a húbris é mais forte que o medo

Depois disso pensei que se foda toda esta merda a húbris é mais forte que o medo, não a a húbris a cólera, a desmedida, o vinho que transborda na taça, mas a húbris a energia motor, o ímpeto de viver, o calor, e o medo é rotina e a húbris é caos, e o medo é um céu azul e a húbris é um terremoto, e o medo é tédio e a húbris é ternura, e dirigi até o capão com a roupa do corpo, embebedei com leffe e cravinho, dormi com o carro aberto e a chave dentro, já todo detonado por causa da buraqueira, e tive uma conversa longa séria e reconfortante com minha chefe e outra leve curta e deliciosa com uma ex-aluna do cabelo rosa, brinquei de carrinho, desenhei, soletrei, levei meu filho pra comer pastel, organizei uns 500 livros, reli tudo sobre ensaísmo, aprendi a tocar “Elephant gun” no ukulelê, revisei Hazlitt e bebi uma garrafa de vinho suave com um amigo músico com quem não conversava fazia muito tempo e uma de vinho seco com um primo com quem converso sempre, transei com uma mulher que não gostava e repeti pra mim mesmo que não iria mais fazer isso e aí dei um fora em Paula Fernandes porque Clarice Falcão estava me dando mole, comi feijoada com um glutão que depois disso foi ver aulas de filosofia no YouTube, comi água com Heineken com uma ex-companheira de banda e um casal tatuado e fiquei com uma garota que já amei amargamente tanto quanto meus volumes de Proust, joguei travinha com um policial separado que também é pai, embebedei com conhaque no show de Asley e Scambo enquanto me esforçava para dançar com a irmã de uma grande amiga, fui ao Goiás morrendo de ressaca, pesquei no Araguaia com meu pai e fui quem pegou mais peixes, entrevistei um barqueiro, e no dia em que completei 30 anos Dilma foi impedida, peguei meu maior peixe, combinei com meu primo caminhoneiro de ir com ele ao Pará, embebedei com Chivas, e exatamente quando meu bolo surpresa foi posto na mesa esse meu primo descobriu que o pai dele acabara de falecer e voltamos para casa na hora, minha segunda viagem alcoolizado. Passei uma tarde com a menina que amara amargamente, passeei com minha filha, tive conversas online excelentes com um cartunista que foi meu colega e um gaúcho que nunca vi, escrevi um obituário, e uma esquina sobre a pescaria, comprei a piauí com meu texto, li Robert Capa, vi uma cerimônia apresentada pela melhor aluna que já tive, embebedei com Heineken e Baden-baden e meu primo órfão de pai me agradeceu pois se eu não o tivesse pressionado a mostrar seu filho a meu tio ele carregaria essa culpa por toda a vida, deixei a louca de minha ex-companheira de banda dirigir meu carro na contramão, dirigi até Salvador e a ressaca caiu sobre mim repentinamente e ficou até o meio da viagem, bebi pouco com meu compadre, fui driblado por um poeta laureado, comprei Sedaris, Mitchell, Nabokov, esqueci meia garrafa de cravinho no Porto Moreira, cantei mil vezes um verso do forrozeiro Santana e “Juizo Final” numa versão perfeita com os reis do violão e do bandolim, dancei forró com a galeguinha mais malandra da Bahia, voei para Brasília um pouco embriagado e sonhei com a irmã de meu compadre, irritamos passageiros (“que cherchent-ils au ciel tous ces aveugles?”), comi linguiça na feira do produtor, vi gêmeas recém-nascidas e comi rabada na casa do avô coruja, fui importunado por um poeta drogado, não embebedei após 28 cervas com um artista plástico meio punk que conhece todas as músicas do mundo, recebi um sermão de um editor, comprei Kohan, Kertesz, Marías, Márai, Malcolm, Chatwin, Francis, e um Calvino que li no mesmo dia, fui emboscado por um sarau de poesia enquanto discutia “hodor”, declamei um soneto de Bruno Tolentino, falei mal de Brasília para o máximo de brasilienses, viajei às 3h da manhã com um intelectual psicótico completamente embriagado que queria porque queria comprar cocaína num lugar perigoso e pensei que algo de ruim poderia acontecer, mas estava preparado para isso, pois a húbris é mais forte que o medo e que se foda toda esta merda, eu vou é pra Cusco. Caminhei no parque com o marido de minha tia, embebedei de dia com domecq e black tiger comendo coisa pesada e de noite com Porca de Murça, ice e margaritas, vi um show de jazz num posto de gasolina, comprei outro Márai, vi Tirúbio Santos desenhar o sertão com um violão, a ocupação zumbi da funarte e minha irmã embebedar com duas garrafas de ice, vi uns Mondrians meio pebas, comi madeleine com chá e não escrevi nada depois, comprei uma passagem para o Acre, um Vidal e um Manguel, vi o Atlético perder para o Real, ganhei sozinho no sinuca em dupla, vi o compadre dormir no bar pela décima oitava vez na semana, comprei pelúcias e cervejas com o artista meio punk e bebemos ouvindo Muse e Rammstein, imitei o Mr. Bob Dylan, you know, não embebedei com mojitos de montilla num show meio hipster onde encontrei um conterrâneo de Irecê, celebrei o aniversário de minha irmã com crepe e sushi e percebi que já fazia três semanas que eu não tinha nenhum de meus pesadelos recorrentes (os medos diurnos em estado exagerado, o medo de que algo aconteça com as crianças, ou que eu morra amanhã, ou que eu seja esquecido em vida), comprei Flaubert e uma almofada inútil e me enfurnei num ônibus por dois dias e meio e desenvolvi a inédita habilidade de ler e escrever em movimento, e li Márai e grande parte do Manguel (na volta ainda leria Kohan), saí com uma menina do cabelo azul que conheci no tinder, suei como nunca antes, conheci uma dupla quixotesca que me convidou para alimentar um jacaré e depois conhecer a cidade, entrei no carro velho e a mulher me apontou uma arma e eu tinha esquecido no bolso os R$200 que tinha reservado para o Acre e pensei que se foda toda esta merda a húbris é mais forte que o medo e meti a mão na arma e vi que ela atirava perfume, e o índio gigante me disse que já vira muitas armas e eu fiquei cismado pelo resto do dia e com eles comi tacacá, tucupi, cupuaçu e açaí, recebi um superlike e um estímulo incomensurável do editor, e esperei por 17 horas na rodoviária internacional e li Manguel, escrevi um poema péssimo sobre o meu ideal feminino, e um manuscrito não ficcional impublicável de 13 páginas, vi dois péssimos filmes dublados após um mês inteiro sem ver absolutamente nada, dei meu pacote de amendoim para um senegalês chamado Barak que falava um francês incompreensível, às 5h30 eu era o estrangeiro num busu peruano, tomei chichas e comi pollipapas com eles em mesas compartilhadas e cheguei em Cusco às 3h da manhã sentindo um frio da moléstia pois fazia 4 graus e eu ainda não tinha onde dormir, uma blogueira inglesa tentou me impressionar depois de ver meu manuscrito, comprei Llosas, um gorro, chaveiros, uma boneca, subi Sacsaywayman, prosei com um belga, vi um jogo da NBA, embebedei com blood bombs e cusqueñas no beer pong com uns israelenses desgraçados, comi ceviche e choclo, conheci um alemão que me atendera na noite anterior e me fez contar as cinco mentiras de Loki (1-I’m not going out tonight, 2- ok, I’m going out, but I’m not drinking, 3 – ok, I’m drinking, but I’m going home early, 4- ok, I’m getting smashed, but I’m leaving tomorrow, e 5 – I love you!?), apostei rodadas de bebida nos dados (perdi uma vez para uma polonesa), embebedei com pisco sour, white russian, sambuca, tequila, gliders, pisco puro, lowenbrau, e sabe-se lá o que mais, neguei weed (makes me kinda paranoid) acordei com vontade de vomitar, mas tinha que esperar uma van, e passei por uma estrada sem proteção a mil metros de altura com um motorista de húbris mais forte que a minha, e mesmo depois de dormir ainda queria vomitar e mesmo com a van parada ainda queria vomitar e fiz muita amizade com um mendozino que efetivamente vomitou do meu lado e nenhuma com o peruano de muletas que ia do lado dele de carona e vomitou mais ainda, uma fila de regurgitadores, e fiz amizade com uns chilenos e umas brasileiras contando essa história e comprando uma coca, os enganei (fi-los crer que sou um gênio dos números), neguei marijuana (“me quedo paranoico”), não embebedei com pisco sour, acordei às 3h30, masquei folhas de coca, citei Tchekhov para umas alemãs (“ich sterbe”) e fiz a trilha até Machu Picchu. Fui convencido a ficar mais um dia mesmo tendo pago apenas por um, joguei jenga, fiz a trilha de volta com pouca grana e sem saber se teria de pagar para voltar para Cusco e disse fodase toda ehta mierda, la hubris eh mah fuerte que la hambre e gastei quase tudo em cusqueñas e entrei numa van no lugar de um tal Paolo Moralez que nem sei se apareceu e foi a desgraça porque o hideputa do conductor não parava em lugar algum e descobri que nem a húbris nem o medo nem uma estrada mortal são mais fortes que uma bexiga prestes a estourar e a menina mais bonita da cidade bebeu todo o seu gatorade e me deu a garrafa mas eu não consegui mijar lá e a van parou dois minutos depois, ouvi um disco de música peruana genial e não tinha carga no celular para gravar no shazam, entrei de malandro numa boate e embebedei com TUDO, beijei uma americana que tentou bafar meu chapéu, e me lembro vagamente de uma xará de minha irmã, dormi na boate, acordei no albergue e achei 110 soles dentro do Kohan, ajudei uma abuelita a levantar um menino que se jogara na calçada, bebi um litro de água sentado na esquina tomando sol e um peruano com a camisa da argentina tentou me vender marijuana (“ahora no, gracias, ehtoy de resaca, pero conohco unos tipos que quieren”), comi chicken wings e dei minha coca para um cara de Liverpool, comprei um xale, uma aquarela, lhaminhas e mais um gorro, tentei em vão ligar para uma chica do tinder e vendo o movimento da rua me esbarrei com a moça do gatorade e sua esposa, fomos para seu albergue, ouvimos “Home” e Bob Marley, recusei um cachimbo (“senão vou achar que todos no ônibus querem me roubar”), me apaixonei por elas, atravessamos Cusco correndo duas vezes, a segunda com todas as minhas coisas, e confirmei que o ônibus se atrasaria, e confirmei que tenho horror ao que é permanente, e confirmei que não tenho mais medo de nada.

O texto mais tocante do ano

Mordo-me de inveja quando leio um texto sagaz. Há textos sagazes que são frutos de pesquisa, de observação repetitiva, do estudo de uma vida; não os invejo. Desejo para mim apenas o produto do puro insight, a lâmpada flutuante que poderia ter acendido sobre a cabeça de qualquer um. Sinto inveja quando leio João Pereira Coutinho discorrendo sobre a caça aos gordos, José Francisco Botelho sobre um jogo de futebol sem importância, meu compadre, O Mofino, sobre muletas, Martim Vasques sobre best-sellers, Julião sobre o cemitério do Campo Santo. Sim, sinto inveja de conhecidos e desconhecidos. Eu não escolho como a inveja vem – ela é caprichosa. Não a sinto quando leio autores de língua estrangeira. Jamais meu sangue carrega deste veneno quando leio alguém que já morreu. Piza sobre Pelé e João Ubaldo sobre o abuso das estatísticas me trazem puro deleite. Por que haveria de invejar quem não está mais vivo? Outro dos caprichos de minha doença é que ela não é a inveja maledicente ou sabotadora – invejo os textos que admiro abertamente. É uma inveja competidora – que por algum tempo moveu um blog coletivo que eu tinha com meus amigos. A cada texto interessante que surgisse era preciso (tentar) superá-lo, seja no texto seguinte ou nos comentários.

Entretanto, não invejo textos emocionantes – que pressupõem uma experiência pessoal – ainda que puramente ficcionais. Não invejo a profundidade alheia, pois ela sempre carrega consigo o sofrimento; a doença dos outros já lhes bastam. A mim me basta saber que Charlles Campos fez o texto mais tocante do ano.

Os dez livros que TODOS devem ler

Lista feita a partir de uma proposta nas redes sociais

Não são exatamente meus favoritos, porque não é o propósito da lista, e creio que ainda precisamos desenvolver nosso Pequeno Cânone de Obras para Apaixonarem os Jovens pela Leitura. Bem, o que todos devemos ler? Comece pelo Eclesiastes (1) e pelo ensaio Sobre como filosofar é aprender a morrer, de Montaigne (2), e descubra o que vai lhe acontecer uma dia, sem necessariamente se desesperar. Depois entenda sobre ciência e artes com os livros mais acessíveis, Uma breve história de quase tudo, de Bill Bryson (3) e História da Arte, de Gombrich (4). A base da literatura é Homero, de quem indico A Odisseia (5), que requer A Ilíada como leitura anterior. Apesar de gostar mais de Macbeth, uma peça ainda mais essencial de Shakespeare é Hamlet (6), escritor que realmente interessa a qualquer pessoa. O melhor romance de todos os tempos é Em busca do tempo perdido, de Proust (7), magnífico mosaico da belle epoque que resume e continua a história da civilização. O melhor romance brasileiro é Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (8), uma travessia pela nossa alma, e nosso livro mais profundo e bem escrito creio ser Os Sertões, de Euclides da Cunha (9), que todos dizem ler sem ter lido. Mas de nada adianta tentar ler esses livros se você não for capaz de degustar algo como Os Três Mosqueteiros ou O Conde de Monte Cristo, de Dumas (10), substâncias altamente viciantes.

Outras listas:
Vinte livros de ensaios imperdíveis
Off-10 – os livros desconhecidos que eu mais gosto

A melhor maneira de divulgar seus contos

1 ) Esses dias um amigo meu me dizia que não se lembrava de nenhum grande escritor cuja carreira se baseasse unicamente em contos. A maioria dos nomes que imediatamente associamos ao conto, segundo ele, é de cultores de alguma outra prática literária. Borges e Poe também eram poetas e ensaístas, Tchekhov e Bábel dramaturgos, Otto Lara e Walsh eram jornalistas. Os russos (Tolstoi, Dostoievsky, Turguêniev), os americanos (London, Faulkner, Hemingway, Fitzgerald), os brasileiros (Machado, Rosa, Lima Barreto, Clarice), e muitos outros (Cortázar, Calvino, Wells, Kafka, Woolf, Flaubert), todos eram também romancistas. Deve existir por aí um exército de contistas “puros”, eu mesmo conheço um bocado, mas estávamos falando dos notáveis, aqueles que aparecem em quase todas as listas e antologias. Só me lembro de três: O. Henry, Schulz e Munro, que talvez tenham deixado por aí cartas ou diários, não necessariamente com intenções de publicar.

2) No caso da maioria dos romancistas citados acima: se falamos de contos em geral, rapidamente nos lembramos deles; se falamos deles, rapidamente nos lembramos de seus romances. Seus contos só aparecem adiante. O conto não vende, e editor nenhum quer publicar, ainda mais se o autor é inédito; uma regra boba dos mercados editoriais. Talvez seja esse o motivo pelo qual os contistas se dedicam também a outras atividades. Só que mais bobo ainda é encarar o conto como um treinamento para obras maiores. Um treinamento (em nosso caso, rascunhos e primeiras versões) é aquilo que não se mostra; os contos são obras definidas. Quem os lê não espera ali um preparo para algo maior; o conto não é um teaser: deve funcionar por si só.

Suspiros que cortam o ar (p. 65)

3) Dizem que um escritor chamado Paustovsky, ao visitar Isaac Bábel, se espantou com uma pilha de manuscritos: “Finalmente escrevendo um romance?”, perguntou Paustovsky. “São os rascunhos de um conto”, respondeu Bábel. Não estavam ali todas as versões; eles contaram apenas vinte e duas. Ao leitor, entretanto, só interessa a versão final – treinamento é cada versão que ele jogou fora.

4) O conto geralmente é esquecido com mais facilidade. Primeiramente, pelo leitor. Uma mera questão de formatação – é mais difícil se lembrar de todas as 50 narrativas breves de um volume de Lydia Davis que de um romance do mesmo tamanho, com seus personagens definidos e seu único enredo. Lemos um conto numa revista ou antologia, junto com dezenas de outros textos, e naturalmente nos esquecemos de alguns. O livro como um todo é mais resistente.

5) Em seguida, pela História. As antologias de Borges, Hitchcock e Bráulio Tavares estão forradas de grandes contos desconhecidos. O romance Lolita foi inspirado num conto homônimo de um autor alemão sem muita fama. O outrora famoso contista e poeta Delmore Schwarz é bem menos conhecido que os romancistas que ele influenciou. Um bom escritor poderá fazer uma carreira baseada em um único romance, mas dificilmente conseguirá forjar uma carreira baseada em um único conto, ainda que estejamos falando apenas de obras-primas. Você compraria um livro com (ou por causa de) apenas um conto?

6) De acordo com Borges, não sem uma grande dose de ironia: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos”. O trecho está no prólogo à primeira parte de Ficções. Borges inventou muitos romances, mas não escreveu nenhum deles.

7) Um romance é mais difícil de escrever que um conto. Sempre achei isso muito óbvio, e nunca entendi porque tem gente que afirma que não. Poderão discordar comparando O Jogador de Dostoiévsky, escrito num mês, com o tal conto de Bábel e suas vinte e duas versões; mas são exemplos extremos, escolhidos cautelosamente. Quantos romancistas não arrancam seus cabelos diariamente, durante anos, na criação de uma única obra? Quase todos. Dá muito mais trabalho fazer vinte de versões de um romance. Do mesmo modo, é mais difícil criar um longa-metragem que um curta, uma sinfonia que uma sonata, uma graphic novel que uma tirinha. É mais difícil simplesmente porque é mais longo.

contos 2

8) Anunciá-lo, porém, parece interferir diretamente na autoestima de alguns realizadores das formas breves. Só que dizer que o romance dá mais trabalho não é de maneira alguma declarar superioridade; o que conta é a forma final. Não troco “Funes, o Memorioso” por muitos romances que devem ter dado um trabalho danado pra escrever. Acreditar que o mero gênero literário é indicador de superioridade é o mesmo que atribuir valor a um livro apenas porque levou muito tempo para ser escrito, ou ainda que dizer que um escritor é bom porque escreve com velocidade.

9) Não é incomum encontrar, em qualquer área, pessoas que atribuem autenticidade ao trabalho do amador, à obra feita nas coxas, sem nenhuma justificativa. No mesmo caminho, muitos estranhos me enviam contos, ensaios ou poemas sem eu pedir, ou os publicam por conta própria, anunciando de antemão que não foram revisados. Isso soa como uma defesa antecipada contra as críticas inevitáveis. Se não foi revisado, é porque não está pronto. Até sair algo bem feito, é muito difícil. E se não está pronto, por que enviar aos outros? Pior ainda, por que publicar?

(Essas últimas notas foram levemente baseadas nesse ótimo texto de Sérgio Rodrigues e nesse de Carol Bensimon. Aos que discordam, sugiro fazer o teste empírico: escreva um conto e um romance, o melhor possível, depois reescreva tudo e revise o quanto for necessário. Por fim, me diga qual deu mais trabalho).

10) Machado de Assis escreveu 218 contos (publicou em livro “apenas” 76), sendo os mais conhecidos “A cartomante” e “A missa do Galo”. Faulkner escreveu 125 contos. O mais famoso é “Uma Rosa Para Emily”. Agora me pergunto: esses contos seriam tão lidos se seus autores também não tivessem escrito obras-primas do romance? Dom Casmurro traz público para “O Alienista”. Luz em Agosto sustenta Lance Mortal. Se não fossem seus clássicos, o irregular livro de contos policiais de Faulkner provavelmente estaria esquecido. É por isso que as grandes editoras só publicam volumes de contos de escritores já estabelecidos. É preciso se tornar Salinger antes de conseguir publicar Nove Estórias.

10) As melhores listas são feitas à margem. Os centros tendem a supervalorizar o que lhes é próprio. Uma lista francesa geralmente terá muitos franceses; uma alemã, muitos alemães; uma lista norte-americana ignorará todos os estrangeiros, quando não for inevitável. Já a lista da Bravo! “100 contos essenciais da literatura mundial” tem russos, ingleses, italianos, americanos, franceses, argentinos, árabes, alemães, gregos, japoneses e até brasileiros. Na lista estão Xaiver de Maistre, Buzzati, Yourcenar e Schitzler, autores, cada um, de um único romance realmente famoso, tanto que eu nem sabia que escreviam contos. Se não fossem os romances que lhes deram fama, estariam eles na lista? Não podemos afirmar, mas W. W. Jacobs escreveu um grande conto chamado “A Pata do Macaco”, que está na Antologia de Borges/Casares/Ocampo, mas em nenhuma outra lista que eu conheça. Apenas com seus contos, sem o Pedro Páramo, como nos lembraríamos de Juan Rulfo?

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11) “Antologia” e “coleção” são palavras dúbias. Vamos considerar aqui “antologia” como a reunião de contos de autores diversos, e “coleção” como reunião de contos de um mesmo autor. As coleções podem ser organizadas de duas maneiras: os contos num volume sem correlação interna e num volume fechado, com uma ordem e uma unidade estabelecida. Os contos de Tchekhov variam de acordo com a edição, e tenho “A Dama do Cachorrinho” em duas coleções completamente diferentes, ambas com esse título. Já em todos os volumes de Ficções, os contos estão na mesma ordem e quantidade. Javier Marías publicou de antemão todos os seus contos, porém Quando fui mortal tem uma unidade bem particular, que não muda de uma edição para outra. Otto Lara Resende não publicou antes nenhum dos contos de Boca do Inferno, que foi planejado para funcionar como um todo, em livro, e obedece a uma unidade rígida – eles não devem ser lidos isoladamente. Os contos de A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, podem ser lidos separadamente, mas juntos formam um romance. Os livros de contos de detetive de Walsh, Borges, Chesterton e Conan Doyle não somente seguem a uma unidade, como também seus principais personagens são os mesmos. Já de Poe, apesar da manutenção do título, nunca vi duas edições de Histórias Extraordinárias em que o índice se repete. Eu tendo a gostar mais das coleções planejadas. Minhas favoritas quase sempre têm um tema unificador muito claro: Cathedral, de Carver (casamento); As Cosmicômicas, de Calvino (axiomas da ciência); Boca do Inferno, de Otto Lara Resende (perversidade com/de crianças); Sagarana, de Rosa (sertão mineiro); Adeus, Columbus, de Roth (judeus da costa leste); Todos os fogos o fogo, de Cortázar (nem sei explicar, mas tem); Três Contos, de Flaubert (idem); Vidas Imaginárias, de Schwob (a história do mundo); O Livro de areia, de Borges (história da literatura e gaúchos); Ao longo da linha amarela, de João Filho (o delírio soteropolitano); Perus, Malagueta e Bacanaço, de João Antônio (os subúrbios de São Paulo).

12) Ando pensando bastante sobre o conto porque finalmente estou escrevendo aquele livro que foi aprovado no edital. Tenho já um livro de contos pronto (abaixo falo mais dele), e fiz um projeto em que reuni os melhores contos soltos que tinha e tentei unificá-los. Agora, com o projeto em andamento, percebi que alguns deles simplesmente não cabem no contexto geral. Estou escrevendo outros, para completar a coleção, e estou lendo contos obcecadamente (esses livros das fotos, entre outros). Antes mesmo de aprovar meu projeto, tinha enviado sem muitas expectativas um conto para a belíssima revista Flaubert. Acabei publicando outro conto lá, e nem me lembrava mais desse. O conto se chama “Suspiros que cortam o ar”, e é o primeiro de um livro sobre cangaceiros, rixas, vinganças, bangue-bangue, essas coisas, que escrevi já faz algum tempo. É um de meus contos favoritos desse livro. Ele saiu exatamente essa semana, quando estou mergulhado em meu projeto, e já tinha planejado estas notas sobre contos. Foi uma boa surpresa. Ele pode ser acessado neste link (página 65).

Agora, respondendo à dúvida do título, a melhor maneira de divulgar seus contos é publicar antes um romance. Mas se você já publicou um romance, não faz mais sentido querer divulgar seu último conto com tanto afinco, pois o romance terá mais alcance e urgência. Provavelmente deu mais trabalho de escrever. Então qual a melhor maneira de divulgar seu romance?

Oras, publicar um conto na New Yorker.

Off-10: minha lista de livros

A moda agora nas redes sociais é fazer sua lista de dez livros. Comecei uma, e não consegui sair do óbvio: meus favoritos são mesmo os destes mestres que são citados por qualquer crítico: Proust, Melville, Rosa, Stendhal, Conrad, Cervantes, Tolstoi, Shakespeare, Dumas, Nabokov, Homero. Assim como me recusei a falar de Montaigne em minha lista de ensaístas, não sei se tenho algo a acrescentar sobre meus autores favoritos. Por isso resolvi fazer uma lista com livros que não são muito conhecidos, tampouco completamente desconhecidos. Às vezes ele vem de um lugar estranho, outras, do baú de um escritor famoso. Listei apenas livros que já foram editados no Brasil, e me restringi à prosa de ficção (não há lista mais off que aquela dos livros de ensaios, mas não quero me repetir. Outros gêneros certamente gerarão outras listas no futuro).

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01 – Vidas Imaginárias – Marcel Schwob

Coletânea de contos com breves biografias ficcionais de 23 personalidades históricas, da antiguidade ao século XIX. Permeado de sacerdotes, artistas, políticos, poetas, mendigos, soldados, piratas, assassinos, Vidas Imaginárias conta a história da civilização. Sua narrativa sutil inspirou Borges, que disse que Schwob é um escritor para happy few.

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02 – A Pedra da Lua – Wilkie Collins

A Pedra da Lua, um gigantesco diamante, é roubada do armário de uma senhorita na noite de seu aniversário.  Segue-se uma longa investigação, contada a partir do ponto de vista de diversos personagens. Neste viciante romance, Collins, que dividia com seu amigo Dickens a atenção do público londrino, inventou de uma vez só a história de detetives e a polifonia.

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 03 – Uma Confraria de Tolos – John Kennedy Toole

escrevi sobre ele. Basta então relembrar que esse romance, protagonizado por um glutão antissocial, é simplesmente o mais engraçado de todos os tempos.

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04 – Jonathan Strange & Mr. Norrel – Suzanna Clarke

Inglaterra. Guerras napoleônicas. Dois mundos se unem. Um velho ranzinza e um alegre jovem conseguem realizar atos mágicos, o que será útil ao país. Com grande influência de Neil Gaiman, Clarke consegue superá-lo, nessa mistura de romance histórico com fantasia e aventura, escrito num estilo que remete aos escritores vitorianos.

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05 – Segundos Fora – Martín Kohan

Este romance argentino interliga três histórias: uma luta de boxe, uma apresentação de Mahler em Buenos Aires, e a investigação tardia de um assassinato. Tudo isto intermediado pelos interessantes diálogos entre um jornalista culto e um desinteressado. Como as frases de uma sinfonia, as histórias se interligam lentamente, até que se juntam numa apoteose.

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06 – A Medida do Mundo – Daniel Kehlmann

Com sua prosa divertida e elegante, Kehlmann nos brinda com o encontro entre dois geniais cientistas alemães: o recluso matemático Carl Friedrich Gauss, que explora as medidas do universo de dentro de um gabinete, e o aventureiro naturalista Alexander von Humboldt, que viaja o mundo medindo rios, montanhas, distâncias, e coletando seres vivos.

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07 – O Anão – Pär Lagerkvist

Apesar de ter ganhado o Nobel de Literatura, o sueco Lagerkvist não é tão conhecido no Brasil. Sua obra-prima menos ainda, pois a mais barata das quatro edições da EV custa duzentos pilas (li em espanhol). No livro, acompanhamos as ideias e opiniões do anão Picolino, que deve divertir os nobres numa corte renascentista. Ele odeia a humanidade com um ardor que não cabe em seu corpo. Tyrion Lannister é um anjo perto dele. A guerra, a doença, a miséria, a morte são o que há de mais divino para ele. Há ainda um artista sábio, inspirado em Da Vinci.  Recomendo o texto de Milton Ribeiro.

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08 – Verão em Baden-Baden – Leonid Tsípkin

O estilo vertiginoso assemelha-se ao de Thomas Bernhard. Seu procedimento narrativo, no entanto, me lembra bastante o Sebald de Os Aneis de Saturno: Tsípkin alterna sua narrativa entre uma viagem que ele fez, e momentos na vida de Dostoiévski. Sua viagem aos cassinos da cidade de Baden-baden (Alemanha), sua relação conjugal, o choque ao ver uma pintura, sua morte. O médico Tsípkin morreu na União Soviética sem ver seu livro publicado, e o livro não obteve reconhecimento até Susan Sontag encontrá-lo num sebo.

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09 – A Luneta Mágica – Joaquim Manuel de Macedo

Apesar dos colégios e a Bravo! indicarem o chatíssimo A Moreninha, esse que é o bom de Macedo. Simplício é extremamente míope e ingênuo, e não percebe as verdadeiras intenções das pessoas. Então um feiticeiro lhe entrega uma lente mágica que finalmente o faz enxergar tudo normalmente, com um porém: se ele encarar algo por três minutos ou mais, verá o lado mau daquilo.

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10 – O Terceiro Tira – Flann O’Brien

Uma maluquice do começo ao fim. Após cometer um crime brutal, um irlandês vive aventuras numa delegacia de duas dimensões, conhece as cosmicômicas teorias de um cientista louco, e tem que resolver os enigmas apresentados por três policiais excêntricos. Dizem que é Alice no País das Maravilhas do século XX.

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Hors concours:A Morte de Napoleão – Simon Leys

Napoleão na verdade vive, porém está anônimo e deve voltar a Paris, para viver peripécias que nada têm a ver com a esperada opulência do poder. Faço esse hors concours para representar uma maravilhosa coleção que a Companhia das Letras lançou na década de 90, só de livros desconhecidos, que continuam assim até hoje (com exceção de O Náufrago). Todos pequenos, bonitos e excelentes. Outros: Sonhos de Einstein, Viagem à Terra das Moscas, A Última Página e O Virtuose.