Cotidianas (III)

Para não se perder nesse buraco negro do insight que é o Facebook, volta e meia reúno aqui as Contradições Cotidianas que posto lá. (Procurem as outras: a I, a II e a III). Ano passado, dado o contexto, rebatizei a série por “Cotidianas”.

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Leftsplaining: explicação longa para qualquer babaquice dita pelos fascistas. Bolsonaro fala que a Terra tem a forma de arminha e lá vem o textão com evidências científicas do contrário. Eduardo viu no YouTube que depois da guerra Hitler fugiu para o Brasil, deixou a barba crescer, e passou a se chamar Lula, e lá vem o vídeo em que um renomado historiador alemão explica o que realmente aconteceu. Carluxo diz que comer cocô é bom e voilà: uma sequência de depoimentos de chefs e nutricionistas nos explicam que é ruim. A asneira é uma tática dos parvos e perversos para colonizar as mentes que eles não ludibriaram. Só precisam de um minuto para roubar nossa atenção, enquanto precisamos de muito tempo para argumentar qualquer coisa decentemente. Por isso tenho um método infalível para lidar com as idiotices do clã: considero ABSOLUTAMENTE TUDO o que eles disserem mentira, besteira, escroto, ou ridículo. Se porventura ficar em dúvida, é porque não li direito, pois com certeza será mentira, besteira, escroto ou ridículo. Nunca falhou. Só não preciso de um textão que me explique como ou por quê…

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Ridendo castigat Moro.

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Há um ano publiquei um texto chamado “A diversidade do insulto”, e para discorrer sobre a escatologia usei como exemplo o outro Moro, Tomás Moro (Morus, More) soltando os demônios pra cima de Lutero (nem cito aqui – é barra pesada). Aí esta semana vem nosso Moro, o melindroso Marreco de Curitiba, me prova que até no papel de escroque é bem chinfrim. Imagine você falando mal de alguém numa conversa privada, e que esse alguém seja o MBL – Moro podia se referir aos “arrombados do MBL”, àquele “bando de cuzão do MBL”, “renca de escroto do caralho do MBL”, mas não, e AINDA PEDIU DESCULPAS por chamá-los de –

“tontos”.

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Recapitulando: Cunha “combatendo a corrupção”, “terraplanistas em todo o globo”, generais “comunistas”, anarco-capitalistas; e agora o gado questiona a legalidade dos métodos dos jornalistas que divulgaram os MÉTODOS ILEGAIS da corja.

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A balbúrdia comendo solta no #14J e eu só imaginando aquela alcateia de conspiradores, viciados em celular como qualquer um de nós, se coçando para combinar umas maracutaias, porém se cagando de medo de conversar pelas redes sociais onde tanto chafurdaram nos últimos anos.

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Nossos números são ridículos. O que um deputado gasta mensalmente com sobremesa dá pra bancar o projeto de um escritor ambicioso; as gorjetas que estudantes e cientistas ganham são tão irrisórias quanto o número de estudantes e cientistas que ganham algo – um peteleco na economia do país, mas toda a diferença para eles (nós). Diante do festim dos responsáveis, não há como aceitar que não há dinheiro; muito menos que esse dinheiro será remanejado para prioridades, porque EDUCAÇÃO E CIÊNCIA SÃO PRIORIDADES. Eles querem justificar de tudo quanto é jeito, mas sabemos que os cortes são apenas uma etapa do projeto fascista: a curto prazo, acabar com a cultura, a educação, a ciência; a longo prazo, acabar com tudo isso aqui. Estão cumprindo o que prometeram.

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Sabe quando você está levando umas cervas geladas pra casa de alguém e tira uma da sacola pra ir bebendo no caminho? Por isso o número quebrado – 39. [Ma in Spagna son già mille e tre.]

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Witzel, JB, Trump são caricaturas daqueles vilões ressentidos e manipuladores contra os quais crescemos acostumados a torcer em filmes, gibis, desenhos animados, e que lá pelo final da adolescência, no auge da arrogância intelectual por termos lido Salinger, Watchmen e visto os primeiros Kubricks, aprendemos a rechaçar por conta de seu maniqueísmo, porque “na vida real as pessoas têm muitas nuances”. Parece que o jogo virou para os roteiristas da Disney e do Capitão Planeta, não é mesmo?

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Esse Ministro do Desmatamento é a cara do advogado do Rei do Crime.

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Alguém podia fazer uma página tipo “A fantástica fábrica de cortinas de fumaça” só pra mostrar o que cada fala bizarra do Bozo e sua trupe visa ocultar. Nela haveria postagens como “A esdrúxula acusação a Leo di Caprio faz a gente esquecer que Carluxo é suspeito de envolvimento na morte de Marielle” ou “O comentário aleatório sobre os roqueiros é para desconcentrar a raiva que sentimos dos PMs”. Garanto que eles têm um catálogo de declarações bizarras para soltarem a cada nova tragédia ou escândalo (o que acontece ao menos duas vezes por semana). “A fantástica fábrica de cortinas de fumaça” – fica aí a ideia.

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Minha suspensão da descrença me faz acreditar de boas em Demogorgon e otherside e Eleven, mas quem já traduziu qualquer coisa sabe que forçaram a barra com aquela menina vertendo um ÁUDIO DO RUSSO sem saber nada do idioma.

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Vendo esse clipe de Baco Exu do Blues me vem uma listona de obras de arte excelentes produzidas no país nos últimos tempos, e sou impelido a acreditar (uma crença cega, talvez) de que apenas a beleza salvará o Brasil.

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A morte dos monstros não é nada silenciosa [se quiser eu conto como foi a de Mussolini].

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Alguém me diz se faz sentido um negro, uma mulher, um gay sentir medo de sair na rua, e um nazista achar de boas esfregar sua suástica na cara de todo mundo? Sabemos de antemão que nossa polícia necrófila não fará nada com eles. Expor por expor não adianta, pois é exatamente o que eles querem. O correto é chegar na voadora, dar murro na cara, cadeirada nas costas, chute nas costelas, e só depois disso expor esses caras. Expor o inchaço, expor a suástica melada de sangue. Bater em nazista não se configura violência. Os nazistas precisam sentir medo.

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Não dá pra relativizar a destruição. Quando mataram Marielle, vi muita gente acusando a esquerda de politizar a morte dela, vejam bem, o assassinato de uma POLÍTICA. Acabou que meses depois foram os fascistas que politizaram (ainda mais) o crime, ao quebrar a placa em sua homenagem. Politizaram, mas em favor dos criminosos (eles próprios). Agora estão dizendo a mesma coisa da morte de Ágatha – resultado da política do mesmo homem que quebrou a placa de Marielle, espécie de Wilson Fisk que atira a esmo de helicópteros enquanto dança ao som dos fuzis. Estão acusando a esquerda de politizar o crime, mas na verdade eles que estão tentando despolitizá-lo. Se Ágatha fosse meia década mais velha, tentariam distorcer ou justificar a morte; como não têm o que dizer sobre uma criança fuzilada por eles, pintam o assassinato como uma eventualidade resultante do intenso combate ao tráfico. Mas é tudo muito óbvio: as “eventualidades” têm lugar, cor e condição financeira, as “eventualidades” não ocorrem eventualmente; Witzel sempre foi um assassino e quem o colocou lá tem sua parcela de culpa, sem mais.

Destruição é destruição, não dá pra relativizar isso. Se alguém tenta justificar, distorcer ou mostrar um hipotético lado positivo de assassinatos de inocentes, desaparecimentos, tortura, incêndios de museus e florestas, desabamentos, o aparelhamento ou censura de nossa produção intelectual, de toda essa destruição sistemática, já faz muito tempo que essa pessoa deixou de ser humana. Quem viu Bacurau já sabe o que fazer.

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Há muita gente relacionando os movimentos no Chile com o filme do Coringa, e concordo. Pra mim é uma simbiose: a realidade influencia a ficção, que, por sua vez, influencia a realidade. Por sinal, os pescadores removendo o óleo da praia na tora me lembra muito Bacurau. Só o povo poderá salvar o povo.

O Médico e o Monstro e Outros Experimentos

 

Já está quase pra sair pela DarkSide Books O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, volume de contos e novelas de Robert Louis Stevenson em que fiz a tradução, introdução e as notas. Completam o livro, além da história do título, outras sete narrativas de horror, mistério e fantasia, algumas das quais inéditas no Brasil (até onde sei), e um ensaio de Marcel Schwob. Além disso, o livro tem ilustrações absurdas de Alcimar Frazão, que é um monstro. Informações de compra ou sobre o livro, no site da editora.

Vejam também este booktrailer, que lindo:

https://www.darksidebooks.com.br/o-medico-e-o-monstro-e-outros-experimentos-drk-x/p

 

Dois Ensaios – Karel Čapek

Meu grande vício este ano foi a obra de Karel Čapek. Li Histórias Apócrifas há três anos, e consegui convencer muita gente a ir atrás do livro apenas mencionando um conto genial sobre um padeiro que aprecia as ideias de Jesus Cristo, mas o odeia por ter acabado com seu comércio. Foi o primeiro de uma sequência de obras tchecas, húngaras, polonesas, ucranianas que li na época. Desenvolvi um preconceito com obras desses lugares: acho que todas serão geniais. Minha teoria é que um livro meia-boca escrito em inglês ou francês é facilmente traduzível, pronunciável, vendável – é bem mais fácil (menos difícil, vá) se arriscar a publicá-lo em outro país; mas se alguém correu atrás de um tradutor, um preparador do tcheco, e depois ainda de divulgar esses caras de nomes complicados, uma trabalheira, é porque esses livros devem compensar o esforço por sua qualidade. Minha experiência apenas reforça esse preconceito.

Então este ano finalmente me aventurei a ler A Guerra das Salamandras, nada menos que uma distopia polifônica com um humor à Sterne. Muito antes de Orwell ou de O Planeta dos Macacos, Čapek imaginou as questões sociais, políticas, econômicas, biológicas, filosóficas, teológicas e até linguísticas que viriam à tona com o surgimento de salamandras superdesenvolvidas que suplantassem as atividades humanas. Além do enredo sensacional, a narrativa é contada por meio de artigos científicos, recortes de jornal, relatórios de reuniões, manifestos, ensaios filosóficos, fluxos de consciência, metalinguagem. Muitos a leem como metáfora para a ascensão do nazismo, e faz sentido. Durante vários anos Čapek foi cotado para receber um Nobel, mas não ganhou devido à influência dos nazistas na Academia Sueca. Ele foi um dos mais famosos antifascistas de sua época, e quando Hitler invadiu Praga, sua casa foi uma das primeiras a serem vasculhadas, porém àquela altura ele já havia morrido. Seu irmão Josef não teve a mesma sorte, e foi morto num campo de concentração.

Os irmãos Čapek também são famosos por terem inventado a palavra “robô”, derivadas de robota, trabalhos forçados, em tcheco. Diz a lenda que Josef é seu verdadeiro inventor, enquanto Karel foi o primeiro a registrá-la, na peça R.U.R., também traduzido por aqui como A Fábrica de Robôs. Li essa peça imediatamente após A Guerra das Salamandras, e fiquei igualmente empolgado. Na sequência li um volume americano, Toward the Radical Center, com três peças na íntegra, além de inúmeros contos, ensaios, textos biográficos – e minha sensação é que se Čapek não houvesse escrito em tcheco, uma língua pouco falada, ele seria muito mais celebrado. Basta pensar que outro grande escritor tcheco da época, Franz Kafka, escreveu em alemão e é reconhecido internacionalmente. Mas essa foi uma decisão deliberada; Čapek era poliglota, chegou a traduzir para o tcheco alguns poemas franceses, e junto com Jaroslav Hašek foi um dos primeiros escritores de expressão tcheca, abrindo caminho para outros grandes autores como Bohumil Hrabal e Milan Kundera.

Ele também inventou o conto de detetive existencialista – à maneira de Poe, Conan Doyle e Chesterton, porém muitas vezes sem a solução final, pois o que importava para ele eram os percursos da investigação. Apenas imaginem a destreza de um conto de detetive sem a resolução, mas que mesmo assim consiga ser empolgante até o final. Uma das peças do volume, traduzida como The Makropulos Street, fala sobre as implicações morais, sociais e filosóficas na vida de uma mulher imortal. Outra, Mother, por sua vez, é uma das mais tocantes obras declaradamente antifascistas de todos os tempos – impossível sair incólume da história da mãe que perde o marido e os filhos para a guerra, o fanatismo, os riscos voluntários, as provas de virilidade, os martírios da honra desmotivada, comuns entre os homens até hoje. Porém mesmo quando ele escreve sobre coisas que em si não me interessam nem um pouco, como jardinagem ou aspiradores de pó, Čapek me diz mais que muita gente falando sobre o amor, a guerra, a morte.

Depois disso, passei o resto do ano enchendo o saco das pessoas, tagarelando sobre Čapek em bares, restaurantes, pontos de ônibus, nas redes sociais. Um amigo fez um samba de brincadeira, apenas com o nome Čapek Čapek Čapek. Alguns editores se interessaram, mas esbarraram na dificuldade que seria arranjar um bom tradutor de tcheco, ainda que o fato de estar em domínio público facilitem os trâmites da publicação. Certa tarde, há algumas semanas, descobri que sairia uma nova tradução de R.U.R., feita a partir do inglês por uma amiga minha, e isso me instigou a também traduzir do inglês dois ensaios curtos presentes no Toward the Radical Center que provavelmente não sairiam aqui por tão cedo. Chamam-se, na tradução, “Boa Vontade” e “Elogio aos Desastrados”. Para tanto, reativei meu perfil no Issuu, que fiz em 2013 para publicar traduções de ensaios em domínio público, onde já postei Thomas de Quincey, Virginia Woolf, G. K. Chesterton, e desde então estava parado. Os ensaios de Čapek estão no link abaixo. Espero que apreciem a leitura.

Mostrar e contar: a arte da não ficção

Semana que vem começa meu curso de escrita de não ficção na Tapera Taperá, um dos lugares mais legais de SP. Peço que divulguem a quem possa se interessar. Inscrições e mais detalhes no link da foto. Abaixo, uma apresentação do curso.

“Mostrar e contar” é o título de um livro sobre a escrita criativa de não ficção do ensaísta e antologista Phillip Lopate. Este e outros livros sobre escrita e não ficção, em conjunção com atividades práticas, serão o norte desse curso. Cada aula será dividida em dois momentos – no primeiro (mostrar), uma explanação sobre alguns gêneros e formas de não ficção; no segundo (contar), conversas sobre sua prática, com ênfase em publicações do ministrante e na produção dos inscritos.”

 

Conje ou conge?

Dada a sagacidade dos últimos cartuns, memes e comentários, desconfio que seja óbvio para a maioria – mas vi algumas pessoas de esquerda problematizando um de nossos poucos consolos cotidianos, em meio a tanta notícia absurda, que é esculhambar com a indigência linguística, lógico-argumentativa, comportamental da rat family, do melindroso Marreco de Curitiba, de toda essa manada que alega ter estudado em “ravard” sem conhecer a tabuada. Nosso sarcasmo não seria também o preconceito linguístico e a arrogância intelectual que tanto nos esforçamos para evitar? Muita gente faz essa pergunta com sinceridade, e ela me parece válida. A resposta é não.

A famigerada marcha do orgulho hétero explica. Como qualquer pessoa, os orgulhosos héteros também necessitam de dinheiro e companhia, de comida, diversão e arte, também buscam reconhecimento, amor e conforto, e ficam frustrados e infelizes quando não conseguem o que desejam; mas nem por isso é justificável que marchem por direitos básicos, à maneira dos vilipendiados, dos perseguidos, dos massacrados, dos que sofrem por motivos sistêmicos, motivos religiosos, ideológicos, políticos, geográficos, de classe, raça, gênero, orientação sexual, condição social, financeira. Mesmo porque, se analisadas a fundo, a raiz das tristezas e frustrações dos orgulhosos héteros, embora eles externalizem a culpa, está nos próprios orgulhosos héteros, muitas vezes em orgulhosos héteros igualmente frustrados e infelizes – e não na falta de direitos básicos, e mesmo de privilégios.

Do mesmo modo, não convém cogitar pegar leve com a burrice dos canalhas, pois tal preocupação seria injusta com aqueles que não tiveram chance de aprender. Uma coisa é fazer piada com a linguagem de alguém que mal tinha o que comer e precisou enfrentar intempéries inimagináveis por sua sobrevivência, outra é esculachar com as patetices de quem teve todas as oportunidades do mundo, não aprendeu nada, e mesmo assim se deu bem em nossa demeritocracia; um coisa é zombar de um analfabeto, outra é avacalhar com a insipiência de gurus terraplanistas, de promotores que confundem Engels com Hegel, de energúmenos incapazes ler um teleprompter mas que ainda assim chamam estudantes e educadores de idiotas úteis, de um verme que não perde a chance arrogar erudição citando Horácio em latim, ainda que todos conheçamos seu português desprezível [e a maior ironia é que, quando estiveram frente a frente, a Jararaca sem estudo jantou o pomposo Marreco de Curitiba]. Esculhambar com quadrúpedes desse quilate não apenas é aceitável, como também nossa obrigação cívica.

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Mas e o gado – como lidar com a parvoíce dos minions? Em primeiro lugar, é preciso avaliar o contexto, se os arredores estão seguros. A estupidez é feroz, e uma piada bem bolada pode ser respondida com um coice. Não quero ver ninguém aqui se lascando por um witticism. Também recomendo evitar os chatos – uma infestação de bots e zumbis tampouco será proveitosa. A maioria não passará pela peneira, mas são normas de segurança. Excluídos tais riscos, sugiro ainda avaliar se o minion em questão é ignorante porque não teve oportunidade de aprender, ou se sua mendicância cerebral provém da teimosia. Se o sujeito não estudou, seria uma malvadeza fazer piadas sobre sua estultice – mas calma lá, recomendo evitar apenas o ad hominem; não precisa pegar leve com os bandidos de estimação que ele cultua.

Agora se a pessoa é burra por teimosia, meu amigo, não tenha dó: esmague o infame. Houve a época de se tentar dialogar, houve a época de ignorá-los em nome da sanidade, mas ele insiste em nos arrastar para o abismo – então é chegada a época de bater. Exponha sua cegueira, atropele seus memes, destroce seu moralismo, massacre seus mitos, estraçalhe TODA E QUALQUER maluquice que o asno trouxer à tona. É tudo culpa dele. Não foi por falta de aviso – não está sendo por falta de aviso –, portanto não nos privemos de nossa perspicácia. Certas amizades não valem o sacrifício de uma boa piada.

E assim, encerrada a questão, aproveito o momento para também expor uma dúvida sincera. Qual a nova grafia, “conje” ou “conge”?

A NOITE É DE SÃO JOYCE

Solene, o poeta Marcelo Tápia surgiu no alto da escada de um silencioso casarão no bairro paulistano de Perdizes, usando paletó e gravata-borboleta. O terno preto sustentava delicadamente dois bottons com símbolos irlandeses: um trevo de três folhas e uma fotografia de James Joyce. Detido, Tápia, então com 63 anos, examinou o escuro recurvo da escada e invocou preocupado: “Talvez não venha muita gente por causa desse feriado prolongado.” A véspera daquela noite fria de 2017 fora dia de Corpus Christi. Diretor da Casa das Rosas e da Casa Guilherme de Almeida, ele é responsável pelo Bloomsday da cidade. “Colaboro desde 1992. O primeiro foi organizado por Haroldo de Campos em 1988.” Referia-se ao poeta e tradutor falecido em 2003, de quem era amigo. Segundo Tápia, é o evento literário mais longevo a acontecer ininterruptamente em São Paulo.

O Bloomsday é a celebração do romance Ulysses, publicado em 1922 por James Joyce, tido como um dos escritores mais complicados de todos os tempos. Apaixonado pela obra do irlandês, Tápia combate a mística em torno da dificuldade de sua leitura. “Antes de adentrar os romances mais longos e inventivos”, afirmou, “é recomendável começar pelos contos de Dublinenses, mais tradicionais, depois seguir pelo Retrato do Artista Quando Jovem.” Estava rodeado de diversas edições da obra, enquanto traçava a rota para uma aventura na metrópole joyciana. “É uma leitura inesgotável. Quanto mais referências tiver o leitor, mais a leitura vai se abrindo.”

Composto por dezoito capítulos de estilos variados que somam por volta de mil páginas, em Ulysses é narrado um dia na vida de Leopold Bloom. Estruturado em paralelo com episódios da Odisseia, de Homero (Ulisses é o nome latino do protagonista, Odisseu), a obra de Joyce é a grande aventura do homem comum de sua época. Nele, o leitor acompanha os pensamentos de Bloom enquanto ele caminha por Dublin e interage com a fauna humana da cidade. Num resumo conciso, ele acorda, toma café da manhã, vai a um funeral, é atacado na rua, ouve música, vê um nascimento, delira em um bordel, volta para casa e se deita com sua mulher. Comemora-se o Bloomsday todo dia 16 de junho, data em que se passa o romance.

“Costumávamos fazer num pub, mas não cabia muita gente”, disse Tápia, ainda receoso. Quando desceu a escada do anexo da Casa Guilherme de Almeida, viu que suas preocupações eram infundadas. A sala estava cheia. Mestre de cerimônias, ele iniciou a noite cantando a capela Molly Malone, canção que está para Dublin assim como Garota de Ipanema está para o Rio de Janeiro. Após alguns segundos, uma plateia tão heterogênea quanto os estilos de Ulysses acompanhava o anfitrião. Os joycianos batiam palmas e cantavam o refrão com vivacidade: Crying cockels and mussels, alive, alive-o. Quem não encontrou lugar bebericava uísque irlandês fora da sala.

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A gênese do Bloomsday está numa festa dada pelos amigos de Joyce dois anos após a publicação do romance. A partir de 1954, treze anos depois da morte do autor, o festejo passou a ser comemorado com regularidade, primeiro em Dublin, logo nas grandes cidades no mundo. O romance, que em seus primeiros anos havia sido proibido em alguns países, já era considerado um dos mais importantes do século xx. No Brasil, a primeira celebração foi aquela mencionada por Tápia, organizada por Haroldo de Campos, que, em parceria com o irmão Augusto, traduziu excertos de Finnegans Wake, último romance de Joyce.

Parte da dificuldade da leitura de Ulysses, para muitos, está em acompanhar a torrente de pensamentos dos personagens, em vozes e estilos variados, muitas vezes abarrotados de referências obscuras e neologismos aparentemente incompreensíveis. “Existem alguns livros que podem auxiliar o iniciante em Joyce”, comentou Tápia. “Recomendo o mais recente, de Caetano Galindo.” Referia-se a Sim, Eu Digo Sim: Uma Visita Guiada ao Ulysses de James Joyce, publicado em 2016 pelo curitibano, último tradutor da obra no Brasil, cuja proposta é apresentar detalhes do romance com clareza.

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A trama de Ulysses se desenrola em 24 horas, mas o Bloomsday paulistano só acabou no dia seguinte. Na noite de 17 de junho, os fãs de Joyce voltaram a se reunir, dessa vez na Casa das Rosas, uma das construções mais baixas e antigas da avenida Paulista. O homenageado agora era Finnegans Wake, romance cuja dificuldade cria barreiras até mesmo para os cultores de Ulysses. “Joyce é quase o dicionário de uma língua”, disse ao público o experiente tradutor catarinense- Donaldo Schüler, que tem 85 anos. “Enquanto um acadêmico utiliza em média 5 mil palavras em sua obra, Joyce lida com um vocabulário de cerca de 60 mil verbetes, sendo que uns 3 ou 4 mil são neologismos que ele emprega uma única vez e depois descarta.”

Finnegans Wake é a nebulosa narrativa de um casal e seus três filhos, e se passa numa única noite. O título provém de uma canção folclórica irlandesa que só não é homônima por causa do apóstrofo: Finnegan’s Wake – e devido ao tal apóstrofo ela tanto pode significar “O velório” como “O despertar de Finnegan”. Aqui foi publicado como Finnicius Revém. Na canção, que Joyce reescreve no livro, um pedreiro morre depois de cair de uma escada e quebrar a cabeça, mas ressuscita no próprio funeral após derramarem uísque sobre ele. Nesse Bloomsday, pela primeira vez no Brasil velou-se o “cadáver” de Finnicius, um boneco que jazia num caixão, diante de um barril de bebida.

Schüler, que acabava de lançar um livro sobre a loucura em Joyce, é responsável por verter para o português tanto a Odisseia como nossa única versão integral do Finnegans Wake. Assim como na tradução de Campos, em sua pena o protagonista se transformou em Finnicius, uma mescla de “fim”, “início” e “Vinícius”. Bem-humorado, sua conversa estava longe da sisudez tantas vezes associada à erudição. Ele discorria sobre Joyce com leveza: “Meu inglês é precário”, afirmou, modesto, para a estupefação dos ouvintes. “Mas não houve problema, porque o livro não foi escrito em inglês.” A linguagem utilizada no livro é uma mistura de mais de sessenta idiomas.