguém polui. O céu voltou a nascer azul em algumas grandes cidades. O coronavírus é muito watchmen.

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Não há nada tão ruim que pessoas mal intencionadas não consigam piorar. Trecho do diário da fuga do Irã, de Clara Becker, publicado na Piauí: “A agência iraniana Fars reportou que ao menos 27 pessoas morreram por acreditarem em uma fake news que dizia que a ingestão de álcool curaria o coronavírus. Como a venda e consumo de bebidas alcóolicas são ilegais no país, as pessoas acabaram recorrendo ao etanol e metanol como substitutos, e os hospitais passaram a receber centenas de casos de intoxicação depois que o boato se espalhou.”

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mu mu mu muge mais quadrúpede ruminante boi bandido animal de abate na feira de exposição muge mais vaca leiteira bezerro das mamatas carne de segunda mal passada mu mu mu muge aí que não tem bandido de estimação mas tem um vaqueiro tem um jumento que montando em suas costas muge muge mais 17 arrobas a caminho do matadouro a sua carne sempre será vermelha

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Mal mesmo, desejar que agonize e morra, nunca desejei a ninguém, #forabolsonaro.

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Todo minion arrependido, ou ao menos os minions que discordam da política do bozo em relação ao enfrentamento do coronavírus (pois muitos sabem do perigo da doença, defendem a quarentena, mas continuam apoiando ele), pra mim tinha a obrigação moral de postar que Bolsonaro está errado e de fazer campanha entre os minions para eles ficarem em casa. No mínimo.

coronaro

Alguém sabe quem desenhou isso?

Não vejo problema em quem não gosta de ler e estudar. Algumas pessoas têm as vistas cansadas, não desenvolvem o hábito, acham complicado – muita gente é inteligente e articulada sem ler e estudar. Mas não dá pra inventar de ser pesquisador sem a leitura e o estudo. Ainda mais complicado que ler e estudar, é escrever, buscar fontes, coletar dados, fundamentar informações, fundamentar interpretações, desenvolver linhas de raciocínio coerentes, e ainda tentar organizar tudo isso de maneira elegante e compreensível para as pessoas que querem ler e estudar – talvez pesquisar de outros modos, talvez pesquisar outras coisas. E assim as pesquisas, as leituras, as interpretações se complementam, dialogam e às vezes entram em choque.

Da mesma maneira, assim como não vejo problema em quem não gosta de ler e estudar, tampouco vejo em quem não gosta de malhar – atividade cujas complicações são de ordem diversa daquelas da leitura e do estudo. Mas então, do mesmo jeito que eu, que não sou malhado, não vou inventar de descarregar uma carrada de azulejos (pesa pra caralho), simplesmente não posso aceitar um debatedor que não tenha alguma pesquisa do tema – não posso aceitar que uma pessoa que nunca leu nem uma revistinha da Mônica até o final me venha com frases feitas, suposições, preconceitos, falácias, aleatoriedades, memes, tuítes como se fossem o suprassumo da inteligência, tentando rebater um argumento coerente, fundamentado e claro. Não posso aceitar uma presepada dessas num palco, na TV, num boteco, no whatsapp.

Isso tudo pra dizer que o que mais me impressionou no único debate que vi de Gabriela Prioli não foi nem a força retórica da moça, por si só impressionante – mas a serenidade no trato com aquele sacana (que mesmo assim faltava chorar, ressaltemos). Em pleno 2020, já perdi essa paciência faz anos. Eu teria mandado aquele otário se lascar na mesma hora.

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Escritor que detesto: há uma escritora da carona de ovo de granja que eu achava fraquíssima, até conhecer pessoalmente e passar a detestar.

Escritor sobrevalorizado: Clarice, mas Paul Auster não lambe as botas dela. E um tradutor badalado por aí.

Escritor subvalorizado: Karel Čapek. Marcel Schwob. William Hazlitt. Eleanor Catton. Húngaros. Ensaístas. Mulheres. Mulheres ensaístas. Húngaras. Ensaístas húngaros. Húngaras ensaístas.

Escritor que amo: Stevenson, heheh. Lamb. Proust. Montaigne. Fadiman.

Livro de cabeceira: a poesia de Eliot. Os ensaios de Montaigne.

Escritor que me fez me apaixonar pela literatura: Poe.

Escritor que mudou minha vida: Proust.

Escritor que me surpreendeu: a Woolf ensaísta. O Orwell ensaísta.

Escritor que me perturbou: Otto Lara Resende. Mariana Enriquez. Flannery O’Connor. Vale O Relatório de Brodeck (a hq)?

Escritor que gostaria de ler com calma: Gertrude Stein. Milton. Gibbon. Pynchon. Mann.

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Ricardo Coimbra: “Quem não entendeu até agora tem que entender: não tem debate com bolsonarista. Eles não usam as interações nas redes pra conversar. Usam pra veicular propaganda política que recebem pelo Whatsapp (espalhada por lá com dinheiro público, obviamente). Quando você responde a um bolsonarista, você não está enfrentando nada. Ele não está disputando um argumento com você. Ele não está sequer conversando com você. Ele só quer espaço do seu post pra colocar a propaganda dele. Quando você responde a ele, a propaganda dele ganha relevância no algoritmo e mais visibilidade (sobretudo se a discussão se arrastar por muitas réplicas e tréplicas). É bait. Truque básico de comunicação digital no qual seguimos caindo. Se você conversar com ele, ele ganhou espaço e, portanto, venceu. Ele quer espaço. Qualquer espaço. São parasitas do ambiente virtual e seu post é o hospedeiro. Tá na hora de outro tipo de isolamento”.

*
A vocês que se arrependeram agora, eu avisei, nós avisamos muito. Se não ouvirem a gente em outubro (se houver eleições), vocês têm mais é que se lascar.

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Não se trata de afirmar que Bolsonaro é merda. A merda não muda a consistência do esgoto – todo mundo faz merda. A merda, embora dejeto, é humana. Bolsonaro é mais abjeto, e quando ele entra no esgoto, a merda fica tóxica. Monstros mutantes crescem nesse ambiente.

O Fim do Universo

O Fim do Universo

Veja os gritos e o delírio
Da cidade em desespero:
Pessoas sujas, farrapos,
Correndo pelas vielas,
E o barulho que escapa
De tambores e trombetas
Que tremem sobre as muralhas.

São só os risos e os ruídos
Da cidade inteira em festa,
E da canção derramada,
Que atravessa os labirintos,
Ludibria os deuses parvos,
E foge pelos atalhos,
Seguida dos condenados.

Veja o palco iluminado
Pelos astros se beijando:
Dois amantes que se entregam
À tragédia de suas danças,
Porque Baco, com sua lira,
Os protege e aquece e os livra
Dos demônios que surgirem.

Ouça a trilha dos venenos
Que entorpece os fedelhos
E deita idosos nos sonhos;
Que quebra cada cancela
E tira o sono das bestas;
Que traz ar aos moribundos
Ao trincar as suas janelas.

Veja o Caos que se levanta
À cifra do fim do mundo
À dança que paira ao vento
Ao fogo que não se apaga
Ao povo que afaga o tempo
À ordem que se atrapalha
Ao gozo que para o Centro.

O Demiurgo se inquieta
Cambaleia, faz caretas
O vinho lhe alcança a testa
O domina a sonolência
Quase explode, mas tropeça
Mete a nuca na calçada
Depois nunca mais desperta.

A cidade nem se importa
Com o grande vagabundo.
Só admira a festa eterna,
Mergulhada em suas adegas;
Se escondendo nas garrafas
Que regam seus pavimentos
E regem as suas fanfarras.

Veja os gritos e o delírio
Da cidade em desespero:
Pessoas sujas, farrapos,
Correndo de compromissos
Pulsando por ruas estreitas
Rumo ao ritmo da vida,
Que os comanda a festejar.

Poema pertencente ao livro As Maçãs do Fel (inédito)

O Gado de Pancada

São tempos difíceis, meus caros, mas a quarentena para evitar o contágio do coronavírus nunca foi motivo para negligenciarmos outros aspectos de nossa saúde. O risco mais grave e imediato não elimina os ricos menores: precisamos cuidar também de nossa saúde mental. A letargia é nociva e a longo prazo pode ser irreversível. Como qualquer músculo dos braços ou das pernas, o cérebro atrofia com a falta de exercícios rotineiros. Obviamente, você pode aproveitar a quarentena para tirar do papel projetos intelectuais ambiciosos, rever Six Feet Under, encarar O Paraíso Perdido, terminar de escrever aquele velho livro de contos policiais, aprender latim com Frederico Lourenço, ou apenas desfrutar de todo o entretenimento gratuito que a internet nos oferece, sem metafísica, sem mais compromissos com os meses que se sucederão. De minha parte, nesta quarentena abri os olhos para a importância do gado de pancada.

Sabemos que muitas vezes o gado é alguém cuja convivência, não fosse pela doença da polarização, seria aprazível, até mesmo desejável – e sabemos disso por termos convivido com essas pessoas antes da generalizada seca de inteligência que agora nos assola. O gado do convívio não nos deseja o mal pessoal, porém sua obstinação e ignorância nos causa mal coletivo, à distância, a longo prazo. Durante muito tempo tentamos discutir a sério com essas pessoas, mas não existe resiliência que supere a burrice arrogante, a teimosia. Fatos e argumentos lógicos de nada servem. Essas pessoas merecem apenas nosso desprezo.

O gado de pancada precisa ser alguém com quem não nos importamos; ao menos alguém que não importamos em humilhar gratuitamente. L’Art pour l’art: bater motivado apenas pelo nobre exercício de bater. Toda essa tensão demanda um destinatário, não é mesmo? Mesmo assim, não corra riscos desnecessários: escolha alguém que não irá até sua casa lhe acertar uma bifa no pé do ouvido, e consequentemente passar o coronavírus não apenas a você, mas também à sua família e à comunidade ao redor. É preciso o mínimo de consciência cívica. Deixemos a porradaria para depois da crise sanitária.

O gado de pancada ideal, por sua vez, seria alguém em que nos permitiríamos o luxo de despejar ofensas gratuitas e baixas sem qualquer compadecimento. Se você sente receios em chamar alguém de quadrúpede, imbecil, jumento, palhaço, analfabeto, idiota, esgoto, lixo, pilantra, escória, desgraçado, escumalha, canalha, hipócrita, mongoloide, esse não é um gado de pancada ideal, ou talvez isso não seja para você, acontece. Mas saiba que o gado brasileiro poderia figurar entre aqueles animais de Baudelaire, “latindo, berrando, uivando, rastejando na jaula de nossos vícios”, porém enquanto Baudelaire lhes dedica o fel, o gado de pancada é tão patético que é digno somente de nosso escárnio. Não sinta pena; o gado de pancada tem a cabeça dura, capaz de suportar umas boas marretadas de vez em quando. Como eu disse há um ano, esculhambar com esses quadrúpedes não apenas é aceitável, como também nossa obrigação cívica.

São ricas as maneiras de se insultar um gado de pancada. Algumas são variações das próprias respostas que eles usam. Assim como eles respondiam “mimimi” para qualquer argumentação discordante, por elaborada que fosse, podemos dizer “mumumu” sempre que abrirem a boca. Se diziam “chola mais”, podemos retrucar com “muge mais”. Quando afirmam que não têm bandido de estimação, é porque hoje adotaram um jumento de estimação – um jumento decidido a montar neles todos os dias.

Seja multimídia: mande memes, figurinhas, fotomontagens, charges, áudios de berrantes, vídeos de boiadas no Mato Grosso. Tudo é válido, inclusive chamá-los de comunistas. Depois de abatidos, a carne deles sempre será vermelha. A depender da situação, você pode até mesmo apelar para a escatologia, ao modo de Zé de Abreu. O segredo é jamais prestar atenção no que eles vomitarem de volta.

Caso se sinta na necessidade de um insulto mais elaborado, aviso de antemão que eles não causarão tanto efeito; a boiada, sabemos, é composta basicamente de iletrados. Mas em épocas de quarentena, as ofensas elaboradas podem ser divertidíssimas contra os que arrogam intelectualidade, ou para compartilhar entre os amigos de resistência. Após uma tarde de redondilhas rimadas que esculachavam com o bozo, José Francisco Botelho me instigou a também escrever uns versos de escárnio:

Quando o jumento abre a boca
derrama chuvas de bosta
mas a boiada acha pouco
tomar estrume nos cornos
ficar com cheiro de fossa
e se debanda em estouro
soltando mugidos mornos
levando o burro nas costas
com destino ao matadouro
como se fossem lanceiros
ao derradeiro combate.
Mal sabem que seu papel
nessa batalha vencida
não é sangrar no ataque
e sim virarem comida
pros carcarás do quartel
que já amolam peixeiras
facões, espetos, cutelos
e se preparam pro abate
de tanta carne vermelha.

Confesso que tem pouquíssimo apelo em meio ao gado de pancada, que jamais leria tal volume de texto, mas saí bastante satisfeito, após uma semana insultando diariamente um animal do grupo de minha família. Não abuse dos insultos com um único gado de pancada, ou o prazer do exercício se diluirá. Assim como algumas pessoas mantêm uma lista de contatinhos, mantenho um curral com gados de pancada. Isso nunca se fez tão necessário. Adote um gado de pancada, compartilhe-o com seus amigos. E nunca se esqueça, em hipótese alguma: jamais dê importância ao que o gado de pancada está mugindo.

Este texto dialoga diretamente com dois textos que escrevi antes, Conge ou conje? e A Diversidade do Insulto.

NOTAS INSENSÍVEIS SOBRE O CORONAVÍRUS

Já é certo que vou pegar o coronavírus. Horas antes de entrar no ônibus para SP, minha irmã falou para eu não vir e respondi com chacota. Minha irmã é Cassandra de Troia; tudo o que ela fala é recebido com chacota e depois acontece, portanto já está escrito que vou pegar o coronavírus.

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Por outro lado, se fizer sentido a preocupação excessiva com minha avó, pelo que leio no grupo de whatsapp da família, é porque Irecê já está nos lugares de risco, e se é pra pegar coronavírus de um jeito ou de outro, pelo menos aqui em SP vou resolvendo minhas coisas.

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Minha preocupação é não me deixarem entrar no RS em maio. Espero que até lá a quarentena não faça mais sentido (se por falta ou por excesso, vai depender da higiene de vocês).

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De acordo com os gráficos comparativos que compartilhei hoje cedo, a gente deveria estar mais preocupado com a tuberculose que com o coronavírus.

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De acordo com os gráficos comparativos que não compartilhei hoje cedo, estou mais preocupado com o dólar a cinco pilas que com o coronavírus.

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Antes da praga rogada por minha irmã, passei uns dias lendo sobre grandes endemias, epidemias, pandemias da História, e pra mim o coronavírus é tipo um Paulo Henrique Ganso das doenças: muita expectativa, pouco resultado.

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Claro, são milhares de mortos. Mas são milhares de mortos na China. Falemos a verdade, o mundo só ficou preocupado de verdade depois das centenas na Itália.

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Uma quadra de Quintana:

A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais…

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É a mesma lógica do ataque terrorista no Líbano na véspera do atentado na França.

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Ah, não se lembram do atentado em Beirute?

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Em abril meu compadre volta da Itália, após vários meses. Logo, não deixarei ele ver a afilhada.

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Escrevi sobre a competição de tragédias há uns anos, e o coronavírus é o Paulo Henrique Ganso das doenças.

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Em um mundo com muito menos pessoas, e menos preparo ainda, a Peste de Justiniano matava dez mil por dia.

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A Praga Antonina matou cinco milhões de pessoas.

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A Peste Negra matou vinte milhões em seis anos – um quarto da população europeia da época.

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Não entendo nada de medicina, então posso apenas especular que essas doenças não seriam tão fatais hoje em dia.

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Torço para o coronavírus não se alastrar na Índia.

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Há um século, no recorte de apenas 18 meses, a Gripe Espanhola matou entre 50 e 100 milhões de pessoas no mundo inteiro, mas principalmente na Índia.

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A Gripe Espanhola matou um presidente brasileiro.

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Na primeira gestão desse presidente, fizeram uma revolta porque ele tornou obrigatória a vacina contra a varíola.

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Hoje tem gente que não acredita em vacina.

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O atual presidente nega dados científicos.

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Muita gente acredita no atual presidente.

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Hoje tem gente que faz “revolta de apoio”.

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Idosos estão no grupo de risco do coronavírus.

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O atual presidente brasileiro passará por uma nova cirurgia.

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Não se trata de torcida para que o atual presidente pegue o coronavírus.

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Minha insensibilidade tem limites.

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Trata-se de uma sugestão.

Cotidianas (III)

Para não se perder nesse buraco negro do insight que é o Facebook, volta e meia reúno aqui as Contradições Cotidianas que posto lá. (Procurem as outras: a I, a II e a III). Ano passado, dado o contexto, rebatizei a série por “Cotidianas”.

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Leftsplaining: explicação longa para qualquer babaquice dita pelos fascistas. Bolsonaro fala que a Terra tem a forma de arminha e lá vem o textão com evidências científicas do contrário. Eduardo viu no YouTube que depois da guerra Hitler fugiu para o Brasil, deixou a barba crescer, e passou a se chamar Lula, e lá vem o vídeo em que um renomado historiador alemão explica o que realmente aconteceu. Carluxo diz que comer cocô é bom e voilà: uma sequência de depoimentos de chefs e nutricionistas nos explicam que é ruim. A asneira é uma tática dos parvos e perversos para colonizar as mentes que eles não ludibriaram. Só precisam de um minuto para roubar nossa atenção, enquanto precisamos de muito tempo para argumentar qualquer coisa decentemente. Por isso tenho um método infalível para lidar com as idiotices do clã: considero ABSOLUTAMENTE TUDO o que eles disserem mentira, besteira, escroto, ou ridículo. Se porventura ficar em dúvida, é porque não li direito, pois com certeza será mentira, besteira, escroto ou ridículo. Nunca falhou. Só não preciso de um textão que me explique como ou por quê…

*

Ridendo castigat Moro.

*

Há um ano publiquei um texto chamado “A diversidade do insulto”, e para discorrer sobre a escatologia usei como exemplo o outro Moro, Tomás Moro (Morus, More) soltando os demônios pra cima de Lutero (nem cito aqui – é barra pesada). Aí esta semana vem nosso Moro, o melindroso Marreco de Curitiba, me prova que até no papel de escroque é bem chinfrim. Imagine você falando mal de alguém numa conversa privada, e que esse alguém seja o MBL – Moro podia se referir aos “arrombados do MBL”, àquele “bando de cuzão do MBL”, “renca de escroto do caralho do MBL”, mas não, e AINDA PEDIU DESCULPAS por chamá-los de –

“tontos”.

*

Recapitulando: Cunha “combatendo a corrupção”, “terraplanistas em todo o globo”, generais “comunistas”, anarco-capitalistas; e agora o gado questiona a legalidade dos métodos dos jornalistas que divulgaram os MÉTODOS ILEGAIS da corja.

*

A balbúrdia comendo solta no #14J e eu só imaginando aquela alcateia de conspiradores, viciados em celular como qualquer um de nós, se coçando para combinar umas maracutaias, porém se cagando de medo de conversar pelas redes sociais onde tanto chafurdaram nos últimos anos.

*

Nossos números são ridículos. O que um deputado gasta mensalmente com sobremesa dá pra bancar o projeto de um escritor ambicioso; as gorjetas que estudantes e cientistas ganham são tão irrisórias quanto o número de estudantes e cientistas que ganham algo – um peteleco na economia do país, mas toda a diferença para eles (nós). Diante do festim dos responsáveis, não há como aceitar que não há dinheiro; muito menos que esse dinheiro será remanejado para prioridades, porque EDUCAÇÃO E CIÊNCIA SÃO PRIORIDADES. Eles querem justificar de tudo quanto é jeito, mas sabemos que os cortes são apenas uma etapa do projeto fascista: a curto prazo, acabar com a cultura, a educação, a ciência; a longo prazo, acabar com tudo isso aqui. Estão cumprindo o que prometeram.

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Sabe quando você está levando umas cervas geladas pra casa de alguém e tira uma da sacola pra ir bebendo no caminho? Por isso o número quebrado – 39. [Ma in Spagna son già mille e tre.]

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Witzel, JB, Trump são caricaturas daqueles vilões ressentidos e manipuladores contra os quais crescemos acostumados a torcer em filmes, gibis, desenhos animados, e que lá pelo final da adolescência, no auge da arrogância intelectual por termos lido Salinger, Watchmen e visto os primeiros Kubricks, aprendemos a rechaçar por conta de seu maniqueísmo, porque “na vida real as pessoas têm muitas nuances”. Parece que o jogo virou para os roteiristas da Disney e do Capitão Planeta, não é mesmo?

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Esse Ministro do Desmatamento é a cara do advogado do Rei do Crime.

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Alguém podia fazer uma página tipo “A fantástica fábrica de cortinas de fumaça” só pra mostrar o que cada fala bizarra do Bozo e sua trupe visa ocultar. Nela haveria postagens como “A esdrúxula acusação a Leo di Caprio faz a gente esquecer que Carluxo é suspeito de envolvimento na morte de Marielle” ou “O comentário aleatório sobre os roqueiros é para desconcentrar a raiva que sentimos dos PMs”. Garanto que eles têm um catálogo de declarações bizarras para soltarem a cada nova tragédia ou escândalo (o que acontece ao menos duas vezes por semana). “A fantástica fábrica de cortinas de fumaça” – fica aí a ideia.

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Minha suspensão da descrença me faz acreditar de boas em Demogorgon e otherside e Eleven, mas quem já traduziu qualquer coisa sabe que forçaram a barra com aquela menina vertendo um ÁUDIO DO RUSSO sem saber nada do idioma.

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Vendo esse clipe de Baco Exu do Blues me vem uma listona de obras de arte excelentes produzidas no país nos últimos tempos, e sou impelido a acreditar (uma crença cega, talvez) de que apenas a beleza salvará o Brasil.

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A morte dos monstros não é nada silenciosa [se quiser eu conto como foi a de Mussolini].

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Alguém me diz se faz sentido um negro, uma mulher, um gay sentir medo de sair na rua, e um nazista achar de boas esfregar sua suástica na cara de todo mundo? Sabemos de antemão que nossa polícia necrófila não fará nada com eles. Expor por expor não adianta, pois é exatamente o que eles querem. O correto é chegar na voadora, dar murro na cara, cadeirada nas costas, chute nas costelas, e só depois disso expor esses caras. Expor o inchaço, expor a suástica melada de sangue. Bater em nazista não se configura violência. Os nazistas precisam sentir medo.

*

Não dá pra relativizar a destruição. Quando mataram Marielle, vi muita gente acusando a esquerda de politizar a morte dela, vejam bem, o assassinato de uma POLÍTICA. Acabou que meses depois foram os fascistas que politizaram (ainda mais) o crime, ao quebrar a placa em sua homenagem. Politizaram, mas em favor dos criminosos (eles próprios). Agora estão dizendo a mesma coisa da morte de Ágatha – resultado da política do mesmo homem que quebrou a placa de Marielle, espécie de Wilson Fisk que atira a esmo de helicópteros enquanto dança ao som dos fuzis. Estão acusando a esquerda de politizar o crime, mas na verdade eles que estão tentando despolitizá-lo. Se Ágatha fosse meia década mais velha, tentariam distorcer ou justificar a morte; como não têm o que dizer sobre uma criança fuzilada por eles, pintam o assassinato como uma eventualidade resultante do intenso combate ao tráfico. Mas é tudo muito óbvio: as “eventualidades” têm lugar, cor e condição financeira, as “eventualidades” não ocorrem eventualmente; Witzel sempre foi um assassino e quem o colocou lá tem sua parcela de culpa, sem mais.

Destruição é destruição, não dá pra relativizar isso. Se alguém tenta justificar, distorcer ou mostrar um hipotético lado positivo de assassinatos de inocentes, desaparecimentos, tortura, incêndios de museus e florestas, desabamentos, o aparelhamento ou censura de nossa produção intelectual, de toda essa destruição sistemática, já faz muito tempo que essa pessoa deixou de ser humana. Quem viu Bacurau já sabe o que fazer.

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Há muita gente relacionando os movimentos no Chile com o filme do Coringa, e concordo. Pra mim é uma simbiose: a realidade influencia a ficção, que, por sua vez, influencia a realidade. Por sinal, os pescadores removendo o óleo da praia na tora me lembra muito Bacurau. Só o povo poderá salvar o povo.

O Médico e o Monstro e Outros Experimentos

 

Já está quase pra sair pela DarkSide Books O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, volume de contos e novelas de Robert Louis Stevenson em que fiz a tradução, introdução e as notas. Completam o livro, além da história do título, outras sete narrativas de horror, mistério e fantasia, algumas das quais inéditas no Brasil (até onde sei), e um ensaio de Marcel Schwob. Além disso, o livro tem ilustrações absurdas de Alcimar Frazão, que é um monstro. Informações de compra ou sobre o livro, no site da editora.

Vejam também este booktrailer, que lindo:

https://www.darksidebooks.com.br/o-medico-e-o-monstro-e-outros-experimentos-drk-x/p

 

Dois Ensaios – Karel Čapek

Meu grande vício este ano foi a obra de Karel Čapek. Li Histórias Apócrifas há três anos, e consegui convencer muita gente a ir atrás do livro apenas mencionando um conto genial sobre um padeiro que aprecia as ideias de Jesus Cristo, mas o odeia por ter acabado com seu comércio. Foi o primeiro de uma sequência de obras tchecas, húngaras, polonesas, ucranianas que li na época. Desenvolvi um preconceito com obras desses lugares: acho que todas serão geniais. Minha teoria é que um livro meia-boca escrito em inglês ou francês é facilmente traduzível, pronunciável, vendável – é bem mais fácil (menos difícil, vá) se arriscar a publicá-lo em outro país; mas se alguém correu atrás de um tradutor, um preparador do tcheco, e depois ainda de divulgar esses caras de nomes complicados, uma trabalheira, é porque esses livros devem compensar o esforço por sua qualidade. Minha experiência apenas reforça esse preconceito.

Então este ano finalmente me aventurei a ler A Guerra das Salamandras, nada menos que uma distopia polifônica com um humor à Sterne. Muito antes de Orwell ou de O Planeta dos Macacos, Čapek imaginou as questões sociais, políticas, econômicas, biológicas, filosóficas, teológicas e até linguísticas que viriam à tona com o surgimento de salamandras superdesenvolvidas que suplantassem as atividades humanas. Além do enredo sensacional, a narrativa é contada por meio de artigos científicos, recortes de jornal, relatórios de reuniões, manifestos, ensaios filosóficos, fluxos de consciência, metalinguagem. Muitos a leem como metáfora para a ascensão do nazismo, e faz sentido. Durante vários anos Čapek foi cotado para receber um Nobel, mas não ganhou devido à influência dos nazistas na Academia Sueca. Ele foi um dos mais famosos antifascistas de sua época, e quando Hitler invadiu Praga, sua casa foi uma das primeiras a serem vasculhadas, porém àquela altura ele já havia morrido. Seu irmão Josef não teve a mesma sorte, e foi morto num campo de concentração.

Os irmãos Čapek também são famosos por terem inventado a palavra “robô”, derivadas de robota, trabalhos forçados, em tcheco. Diz a lenda que Josef é seu verdadeiro inventor, enquanto Karel foi o primeiro a registrá-la, na peça R.U.R., também traduzido por aqui como A Fábrica de Robôs. Li essa peça imediatamente após A Guerra das Salamandras, e fiquei igualmente empolgado. Na sequência li um volume americano, Toward the Radical Center, com três peças na íntegra, além de inúmeros contos, ensaios, textos biográficos – e minha sensação é que se Čapek não houvesse escrito em tcheco, uma língua pouco falada, ele seria muito mais celebrado. Basta pensar que outro grande escritor tcheco da época, Franz Kafka, escreveu em alemão e é reconhecido internacionalmente. Mas essa foi uma decisão deliberada; Čapek era poliglota, chegou a traduzir para o tcheco alguns poemas franceses, e junto com Jaroslav Hašek foi um dos primeiros escritores de expressão tcheca, abrindo caminho para outros grandes autores como Bohumil Hrabal e Milan Kundera.

Ele também inventou o conto de detetive existencialista – à maneira de Poe, Conan Doyle e Chesterton, porém muitas vezes sem a solução final, pois o que importava para ele eram os percursos da investigação. Apenas imaginem a destreza de um conto de detetive sem a resolução, mas que mesmo assim consiga ser empolgante até o final. Uma das peças do volume, traduzida como The Makropulos Street, fala sobre as implicações morais, sociais e filosóficas na vida de uma mulher imortal. Outra, Mother, por sua vez, é uma das mais tocantes obras declaradamente antifascistas de todos os tempos – impossível sair incólume da história da mãe que perde o marido e os filhos para a guerra, o fanatismo, os riscos voluntários, as provas de virilidade, os martírios da honra desmotivada, comuns entre os homens até hoje. Porém mesmo quando ele escreve sobre coisas que em si não me interessam nem um pouco, como jardinagem ou aspiradores de pó, Čapek me diz mais que muita gente falando sobre o amor, a guerra, a morte.

Depois disso, passei o resto do ano enchendo o saco das pessoas, tagarelando sobre Čapek em bares, restaurantes, pontos de ônibus, nas redes sociais. Um amigo fez um samba de brincadeira, apenas com o nome Čapek Čapek Čapek. Alguns editores se interessaram, mas esbarraram na dificuldade que seria arranjar um bom tradutor de tcheco, ainda que o fato de estar em domínio público facilitem os trâmites da publicação. Certa tarde, há algumas semanas, descobri que sairia uma nova tradução de R.U.R., feita a partir do inglês por uma amiga minha, e isso me instigou a também traduzir do inglês dois ensaios curtos presentes no Toward the Radical Center que provavelmente não sairiam aqui por tão cedo. Chamam-se, na tradução, “Boa Vontade” e “Elogio aos Desastrados”. Para tanto, reativei meu perfil no Issuu, que fiz em 2013 para publicar traduções de ensaios em domínio público, onde já postei Thomas de Quincey, Virginia Woolf, G. K. Chesterton, e desde então estava parado. Os ensaios de Čapek estão no link abaixo. Espero que apreciem a leitura.