O Médico e o Monstro e Outros Experimentos

 

Já está quase pra sair pela DarkSide Books O Médico e o Monstro e Outros Experimentos, volume de contos e novelas de Robert Louis Stevenson em que fiz a tradução, introdução e as notas. Completam o livro, além da história do título, outras sete narrativas de horror, mistério e fantasia, algumas das quais inéditas no Brasil (até onde sei), e um ensaio de Marcel Schwob. Além disso, o livro tem ilustrações absurdas de Alcimar Frazão, que é um monstro. Informações de compra ou sobre o livro, no site da editora.

Vejam também este booktrailer, que lindo:

https://www.darksidebooks.com.br/o-medico-e-o-monstro-e-outros-experimentos-drk-x/p

 

Dois Ensaios – Karel Čapek

Meu grande vício este ano foi a obra de Karel Čapek. Li Histórias Apócrifas há três anos, e consegui convencer muita gente a ir atrás do livro apenas mencionando um conto genial sobre um padeiro que aprecia as ideias de Jesus Cristo, mas o odeia por ter acabado com seu comércio. Foi o primeiro de uma sequência de obras tchecas, húngaras, polonesas, ucranianas que li na época. Desenvolvi um preconceito com obras desses lugares: acho que todas serão geniais. Minha teoria é que um livro meia-boca escrito em inglês ou francês é facilmente traduzível, pronunciável, vendável – é bem mais fácil (menos difícil, vá) se arriscar a publicá-lo em outro país; mas se alguém correu atrás de um tradutor, um preparador do tcheco, e depois ainda de divulgar esses caras de nomes complicados, uma trabalheira, é porque esses livros devem compensar o esforço por sua qualidade. Minha experiência apenas reforça esse preconceito.

Então este ano finalmente me aventurei a ler A Guerra das Salamandras, nada menos que uma distopia polifônica com um humor à Sterne. Muito antes de Orwell ou de O Planeta dos Macacos, Čapek imaginou as questões sociais, políticas, econômicas, biológicas, filosóficas, teológicas e até linguísticas que viriam à tona com o surgimento de salamandras superdesenvolvidas que suplantassem as atividades humanas. Além do enredo sensacional, a narrativa é contada por meio de artigos científicos, recortes de jornal, relatórios de reuniões, manifestos, ensaios filosóficos, fluxos de consciência, metalinguagem. Muitos a leem como metáfora para a ascensão do nazismo, e faz sentido. Durante vários anos Čapek foi cotado para receber um Nobel, mas não ganhou devido à influência dos nazistas na Academia Sueca. Ele foi um dos mais famosos antifascistas de sua época, e quando Hitler invadiu Praga, sua casa foi uma das primeiras a serem vasculhadas, porém àquela altura ele já havia morrido. Seu irmão Josef não teve a mesma sorte, e foi morto num campo de concentração.

Os irmãos Čapek também são famosos por terem inventado a palavra “robô”, derivadas de robota, trabalhos forçados, em tcheco. Diz a lenda que Josef é seu verdadeiro inventor, enquanto Karel foi o primeiro a registrá-la, na peça R.U.R., também traduzido por aqui como A Fábrica de Robôs. Li essa peça imediatamente após A Guerra das Salamandras, e fiquei igualmente empolgado. Na sequência li um volume americano, Toward the Radical Center, com três peças na íntegra, além de inúmeros contos, ensaios, textos biográficos – e minha sensação é que se Čapek não houvesse escrito em tcheco, uma língua pouco falada, ele seria muito mais celebrado. Basta pensar que outro grande escritor tcheco da época, Franz Kafka, escreveu em alemão e é reconhecido internacionalmente. Mas essa foi uma decisão deliberada; Čapek era poliglota, chegou a traduzir para o tcheco alguns poemas franceses, e junto com Jaroslav Hašek foi um dos primeiros escritores de expressão tcheca, abrindo caminho para outros grandes autores como Bohumil Hrabal e Milan Kundera.

Ele também inventou o conto de detetive existencialista – à maneira de Poe, Conan Doyle e Chesterton, porém muitas vezes sem a solução final, pois o que importava para ele eram os percursos da investigação. Apenas imaginem a destreza de um conto de detetive sem a resolução, mas que mesmo assim consiga ser empolgante até o final. Uma das peças do volume, traduzida como The Makropulos Street, fala sobre as implicações morais, sociais e filosóficas na vida de uma mulher imortal. Outra, Mother, por sua vez, é uma das mais tocantes obras declaradamente antifascistas de todos os tempos – impossível sair incólume da história da mãe que perde o marido e os filhos para a guerra, o fanatismo, os riscos voluntários, as provas de virilidade, os martírios da honra desmotivada, comuns entre os homens até hoje. Porém mesmo quando ele escreve sobre coisas que em si não me interessam nem um pouco, como jardinagem ou aspiradores de pó, Čapek me diz mais que muita gente falando sobre o amor, a guerra, a morte.

Depois disso, passei o resto do ano enchendo o saco das pessoas, tagarelando sobre Čapek em bares, restaurantes, pontos de ônibus, nas redes sociais. Um amigo fez um samba de brincadeira, apenas com o nome Čapek Čapek Čapek. Alguns editores se interessaram, mas esbarraram na dificuldade que seria arranjar um bom tradutor de tcheco, ainda que o fato de estar em domínio público facilitem os trâmites da publicação. Certa tarde, há algumas semanas, descobri que sairia uma nova tradução de R.U.R., feita a partir do inglês por uma amiga minha, e isso me instigou a também traduzir do inglês dois ensaios curtos presentes no Toward the Radical Center que provavelmente não sairiam aqui por tão cedo. Chamam-se, na tradução, “Boa Vontade” e “Elogio aos Desastrados”. Para tanto, reativei meu perfil no Issuu, que fiz em 2013 para publicar traduções de ensaios em domínio público, onde já postei Thomas de Quincey, Virginia Woolf, G. K. Chesterton, e desde então estava parado. Os ensaios de Čapek estão no link abaixo. Espero que apreciem a leitura.

Mostrar e contar: a arte da não ficção

Semana que vem começa meu curso de escrita de não ficção na Tapera Taperá, um dos lugares mais legais de SP. Peço que divulguem a quem possa se interessar. Inscrições e mais detalhes no link da foto. Abaixo, uma apresentação do curso.

“Mostrar e contar” é o título de um livro sobre a escrita criativa de não ficção do ensaísta e antologista Phillip Lopate. Este e outros livros sobre escrita e não ficção, em conjunção com atividades práticas, serão o norte desse curso. Cada aula será dividida em dois momentos – no primeiro (mostrar), uma explanação sobre alguns gêneros e formas de não ficção; no segundo (contar), conversas sobre sua prática, com ênfase em publicações do ministrante e na produção dos inscritos.”

 

Conje ou conge?

Dada a sagacidade dos últimos cartuns, memes e comentários, desconfio que seja óbvio para a maioria – mas vi algumas pessoas de esquerda problematizando um de nossos poucos consolos cotidianos, em meio a tanta notícia absurda, que é esculhambar com a indigência linguística, lógico-argumentativa, comportamental da rat family, do melindroso Marreco de Curitiba, de toda essa manada que alega ter estudado em “ravard” sem conhecer a tabuada. Nosso sarcasmo não seria também o preconceito linguístico e a arrogância intelectual que tanto nos esforçamos para evitar? Muita gente faz essa pergunta com sinceridade, e ela me parece válida. A resposta é não.

A famigerada marcha do orgulho hétero explica. Como qualquer pessoa, os orgulhosos héteros também necessitam de dinheiro e companhia, de comida, diversão e arte, também buscam reconhecimento, amor e conforto, e ficam frustrados e infelizes quando não conseguem o que desejam; mas nem por isso é justificável que marchem por direitos básicos, à maneira dos vilipendiados, dos perseguidos, dos massacrados, dos que sofrem por motivos sistêmicos, motivos religiosos, ideológicos, políticos, geográficos, de classe, raça, gênero, orientação sexual, condição social, financeira. Mesmo porque, se analisadas a fundo, a raiz das tristezas e frustrações dos orgulhosos héteros, embora eles externalizem a culpa, está nos próprios orgulhosos héteros, muitas vezes em orgulhosos héteros igualmente frustrados e infelizes – e não na falta de direitos básicos, e mesmo de privilégios.

Do mesmo modo, não convém cogitar pegar leve com a burrice dos canalhas, pois tal preocupação seria injusta com aqueles que não tiveram chance de aprender. Uma coisa é fazer piada com a linguagem de alguém que mal tinha o que comer e precisou enfrentar intempéries inimagináveis por sua sobrevivência, outra é esculachar com as patetices de quem teve todas as oportunidades do mundo, não aprendeu nada, e mesmo assim se deu bem em nossa demeritocracia; um coisa é zombar de um analfabeto, outra é avacalhar com a insipiência de gurus terraplanistas, de promotores que confundem Engels com Hegel, de energúmenos incapazes ler um teleprompter mas que ainda assim chamam estudantes e educadores de idiotas úteis, de um verme que não perde a chance arrogar erudição citando Horácio em latim, ainda que todos conheçamos seu português desprezível [e a maior ironia é que, quando estiveram frente a frente, a Jararaca sem estudo jantou o pomposo Marreco de Curitiba]. Esculhambar com quadrúpedes desse quilate não apenas é aceitável, como também nossa obrigação cívica.

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Mas e o gado – como lidar com a parvoíce dos minions? Em primeiro lugar, é preciso avaliar o contexto, se os arredores estão seguros. A estupidez é feroz, e uma piada bem bolada pode ser respondida com um coice. Não quero ver ninguém aqui se lascando por um witticism. Também recomendo evitar os chatos – uma infestação de bots e zumbis tampouco será proveitosa. A maioria não passará pela peneira, mas são normas de segurança. Excluídos tais riscos, sugiro ainda avaliar se o minion em questão é ignorante porque não teve oportunidade de aprender, ou se sua mendicância cerebral provém da teimosia. Se o sujeito não estudou, seria uma malvadeza fazer piadas sobre sua estultice – mas calma lá, recomendo evitar apenas o ad hominem; não precisa pegar leve com os bandidos de estimação que ele cultua.

Agora se a pessoa é burra por teimosia, meu amigo, não tenha dó: esmague o infame. Houve a época de se tentar dialogar, houve a época de ignorá-los em nome da sanidade, mas ele insiste em nos arrastar para o abismo – então é chegada a época de bater. Exponha sua cegueira, atropele seus memes, destroce seu moralismo, massacre seus mitos, estraçalhe TODA E QUALQUER maluquice que o asno trouxer à tona. É tudo culpa dele. Não foi por falta de aviso – não está sendo por falta de aviso –, portanto não nos privemos de nossa perspicácia. Certas amizades não valem o sacrifício de uma boa piada.

E assim, encerrada a questão, aproveito o momento para também expor uma dúvida sincera. Qual a nova grafia, “conje” ou “conge”?

A NOITE É DE SÃO JOYCE

Solene, o poeta Marcelo Tápia surgiu no alto da escada de um silencioso casarão no bairro paulistano de Perdizes, usando paletó e gravata-borboleta. O terno preto sustentava delicadamente dois bottons com símbolos irlandeses: um trevo de três folhas e uma fotografia de James Joyce. Detido, Tápia, então com 63 anos, examinou o escuro recurvo da escada e invocou preocupado: “Talvez não venha muita gente por causa desse feriado prolongado.” A véspera daquela noite fria de 2017 fora dia de Corpus Christi. Diretor da Casa das Rosas e da Casa Guilherme de Almeida, ele é responsável pelo Bloomsday da cidade. “Colaboro desde 1992. O primeiro foi organizado por Haroldo de Campos em 1988.” Referia-se ao poeta e tradutor falecido em 2003, de quem era amigo. Segundo Tápia, é o evento literário mais longevo a acontecer ininterruptamente em São Paulo.

O Bloomsday é a celebração do romance Ulysses, publicado em 1922 por James Joyce, tido como um dos escritores mais complicados de todos os tempos. Apaixonado pela obra do irlandês, Tápia combate a mística em torno da dificuldade de sua leitura. “Antes de adentrar os romances mais longos e inventivos”, afirmou, “é recomendável começar pelos contos de Dublinenses, mais tradicionais, depois seguir pelo Retrato do Artista Quando Jovem.” Estava rodeado de diversas edições da obra, enquanto traçava a rota para uma aventura na metrópole joyciana. “É uma leitura inesgotável. Quanto mais referências tiver o leitor, mais a leitura vai se abrindo.”

Composto por dezoito capítulos de estilos variados que somam por volta de mil páginas, em Ulysses é narrado um dia na vida de Leopold Bloom. Estruturado em paralelo com episódios da Odisseia, de Homero (Ulisses é o nome latino do protagonista, Odisseu), a obra de Joyce é a grande aventura do homem comum de sua época. Nele, o leitor acompanha os pensamentos de Bloom enquanto ele caminha por Dublin e interage com a fauna humana da cidade. Num resumo conciso, ele acorda, toma café da manhã, vai a um funeral, é atacado na rua, ouve música, vê um nascimento, delira em um bordel, volta para casa e se deita com sua mulher. Comemora-se o Bloomsday todo dia 16 de junho, data em que se passa o romance.

“Costumávamos fazer num pub, mas não cabia muita gente”, disse Tápia, ainda receoso. Quando desceu a escada do anexo da Casa Guilherme de Almeida, viu que suas preocupações eram infundadas. A sala estava cheia. Mestre de cerimônias, ele iniciou a noite cantando a capela Molly Malone, canção que está para Dublin assim como Garota de Ipanema está para o Rio de Janeiro. Após alguns segundos, uma plateia tão heterogênea quanto os estilos de Ulysses acompanhava o anfitrião. Os joycianos batiam palmas e cantavam o refrão com vivacidade: Crying cockels and mussels, alive, alive-o. Quem não encontrou lugar bebericava uísque irlandês fora da sala.

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A gênese do Bloomsday está numa festa dada pelos amigos de Joyce dois anos após a publicação do romance. A partir de 1954, treze anos depois da morte do autor, o festejo passou a ser comemorado com regularidade, primeiro em Dublin, logo nas grandes cidades no mundo. O romance, que em seus primeiros anos havia sido proibido em alguns países, já era considerado um dos mais importantes do século xx. No Brasil, a primeira celebração foi aquela mencionada por Tápia, organizada por Haroldo de Campos, que, em parceria com o irmão Augusto, traduziu excertos de Finnegans Wake, último romance de Joyce.

Parte da dificuldade da leitura de Ulysses, para muitos, está em acompanhar a torrente de pensamentos dos personagens, em vozes e estilos variados, muitas vezes abarrotados de referências obscuras e neologismos aparentemente incompreensíveis. “Existem alguns livros que podem auxiliar o iniciante em Joyce”, comentou Tápia. “Recomendo o mais recente, de Caetano Galindo.” Referia-se a Sim, Eu Digo Sim: Uma Visita Guiada ao Ulysses de James Joyce, publicado em 2016 pelo curitibano, último tradutor da obra no Brasil, cuja proposta é apresentar detalhes do romance com clareza.

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A trama de Ulysses se desenrola em 24 horas, mas o Bloomsday paulistano só acabou no dia seguinte. Na noite de 17 de junho, os fãs de Joyce voltaram a se reunir, dessa vez na Casa das Rosas, uma das construções mais baixas e antigas da avenida Paulista. O homenageado agora era Finnegans Wake, romance cuja dificuldade cria barreiras até mesmo para os cultores de Ulysses. “Joyce é quase o dicionário de uma língua”, disse ao público o experiente tradutor catarinense- Donaldo Schüler, que tem 85 anos. “Enquanto um acadêmico utiliza em média 5 mil palavras em sua obra, Joyce lida com um vocabulário de cerca de 60 mil verbetes, sendo que uns 3 ou 4 mil são neologismos que ele emprega uma única vez e depois descarta.”

Finnegans Wake é a nebulosa narrativa de um casal e seus três filhos, e se passa numa única noite. O título provém de uma canção folclórica irlandesa que só não é homônima por causa do apóstrofo: Finnegan’s Wake – e devido ao tal apóstrofo ela tanto pode significar “O velório” como “O despertar de Finnegan”. Aqui foi publicado como Finnicius Revém. Na canção, que Joyce reescreve no livro, um pedreiro morre depois de cair de uma escada e quebrar a cabeça, mas ressuscita no próprio funeral após derramarem uísque sobre ele. Nesse Bloomsday, pela primeira vez no Brasil velou-se o “cadáver” de Finnicius, um boneco que jazia num caixão, diante de um barril de bebida.

Schüler, que acabava de lançar um livro sobre a loucura em Joyce, é responsável por verter para o português tanto a Odisseia como nossa única versão integral do Finnegans Wake. Assim como na tradução de Campos, em sua pena o protagonista se transformou em Finnicius, uma mescla de “fim”, “início” e “Vinícius”. Bem-humorado, sua conversa estava longe da sisudez tantas vezes associada à erudição. Ele discorria sobre Joyce com leveza: “Meu inglês é precário”, afirmou, modesto, para a estupefação dos ouvintes. “Mas não houve problema, porque o livro não foi escrito em inglês.” A linguagem utilizada no livro é uma mistura de mais de sessenta idiomas.

Cotidianas (II)

Para não se perder nesse buraco negro do insight que é o Facebook, volta e meia reúno aqui as Contradições Cotidianas que posto lá. (Procurem as outras: a I, a II e a III). Ano passado, dado o contexto, rebatizei a série por “Cotidianas”.

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JK Rowling diz que Voldemort é de direita. Brasileiros retrucam: “mas que diabos Rowling entende de Harry Potter?!”.

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Teoria da conspiração: Após a peixeirada no bucho, JB descobriu que o general pretendia dar cabo dele e botar a culpa no PT. Então tentou entregar a campanha para salvar a vida. Primeiro correu dos debates, de qualquer conversa com os candidatos na TV; porém, para a sua surpresa, aumentou os seus votos. Depois pagou uns neonazistas pra cometer uns crimes em seu nome e acabar de vez com a piada de que o nazismo é de esquerda. Mais votos. Contratou artistas e intelectuais do mundo inteiro para esculhambar com ele. Votos. Tirou umas fotos com gays, negros, nordestinos, pra ver se perdia os votos dos extremistas. Ainda mais votos. Por fim partiu pro tudo ou nada, vazou a informação do caixa 2 e admitiu publicamente. Eleito!

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Tanto podre surgindo duma empresa chamada “Livraria Cultura”, que não quero nem imaginar o que se passa na Havan.

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Faz uns meses que tou sem app do face no celular e só entro pelo PC. Aí entro e de cara me bato com uma postagem massa de uma menina tão massa que converso até sobre signos e novelas mexicanas com ela, mas como ela postou faz cinco minutos, decido esperar uma meia hora antes de curtir pra ela não pensar que sou um stalker. Então saio de casa e entro nessa vertigem posicional paroxística benigna que é o fim de semana paulistano, e quatro dias depois (fds de frila, vá) vejo que ainda não curti a postagem massa da menina tão massa e que se eu curtir quatro dias e cinco minutos depois, ela vai pensar que sou um stalker.

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Exame: “O amadorismo do governo está surpreendendo todos. O mercado está alarmado desde quinta-feira e em compasso de espera. O investidor está pronto para tirar dinheiro do país.” – “Todos” é muita gente. Eu conheço uma galera que não esperava outra coisa dos patetas/bandidos lá. Estão fazendo exatamente o que prometeram e #euavisei.

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Véspera do aniversário de quatro anos de MF. Dei carta branca pra ela numa loja de brinquedos, já pensando na facada que iria tomar (vocês já compraram brinquedos? Eu temia uma facada de verdade, não uma como aquela do presidente). Ela me disse que já sabia o que queria, mas era segredo. Tremi nas bases, mas trato é trato; eu estava disposto a adiar minha próxima HQ do Pipoca e Nanquim para cumpri-lo. Chegando lá, acabou pegando um troço de maquiagem, um pirulitão rosa, nem era caro. Passou o dia repetindo que o presente era perfeito. MF adora rosa. Eu não gosto muito. Nem de azul. Sempre gostei de vermelho. AJ detesta rosa, mas bebeu o suco de laranja do copo rosa de MF: o marketing batendo na ideologia – o suco de laranja batendo no marketing. Essa questão das cores é inócua, cada um usa o que quer e foda-se. A meu ver, isso é firehosing – em minha timeline não vi ninguém falando de um possível impeachment de Trump.

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Padre Antônio Vieira: “Os homens não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é o que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há. Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama, e não defeitos. Cuidais que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade: cuidais que amais perfeições Angélicas, e amais imperfeições humanas. Logo os homens não amam o que cuidam que amam.”

Parafraseando (deturpando mesmo) o Padre: “Quem estima bandidos, cuidando que são vigilantes, vigilantes estima e não bandidos”, só assim pra acreditar que essa galerinha aí realmente não tem bandido de estimação. Afinal, não estaria o Padre Vieira falando exatamente dos Minions?

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No panteão das versões nacionais, “juntos e shallow now” faz par com “gatinha, cê gosta mais de red label ou ice?” (“my dream is to fly over the rainbow so high”).

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Se eu fosse Amoedo, pedia logo uma recontagem dos votos.