O Efeito Salenko

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Ilustração: Amine Barbuda

Depois de concluída a tragédia, pensamos sempre em como ela poderia ter sido evitada. Um centímetro a menos de trave ou a mais na espessura da linha do gol, a posição do pé contra a bola num chute decisivo, o impedimento mal marcado. “Se aquela bola…”

Ensaio um tanto amoroso sobre perrengues estatísticos e minha experiência assistindo Copas, na Barril. Para conferir minhas outras colaborações para a revista, clique aqui.

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Morcegos dão o sangue

Está disponível na íntegra minha última matéria para a Piauí, sobre um time de futebol composto por góticos. Para conferir, clique aqui. Caso deseje ler minhas outras matérias para a revista, clique aqui.

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Ilustração: Andrés Sandoval

 

 

O narrador adiantado

A narração esportiva é indispensável, e te explico por quê. Teve uma época que eu acompanhava com afinco o Brasileirão, certamente com mais disposição e interesse que hoje em dia, e como não tinha TV fechada, sempre via os jogos naquele aglomerado de bares que liga a Avenida Sete à Rua Direita da Piedade, às vezes em pé mesmo, pois poderia escolher qual partida assistir.

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O problema é que na transmissão do bar ao lado, o gol sempre acontecia alguns segundos antes. O sinal da TV tinha um delay perpétuo. Alguns do outro bar até aproveitavam para nos engambelar, gritando gol aleatoriamente. O baiano é muito malandro. Se porventura eu trocasse de bar na semana seguinte, como numa brincadeira de Amélie Poulain, o delay se reverteria; ou seja, o bar da semana anterior agora se adiantaria e a informação atrasada continuaria comigo. O delay me acompanhava como aquela pequena nuvem de chuva que persegue os azarados nos cartuns. Mas era com ele ou sem nada. Se ficasse em casa, seria forçado a apreciar uma partida qualquer do Flamengo, o único time que passava em minha TV, sem ninguém pra me servir uma cervejinha. E assim me submetia ao intransigente delay. No futebol, esse teatro de fel e húbris, não há maior anticlímax que saber de antemão que aquela bola sem futuro no meio do campo vai se transformar numa jogada de gol (ou o contrário, pois o silêncio era indício de que a jogada perigosa não seria aproveitada).

Certa tarde fui ao estádio de “Pituacives” ver um empate sem graça entre Bahia e Santos. Um sujeito ouvia aquela partida morna com um radinho a pilha. Ao contrário do jogo, a narração era veloz e entusiasmante: uma grande mentira. A bola flutuava a uns 50 metros do gol, e na narração ela passara raspando na trave. Um cruzamento torto era um lance perigoso e um chute fraco, uma chance forte. O jogo parava com um jogador caído no meio do campo, mas a narração continuava, furiosa, vibrante. Era uma grande partida, aquela do rádio. Não fosse a constante eminência da malandragem do torcedor baiano, eu fecharia os olhos e ficaria só com ela, de tão boa que estava.

Até que o jogo entra nos acréscimos e morre de vez. Os jogadores passam a trocar passes sem futuro. Os do Santos, satisfeitos com o empate fora de casa; os do Bahia, por não terem perdido. Mas na narração o jogo já havia acabado. “Fim de partida!”, gritava o narrador. Eu olhava para aqueles jogadores caminhando lentamente em campo, dois times de vacas pastando, a bola para lá e para cá, a torcida desanimada, e escutava o narrador falando já de outra coisa. O próprio jogo estava atrasado em relação à narração. Foi assim que desisti de fugir do delay.

Escrito originalmente como comentário a esse texto de Milton Ribeiro. 

Minha primeira Copa

Nasci em ano de copa. Uma pessoa normal perguntaria em que ano nasci. Um fanático por futebol, em que copa. E parece que no Brasil só existe fanático. Pois bem. Nesse ano aconteceu muita coisa triste e feliz. Antes de eu nascer, o acidente da aeronave Challenger e o desastre nuclear de Chernobyl. Um mês depois, a morte de Jorge Luis Borges. E o que tem de feliz nisso tudo? Meu nascimento, ora bolas.

Explico fanaticamente a que ano me refiro: nessa copa o nosso técnico era o Telê Santana, perdemos pra França nas quartas-de-final, destacaram-se ao longo da copa os “Diabos Vermelhos” e a “Dinamáquina”; o jogador Lineker, por quantidade, e Maradona, por qualidade. Foi nessa copa, contra a Inglaterra, que ele fez aquele gol de mão e aquele em que ele dribla meia dúzia de bretões antes de marcar. A Argentina foi campeã nesse ano. Como eu disse, coisas tristes aconteceram.

Mas tudo isso só conheço de arquivo. Não presenciei por motivos óbvios. Pra falar a verdade, nem a copa de 90 eu cheguei a ver. Tinha quatro anos só, ainda não dava ousadia pra essas coisas. Em 1994 comecei a assistir. Entrei seguindo a direção da onda. Era só no que se falava. Não sabia muito sobre as regras, nem sobre a seleção Brasileira, nem nada. Na verdade nem gostava muito de jogar bola. Toda vez que tentava, ou levava uma bolada na cara, ou raspava o dedão no chão de cimento em que a gente jogava. Preferia ler gibi. Comecei a assistir mais por curiosidade sociológica de criança, afinal, que diabos era aquilo que transformava todos em fanáticos, unidos por um bem comum? Inclusive minha mãe, que vivia reclamando com meu pai quando ele jogava bola comigo e meus primos no quintal. “Odeio esse negócio de chutar essa bola velha pra lá e pra cá, em cima de minhas plantas!”

Até a copa de 2006 eu acreditava ser o torcedor mais pé quente que já houve. De quando começara a acompanhar as copas, no mínimo na final o Brasil chegava. Antes, fazia vinte e quatro anos que isso não acontecia, então passou a ser a cada quatro anos. Culpa minha, eu tinha certeza. E dizia mais: alguma coisa sobrenatural devia ter acontecido no ano de 1998 pra que o Brasil não ganhasse. Alguma conspiração política capaz de arrepiar os cabelos do braço de Stálin. Mas aí veio Henry, Zidane e cia e mostraram que a coisa não era bem assim. Ainda acho que há algo de podre no reino da França.

A superstição, por sinal, desde antes de Homero, é produto da disputa. Sem ela o futebol seria um mero espetáculo contemplativo, como uma orquestra ou um sermão. Mas está mais para o show de rock ou para a tragédia grega; participamos, acreditamos, vaiamos. Liberamos toda a nossa catarse. Jogar bola, em meus tempos, era lutar pela pátria, apesar dos arranhões, inchaços, hematomas, das cacetadas que a gente levava. Era nossa pequena batalha. Pouca coisa, mas o que seria dos gregos se Aquiles, quando criança, tivesse medo de uma pancadinha? Imagine, então, Pelé.

Disse que comecei a assistir copas em 1994. Outra coisa me influenciou bastante pra isso, o bolão. Era fácil demais. Bastava adivinhar os resultados dos jogos e eu teria dinheiro pra comprar meus gibis do Senninha, cujo inspirador morrera um mês antes. Acertei o do jogo contra o Camarões, na primeira fase. Nosso melhor resultado na copa. 3×0. Sou pé quente, sério mesmo. A partir daí um interesse crescente pelos jogos me dominava. Temi a Suécia. O jogo contra os Estados Unidos foi o primeiro em que eu gritei gol. Eu ficava meio acanhado de gritar no meio de gente. Nesse dia isso acabou. GOL! E todos gritavam junto comigo, o que destruiu todo meu acanhamento. Depois veio o jogo contra a Holanda. Ah, o jogo contra a Holanda. Minha melhor lembrança daquela copa. Todos estávamos reunidos na casa de nossa avó, na Pedra Branca, na roça. A família é grande. A meninada sentada ou deitada no chão da sala, um em cima do outro. Uns usavam uniformes da seleção, outros luvinhas em “v”, uns seguravam bandeiras e eu, nada. Simplesmente torcia. Foi um jogo difícil, disputado, polêmico. Sei que uma hora Bebeto recebe a bola, passa por um, dribla o goleiro e gol! GOL! E ele faz aquela comemoração para o filho dele, que – dizem – foi inventada naquela hora. Nesse momento nasce mais um fanático. No final do jogo eu me lembro de ter comentado com meu pai:

– Desse jeito o Brasil vai até ganhar a copa, né?

E ele, acostumado a ver o Brasil perder com seleções melhores que aquela, mas com medo de me dar esperanças incertas demais ou de tirar as que eu tinha (e que, como torcedor, também devia ter), respondeu:

– Pode até ser.

Veja os lances do jogo entre Brasil e Holanda.

Jogando no Escuro

Ano passado assisti a uma palestra fascinante no palácio da Reitoria. Num primeiro momento, como é de se esperar, o palestrante tenta conquistar a plateia com breves chistes sobre a cidade. Creio que fez o mesmo em todos os lugares por onde passou. A estratégia deu certo, pois sua palestra realmente chamou a atenção. O homem é relativamente jovem, e quem apenas lesse o conteúdo de um relatório desta palestra imaginaria tratar-se de um senhor de idade. Mas sua barba (bem cuidada, como é de se esperar de um bom cientista) era preta e ele não era careca. Miguel Nicolelis falava, entre outras coisas, da possibilidade nem tão remota de controlar robôs a partir de lugares longínquos, usando apenas ondas cerebrais.

Algo fácil de duvidar; porém ele o demonstrou com destreza. Ficou compreensível a nós, meros leigos que o assistíamos, a ciência complexíssima que explica como ele e seu time chegaram a fazer com que um macaco, sem mover um músculo, fizesse um robozinho andar do outro lado do planeta. Isto poderá fazer com que deficientes possam se locomover, utilizando aparatos robóticos sofisticados. Nicolelis pretende que o chute inaugural da copa do Brasil seja dado por um deles.

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No meio de sua explicação, ele menciona uma pesquisa realizada com tenistas. Após uma hora de partida, eles são vendados, e lhes pedem que, com a mão descansada, toquem a ponta dos dedos da mão que jogava. Eles tendem esticar o braço e procurar a ponta de uma raquete que não está mais lá. Deduz-se que os instrumentos se transformam em extensões de nosso próprio corpo.

Nicolelis fala ainda de uma palestra na Argentina e que incomodou os convidados ao mencionar el mejor jugador de todos los tiempos: Pelé. Ele, assim como Maradona, Garrincha, e todos os outros grandes, possui uma habilidade que os diferencia de outros jogadores. Ele corria sem precisar olhar para a bola, como se ela fizesse parte de seus pés. Isto o permitia ter uma visão de jogo maior.

A sensação de insegurança que às vezes possuímos vem exatamente do fato de não podermos ver tudo ao nosso redor. Por isso o sucesso de filmes de suspense. Ou a câmera não nos permite ver o que ataca nossos personagens (e vemos pelos limites de sua própria visão, como se fossemos nós mesmos os atacados), ou nos permite ver exatamente o que eles não podem (e nos horrorizamos por não poder avisar à colegial que há um assassino com um machado, no banco detrás do carro).

Mas não me lembrei de tudo isso por acaso. É que finalmente vi um filme do famoso Emir Kusturica;  o documentário sobre Maradona. Não quero falar sobre a película, que para mim tem defeitos em sua abordagem, por endeusar demais o grande jogador, e em sua montagem, devido à insistência e repetição de cenas bobas. Mas também tem ótimo conteúdo, e em certo momento Maradona dá a receita para aprender a jogar sem ver a bola: “mesmo depois de escurecer, sem enxergar nada, continuávamos a jogar, de modo que ficava bem mais fácil de dia: olhávamos para o jogo, e não para a bola”.

A questão é que sem talento não adianta. Nós, os babistas da Águia Branca, somos jogadores experientes, e em alguns babas, por vício, também jogamos até ficar escuro. Geralmente me rende algumas furadas e uns chutes vergonhosos. Uma vez levei uma bolada no pescoço. Em outra, fiz um gol que ninguém viu.