O azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina

Não gosto de funk, não suporto o “Despacito”, odeio pagode e sertanejo, mas conheço até bem isso tudo. Ao contrário de outros tipos de informação – como a palavra ou as imagens – que precisam do mínimo de atenção para serem captados, a música pode nos alcançar naturalmente, mesmo enquanto estamos de olhos fechados, sem pensar em nada, no fim de um cochilo fora de hora. Não que eu precise explicar, mas conheço as novidades do funk, do pagode e do sertanejo porque frequento uma academia e sou um boêmio eclético – mais fácil deixar de ir a um lugar por causa das pessoas que o frequentam que pelo tipo de música que toca nele, especialmente aqui no sertão da Bahia, um lugar surreal onde se ouve de tudo nos botecos, de jazz improvisado a thrash metal, mas em proporção desigual. Ah, vou falar logo a verdade: volta e meia me envolvo com garotas que amam tudo o que odeio. Mas a questão mesmo é que enquanto os textos e os memes hoje em dia circulam em bolhas de conteúdo, a música as estoura e acaba chegando aos ouvidos que mais as evitam. Mesmo que você goste apenas do pagodão, eventualmente escutará a “Habanera” num filme policial ou “Chop Suey” num vídeo de seu youtuber favorito.

Nenhum problema até então. Para isso existem as paredes e os fones de ouvido. E no geral isso me é benéfico, pois foi assim que descobri muitas músicas que adoro em gêneros que conheço muito pouco, como o samba, o rap, o hip hop. Mas a questão fica cabeluda quando transformam isso em imposição: pior, quando também a enfiam a política nela. O tempo corrói tudo, mas a política é mais rápida, barata e eficiente. A política corrói até a matemática. E o maior problema da polarização política é a homogeneização das pessoas. No meio dessa bagunça atual, acaba-se por supor que o cidadão de direita deve ser um branquelo rico, cristão, a favor das armas, leitor de Chesterton, contra o aborto e a maconha, e os direitos humanos, das mulheres, dos negros e de quem vai na parada gay, que tenha o cabelo curto e a barba bem-feita, que use ternos e cheire bem, jamais use vermelho, e que o esquerdista seja o oposto disso tudo.

Por causa da dissonância política, sujeitos como Rodrigo Constantino são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Chico Buarque. Por causa da dissonância política, sujeitos como Paulo Nogueira são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Lobão. Mas na verdade os extremistas são a mesma coisa. Uns fazem manifestação para impedir a exibição do documentário O Jardim das Aflições, mas acham um horror, um descalabro, uma ofensa aos direitos do cidadão, que os outros façam o mesmo para censurar a palestra de Judith Butler. Ambos são idiotas, no sentido mais intrínseco do termo, o daquele que age contra si mesmo acreditando atuar em favor próprio. Lutar pelo irrevogável direito de calar o próximo apenas atiça a curiosidade de quem não conhecia o objeto de seu desprezo. O filme é um sucesso, suponho que devido a um público de direita, mas por causa dos esquerdistas; muitos deles, afinal, só foram atrás de Butler após as tentativas de embargo dos direitistas.

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Mas eis que resolveram transformar em política a música comercial, e, de acordo com aqueles padrões de homogeneização, quem não gosta de funk é de direita, porém se você é mesmo de esquerda, deve não apenas se dispor a escutar, mas apreciar o funk em todos os seus aspectos. Aí começa o conflito, primeiro porque, bem, há muitos sujeitos de direita que adoram descer até o chão (como deve haver muito mais que nem sabem quem diabos é Chesterton); segundo porque, bem, pelo meu conhecimento dos funks, quase todos eles falam basicamente sobre armas e regiões genitais femininas, isso quando não misturam logo tudo e falam sobre bundas-granadas, ou alguma metáfora do tipo.

Aí, assim como muitos direitistas se incomodam em gostar de qualquer coisa que os esquerdistas defendem, fica difícil para um suposto intelectual feminista a favor dos direitos humanos defender as letras das músicas que os seus inimigos direitistas odeiam. Muitos deles caem numa hermenêutica ridícula para tentar explicar o valor de canções monossilábicas criadas unicamente com o propósito de entreter um público específico, já formado (e também gerar dinheiro, sucesso, likes). Repetindo, não há problema algum em criar, gostar, dançar, em suma, se divertir com a música comercial popular – meu problema é com quem tenta politizá-la com teses forçadas que tentam justificar seu valor intelectual e artístico, como se a música precisasse de uma validação acadêmica. Meu problema é com os ataques furiosos contra qualquer um que ouse questionar esses trabalhos. É a mesma “hermenêutica do assassino” de que falei em outro texto.

Mas pior ainda é quem tenta problematizá-la para que se adeque aos seus próprios valores e crenças. Dia desses li uma carta de uma jornalista a um funkeiro em que, após mencionar sua “poesia musicada”, ela propõe a alteração de um verso machista. A solução que ela oferece é mais sem sal que “Amor, I love you”. Apesar de alegar gostar de funk, o que ela propõe alterar é exatamente o que está em qualquer letra do gênero. A impressão deixada é a de alguém que afirma gostar de algo apenas para se integrar, ou em nome de uma ideia, mas não por apreciar de verdade. Nada que não encontramos às pencas na faculdade de letras e nas redes sociais. Nem precisamos checar a biografia da remetente e do destinatário para sabermos que têm origens opostas. Imaginem então como não enchem o saco de quem tem o leque de assuntos mais amplo. Concordo com Carol Bensimon, quando diz que seu compromisso é não cair nos discursos engajados, ao menos dentro de sua obra.

O resultado da politização e tentativa de justificativa acadêmica da música comercial popular é apenas um deslocamento aberrante, como um candidato a deputado que finge apreciar buchada de bode para ganhar uns votos, um ariano fantasiado de indiano para receber o cachê de uma propaganda, Antônio Prata fugindo da torcida de seu próprio time, Ronaldinho Gaúcho recebendo um prêmio da ABL, um autor de novelas da globo dar uma carteirada de intelectual-criador para desancar o político que detesta. Criticar o machismo numa letra de funk é reclamar do azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina. Por mais que alguns cantores tentem se meter, a música comercial não tem nada a ver com ideologia política. Eu não gosto de funk, mas nada tenho contra os funkeiros. Que eles toquem a sua ladainha à vontade: bebo minha cerveja na mesa enquanto eles, na pista, balançam as suas bundas em paz.

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O fim da amizade

1) No final do quadrinho Fracasso de Público, de Alex Robinson, o narrador Ed Velasquez explica como terminou sua amizade de mais de 600 páginas com Sherman Davies: “A maioria das amizades, se é que terminam afinal, terminam não por causa de um terremoto, mas da erosão”.
Box Office Poison (1996) (GN) (digital-Empire) 594

2) Em 1990, o então baterista do Nirvana Dave Grohl estava no apartamento de Kurt Cobain em Olympia, quando encontrou um violão e compôs escondido uma esta singela canção com suas primeiras impressões sobre os novos amigos, Kurt e Krist. Juntos, estavam prestes a conhecer o sucesso mundial e a vivenciar uma tragédia. A canção foi lançada pelo Foo Fighters em 2005.

O Epitáfio de Johnny Cash (Hurt)

Ontem eu estava com a TV ligada e vi a propaganda de um filme que me pareceu muito ruim¹, mas o pedacinho da canção que o embalava era muito boa. Me lembrei do timbre de Johnny Cash, a única voz que eu respeito o bastante para jamais tentar acompanhar, quando ouço música no carro. Fui confirmar de quem era, e descobri se tratar de sua última gravação importante, “Hurt”, de 2002. De Johnny Cash geralmente ouvimos os countries mais famosos, “I Walk the Line”, “Cry Cry Cry”, “Man in Black”, essas que o Matanza regrava às vezes. “Hurt”, na verdade, é um cover de Nine Inch Nails; um cover que supera o original. Depois desta gravação, o próprio compositor (Trent Reznor, o cara que fez as últimas trilhas de David Fincher) afirmou que a canção agora pertencia ao Homem de Preto. No clipe, a canção é tocada por um Cash velho e melancólico, intercalada com imagens de momentos mais gloriosos – Cash em sua juventude, topetudo, sorridente, confiante. Cash (o velho) usa roupas finas e está rodeado de troféus e objetos luxuosos, miniaturas em bronze, naturezas-mortas, bustos, vasos de porcelana, vinhos e taças de cristal, além de fazer um banquete com lagosta, champanhe e caviar. Mas ele não está mais feliz como era em sua juventude; seus olhos parecem nos lembrar: “acontecerá comigo também. O dinheiro e a glória não me compraram a eternidade” (“everyone I know goes away in the end”). É uma canção muito triste e bela. Um ano depois ele morreria, e esse clipe ficaria conhecido como O Epitáfio de Johnny Cash.

¹Lição: não desprezar completamente os filmes que parecem ruins, pois nunca se sabe o que vem na trilha sonora.

Não Tenho Medo da Morte

Excelente canção do Gil, que só tive o prazer de conhecer ontem.

Não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.

O pior verso de nosso cancioneiro

Stendhal e Machado se deram poucos leitores. Milton Ribeiro sempre se refere a seus sete, e Charlles Campos alega ter menos de quatro. Este blog tem, com certeza, dois; e por isso não justifiquei aqui a minha ausência de mais de um mês. Ambos sabem que eu estive pescando, lendo gibis, jogando X-box, testando maneiras de fritar picanha, e catando piolhos em minha dissertação.

Mas agora estou de volta.

Meus dois leitores sabem, ou devem supor, que minha memória musical é a mesma de um peixe de aquário. Para cada dez músicas que aprendo a tocar por ano, fico com uma ou duas, se praticar bastante. Sou capaz de me lembrar de melodias, e às vezes de letras, mas dificilmente de ambas ao mesmo tempo, e sou péssimo para assobiar ou mesmo murmurá-las, e em vez das palavras certas, me lembro de sinônimos e imagens soltas, de modo que me é fatalmente difícil conversar sobre música (nem deveria mencionar a música erudita, onde as sonatas e sinfonias têm os nomes todos parecidos).

Mas perto de um PC eu fico danado. Consigo encontrar trilhas de filmes e comerciais, identifico trechos que ouço em festas, lojas, rádios, rodas de viola, sem passar pelo constrangimento de perguntar a ninguém, encontro as notas de músicas que não consigo tirar e, ao conversar, mando links diretamente. Além disso, mesmo que eu tivesse um punhado de LPs, acho maís fácil analisar uma canção pelo computador, com acesso a letras, vídeos, informações.

E o que percebo é que as pessoas tratam com demais solenidade canções que talvez não mereçam. Endeusam certos compositores como se eles tivessem o toque de Midas, o colocam ao lado de nossos grandes escritores, como se fosse a mesma coisa. Mas lembremos que mesmo Vinicius, o poeta, na letra de uma canção importantíssima, escreveu uma pieguice como “pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca”. Depois de uma dessas, não deixo de imaginar uma trupe de palhaços trocando por pirulitos os charutos da sorumbática audiência, que respeita por demais o Joãozinho para dar qualquer tossidinha.

Claro, sempre soubemos que letra e poesia são coisas diferentes. Mas a palavra cantada pode fazer a completa diferença. O rock de Cristo e o do cão seriam a mesma coisa, não fossem as letras. Sinatra não cantaria bossa nova se ela permanecesse em português, e talvez ela ainda fosse anônima ao resto do mundo. Letra é importante, e completa a melodia. A canção flui com tanta jovialidade quando ambas são bem feitas!

Algumas letras, por sinal, são tão boas que se sustentariam por si só. Minha favorita é a de Chão de Estrelas, mas gosto também de Juízo FinalGeni e o Zepelim (adaptada de Seeräuber Jenny, que está na minha outra lista), O que é o que éCachaça MecânicaNoite TortaMente ao meu CoraçãoTrês Meninas do BrasilTerra, que listo em profusão, sem repetir autores, porque sei que a maioria será conhecida mesmo que não por seus títulos. O que têm em comum? Além de esmero técnico (métrica, ritmo ou rimas), apresentam com criatividade as ideias, imagens, metáforas.

Mas este meu pequeno cânone é a coisa mais errática que se pode haver. Não se fie somente nele, leitor, que eu sou ouvinte de ocasião. Garanto a qualidade das que estão, mas não de suas ausências, certamente inúmeras. Sei que há outras, conheço outras. Além de que, muitas canções excelentes têm a letra sem sal. De qualquer forma, rodeado de música que estamos, afirmo sem medo, pelo que ando ouvindo por aí, que a maioria das letras das canções brasileiras, excluindo as modas, não se destacam tanto quanto essas, mas mantêm um bom nível. Em geral, não chegam a comprometer. São boas de cantar, deixam uma sensação agradável, trazem algo de novo.

Por outro lado, há um seleto grupo de letras tão malfeitas que chegam a piorar as melodias que tentam sustentar. Daniel Piza fez uma enquete. Às vezes a falha ocorre por acaso. Outras vezes há pretensões irrealizadas por parte de seus criadores, que se veem como artistas acima de suas capacidades reais. Os Mamonas fizeram uma boa paródia destes tipos e seus fãs em Uma Arlinda Mulher. Umas são feitas de brincadeira, mas levadas a sério por seus intérpretes e ouvintes. Outras juntam tudo. Nem vou falar aqui de coisas como “começo a me lembrar do que ainda não me esqueci” ou “todo mundo tá revendo
o
 que nunca foi visto”, porque nem percebo tanta pretensão assim nestas bandas ou em seus ouvintes.

Vejamos algumas destas letras.

Geraldo Azevedo e Zé Ramalho são compositores regulares, mas foram particularmente infelizes em suas versões de Bob Dylan, um dos maiores letristas do século passado. Não as analisei a fundo, mas ainda assim encontrei coisas absurdas. Vou direto ao ponto: em O Amanhã é Distante, ninguém nunca se perguntou por que diabos esta pessoa queria que seu amor mentisse ao seu lado? Que patologia é essa? De onde ele tirou isso? Quando soube que era uma versão de Dylan, fui procurar a fonte, já imaginando as razões, mas pensando que também poderia ser uma adaptação livre. Não é. Ele praticamente traduz verso a verso. A confusão se faz nos múltiplos sentidos do verbo lie, que pode, sim, significar mentir, mas também deitarexistirficar. Acontece. Por motivos como esses, penso que a adaptação mais bem sucedida de Dylan seja a de It’s All Over Now Baby Blue, que Caetano e Péricles Cavalcante chamaram de Negro Amor, e deixaram andar sozinha, apesar de seguir pela estrada indicada por Dylan.

Já algumas letras nonsense são compostas apenas para completar as melodias, por exercício estilístico, ou até por improvisação, e acabam fazendo sucesso. Me lembro de um scatzinho dos Virgulóides que me agradava muito em minha infância, somente pela sonoridade daquelas palavras bizarras. Era só um prazer pueril. Nada de procurar significados profundos. E é isso. Mass já vi intérpretes cantando “jacarezinho, avião” como se estivessem declamando um soneto de Camões, e penso que atrapalha. As letras de canções como Acabou Chorare, Tieta (que nem vou procurar a letra), ou Inventando Moda não são objeto para ensaios acadêmicos, mas motivo de cachaçadas, danças, gargalhadas, diversão. Profundidade mascarada é de lascar!

Ao menos, nestes casos, os compositores sabiam o que estavam fazendo, e se divertem tocando. Pior é quando eles mesmos pensam estar dizendo algo bonito ou profundo, e não estão. Não sei se “beija eu, beija eu” e “amor, I love you” teriam lugar entre os piores arrochas (Tantinho, por exemplo, é muito melhor). O problema de letras como essas não é só sua tosquice evidente, mas elas serem levadas a sério por seus fãs e criadores como se fossem a maneira definitiva de falar de amor, como se até Proust fosse descartável perto delas. Já os fãs de Cazuza cantam suas músicas como os monges fizeram com versículos do Eclesiastes, mas me tiram o apetite versos como “segredos de liquidificador” ou algumas interpretações superestimadas para canções medianas como Ideologia ou O Tempo Não Para, que nos ensinam até nos livros escolares.

Há muitos outros. Há letras pebas de bons, de grandes compositores. Errar numa longa carreira, afinal, é muito provável. Enganar, parece-me, ainda mais. As pessoas precisam de profetas. Não pretendo relacionar um índex de letristas terríveis, mas não poderia terminar esse texto sem falar do Djavan. A pessoa em questão é um homem bomba. Suas letras nonsense, pretensiosas, esquisitas, cheias de presepadas, só contribuem para estragar suas boas melodias, como ressaltou Piza. Já notaram como as grandes letras são simples, sem cair no prosaísmo? O último parágrafo de Se é uma antologia de barbaridades. Açaí inteira é um ato de terrorismo contra o cancioneiro nacional. Na enquete de Piza, ficou em primeiro o par de versos “tudo o que deus criou pensando em você/fez a via láctea, fez os dinossauros”, que vejo as pessoas cantando às lágrimas, repetidamente, como um mantra de salvação, enquanto se chicoteiam em penitência, cozinhando os miolos sob o sol escaldante da capital, alcançando de joelhos os últimos degraus da escadaria da Igreja do Bonfim. Deus me livre. Em primeiro lugar, ou se toma uma posição cientificista, ou uma criacionista: Deus criar dinossauros é duro de engolir. Mas poderia se admitir uma licença poética, e ainda assim pairaria a dúvida. Uma declaração desta espécie, afirmando que Deus criou os dinossauros, estes lagartos gigantes, escamosos, barulhentos, fedidos, pensando em alguém tão esperado, é no mínimo uma declaração às avessas. Quem seria tão feio ao ponto de inspirar a criação dos dinossauros?

Com esta encerro minhas observações. Para que não me acusem de ser versado somente em maledicências, afirmo que o Piza também fez uma enquete para escolher os melhores versos do cancioneiro nacional, com muito mais opções que o anterior. E para que não digam que não mencionei nenhum jovem compositor, deixo este poema escrito por Lirinha, que mostra com exuberância quão poderosos podem ser os versos de nossos jovens trovadores. E assim seguimos adiante.

 

Como Fugir do Clichê

Não sou bem um leitor de livros de auto-ajuda pra sair de cara falando deles, mas se na lista de atitudes a serem tomadas para fazer amigos (ou encontrar o seu amor eterno) não estiver incluso algo como “procure uma afinidade em comum”, há algo de errado com esses escritores. Para quem cresceu no interior, como eu, numa época sem internet, o que havia de comum eram os desenhos animados, o cinema, o futebol, os games. Ao crescer, me surgiram o rock, o cinema cult, as HQs independentes, e eram poucos os que compartilhavam estas afinidades por lá.

Por isso, num primeiro momento, fiquei encantado com a quantidade de pessoas interessantes da capital. Roqueiros, nerds, estrangeiros. Mas veja só, já tive por demais conversas de apresentação you-are-what-you-like parecidas, fundamentadas no name-droping, para perceber que, primeiro, muita gente diz gostar de certas coisas por puro exibicionismo e, segundo, que a maioria tem personalidades pré-fabricadas. Podia vir a Johansson me dizendo que gosta de Sebald, Jimmy Corrigan e The Night Of The Hunter, e eu evitaria uma conversa mais longa, antes de conferir na internet.

Acho muito chato ver duas pessoas da minha idade se conhecendo e falando algo como “uau, você também jogou o Sonic do Master?”. Bah, todos nós fizemos isso, como vocês já deviam ter percebido, depois de 26 anos. Devido a uma poderosa indústria cultural de massa, parte de nossa formação é homogênea, de modo que não é tão extraordinário descobrir afinidades numa pessoa que cresceu de modo parecido, mesmo que bem longe. Há coisas que todos fizeram. Por isso os diálogos sagazes de Apenas o Fim, de Matheus Souza, talvez não façam sentido para quem não acompanhou a mesma formação; tantos os mais velhos quanto os mais jovens, antenados à suas próprias épocas, se perderão em suas referências datadas. Uma coisa é o Woody Allen fazer piadas sobre Dostoiévski e Groucho Marx, outra é o personagem de Matheus falar do Omelete ou de um show da Britney no Rio. Cada geração com seus motivos e referências.

Mas persistem certos padrões entre os adolescentes, desde meu tempo. Aquela velha história de ser diferente, de impor suas opiniões, o rebelde, o suicida, blusa de banda, multiplex, Sandman, mimimi. Por isso, o que menos me interessou na história de Vinicius Gageiro Marques, que li essa semana, foi o suicídio ajudado por internautas. No meu tempo todo mundo era assim. Além de que, ó meu deus, se tratava de mais um artista!

Nutro um preconceito cada vez mais fundamentado contra adolescentes que se dizem artistas, principalmente aqueles cujas obras são editadas pelos próprios pais. Mas o Vinícius, ou Yoñlu, me pareceu diferente. Apesar da capa horrorosa que fizeram para seu disco póstumo, um verdadeiro tiro no pé, as fotos e desenhos do garoto, claramente inspiradas na estética do Radiohead, tinham uma qualidade incomum. E me chamou a atenção foi uma frase sem erros ortográficos, sem banalidades, sem falsas autorias. “Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o da felicidade nos momentos mais sombrios”. Oras, esse é meu critério de desempate, antes de decidir entre abrir ou não um link que me surge. Tenho um preconceito com músicos, cineastas e artistas visuais que conseguem escrever uma frase sem dificuldades: sempre acho que serão bons.

Abri Humiliation enquanto lia o texto. A pegada melancólica me lembrou o Elliot Smith (outro suicida, por sinal). A letra também tem seus achados como [It’s time to shrink/To be smaller than a grain of salt to do at sea]. Penso que ele conseguiu transmitir com suas canções aquela nota de tristeza inerente a todos os momentos. Parecia lidar melhor com o inglês que com o português, ao escrever seus versos.

Não gostei tanto da letra de Mecânica Celeste Aplicada, em comparação com o que ouvira antes. Faltou a naturalidade das outras. Talvez fosse devido a sua formação sólida no cancioneiro pop de língua inglesa. Descubro que ele também era fluente em francês e galês, que escrevia crítica musical em sites estrangeiros e que, devido à sua rede de contatos online, teve uma canção tocada em pubs de Londres. Era com facilidade o artista cosmopolita que muitos forçam a barra para ser e não conseguem.

Sua canção mais ambiciosa, The boy and the Tiger, que só ouvi depois, é revolucionário dentro de sua própria obra. Primeiro, mostra que ele também tinha conhecimento do cancioneiro nacional (li depois que ele era fã da Bossa Nova). Em sua forma, me lembra outras canções-colagens, como Revolution #9 e Paranoid Android, que ele admirava, ou as coisas do Bill Holt, que não sei se ele conhecia. Cita Beatles, recria Geraldo Vandré, enfia no meio comentários de gravação, sons de animais, chiados, umas dissonâncias, umas desafinadas, música eletrônica, uma backward message (tradição do próprio rock) e o discurso de Caetano, feito num festival de 1968. Mas acima de tudo é agradável aos ouvidos.

Não há o que discutir sobre Vinicius; seu legado é evidente. Nada como a honestidade aliada à técnica, à coragem, e ao talento, para destruir um clichê. Pena que não há mais frutos a se esperar de uma árvore tão bem cultivada.

A Vida como Cinema

Eu conversava estes dias sobre as trilhas sonoras diegéticas – as que têm sua fonte conhecida em tela (um iPod, um radinho, um cara com um instrumento, uma banda, uma orquestra) e os personagens também a estão ouvindo – e a naturalidade que isto traz. Alex Ross fala destas décadas em que estamos soterrados de música. Foi inesquecível para mim, adolescente tabaréu, quando, após três dias no meio do mato, escutei Guns ‘n Roses num boteco dos grotões da Bahia. Pensei: “esses caras são famosos de verdade!”. Qualquer trilha ficaria natural em muitíssimos cenários do mundo, nos filmes que se passam em nossos dias.

Esta onipresença musical às vezes me traz desconforto, quando, por exemplo, sou obrigado a ouvir canções que não gosto, no ônibus, vindas das telas, rádios ou celulares alheios. Por outro lado, como é bom descobrir uma bela canção, por estar passando na rua na hora certa! Há o novo desconforto, o de se tentar descobrir que música é; tentar anotar trechos da letra, perguntar para alguém, tentar reconhecer a voz e o estilo. Dá medo pensar que provavelmente jamais ouvirei certas canções mais uma vez – canções cujas lembranças me são meras imagens distantes. Me pergunto o que as pessoas faziam antes do Google, e a resposta é automática, pois eu mesmo vivi este tempo: conversava ou se perdia.

Outra coisa que se faz cada vez mais presentes em nossas vidas, e essa observação é muito óbvia, é a captura de imagens. Todo mundo tem sua camerazinha no bolso, e o Youtube é o Grande Irmão dos nossos tempos. Aquele que atirar a primeira pedra será filmado e condenado. Por outro lado, há tanta gente tirando fotos, filmando, editando imagens, que penso que, eventualmente, como na Biblioteca de Babel ou no Teorema do Macaco Infinito,  haverá de surgir no meio disso tudo uma obra-prima, completamente por acaso (seguindo a mesma lógica, inventaram um negócio de mandar para a Globo a própria imagem no estádio, prevendo um gol; nem posso imaginar a astronômica quantidade de vídeos deletados após as partidas de futebol).

Enquanto estas obras vão sendo divulgadas clique a clique, outros resolveram brincar com a própria onipresença da câmera. O Lucas Otero fez um belo vídeo no velho esquema a-vida-em-um-minuto só com fotos do Instagram. E a estética da filmagem caseira domina: o OK GO, banda que ficou famosa no youtube, começou assim, e com o sucesso, já pode fazer clipes assim. De acordo com esse texto, os produtores da Lana del Rey inventaram este clipe meticulosamente casual, mas não é de hoje que os diretores de filmes de grande orçamento inseriam uma ou outra cena numa câmera caseira, para dar realismo. A mais inesquecível para mim é a de Sinais, apesar da grosseria inerente (por que o guri fala em dois idiomas, meu deus?).

O mais criativo de tudo, no entanto, foi a possibilidade de fazer longas inteiros com câmeras diegéticas, que interagem diretamente com os personagens, como com as trilhas sonoras. Já vi dois assim, ambos de temática adolescente, com tratamento de roteiro, montagem e fotografia impecáveis, para seus propósitos. Project X , em parte baseado numa história de um sujeito australiano, é sobre uma festa que atinge proporções bélicas, e Chronicle é, talvez, a única história de super-heróis realista ao pé da letra.

Esta ideia obrigou os realizadores de ambos os filmes a se virar de maneira criativa para que os filmes não ficassem modorrentos, o que era um risco fácil. A mania mundial de se filmar tudo é usada em favor da narrativa, como uma nova técnica.  Filmadoras amadoras passam de mão em mão (ou voam), alternando-se com  câmeras de celulares, de segurança, laptops  e, finalmente, as das redes de televisão. Ambos foram realizados por pessoas de minha geração, e creio que estes são só os primeiros passos.