O narrador adiantado

A narração esportiva é indispensável, e te explico por que. Teve uma época que eu acompanhava com afinco o Brasileirão, certamente com mais disposição e interesse que hoje em dia, e como não tinha TV fechada, sempre via os jogos naquele aglomerado de bares que liga a Avenida Sete à Rua Direita da Piedade, às vezes de pé, porque poderia escolher qual partida assistir.

locutor

O problema é que na transmissão do bar ao lado o gol sempre acontecia alguns segundos antes. O sinal da TV tinha um delay perpétuo. Alguns do outro bar até aproveitavam para nos engambelar, gritando gol aleatoriamente. O baiano é muito malandro. Se porventura eu trocasse de bar na semana seguinte, como numa brincadeira de Amélie Poulain, o delay se reverteria; ou seja, o bar da semana anterior agora se adiantaria e a informação atrasada continuaria comigo. O delay me acompanhava como aquela pequena nuvem de chuva que persegue os azarados nos cartuns. Mas era ele ou nada. Se ficasse em casa seria forçado a ver um jogo qualquer do Flamengo, sem ninguém pra me servir uma cervejinha. Assim me submetia ao intransigente delay. No futebol, esse teatro de fel e húbris, não há maior anticlímax que saber de antemão que aquela bola sem futuro no meio do campo vai se transformar numa jogada de gol (ou o contrário).

Por fim, uma tarde fui ao estádio de “Pituacives” ver um empate sem graça entre Bahia e Santos. Um sujeito ouvia aquela partida morna com um radinho de pilha. Ao contrário do jogo, a narração era veloz e entusiasmante: uma grande mentira. A bola flutuava a uns 50 metros do gol, e na narração ela passara raspando na trave. Um cruzamento torto era um lance perigoso e um chute fraco, uma chance forte. O jogo parava com um jogador caído no meio do campo, mas a narração continuava, furiosa, vibrante. Era uma grande partida, aquela do rádio. Não fosse a constante eminência da malandragem do torcedor baiano, eu fecharia os olhos e ficaria só com ela, de tão boa que estava.

Até que o jogo entra nos acréscimos e morre de vez. Os jogadores passam a trocar passes sem futuro. Os do Santos, satisfeitos com o empate fora de casa; os do Bahia, por não terem perdido. Mas na narração o jogo já havia acabado. “Fim de partida!”, gritava o narrador. Eu olhava para aqueles jogadores caminhando lentamente em campo, dois times de vacas pastando, a bola para lá e para cá, a torcida desanimada, e escutava o narrador falando já de outra coisa. O próprio jogo estava atrasado em relação à narração. Foi assim que desisti de fugir do delay…

Escrito originalmente como comentário a esse texto de Milton Ribeiro. 

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Um Prato Frio

Desde que a lavada já estava consolidada, com apenas meia hora de baba, eu não conseguia pensar em outra coisa que não nas ótimas piadas que deveriam estar acontecendo nos celulares e computadores. Piadas, além da própria seleção, é claro. As que bolei são, em sua maioria, impublicáveis – sobre o suicídio coletivo da cúpula nazista, um campo sem concentração, a anexação de Minas, e uma óbvia que de fato me mandaram, holocaustinho. Nelson chamou a derrotinha de 1950 de nosso “Hiroshima psicológico”; o que não diria desse massacre cometido exatamente pelos alemães?

Quando meu pai desligou a TV, vi que nas redes sociais, de fato, as pessoas estavam encarrilhando piadas desse naipe, uma atrás da outra, como garrafas de cerveja vazias. Quem viu o jogo em multidões reagiu como se presenciasse uma crueldade. Quem viu em casa, fez piadas. Foi a melhor reação que tive com uma eliminação brasileira. As outras foram mais amargas. O motivo: os outros times ainda inspiravam algum confiança. Depois das oitavas, todos guardávamos como um segredo inconfessável o fato de que, no fundo, nunca merecemos ir tão longe. Pela primeira vez, o mero fato de participar das sete partidas era visto por todos como uma coisa grandiosa. Ah, menos as crianças. Nós somos como o Rei do Ponto, Mitridates, que adquiriu imunidade aos venenos após prová-los por anos em pequenas doses. As crianças, coitadas, só querem gritar gol e balançar suas bandeiras.

Pois muita gente já elucubra futuros em que a seleção se vinga desta humilhação. Vou dizer logo: não vai ter revanche. E vocês sabem por que, meus camaradas? Porque esta já foi a revanche deles. Ganhamos nossa última copa em cima da equipe de Klose e Podolski, e depois a Copa das Confederações em 2005, os enfrentando em sua própria casa. A vingança é um prato que se come frio – vi essa semana o filme que inspirou o Kill Bill de Tarantino. Chama-se A Morte Anda a Cavalo. O resto do diálogo não é citado, mas diz que o prato quente pode causar indigestão. Portanto, você que só vê futebol a cada quatro anos e não suporta nossas derrotas, vou dizer: o futebol é uma roda gigante; o topo e a base se alternam. Quem acompanha sabe. O Super-Barcelona de Messi e Iniesta agora está lá embaixo. A Espanha também. É glória seguida de fracasso. Acostume-se.

A Alemanha é um time benevolente. Foi (está sendo, a Copa das Copas não acabou) a delegação que mais interagiu com o país e seus habitantes. Eles divulgam vídeos oficiais promovendo a Bahia; os times, a natureza, a cultura. Schweinsteiger, que foi filmado cantando o hino do Bahia, nos pediu desculpas pela humilhação. E veja, com o placar garantido em menos de meia hora, não pararam de buscar o jogo. Queriam mais. Poderiam parar, trocar passes, fazer firulas, estimular o grito de “olé”, poupar os jogadores, que seria o que qualquer torcedor brasileiro desejaria que fizéssemos, fossemos nós os goleadores. Mas não, mantiveram a seriedade e marcaram mais dois. Desde de a primeira partida, em que goleavam Portugal e nem por isso colocaram Klose, percebi que não estavam aqui de oba-oba. Vieram jogar sério, pra ganhar. Se fosse o Brasil goleando na estreia, vocês acham que a torcida deixaria o vice-artilheiro de todas as copas comendo banco? Merecemos Galvão.

A humilhação não diminui a grandeza da copa. Grandes partidas; e recordes são recordes são recordes. Devem ter quebrado uns quatro só hoje – meu não pai perdeu a piada: “pelo menosa copa voltou ao saldo de gols da primeira fase”. Agora me resta torcer pra Holanda. Torço para o Brasil para honrar um contrato assinado (chamado RG), mas desde que vi as gravações da copa de 74 nutro total simpatia pela Laranja Mecânica. O Futebol Total de Cruyff perdeu para os anfitriões Alemães. Esperam há quarenta anos por sua grande revanche…

O Efeito Salenko (final)

O que é o Efeito Salenko?

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O Brasil fez uma campanha medíocre nas eliminatórias da Copa de 2002. Na época, também perdeu para nulidades como Honduras e Austrália, além de entregar a Olimpíada de Sydney para Camarões, que tinha dois jogadores a menos. Nossa maior esperança, vergonha das vergonhas, era apenas conseguir participar. Os favoritos eram França, Argentina, Itália, Espanha e Portugal. Ninguém foi muito longe. Ironicamente, vencemos.

A Alemanha, também desacreditada, avançou na segunda fase com três vitórias por 1 a 0. Terminou com números parecidos com os do Brasil nas copas anteriores: os 14 gols marcados em 1998 e os três que sofremos em 1994. Seria uma campanha vencedora? Dos três gols sofridos, dois foram na final; dos marcados, nenhum.

Não cabe mais adentrar nas minúcias do Efeito Salenko para tais ocasiões. Não se trata de uma teoria prescritiva, que tem a intenção de diagnosticar e remediar, mas sim de uma explicação descritiva. Expomos estas ideias com a intenção única de refletir sobre ocorrências no esporte, de modo a acrescentar algo na sua compreensão, visualização e no fantástico ato de torcer.

Em 2002, foi possível perceber outros fenômenos além de Ronaldo. Um deles é que a insatisfação dos times grandes é amenizada quando outro grande dá vexame. “A França voou cedo da copa”, diria Henry, “mas pelo menos Argentina e Portugal também”. O desgraçado ama companhia. Pior mesmo é se a queda provém de Davi. Enfrentar o mais fraco é semear a perspectiva do prejuízo – vencer com pompas traz no máximo o senso de dever cumprido; perder, pior ainda, é a glória dos feiticeiros e dos pessimistas.

O mesmo não se pode falar dos pequenos, pois deles espera-se, eternamente, a derrota. Sua queda não chama a atenção; quando muito, desperta piedade. Sua vitória, ainda que desprovida de qualquer interesse, é sempre notável. Pra quem sempre perde, qualquer avanço fica na história. Coreia do Sul e Turquia, repetindo os feitos anteriores de Bulgária e Croácia, alcançaram as semifinais.

Os EUA, seleção sem tradição no futebol, também se classificaram para a segunda fase; saíram mais cedo, motivo pelo qual provavelmente nada viram de interessante naquela disputa pelo terceiro lugar. E aqui está a premissa: a vergonha alheia diminui a nossa própria, mas o orgulho dos outros pertence somente a eles.

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O futebol não é exatamente uma caixinha de surpresas, mas um quebra-cabeça que vai sendo montado aos poucos, em que no final, ao nos depararmos com a bela imagem, nos lembramos de certas pecinhas especiais que estivemos procurando por muito tempo, que quando vistas de fora, são apenas mais uma, semelhante a muitas, mas que têm bastante valor no contexto da montagem, pois nos esquecemos da maioria das outras peças. Esta é a essência do Efeito Salenko.

Aqui suspendo a crônica de minhas saudades. Poderia ainda adentrar com detalhes nas copas seguintes, porém a cada quatro anos este ensaio ficaria carente de atualizações. O futebol nunca para. A copa de 2014 já começa a deixar uma sensação agridoce, não de nostalgia ou saudades, mas de algo maior. Esperamos dedicadamente por ela, durante sete anos, e com todos seus atrasos, bagunça, erros de orçamento, roubos e tudo mais, ela sai melhor que a expectativa. Por um mês, somos o centro do mundo; por um mês, somos Nova York, Argel, Paris, Camberra, Londres, Buenos Aires. Estamos sempre falando de futebol; é uma das grandes copas de todos os tempos, talvez a copa das copas! A sensação que fica não é de nostalgia, mas de que história parece ter chegado ao fim.

O Efeito Salenko (parte 4)

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Num esporte de bola jogado com os pés, ou seja, com a falta de minúcia, o goleiro é uma espécie de pária, rindo das leis na frente de todos; um usurpador. A Santa Ceia não foi pintada com pés, nem assim foi escrito Hamlet. Chopin não tocava nada com seus membros inferiores. A civilização é a exaltação das mãos, e o futebol a desforra dos pés. Assim, pois, o uso das mãos está renegado ao desprezo público.

O goleiro é o Sísifo dos campos. Mal se levanta de um glorioso salto de três metros e lá vem mais um petardo em sua direção. A cada lance lhe espreita a vergonha que esconderá os feitos de uma vida. Nem mesmo o gol contra é tão criticado quanto um frango. O frango é comédia pastelão; como o escorregão, a pisada na bola, a furada, a bolada no pescoço, é a materialização do patético. O gol contra é uma vicissitude factível a quem trabalha duro. O zagueiro, em vez dos apelidos e dos dedos apontados, recebe consolo. Os goleiros, a cruz.

Uma defesa é um gol perdido, o acréscimo de zero, antes demérito dos artilheiros que habilidade dos goleiros: “Como ele perdeu esse gol?” antes de “como ele pegou essa bola?”. O Efeito Salenko, que trata especialmente das relações entre os gols que ficam e os que se esvaem na mente, mantém os mesmos princípios no que se refere aos goleiros. O título fará o frango ser esquecido, uma falha na saída de bola não é nada demais se você pegar um pênalti depois, e as maiores defesas de todos os tempos estão em jogos de copas, simplesmente porque eles são mais importantes.

Uma grande defesa vale como um gol, pois não tomá-los é também uma vantagem. Entretanto, ela nunca é marcada nas súmulas dos árbitros. Refiro-me, é evidente, às defesaças, sensacionais, àquelas em lances tão infalíveis que não seria obrigação do goleiro defender – as defesas inacreditáveis que só entendemos no terceiro replay. Preferimos o jogo sem lances de nossos goleiros.

Um gol não deixa de ser bonito quando o vídeo é ruim; a defesa precisa do ângulo certo. O gol mais bonito de Pelé não foi filmado, e os vídeos da década de 50 são péssimos. Uma imagem não vale mais do que mil gols, daí ser esdrúxula a comparação com Maradona. Por falta de filmagens, o melhor goleiro de todos os tempos, František Plánička, o tcheco de 1,72 metros que segurou o Brasil com um braço quebrado e perdeu uma copa para Mussolini, é um anônimo internacional.

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O Efeito Salenko também exerce influência em outros esportes e jogos, especialmente aqueles que podem ser decididos com um único movimento. Nunca no atletismo, no levantamento de peso ou na natação, que do início ao fim da disputa (alguns segundos), dependem da atividade total e constante; e quase nunca no basquete ou do vôlei, em que o resultado é a soma de minúsculas frações: os pontos disputados numa partida podem chegar às centenas, e de fato ganha quem joga melhor. No tênis, talvez, pois o resultado depende do giro da bola em conjunção com o estado físico e psicológico de um jogador solitário, e às vezes até do piso da quadra.

Numa luta, sua presença é indiscutível. Um boxeador pode levar uma sova por rounds seguidos, e ainda assim, tonto, cambaleando, babando, com o sangue escorrendo pela cara, sem enxergar direito, sem se firmar no chão, poderá desferir o gancho fulminante que nocauteará seu adversário. No xadrez, perdemos as torres, os bispos, os cavalos, grande parte de todas as peças, e a possibilidade do xeque-mate ainda paira sobre o rei adversário, que está encurralado diante da rainha e do único peão sobrevivente. No dominó, seguramos uma bucha morta com a possibilidade da vitória; bucha de branco. No Texas hold’em, o dois e o sete do pato que entrou na mesa sem saber jogar podem virar um full house e bater o par de ases que o bom jogador escondia. No palitinho, quando seu único adversário inocentemente pede lona e você não tem nada na mão.

O Efeito Salenko (Parte 3)

Descubra o que é Efeito Salenko aqui e aqui.

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Sabemos que a palavra “gol” deriva da inglesa goal, que significa “objetivo” ou “meta”. Mas qual o objetivo do gol? Primordialmente, o gol serve para alterar o placar, aproximar sua equipe da vitória, dos pontos, às vezes do título. Historicamente, gols são apenas números, e a história é marcada por estimativas frias: dois mil figurantes numa filmagem, 25 mil franceses numa batalha, seis milhões de judeus numa guerra. Arredonda-se as quantidades para facilitar a narração do mundo. Em longo prazo, nos recordamos apenas dos gols especiais. Quatro gols na final da copa, aquele no último minuto. O gol, enquanto momento único, é um número específico. Sua função é entusiasmar o jogador e inflamar a torcida. A modorra de um jogo morno é destruída com um primeiro gol.

Alguns gols são tão importantes e interessantes que recebem um nome próprio. Gol Olímpico, Gol de Placa, o Gol do Título; o Gol do Século, aquele em que Maradona atravessa o campo driblando ingleses; o Gol Cem de Rogério Ceni; o Gol Mil de Pelé. E, no entanto, são apenas variações do momento em que a bola cruza por inteira a linha de chegada. Por belos e importantes que sejam, adicionam apenas um número no placar, sempre. Nunca mais de um.

Ainda que em sua essência todos são a mesma coisa, há gols que no contexto geral valem mais. O Gol Mil de Pelé é consequência natural da eficiência de seu futebol; o gol mil de Túlio é um produto forçosamente extraído de uma experiência patética (o único gol de Tony Hibbert é mais genuíno). A paráfrase do Gol do Século realizada por Messi contra o Getafe só tem uma fração da importância do gol de Maradona. Não deixam de ser igualmente belos. E não podemos nunca nos esquecer da função primordial do gol. Neymar ganhou o Prêmio Puskas por seu lindo gol contra o Flamengo, mas o Santos, no final das contas, perdeu a partida.

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Depois de acontecida a tragédia, pensamos sempre em como ela poderia ter sido evitada. Um centímetro a menos de trave ou a mais na espessura da linha do gol, a posição do pé contra a bola num chute decisivo, o impedimento mal marcado. “Se aquela bola…” O futebol é um exercício metafísico em que um gol marcado anula um erro precedente, mas não o contrário. O gol de Ruiz, no jogo da Costa Rica contra a Itália, não sairia se o pênalti em Campbell tivesse sido marcado. Por outro lado, se o pênalti fosse posterior ao gol, a Costa Rica poderia ter ganhado com a diferença de dois gols. Acontece sempre.

A ordem dos fatores altera o produto; eis um princípio do Efeito Salenko. A Inglaterra não ganharia a copa de 1966 se o juiz não tivesse dado para eles um gol que não entrou. “Mas ganhamos de 4 a 2”, dirão os ingleses. Claro, o gol dado a Hurst na prorrogação obrigou a Alemanha Ocidental a atacar e, consequentemente, liberar espaço para o quarto gol inglês. Variação do princípio: se seu time toma uma goleada, posso te pirraçar à vontade. Se o meu toma uma lavada logo em seguida, você não pode dizer nada, pois o seu também tomou. O tempo e o espaço, como em Newton, são absolutos.

As duas grandes tragédias futebolísticas brasileiras sugerem movimentos opostos entre si. Precisávamos do empate nas duas ocasiões (ou seja, não tomar um gol a mais, ou fazê-los em mesma quantidade). No maracanazo, o movimento da bola para fora do gol (uma defesa de Barbosa, talvez), e na Tragédia do Sarriá, em 1982, da bola para dentro (na cabeçada de Oscar, aos 44 do segundo tempo). De acordo com o livro Veneno Remédio, de José Miguel Wisnik, alguns jogadores tinham tanta certeza que o resultado estava divinamente escrito, que afirmaram que se a cabeçada tivesse entrado, certamente tomariam outro gol em seguida. Certamente de Paolo Rossi, penso.

A ruminação, entretanto, é a arte dos vencidos. O óbvio ululante, que não passa pela cabeça de ninguém por aqui, é que tais minúcias poderiam ocorrer em detrimento do vencedor. Ninguém sequer cogita a possibilidade da bola entrando, no pênalti de Baggio… Mas penso especialmente num lance nunca repetido da final de 2002. Estava cochilando, quando acordei com os gritos assustados de todo o Brasil, desperto, ansioso. Numa cobrança de falta no começo do segundo tempo, o sete, Neuville, estourou um tijolo na trave de Marcos. O jogo ainda estava empatado. E se o curso da bola tivesse se desviado uns dois centímetros em direção ao gol? 

O Efeito Salenko (parte 2)

Descubra o que é o Efeito Salenko.

04

A copa da França, em 1998, foi a primeira com 32 equipes. As consequências do Efeito Salenko nos foram devastadoras. Para começar, o Brasil fez 14 gols, três a mais que em 1994, porém tomou dez, sete a mais que nos EUA. Além disso, o time perdeu duas partidas, sendo que a final foi uma derrota humilhante. O que leva a um segundo teorema: é melhor manter o saldo que marcar mais e tomar muito mais. Sempre é melhor ser campeão dando show, é a lógica básica, sabemos. Mas, teoricamente, um time retranqueiro que sabe bater pênaltis bem (e que tem a sorte de ver o craque adversário mandar a bola pro espaço) pode ser campeão do mundo se fazer um gol sequer no jogo normal.

É o Efeito Salenko. A França manteve um impressionante saldo positivo de treze gols. Mas esta é uma renda bem distribuída naquela seleção. Dos 14 gols do Brasil, um foi contra, da Escócia, e todos os outros treze foram marcados por apenas quatro jogadores. A França marcou 15 vezes, e todos bem divididos entre seus nove goleadores naquele ano. O inesquecível Zinedine Zidane só marcou dois na copa inteirinha, e os brasileiros, mesmo os que não viram aquela copa, já estão abusados de revê-los pela TV. O craque francês vai ser lembrado pelo resto de sua vida, por casa daqueles dois golzinhos de cabeça. Não duvido que se Ronaldo pudesse transferir gols como faz com seus dólares, tiraria os três que marcou contra o Chile e o Marrocos, onde vencemos com gols de sobra, e os depositaria na conta dos franceses. Creio até que ele daria sua Bola de Ouro para Zidane em troca da taça de campeão.

Alguns anos depois da lavada que tomamos para os donos da casa, com o luto passado, mas com a ferida ainda não cicatrizada, um jornalista brasileiro, com os olhos inchados de lágrimas, faz a pergunta definitiva: “você não tem coração, homem cruel, não sente remorsos por fazer chorar tantos milhões de brasileiros inocentes?” Zinedine Zidane, blasé, responde: “Mas vocês já pensaram em quantas pessoas sofreram, em quantas vocês fizeram chorar?” O torcedor brasileiro, acostumado a tantas vitórias, ainda não tem maturidade para notar que, sempre que comemoramos, o outro lado sai perdedor. Por isso, quando perdemos, entramos em luto, é catastrófico. Nunca conseguimos nos acostumar com perdas tão grandiosas. Vi o Brasil perder três vezes; a derrota de 1998 foi a única em que eu ainda não bebia.

Das dezenove copas disputadas até agora, o artilheiro foi do time campeão apenas em 1978, com o argentino Mario Kempes (que não seria nem artilheiro nem campeão sem os dois gols na polêmica goleada contra o Peru); em 1982, com o carrasco Paolo Rossi; em 2002, com Ronaldo Fenômeno; e  em 2010, com Villa. Apenas quatro, dentre dezenove, é um número significativo. Não que não seja importante ter o artilheiro, pois a essência do esporte é buscar fazer gols, sempre. Significa na verdade que um time com vários goleadores medianos em geral é mais eficiente que uma equipe com um único grande artilheiro. E mesmo assim, para ser campeão os gols precisam ficar espalhados em várias vitórias, como diz a primeira premissa do Efeito Salenko (vide quesito 01).

O exemplo do francês Just Fontaine é tão contundente que poderia batizar minha teoria, não fosse o fato de sua seleção ficar em terceiro lugar, bem melhor que o desclassificado Oleg Salenko. Fontaine é o artilheiro de copas com maior número de gols em uma só edição, treze no total, e por muito tempo recordista em número de gols marcados. Na copa de 1958, a França, sua seleção, desferiu ruidosas goleadas. Um 7 a 3 no Paraguai, em sua estreia, e um 4 a 0 contra a Irlanda do Norte, nas quartas, para enfim de tomar uma lapada de 5 a 2 contra o Brasil de Pelé e Garrincha. Ainda deu mais uma goleada, de 6 a 3, contra a Alemanha, na disputa do terceiro lugar. Quem se lembra? Alguém sabia disso? O que fica de 1958 são os golaços dos brasileiros.

Enquanto isso, Zinedine Zidane não precisaria fazer mais nada para ter seu nome gravado no esporte, com apenas dois gols. E eu me pergunto quem é mais famoso, o artilheiro Salenko, ou mesmo Stoichkov, que já foi considerado o melhor do mundo, ou Zidane, com suas cabeçadas?

Eis a questão: quantos gols de cabeça iguaizinhos àqueles não são feitos às pencas por aí? Eu mesmo já vi centenas, milhares de gols até mais bonitos que aqueles, transmitidos rapidamente na chuva de gols televisiva, sendo esquecidos para sempre, para dar lugar a alguns gols feios, porém decisivos, de campeonatos mais interessantes. Gols repetidos todos as semanas. O sentido do Efeito Salenko, aqui, é exatamente demonstrar que o lugar e a situação às vezes são mais importantes que os gols em si. Operações frias de matemática e de estatística não funcionam bem no contexto caliente do futebol.

O Efeito Salenko (parte 1)

No final de 2011 comecei a escrever um romance juvenil sobre futebol que seria publicado seis meses antes da copa e me deixaria rico e famoso. Eu não havia planejado nem o meio nem o fim, e percebi que ele não funcionaria após escrever mais ou menos quarenta páginas. As notas ensaísticas dessa e das próximas postagens foram extraídas (e atualizadas) desse romance inacabado, que se chamaria O Efeito Salenko.

01
Na primeira Copa que vi, nos EUA, em 1994, só competiam 24 times. O Brasil estava no grupo B, junto com a Rússia, o Camarões, e a Suécia. Os artilheiros foram Stoichkov, da Bulgária, e Oleg Salenko, da Rússia com 6 gols cada. Salenko jogou vinte minutos contra o Brasil, mas não marcou. Na verdade, a Rússia sequer passou da primeira fase. Mas ele fez cinco gols contra o Camarões, na goleada de 6 a 1. Em um único jogo fez o mesmo número de gols que Romário na copa inteira. Romário, que entrou em suas sete partidas como titular, foi nosso artilheiro, e absolutamente decisivo. O que me leva a pensar numa verdade futebolística: o Efeito Salenko. As premissas e teoremas que nos ajudam a definir tal verdade ainda estão sendo desenvolvidas e pesquisadas. A primeira delas é bastante óbvia: mais vale obter sete vitórias magras que uma goleada, um artilheiro, e uma eliminação precoce.

02
Até hoje, não há qualquer rancor prolongado entre o Brasil e a Itália (apesar de serem rivais tradicionais), ao menos não como temos em relação à Argentina e à França. Cada um dos dois países teve seus momentos de glória na história do confronto, e o desejo de retaliação não é tão acentuado como poderia ser, caso só houvesse vitórias de um lado. Há ainda certo ressentimento por conta da copa de 1982, ressentimento que eu herdei. Mas ele nunca poderá ser sarado, mesmo que os batamos em dezenas de finais, pois o time de Telê era uma seleção especial, que as crianças das gerações posteriores foram ensinadas a apreciar sem terem visto jogar. A goleada na final de 1970, no entanto, compensa, mesmo sabendo que nas copas de 1938 e 1982 tínhamos um time melhor.

E em 1994, mais uma vez, o Efeito Salenko. A Itália nos enfrentava confiando em Roberto Baggio, que foi seu artilheiro e já tinha desbancado a Bulgária de Stoichkov, o outro artilheiro, sendo que este precisou de muito mais minutos em campo para igualar a marca de Salenko. Baggio enfrenta o Brasil, e tem o mesmo número de gols que Romário. Qualquer um dos dois tinha a possibilidade de ser o artilheiro (isolado, se fizesse mais de um gol) e herói da Copa. Nenhum marca, e nos penais, Baggio manda o dele para o espaço, junto com toda sua bela campanha. Baggio se iguala, neste momento, a Barbosa, o goleiro brasileiro que recebeu a culpa pelo maracanazo (nosso “Hiroshima psicológico”): de herói a pária com um único chute. Taffarel, que nesta final quase toma o maior frango de todas as copas, se consagra.

03
Na física, um objeto qualquer é chamado corpo. Um corpo é formado por partículas, que juntas completam uma unidade. Um corpo pode ser qualquer coisa, de qualquer tamanho, e outros corpos podem estar dentro de um corpo. Uma bola de futebol é um corpo. Uma bolinha de lama que se colou na bola de futebol é outro corpo. Uma formiguinha que estava na bolinha de lama também é outro corpo. Um corpo pode ser considerado grande ou pequeno, quando há uma comparação. Podemos comparar um corpo a outro corpo de mesma categoria, ou a outro de categoria diferente. O planeta Terra é grande em relação à formiga (que é de uma categoria diferente, pois enquanto o primeiro é um planeta, o segundo é um inseto), porém é minúsculo em relação a Júpiter (que é da mesma categoria, pois também é um planeta). Júpiter, em relação ao sol, é pequeno, e assim sucessivamente, em relação a corpos de outros sistemas. Quando um corpo é considerado grande, é chamado de corpo extenso; quando é considerado pequeno, de ponto material. Isto está intrinsecamente ligado ao Efeito Salenko.

O grande jogador de futebol segue uma hierarquia e uma cadeia que geralmente vai da partícula ao astro. Ele melhora aos poucos entre seus amigos, na escolinha, no colégio, no time juvenil, no time principal, até que ganha seu primeiro título. É um corpo extenso, em relação aos times que enfrentou. Um título estadual permite que no ano seguinte o time jogue contra os grandes – na Copa do Brasil, especialmente –, ainda que como ponto material. Se este jogador seguir o ritmo de ascensão que teve até então, poderá chamar a atenção do time grande e ser contratado por ele, se destacar lá, ir para outro maior ainda, etc. O céu é o limite. Há outras maneiras de ascensão futebolística, e este é apenas um exemplo educativo.

Mas recuemos. O ponto a que quero chegar ainda está na Copa do Brasil: mesmo havendo uma diferença quilométrica entre o corpo extenso e o ponto material, o time pequeno pode surpreender. Na linguagem popular, isto é chamado de “zebra”. Não é uma possibilidade tão remota. Brian Clough e Peter Taylor foram campeões da Europa comandando times pequenos. O Juventude, o Paulista e o Santo André foram campeões da Copa do Brasil. O São Caetano quase ganhou o brasileirão duas vezes, mesmo sendo um time de tradição menor que a de seus adversários. Aconteceu também em várias Copas do Mundo: o maracanazo, o milagre de Berna, a queda da Laranja Mecânica, o fracasso de 1982, e consideraremos, nas últimas edições, o avanço inesperado de Bulgária, Croácia, Coreia do Sul e Turquia. É diferente da mera zebra, pois uma coisa é ganhar uma partida de um time grande, outra é um campeonato, que requer sequências de vitórias sobre vários deles. Isto dá origem ao Princípio Schrödinger do Efeito Salenko: qualquer time de futebol, ao entrar no campo, é ao mesmo tempo grande e pequeno. É o que o Efeito Salenko tem a acrescentar aos princípios da massa e da estatura.