Meu “Kit Comunista”

Comecemos a “doutrinação” o quanto antes. A resistência por enquanto é pacífica, porém precisa ser severa, para que não chegue ao ponto de requerer armas. Precisamos ocupar todos os espaços, incansavelmente – não somente a Av. Paulista, o Eixo Monumental, a Barra, mas também as ruas de nossas cidades pequenas, as ruas de Nova York, Londres, Berlim – a ONU, o Vaticano, o que for. Ninguém solta a mão, ninguém dá brecha. Pensei nessa lista há uns dias e desisti; mas então, num desses eventos, uma pessoa pediu sugestões de leitura aos debatedores; dois dias depois, vi nas ruas essa magnífica curadoria de livros que foi a eleição. Como sempre me pedem indicações, inclusive esta semana me pediram bastante, voilà. Penso mais no nazismo, e são apenas sugestões, ninguém realmente precisa ver nada;  acho que cada um pode montar o seu kit comunista pessoal; ou mesmo fazer kits comunistas temáticos, kits comunistas só com obras de capa vermelha, kits comunistas para adolescentes furiosos. No meu, não incluí músicas, que estão em minha Playlist do Apocalipse, uma mistura líquida de luto e revolta. Me concentrei em livros e filmes, e minha única restrição é que tenham sido lançados no Brasil. Não há ordem aqui – ordem, sabemos, é coisa de militar (esta é a piada).

The Wall – (Alan Parker)

Todo mundo conhece Roger Waters e o Pink Floyd, mas talvez nem todas tenham visto esse filme, uma espécie de musical psicodélico. No entanto, agora faz mais sentido cantar “Hey, kids, leave the teachers alone!”  Também sugiro a poesia de Roberto Piva.

Berlim – Joseph Roth

Série de crônicas que cobrem a ascensão gradual da barbárie na Berlim dos anos 30, escritas no momento em que a coisa crescia. É um livro curto e de prosa leve, apesar do peso que há em lê-lo hoje, com o conhecimento do que seria o futuro daquelas pessoas, e de como aquilo é semelhante ao que estamos vivendo. A ser visto com o filme O Ovo da Serpente.

A Arquitetura da Destruição

Neste documentário, o sueco Peter Cohen discorre sobre a estética nazista, reacionária às artes de vanguarda, e defende que a barbárie nazista foi também um projeto estético, um delírio de um megalomaníaco pintor frustrado, o próprio Hitler. Lembra algo?

George Orwell

A maioria haverá de pensar em A Revolução dos Bichos e 1984, mas eu penso principalmente na não ficção. Orwell viveu entre mendigos, entrou em minas de carvão, serviu na Ásia e resistiu na Catalunha, e escreveu ensaios como “Reflexões sobre Gandhi”, “Como morrem os pobres”, “Atirar num elefante” e “O Enforcado”. Para mim o ensaísta mais pertinente do século XX, junto com James Baldwin.

Investigação sobre um Cidadão acima de Qualquer Suspeita (Elio Petri)

Um inspetor de reputação ilibada assassina sua amante e começa a plantar pistas escandalosas contra si, para ver se será acusado pela polícia. Sobre como a justiça realmente funciona para os eleitos, sobre como o discurso se adequa aos interesses. Lembra algo (II)?

O Complô (Will Eisner)

Nesse quadrinho, Eisner conta a história do Protocolo dos Sábios de Sião, um panfleto mentiroso que denunciava uma suposta conspiração judaica para dominar o mundo, e que foi bastante usado pelos nazistas para incitar a população alemã a se revoltar contra os judeus. Lembra algo (III)? – tá, parei. A ser lido com Pape Satàn Aleppe, as “bustinas” de Umberto Eco.

O Grande Ditador (Charles Chaplin)

Por causa desta cena:

https://www.youtube.com/watch?v=R9RLNhK8UiQ

Ryzsard Kapuscinski

Esse escritor polonês passou décadas viajando por países de terceiro mundo, como correspondente de um jornal, enquanto fazia anotações particulares em caderninhos. Após se aposentar, transformou essas anotações em obras-primas como O Xá dos Xás, sobre Reza Pahlavi e o Irã, e O Imperador, sobre Hailé Selassié e a Etiópia.

Amém (Costa-Gavras)

Um soldado nazista que acreditava nas mentiras do partido descobre por acaso que um processo químico inventado por ele estava sendo usado para assassinar judeus. Ao tentar denunciar isso ao Papa Pio XII, não recebe resposta. Sobre a cumplicidade da igreja católica com o holocausto e como muitos nazistas não eram exatamente maus, mas apenas pessoas que foram enganadas.

Cumbe (Marcelo D’Salete)

Foi por essa HQ sobre escravos revoltosos que D’Salete ganhou o Eisner, maior prêmio do quadrinho mundial. Além de D’Salete ser um gênio da composição de página, toda sua obra é perfurante, com destaque para Angola Janga, um calhamaço sobre a resistência de Zumbi dos Palmares, e dos contos de Encruzilhada, sobre o racismo cotidiano numa metrópole. A ser lido com a poesia de Auden e a de Szymborska. 

Casablanca (Michael Curtis)

Casablanca é uma cidade costeira marroquina que, durante a durante a Segunda Guerra, foi a última parada dos judeus que fugiam do nazismo. O filme, witty e bittersweet, é uma história sobre como nossas complicações amorosas operam em tempos de guerra.

TAZ (Hakim Bey)

Como as próprias revoluções estão sujeitas à autodestruição, Hakim Bey apresenta as Zona Autônomas Temporárias, interregnos anarquistas que surgem entre a ascensão e a corrupção da tomada revoltosa. Vale checar a coleção Baderna, das editoras Conrad e Veneta e A Busca pela Imortalidade, de John Gray. Ou a série Mr. Robot. 

Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla)

Um filme selvagem, hipnótico e perturbador baseado na história real do criminoso que assombrou São Paulo nos anos 60. Este ano completa 50 anos, porém o que ele denuncia permanece fresco, como se tivesse sido lançado hoje, uma vez que estamos estagnados, sem resolver nenhum de nossos problemas históricos. A ser visto com os cartuns que Millôr fez nos anos 60 e 70.

Lacombe Lucien (Louis Malle)

A entrada num grupo de resistência é recusado a um jovem francês, que se torna colaboracionista. Sobre como o ressentimento corrói almas, e como uma única pessoa armada pode controlar todo um grupo. A se ver com Sunshine – O Despertar de um Século, Tony Manero, O Conformista, o cinema neorrealista em geral.

V de Vingança (Alan Moore e David Lloyd)

Também bastante conhecido por ter virado filme, é a história de um Revolucionário misterioso que tenta destruir sozinho um estado totalitário distópico. A ser visto com O Grupo Baader-Meinhof e a série Black Mirror. E tudo mais de Moore, principalmente Watchmen.

Aquarius (Kléber Mendonça Filho)

Nesse filme, que rendeu represálias ao diretor pelo foratemer em Cannes, é contada a história de uma jornalista que defende com unhas e dentes seu apartamento ameaçado pelos donos de uma construtora. Saí do cinema com vontade de jogar pedras na FIESP. O cinema pernambucano atual é, em si, resistência, é som e fúria; vejam também O Som ao Redor e Recife Frio, vejam A Febre do Rato, vejam tudo.

Outras listas:

Lista de HQs para Paty

Sobre a escrita

Vinte livros de ensaios imperdíveis

Off-10 – meus livros desconhecidos favoritos

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Lista de HQs para Paty

Volta e meia alguém me pede alguma lista. Nunca nego, nunca entrego. Faz mais de um ano, uma amiga me pediu uma de HQs – uma lista pessoal, não exatamente Os Fundamentais Que Todo Mundo Tem Que Conhecer – e coloquei aquelas que mal folheei a primeira vez, já pensei na releitura. Mandei pra ela uma listona seca, apenas título e autor, e só agora tomei coragem pra escrever umas duas linhas pra cada. Tudo publicado no Brasil: ao contrário de obras do cinema e da literatura, os quadrinhos brasileiros são vendidos aqui num bolo só, do mundo todo, de todo tipo, e são consumidos e apreciadas assim. A coisa mais saudável. Minha lista também é uma misturona doida, não tem ordem nenhuma.

 

 

Fun home – Alison Bechdel

Bechdel evoca autores como Joyce, Proust e Camus para recontar a história de sua criação numa casa de funerais, e da morte de seu pai, um misterioso professor de literatura. Apesar do texto denso, cheio de camadas, a narrativa é muito clara. Todo ano releio e percebo algo novo.

Lavagem – Shiko

“Gótico Sulista” sobre um casal que vive num mangue. A editora da Mino a usa como exemplo para explicar porque jamais pede patrocínios culturais. “Nada contra”, afirma Janaína de Luna, “mas não é todo mundo que quer seu nome associado a alguém que publica histórias sobre pessoas comidas por porcos ou coisa parecida.”

Laços – Vitor e Lu Caffaggi

Bem antes de Stranger Things, os irmãos Caffaggi se apropriaram de ícones temáticos dos anos 80 e fizeram a história mais legal da coleção de graphic novels adultas com os personagens da Turma da Mônica.

Diomedes – Lourenço Mutarelli

História em quatro partes sobre o desaparecimento de um mágico, protagonizado por um investigador tosco, gordão e bocó, porém insistente. Repleto de cenas e páginas geniais, minha favorita é uma perseguição com um trator, com “trilha” de Tom Zé.

 

 

Aqui – Richard McGuire

A história do mundo no canto de uma sala, vista de um único ângulo, em que épocas diversas se sobrepõem numa mesma página. Só lendo pra entender. Imagino “Aqui”, o volume impresso, como uma tradução palpável do “Aleph” de Borges.

Goela Negra – Antoine Ozanan (roteiro) e Lelis (arte)

Quadrinho brutal sobre a vida dos trabalhadores das minas de carvão na França anterior aos movimentos sociais. A arte é tão bonita que às vezes apenas fico olhando para as páginas como quem admira uma obra numa parede. Dá pra viver só de reler tudo da Mino.

Ordinário – Rafael Sica

Em suas tirinhas mudas experimentais Rafael Sica realiza uma contundente interpretação do desespero metropolitano e do delírio pós-moderno e do incessante conflito do eu contra o espaço, os eventos, os outros, o próprio eu.

Macanudo – Liniers

Já as tirinhas de Liniers seguem aquela linha agridoce de Mafalda e Calvin, ora melancólico, ora metafísico, poético às vezes, sempre sagaz.

 

 

Bando de dois – Danilo Beyruth

Rosa meets Leone. Dois cangaceiros sobreviventes de uma chacina decidem recuperar as cabeças de seus companheiros degolados. Preciso dizer mais?

Habibi – Craig Thompson

Épico sobre as transformações de duas crianças árabes que escapam da escravidão. Imagine a diligência para se desenhar um único arabesco de um tapete: Thompson demorou anos com centenas deles. Agora imagine um roteiro tecido com tanta ou mais minúcia.

Fracasso de público – Alex Robinson

Um quadrinista virgem, um pretendente a escritor, uma jornalista alcóolatra, um historiador tranquilo, um velho ranzinza explorado pelo mercado das HQs de Heróis. Acompanhamos lentamente, apreciando a evolução de cada personagem e, como em Ferrante ou Friends, acabamos por conhecer aquelas pessoas. Meus diálogos favoritos, junto com os de Ódio.

Estigmas – Claudio Piersanti (roteiro) e Lorenzo Mattotti (arte)

Um homem ordinário recebe por milagre as chagas de Cristo em suas mãos. Chega um momento em que parece que o livro vai estourar em nossa frente. A única HQ a me trazer o arrepio inexplicável daquela cena da explosão em Fonte da Vida ou da crise de Marcel em Sodoma e Gomorra.

 

 

Ódio – Peter Bagge

A hilária vida de um sujeito sem muitas perspectivas na Seattle dos anos 90. Diálogos surreais. Por durante vários anos também reli religiosamente. Há páginas das quais até hoje me basta um vislumbre para eu chorar de rir.

Três sombras – Cyril Pedrosa

Três seres aparecem numa fazenda pacata para levar o filho de um camponês, que faz de tudo para proteger seu filho. Fábula sobre a paternidade e a persistência. Desenho exuberante, páginas perfeitas.

O gato do rabino – Joann Sfar

O gato de um rabino argelino engole um papagaio e aprende a conversar. Não demora a falar umas verdades inconvenientes para os homens de Deus, a mentir, e a desejar fazer o Bar Mitzvah.

A pior banda do mundo – José Carlos Fernandes

Coletânea vertiginosa de histórias fantásticas curtas, à Borges e Calvino, que giram em torno duma banda de jazz que não consegue tocar nada. Filosófico, poético e erudito, tem a melhor galeria de personagens que já vi.

jimmy ancestry

Jimmy Corrigan – Chris Ware

Livro grande, lento, e triste sobre uma família. Tempos mortos, repetições, a distância, o tédio. Ware subverte a narrativa dos quadrinhos de modo ainda mais extremo que McGuire. Uso sempre em minhas aulas certa página circular que conta uma história de gerações de maneira brilhante.

 

 

Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

Provavelmente o quadrinho feito por brasileiros mais conhecido mundo afora, a série Daytripper é uma sobre Brás de Oliva Domingos, escritor de obituários, um brasileiro comum, que ama, come, sofre, viaja, grita, caminha, trabalha, envelhece, e morre, e morre, e morre, e morre…

Do inferno – Alan Moore (roteiro) e Eddie Campbell (arte)

Reconstituição minuciosa da história dos crimes de Whitechapel, em que se apresenta uma teoria para quem seria Jack, o estripador. Monumental e ambiciosa, Moore e Campbell dão uma de escritores do século XIX.

Corto Maltese – Hugo Pratt

A série de aventuras do marinheiro corso tem precisão matemática. Sempre chegamos ao único final possível. Numas das histórias, ele vem à Bahia e se envolve numa intriga com o cangaceiro Corisco. Um dos preto e brancos que mais me encantam.

Pílulas Azuis – Frederik Peeters

Bela memória de um homem que se apaixona por uma garota com AIDS. A Nemo anda lançando HQs fundamentais para compreendermos o outro, importantíssimas nestes tempos miseráveis. Não acredito que possa ser uma boa pessoa alguém que torça o nariz para qualquer HQ da Nemo.

cumbe

Cumbe – Marcelo D’Salete

Contos sobre a luta dos escravos no Brasil colonial. Os objetos e cenas cortadas pela metade de seus quadros são mosaicos de páginas perfeitas. D’Salete é um dos maiores narradores das HQs hoje, o que se comprova com Encruzilhada, passado na atualidade.

Outras listas:

Sobre a escrita

Os dez livros que TODOS devem ler

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Sobre a escrita

Ontem comentei com a professora Silvana Salerno que eu apreciava a leitura de livros sobre a escrita, e ela me perguntou se eu podia lhe fazer uma listinha. Pensei neste blog às moscas, coitado, então resolvi soltar aqui esses comentários apressados. São obras sobre estilo, narrativa e formação intelectual. Por sinal, meu texto favorito no blog é sobre o assunto: A declarar nada. Conforme o hábito, evitei livros inéditos no Brasil, e sei de muita coisa que (ainda) não li, como Vida de escritor, de Talese, O Arco e a Lira, de Paz, o Guia de Escrita de Pinker ou Comunicação em prosa moderna, de Othon M. Garcia. Também evitei gramáticas e livros sobre narrativa em outras mídias, que podem ser bastante úteis. Convido quem conhecer algo mais a postar suas sugestões nos comentários. Por fim, não posso deixar de informar que você pode substituir esses livros por uma leitura atenta dos melhores ensaios de Montaigne ou da primeira parte de No caminho de Swann, por exemplo.

 

Itinerário de Pasárgada – Manuel Bandeira

Partindo de sua infância, nosso grande poeta traça sua biografia intelectual. Conta anedotas, como quando pegou um bonde com Machado de Assis, explica porque se arrependeu de ter publicado um poema-piadinha, fala quais livros foram importantes em sua formação e discute suas próprias técnicas. A biographia literaria é um gênero pouco popular entre nossos escritores; essa de Bandeira é fundamental.

A tradução vivida – Paulo Rónai

Nascido Rónai Pál, na Hungria, Rónai teve que vir ao Brasil para escapar da Segunda Guerra Mundial. Aqui, se tornou um dos maiores intelectuais do país. Poliglota, coordenou a tradução da Comédia Humana, de Balzac (em 16 volumes!), e junto com Aurélio Buarque de Hollanda traduziu os contos que compõem a coleção Mar de Histórias. Nesse livro, ele faz o mesmo que Bandeira, porém sobre a função de tradutor.

Ex-Libris – confissões de uma leitora comum – Anne Fadiman

Grande coleção de ensaios sobre o amor aos livros em todos os seus aspectos. Escrevi sobre ele aqui.

Cartas a um jovem poeta – Rainer Maria Rilke

No comecinho do século XX, Rilke recebeu uma carta de um jovem lhe perguntando o que fazer para se tornar poeta. Após algum tempo, a troca de correspondência entre os dois praticamente se transformou numa gigantesca série de debates sobre a literatura, a vida, a morte, e o que é importante no meio disso tudo.

 

A arte da ficção – David Lodge

O romancista tinha uma coluna de jornal em que, quase sempre a partir de uma citação, discutia aspectos formais da criação literária. Nesses cinquenta textos curtos, que podem ser lidos isoladamente, ele põe em pauta assuntos como narrador, personagem, gêneros, ponto de vista, e tudo mais.

Confissões de um jovem romancista e Seis passeios pelos bosques da ficção – Umberto Eco

Umberto Eco tem por aí vários textos sobre como escreveu seus livros. Confissões de um jovem romancista é uma maneira organizada de falar disso, com algumas revelações estimulantes. Fundamental, no entanto, é a série de palestras que compõe Seis passeios pelos bosques da ficção, em que ele discute, numa linguagem gostosa e acessível, a arte da narrativa literária e percepções da realidade através da leitura.

Para ler como um escritor – Francine Prose

A ficcionista, que também é professora de criação literária, propõe aqui que os aspirantes a escritores façam uma close reading, leitura atenta, minuciosa, de grandes textos. O método seria um modo de tentar desvendar nuances e possibilidades de uma palavra, uma frase, um parágrafo e aprender como os mestres faziam. O que uma quebra de parágrafo pode dizer? Contar ou mostrar? O livro flui muito bem, e os exemplos de Prose são formidáveis.

 

Como funciona a ficção – James Wood

Partindo da literatura “realista” do século XIX, principalmente de Flaubert, o badalado crítico de literatura da New Yorker discute, nessas saborosas notas curtas, os mecanismos do texto que fazem a ficção ser interessante e verossímil. Destaque para as notas de rodapé completamente gratuitas e imperdíveis, como sua lista de personagens xarás de autores famosos ou o catálogo de metáforas que os grandes autores usaram mais de uma vez.

Sobre a escrita – Stephen King

Mistura de memórias, biografia literária e ensaio, nesse livro um dos escritores mais populares do mundo expõe seus métodos de trabalho, explica porque odeia advérbios e conta, por exemplo, que começou a escrever por causa de uma infecção no ouvido. A prosa fluida e elaborada deste livro é a prova de que, mesmo em seus momentos duvidosos, o homem sabe o que está fazendo.

Os ensaios de George Orwell

Espalhados nos livros Dentro da baleia e Como morrem os pobres, entre textos sobre assuntos diversos, apenas por “A política e a língua inglesa”, uma divertidíssima aula de estilo, Orwell já merecia entrar nesta lista. Mas ele também discute os motivos para se escrever (o primeiro, diz ele, é a vaidade), nos fala porque não aguentou trabalhar num sebo e, acima de tudo, foi o mais interessante debatedor das funções do escritor enquanto agente político.

schopenhauer
A arte de escrever – Arthur Schopenhauer

Schopenhauer foi um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Nessa seleção de ensaios de seu livro Parerga e Paralipomena, nosso ranzinza favorito desopila sua bile para cima dos costumes literários de sua época. O resultado são textos hilários sobre a linguagem, a escrita e a leitura. Se pudesse, diz ele, condenaria os maus escritores a levar chibatadas em praça pública.

forsterAspectos do romance – E. M. Forster

Nesse clássico sobre a arte da escrita, o famoso romancista inglês discute aspectos formais da criação ficcional, com destaque para uma célebre distinção entre personagens redondos e achatados. Talvez algumas coisas soem meio datadas para leitores pós-tudo, mas vale dar uma olhada.

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a húbris é mais forte que o medo

Depois disso pensei que se foda toda esta merda a húbris é mais forte que o medo, não a a húbris a cólera, a desmedida, o vinho que transborda na taça, mas a húbris a energia motor, o ímpeto de viver, o calor, e o medo é rotina e a húbris é caos, e o medo é um céu azul e a húbris é um terremoto, e o medo é tédio e a húbris é ternura, e dirigi até o capão com a roupa do corpo, embebedei com leffe e cravinho, dormi com o carro aberto e a chave dentro, já todo detonado por causa da buraqueira, e tive uma conversa longa séria e reconfortante com minha chefe e outra leve curta e deliciosa com uma ex-aluna do cabelo rosa, brinquei de carrinho, desenhei, soletrei, levei meu filho pra comer pastel, organizei uns 500 livros, reli tudo sobre ensaísmo, aprendi a tocar “Elephant gun” no ukulelê, revisei Hazlitt e bebi uma garrafa de vinho suave com um amigo músico com quem não conversava fazia muito tempo e uma de vinho seco com um primo com quem converso sempre, transei com uma mulher que não gostava e repeti pra mim mesmo que não iria mais fazer isso e aí dei um fora em Paula Fernandes porque Clarice Falcão estava me dando mole, comi feijoada com um glutão que depois disso foi ver aulas de filosofia no YouTube, comi água com Heineken com uma ex-companheira de banda e um casal tatuado e fiquei com uma garota que já amei amargamente tanto quanto meus volumes de Proust, joguei travinha com um policial separado que também é pai, embebedei com conhaque no show de Asley e Scambo enquanto me esforçava para dançar com a irmã de uma grande amiga, fui ao Goiás morrendo de ressaca, pesquei no Araguaia com meu pai e fui quem pegou mais peixes, entrevistei um barqueiro, e no dia em que completei 30 anos Dilma foi impedida, peguei meu maior peixe, combinei com meu primo caminhoneiro de ir com ele ao Pará, embebedei com Chivas, e exatamente quando meu bolo surpresa foi posto na mesa esse meu primo descobriu que o pai dele acabara de falecer e voltamos para casa na hora, minha segunda viagem alcoolizado. Passei uma tarde com a menina que amara amargamente, passeei com minha filha, tive conversas online excelentes com um cartunista que foi meu colega e um gaúcho que nunca vi, escrevi um obituário, e uma esquina sobre a pescaria, comprei a piauí com meu texto, li Robert Capa, vi uma cerimônia apresentada pela melhor aluna que já tive, embebedei com Heineken e Baden-baden e meu primo órfão de pai me agradeceu pois se eu não o tivesse pressionado a mostrar seu filho a meu tio ele carregaria essa culpa por toda a vida, deixei a louca de minha ex-companheira de banda dirigir meu carro na contramão, dirigi até Salvador e a ressaca caiu sobre mim repentinamente e ficou até o meio da viagem, bebi pouco com meu compadre, fui driblado por um poeta laureado, comprei Sedaris, Mitchell, Nabokov, esqueci meia garrafa de cravinho no Porto Moreira, cantei mil vezes um verso do forrozeiro Santana e “Juizo Final” numa versão perfeita com os reis do violão e do bandolim, dancei forró com a galeguinha mais malandra da Bahia, voei para Brasília um pouco embriagado e sonhei com a irmã de meu compadre, irritamos passageiros (“que cherchent-ils au ciel tous ces aveugles?”), comi linguiça na feira do produtor, vi gêmeas recém-nascidas e comi rabada na casa do avô coruja, fui importunado por um poeta drogado, não embebedei após 28 cervas com um artista plástico meio punk que conhece todas as músicas do mundo, recebi um sermão de um editor, comprei Kohan, Kertesz, Marías, Márai, Malcolm, Chatwin, Francis, e um Calvino que li no mesmo dia, fui emboscado por um sarau de poesia enquanto discutia “hodor”, declamei um soneto de Bruno Tolentino, falei mal de Brasília para o máximo de brasilienses, viajei às 3h da manhã com um intelectual psicótico completamente embriagado que queria porque queria comprar cocaína num lugar perigoso e pensei que algo de ruim poderia acontecer, mas estava preparado para isso, pois a húbris é mais forte que o medo e que se foda toda esta merda, eu vou é pra Cusco. Caminhei no parque com o marido de minha tia, embebedei de dia com domecq e black tiger comendo coisa pesada e de noite com Porca de Murça, ice e margaritas, vi um show de jazz num posto de gasolina, comprei outro Márai, vi Tirúbio Santos desenhar o sertão com um violão, a ocupação zumbi da funarte e minha irmã embebedar com duas garrafas de ice, vi uns Mondrians meio pebas, comi madeleine com chá e não escrevi nada depois, comprei uma passagem para o Acre, um Vidal e um Manguel, vi o Atlético perder para o Real, ganhei sozinho no sinuca em dupla, vi o compadre dormir no bar pela décima oitava vez na semana, comprei pelúcias e cervejas com o artista meio punk e bebemos ouvindo Muse e Rammstein, imitei o Mr. Bob Dylan, you know, não embebedei com mojitos de montilla num show meio hipster onde encontrei um conterrâneo de Irecê, celebrei o aniversário de minha irmã com crepe e sushi e percebi que já fazia três semanas que eu não tinha nenhum de meus pesadelos recorrentes (os medos diurnos em estado exagerado, o medo de que algo aconteça com as crianças, ou que eu morra amanhã, ou que eu seja esquecido em vida), comprei Flaubert e uma almofada inútil e me enfurnei num ônibus por dois dias e meio e desenvolvi a inédita habilidade de ler e escrever em movimento, e li Márai e grande parte do Manguel (na volta ainda leria Kohan), saí com uma menina do cabelo azul que conheci no tinder, suei como nunca antes, conheci uma dupla quixotesca que me convidou para alimentar um jacaré e depois conhecer a cidade, entrei no carro velho e a mulher me apontou uma arma e eu tinha esquecido no bolso os R$200 que tinha reservado para o Acre e pensei que se foda toda esta merda a húbris é mais forte que o medo e meti a mão na arma e vi que ela atirava perfume, e o índio gigante me disse que já vira muitas armas e eu fiquei cismado pelo resto do dia e com eles comi tacacá, tucupi, cupuaçu e açaí, recebi um superlike e um estímulo incomensurável do editor, e esperei por 17 horas na rodoviária internacional e li Manguel, escrevi um poema péssimo sobre o meu ideal feminino, e um manuscrito não ficcional impublicável de 13 páginas, vi dois péssimos filmes dublados após um mês inteiro sem ver absolutamente nada, dei meu pacote de amendoim para um senegalês chamado Barak que falava um francês incompreensível, às 5h30 eu era o estrangeiro num busu peruano, tomei chichas e comi pollipapas com eles em mesas compartilhadas e cheguei em Cusco às 3h da manhã sentindo um frio da moléstia pois fazia 4 graus e eu ainda não tinha onde dormir, uma blogueira inglesa tentou me impressionar depois de ver meu manuscrito, comprei Llosas, um gorro, chaveiros, uma boneca, subi Sacsaywayman, prosei com um belga, vi um jogo da NBA, embebedei com blood bombs e cusqueñas no beer pong com uns israelenses desgraçados, comi ceviche e choclo, conheci um alemão que me atendera na noite anterior e me fez contar as cinco mentiras de Loki (1-I’m not going out tonight, 2- ok, I’m going out, but I’m not drinking, 3 – ok, I’m drinking, but I’m going home early, 4- ok, I’m getting smashed, but I’m leaving tomorrow, e 5 – I love you!?), apostei rodadas de bebida nos dados (perdi uma vez para uma polonesa), embebedei com pisco sour, white russian, sambuca, tequila, gliders, pisco puro, lowenbrau, e sabe-se lá o que mais, neguei weed (makes me kinda paranoid) acordei com vontade de vomitar, mas tinha que esperar uma van, e passei por uma estrada sem proteção a mil metros de altura com um motorista de húbris mais forte que a minha, e mesmo depois de dormir ainda queria vomitar e mesmo com a van parada ainda queria vomitar e fiz muita amizade com um mendozino que efetivamente vomitou do meu lado e nenhuma com o peruano de muletas que ia do lado dele de carona e vomitou mais ainda, uma fila de regurgitadores, e fiz amizade com uns chilenos e umas brasileiras contando essa história e comprando uma coca, os enganei (fi-los crer que sou um gênio dos números), neguei marijuana (“me quedo paranoico”), não embebedei com pisco sour, acordei às 3h30, masquei folhas de coca, citei Tchekhov para umas alemãs (“ich sterbe”) e fiz a trilha até Machu Picchu. Fui convencido a ficar mais um dia mesmo tendo pago apenas por um, joguei jenga, fiz a trilha de volta com pouca grana e sem saber se teria de pagar para voltar para Cusco e disse fodase toda ehta mierda, la hubris eh mah fuerte que la hambre e gastei quase tudo em cusqueñas e entrei numa van no lugar de um tal Paolo Moralez que nem sei se apareceu e foi a desgraça porque o hideputa do conductor não parava em lugar algum e descobri que nem a húbris nem o medo nem uma estrada mortal são mais fortes que uma bexiga prestes a estourar e a menina mais bonita da cidade bebeu todo o seu gatorade e me deu a garrafa mas eu não consegui mijar lá e a van parou dois minutos depois, ouvi um disco de música peruana genial e não tinha carga no celular para gravar no shazam, entrei de malandro numa boate e embebedei com TUDO, beijei uma americana que tentou bafar meu chapéu, e me lembro vagamente de uma xará de minha irmã, dormi na boate, acordei no albergue e achei 110 soles dentro do Kohan, ajudei uma abuelita a levantar um menino que se jogara na calçada, bebi um litro de água sentado na esquina tomando sol e um peruano com a camisa da argentina tentou me vender marijuana (“ahora no, gracias, ehtoy de resaca, pero conohco unos tipos que quieren”), comi chicken wings e dei minha coca para um cara de Liverpool, comprei um xale, uma aquarela, lhaminhas e mais um gorro, tentei em vão ligar para uma chica do tinder e vendo o movimento da rua me esbarrei com a moça do gatorade e sua esposa, fomos para seu albergue, ouvimos “Home” e Bob Marley, recusei um cachimbo (“senão vou achar que todos no ônibus querem me roubar”), me apaixonei por elas, atravessamos Cusco correndo duas vezes, a segunda com todas as minhas coisas, e confirmei que o ônibus se atrasaria, e confirmei que tenho horror ao que é permanente, e confirmei que não tenho mais medo de nada.

O texto mais tocante do ano

Mordo-me de inveja quando leio um texto sagaz. Há textos sagazes que são frutos de pesquisa, de observação repetitiva, do estudo de uma vida; não os invejo. Desejo para mim apenas o produto do puro insight, a lâmpada flutuante que poderia ter acendido sobre a cabeça de qualquer um. Sinto inveja quando leio João Pereira Coutinho discorrendo sobre a caça aos gordos, José Francisco Botelho sobre um jogo de futebol sem importância, meu compadre, O Mofino, sobre muletas, Martim Vasques sobre best-sellers, Julião sobre o cemitério do Campo Santo. Sim, sinto inveja de conhecidos e desconhecidos. Eu não escolho como a inveja vem – ela é caprichosa. Não a sinto quando leio autores de língua estrangeira. Jamais meu sangue carrega deste veneno quando leio alguém que já morreu. Piza sobre Pelé e João Ubaldo sobre o abuso das estatísticas me trazem puro deleite. Por que haveria de invejar quem não está mais vivo? Outro dos caprichos de minha doença é que ela não é a inveja maledicente ou sabotadora – invejo os textos que admiro abertamente. É uma inveja competidora – que por algum tempo moveu um blog coletivo que eu tinha com meus amigos. A cada texto interessante que surgisse era preciso (tentar) superá-lo, seja no texto seguinte ou nos comentários.

Entretanto, não invejo textos emocionantes – que pressupõem uma experiência pessoal – ainda que puramente ficcionais. Não invejo a profundidade alheia, pois ela sempre carrega consigo o sofrimento; a doença dos outros já lhes bastam. A mim me basta saber que Charlles Campos fez o texto mais tocante do ano.

Os dez livros que TODOS devem ler

Lista feita a partir de uma proposta nas redes sociais

Não são exatamente meus favoritos, porque não é o propósito da lista, e creio que ainda precisamos desenvolver nosso Pequeno Cânone de Obras para Apaixonarem os Jovens pela Leitura. Bem, o que todos devemos ler? Comece pelo Eclesiastes (1) e pelo ensaio Sobre como filosofar é aprender a morrer, de Montaigne (2), e descubra o que vai lhe acontecer uma dia, sem necessariamente se desesperar. Depois entenda sobre ciência e artes com os livros mais acessíveis, Uma breve história de quase tudo, de Bill Bryson (3) e História da Arte, de Gombrich (4). A base da literatura é Homero, de quem indico A Odisseia (5), que requer A Ilíada como leitura anterior. Apesar de gostar mais de Macbeth, uma peça ainda mais essencial de Shakespeare é Hamlet (6), escritor que realmente interessa a qualquer pessoa. O melhor romance de todos os tempos é Em busca do tempo perdido, de Proust (7), magnífico mosaico da belle epoque que resume e continua a história da civilização. O melhor romance brasileiro é Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (8), uma travessia pela nossa alma, e nosso livro mais profundo e bem escrito creio ser Os Sertões, de Euclides da Cunha (9), que todos dizem ler sem ter lido. Mas de nada adianta tentar ler esses livros se você não for capaz de degustar algo como Os Três Mosqueteiros ou O Conde de Monte Cristo, de Dumas (10), substâncias altamente viciantes.

Outras listas:
Vinte livros de ensaios imperdíveis
Off-10 – os livros desconhecidos que eu mais gosto

Off-10: minha lista de livros

A moda agora nas redes sociais é fazer sua lista de dez livros. Comecei uma, e não consegui sair do óbvio: meus favoritos são mesmo os destes mestres que são citados por qualquer crítico: Proust, Melville, Rosa, Stendhal, Conrad, Cervantes, Tolstoi, Shakespeare, Dumas, Nabokov, Homero. Assim como me recusei a falar de Montaigne em minha lista de ensaístas, não sei se tenho algo a acrescentar sobre meus autores favoritos. Por isso resolvi fazer uma lista com livros que não são muito conhecidos, tampouco completamente desconhecidos. Às vezes ele vem de um lugar estranho, outras, do baú de um escritor famoso. Listei apenas livros que já foram editados no Brasil, e me restringi à prosa de ficção (não há lista mais off que aquela dos livros de ensaios, mas não quero me repetir. Outros gêneros certamente gerarão outras listas no futuro).

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01 – Vidas Imaginárias – Marcel Schwob

Coletânea de contos com breves biografias ficcionais de 23 personalidades históricas, da antiguidade ao século XIX. Permeado de sacerdotes, artistas, políticos, poetas, mendigos, soldados, piratas, assassinos, Vidas Imaginárias conta a história da civilização. Sua narrativa sutil inspirou Borges, que disse que Schwob é um escritor para happy few.

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02 – A Pedra da Lua – Wilkie Collins

A Pedra da Lua, um gigantesco diamante, é roubada do armário de uma senhorita na noite de seu aniversário.  Segue-se uma longa investigação, contada a partir do ponto de vista de diversos personagens. Neste viciante romance, Collins, que dividia com seu amigo Dickens a atenção do público londrino, inventou de uma vez só a história de detetives e a polifonia.

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 03 – Uma Confraria de Tolos – John Kennedy Toole

escrevi sobre ele. Basta então relembrar que esse romance, protagonizado por um glutão antissocial, é simplesmente o mais engraçado de todos os tempos.

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04 – Jonathan Strange & Mr. Norrel – Suzanna Clarke

Inglaterra. Guerras napoleônicas. Dois mundos se unem. Um velho ranzinza e um alegre jovem conseguem realizar atos mágicos, o que será útil ao país. Com grande influência de Neil Gaiman, Clarke consegue superá-lo, nessa mistura de romance histórico com fantasia e aventura, escrito num estilo que remete aos escritores vitorianos.

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05 – Segundos Fora – Martín Kohan

Este romance argentino interliga três histórias: uma luta de boxe, uma apresentação de Mahler em Buenos Aires, e a investigação tardia de um assassinato. Tudo isto intermediado pelos interessantes diálogos entre um jornalista culto e um desinteressado. Como as frases de uma sinfonia, as histórias se interligam lentamente, até que se juntam numa apoteose.

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06 – A Medida do Mundo – Daniel Kehlmann

Com sua prosa divertida e elegante, Kehlmann nos brinda com o encontro entre dois geniais cientistas alemães: o recluso matemático Carl Friedrich Gauss, que explora as medidas do universo de dentro de um gabinete, e o aventureiro naturalista Alexander von Humboldt, que viaja o mundo medindo rios, montanhas, distâncias, e coletando seres vivos.

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07 – O Anão – Pär Lagerkvist

Apesar de ter ganhado o Nobel de Literatura, o sueco Lagerkvist não é tão conhecido no Brasil. Sua obra-prima menos ainda, pois a mais barata das quatro edições da EV custa duzentos pilas (li em espanhol). No livro, acompanhamos as ideias e opiniões do anão Picolino, que deve divertir os nobres numa corte renascentista. Ele odeia a humanidade com um ardor que não cabe em seu corpo. Tyrion Lannister é um anjo perto dele. A guerra, a doença, a miséria, a morte são o que há de mais divino para ele. Há ainda um artista sábio, inspirado em Da Vinci.  Recomendo o texto de Milton Ribeiro.

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08 – Verão em Baden-Baden – Leonid Tsípkin

O estilo vertiginoso assemelha-se ao de Thomas Bernhard. Seu procedimento narrativo, no entanto, me lembra bastante o Sebald de Os Aneis de Saturno: Tsípkin alterna sua narrativa entre uma viagem que ele fez, e momentos na vida de Dostoiévski. Sua viagem aos cassinos da cidade de Baden-baden (Alemanha), sua relação conjugal, o choque ao ver uma pintura, sua morte. O médico Tsípkin morreu na União Soviética sem ver seu livro publicado, e o livro não obteve reconhecimento até Susan Sontag encontrá-lo num sebo.

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09 – A Luneta Mágica – Joaquim Manuel de Macedo

Apesar dos colégios e a Bravo! indicarem o chatíssimo A Moreninha, esse que é o bom de Macedo. Simplício é extremamente míope e ingênuo, e não percebe as verdadeiras intenções das pessoas. Então um feiticeiro lhe entrega uma lente mágica que finalmente o faz enxergar tudo normalmente, com um porém: se ele encarar algo por três minutos ou mais, verá o lado mau daquilo.

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10 – O Terceiro Tira – Flann O’Brien

Uma maluquice do começo ao fim. Após cometer um crime brutal, um irlandês vive aventuras numa delegacia de duas dimensões, conhece as cosmicômicas teorias de um cientista louco, e tem que resolver os enigmas apresentados por três policiais excêntricos. Dizem que é Alice no País das Maravilhas do século XX.

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Hors concours:A Morte de Napoleão – Simon Leys

Napoleão na verdade vive, porém está anônimo e deve voltar a Paris, para viver peripécias que nada têm a ver com a esperada opulência do poder. Faço esse hors concours para representar uma maravilhosa coleção que a Companhia das Letras lançou na década de 90, só de livros desconhecidos, que continuam assim até hoje (com exceção de O Náufrago). Todos pequenos, bonitos e excelentes. Outros: Sonhos de Einstein, Viagem à Terra das Moscas, A Última Página e O Virtuose.