O vazio, o Satanás, o esprit d’escalier

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Publiquei umas coisas nas últimas semanas, mas andei ocupado demais pra divulgar por aqui. A revista Barril, de Salvador, republicou o texto mais legal que já escrevi neste blog, o ensaio A declarar nada, sobre a linguagem empolada, os textos vazios, o que caracteriza os discursos que, por excesso, acabam por não dizerem muita coisa. Antes, já saiu lá O direito de interpretar Hamlet, em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural, e ano passado saiu A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; sempre tem muita coisa foda lá.

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Pouco depois, o brasiliense Danilão, o cara mais legal do Facebook, me convidou para escrever na lindíssima Revista Seca. Mandei uma série de notas estranhas com as quais estava trabalhando na época, para um curso de escrita com Paloma Vidal. Em Plurais, mudanças, objetos essenciais, falo sobre a primeira pessoal do plural num ensaio de Virginia Woolf, apresento minha versão do Satanás e discorro sobre minhas mudanças e os objetos realmente essenciais.

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Por fim, semana passada saiu um ensaio que fiz para o Blog do IMS, Declínio e queda do esprit d’escalier, o texto que me deu mais trabalho pra escrever este ano, e também meu favorito. Entre um monte de coisas, cito um ex-presidente, parodio uma hashtag famosa e evoco Laranja Mecânica ao discorrer sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato. Quem quiser, pode também conferir o primeiro texto que publiquei lá, há alguns meses, Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

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Sangue na boca

Cinquenta Pilas

Venho duma linhagem de achadores de dinheiro. Minha vó sempre conta das surras que meu pai levou por achar dinheiro no chão – uma indignidade, para ela. Aprimorei a arte: ano passado estava indo pra rua beber e encontrei uma notona de cem reais balançando na calçada. No dia seguinte, numa ressaca mefistofélica, condenei o costume. Depois disso, o declínio – ultimamente só tenho achado notas pequenas e moedas.

Mês passado, mesmo com o frio da moléstia, decidi comer na padaria da rua debaixo, quando vi uma nota de cinquenta na calçada. Seria o símbolo do giro da Fortuna – “minha volta por cima!”, juro que pensei isso na hora. Fui pegá-la e ela flutuou uns vinte centímetros. Dei-lhe um pisão e quando a agarrei senti que era de plástico e estava sendo puxada com força por uma linha de anzol. Era uma pegadinha. Eu havia sigo enganado como um grande peixe (um Dourado, dirão!)

Não ajuda nada, não explica nada, mas senti isso como uma bela metáfora para as últimas semanas – não havia mais o que fazer, além de seguir pela calçada preso a um devaneio desfeito antes de definidos os seus contornos.

Sangue na boca

Dia desses il capo, meu maravilhoso e enrolado ilustrador, me disse que eu deveria aproveitar enquanto estou com o sangue na boca. “Como assim”, lhe perguntei. De acordo com ele, durante a adolescência, quando era goleiro de futsal, passava a jogar melhor após levar a primeira bolada na cara. O sabor do sangue que lhe encobria os dentes o deixava furioso e, ao mesmo tempo, era como se ele despertasse e insurgisse contra todos os medos das vésperas de decisões. Com o sangue na boca você perde os receios, pois precisa reagir naquele exato momento; com o sangue na boca você arrisca, você despreza a névoa que embaça seus amanhãs. O sangue na boca é a húbris, o sangue na boca é a metáfora original para catfish, o bagre que faz os bacalhaus se moverem, o sangue na boca é a luta cotidiana contra o horizonte vazio. Nas últimas semanas senti esse gosto ferruginoso ferver cada vez mais ácido na ponta de minha língua. Estejam certos de que alguma coisa haverá de acontecer.

Esboço de amor em SP

Texto que escrevi para um exercício proposto por Joca Terron. Não sabia o que fazer com ele depois, e Geórgia me sugeriu postar no blog. Trata-se de um texto absolutamente ficcional: aqui não há um pixel que seja biográfico, não ficcional, auto-ficcional, até mesmo mera coincidência. Apenas a citação de Cervantes é um retalho desse tecido esfarrapado que a gente chama de realidade.

Esboço de amor em SP

“Eu não vim do nordeste pra tropeçar na calçada da Avenida Paulista”, eu dizia.

“Eu não vim do nordeste pra beber catuaba”, dizia você.

“Eu não vim do Nordeste pra ver o Corinthians vencer”, eu dizia.

“Eu não vim do Nordeste pra tomar bolo desses cafajestes”, dizia você, ganhando a disputa.

Difícil competir. Desconheço indivíduo mais agourento. No dia mais frio o chuveiro queimou com você no banho. “Na Inglaterra as crianças tomavam banho gelado de manhã cedo pra ‘desenvolver o caráter’”, eu disse quando você saiu. Depois de vinte e cinco flexões e quarenta abdominais pra suportar a chuveirada, também desenvolvi o caráter: entrei Macunaíma, saí Salomão. “Nem na ditadura usavam uma água gelada desse jeito”, disse você, tremendo ainda.

Posso até ser azarado, mas você tem o dedo podre. Foi no cinema com um francês e ele quis pagar seu uber pra não dormir contigo. Eu não cheguei a chamar pra sair a estudante de RI de cabelinho chanel que falava “eventualmente” e não me contou o que estava lendo, e “nisso de amores quem perde a ocasião perde a ventura”, disse Miguel de Cervantes. Você deu match com um canalha que escapou do boteco na cocó sem pagar a própria conta. Eu demorei pra reconhecer a cachaceira da revista independente.

“Por mim os mexicanos metiam pimenta em tudo e quem não aguentasse que fosse tomar milk shake”, eu disse.

“Daqui uns dias os japoneses vão oferecer sushi queimado”, disse ela.

“Os pés-sujos cerveja sem álcool”, eu disse.

“Espetinho de carne de soja”, disse ela.

Você jantou com um milionário que tentava esconder seus affairs das redes sociais, mas não escondia muito bem. Eu saí com uma jovem que ainda não havia bebericado de sua cota do sumo venenoso da vida. Seu casal de amigos tocou fogo um no outro por ciúmes e você finalmente descobriu aquilo que todos intuímos, que talvez a paixão não seja uma coisa assim tão boa.

E eu fiquei de ressaca e você tomou banho de arruda; e assisti no cinema a um filme húngaro genial que jamais terei saco para rever e você colocou na estante um santo de cabeça para baixo; e me era insuportável a ideia de morar com alguém que não tinha lido Pílulas Azuis e você me levou pra andar de bicicleta; e eu lia de uma vez todos livros que conseguia carregar porque meus dias estavam contados e infinita era a lista de obras que existiam somente naquela biblioteca e você pulou de paraquedas; e minha maior aventura foi almoçar o prato de ovo cru no coreano caro e você tatuou o “fail better” de Beckett com a naturalidade de alguém que apenas corta o cabelo.

E o amor em algum outro lugar – uma ausência latejante. Um dia apareci com uma conversa sobre uma menina mais velha que eu: a pálida pele de Vênus, o erre duro, Stella Artois, Elena Ferrante, as bochechas vermelhas de frio, ela delicada como um netsukê: talvez estivesse apaixonado.

Ou eu entre duas paredes de concreto num vagão imóvel na Linha Azul falando pelo celular sobre como estou desgraçadamente apaixonado, apaixonado igual ao eu-lírico do forró de Santana, eu queimando eu me roendo – e você pior, pois o carinha se mandou pra África do Sul, as suas amigas mais próximas estão todas na Bahia, e você não quer falar disso comigo, pois eu sabia que você esperava mais.

Talvez nem seja sofrimento o meu, porque não me sinto infeliz, mas se for é dos mais inúteis, pois não me serve nem como fonte para um roteiro tal qual o de Medianeras ou Frances Ha ou Annie Hall a ser produzido pela RT e nos deixar confortáveis por uns meses, pois se for sofrimento é um sofrimento platônico, se é que isso existe, um sofrimento insuficiente, insignificante, estagnado.

Você pensava em aprender a nadar, a fazer origami, em começar uma horta, em voltar pro Sertão, em fazer balé e rapel, em se demitir, em engravidar, em signos, em coisas para jogar no story do Instagram e falou com amargura que terminou muito cedo o que tinha pra fazer naquele dia.

Então percebi que nada te assusta mais que a perspectiva de um horizonte vazio.

Uma das fontes de nossa desilusão

One day, baby, we’ll be old
Oh, baby, we’ll be old
And think of all the stories
That we could’ve told
Asaf Avidan

Não sei que estranha confiança transmito, mas as pessoas adoram me revelar intimidades e segredos. Talvez se deva ao fato de eu não saber mentir e de não sentir remorso em descascar verdades desagradáveis a meus interlocutores. O amigo de verdade nos apunhala pela frente. Nas últimas semanas também vêm me pedindo conselhos. Me transformei num guru, logo eu, such a fucked up guy. Daí que, neste setembro amarelo, recebi várias mensagens de gente que estava “na bad”. Existe no ar uma molécula cinzenta que nos contamina com essa tristeza repentina e inexplicável. Talvez seja a crise dos trinta.

O grande lance dos trinta, ao menos de quem completou junto comigo, a geração Scott Pilgrim, é que as coisas não aconteceram conforme o planejado – seríamos todos inteligentes, ricos, viajados, bem-sucedidos, amados e famosos, nossas vidas seriam interessantes. Assim nos foi vendido o futuro, seja por Hollywood, seja pelos comerciais de televisão. Antes a crise era aos quarenta: “Cheguei à metade de minha vida e o que conquistei? O que construí?” A dos trinta é bem diferente: “Saí do auge de minha vida e agora tenho responsabilidades, me sinto cansado, não há tantas portas abertas, pouco ocorreu como eu almejava, e eu só queria me divertir um pouco mais”. Na verdade, a fortuna, o sucesso, o amor e a fama não acontecem – mesmo os melhores, os genuinamente talentosos, os afortunados, os sortudos, os belos, todos precisam buscar. A maioria deles não alcança. Uns conseguem e não ficam satisfeitos. O problema nem é a desilusão, mas a fé cega que nos força a perseguir esses sonhos de todo jeito, apesar do suposto pé-no-chão atrelado à idade. A vida pune.

Se há algum benefício em mudar de década, é que as festas de aniversário são mais interessantes (não a minha, por azar) – olhamos para as fotos dos últimos dez anos e pensamos em quantas memórias e mudanças. Esperávamos que a maturidade fosse naturalmente agregada a nosso corpo, como as espinhas, os pelos e a excitação sexual, porém chegamos pós-adolescentes aos trinta – pessoas legais e irresponsáveis que aprenderam algo, não se sabe muito bem o que, mas é preciso ser muito cabeça dura para chegar aos trinta sem ter aprendido nada.

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We’ll be old

Eu aprendi que um dos prazeres da velhice é exatamente revisitar os prazeres da juventude. Relembrar histórias adormecidas com amigos que não via há anos, após escutar uma canção que hoje só faz sentido por causa deles. Rever Juno e afinal concordar com uma crítica negativa lida com muita suspeita quando o filme saiu. Rever Laranja Mecânica e descobrir porque ele continua na lista de filmes favoritos. Reler “Os Precursores de Kafka” após finalmente ter conhecido boa parte dos textos que Borges menciona; Proust ao ter vivido plenamente o amor em suas facetas positivas e negativas. Reencontrar-se com uma ex sem aquela tensão que antes era um empecilho para qualquer conversa honesta, pois hoje sabemos que fazer ou entrar em joguinho é uma bobagem.

Aprendi também que é preciso conversar com as pessoas. A humanidade como um todo é uma merda, mas as pessoas são fascinantes. Entendem? Os estranhos são fascinantes; os esquisitos, os desconhecidos. A garota mais bonita da festa pode ser fascinante, mas é preciso conhecê-la. Sempre me incomodava quando uma moça legal saía com um babaca, até que parei para pensar nas vezes que fui atrás de meninas imbecis apenas porque eram bonitas, e em como as garotas interessantes devem se sentir com isso. As meninas mais lindas que conheci eram gente fina. Talvez conversar seja um problema majoritariamente masculino – os outros gêneros me parecem mais bem-resolvidos quanto a isso.

Aprendi ainda que não faz sentido tentar realizar os desejos e sonhos alheios. Como disse Kate Tempest, a poeta que mais tem a dizer hoje em dia: feel the difference between a lifestyle and a life – Sinta a diferença entre um estilo de vida e uma vida (recomendo demais vê-la recitar este poema). E aí também aprendi que muitas vezes os sonhos, mesmo os de infância, são mais fáceis de serem realizados na maturidade, porque eles também são projetos e requerem cronograma, orçamento e justificativa bem-feitas – a não ser que estejamos falando de sonhos impossíveis tais quais voar como Peter Pan ou beber o leite rosa dos Teletubbies (piada interna).

Enfim aprendi que não é ruim eventualmente sentar-se numa poltrona numa tarde de domingo. Lembro-me de um desejo compartilhado até hoje, de que nossos dias sejam todos interessantes. Quem nunca pensou numa vida aventurosa – dormir sem saber como seria o próximo dia? Vivi isso. Não saber o que você vai fazer, quem vai conhecer, o que vai comer, quanto vai gastar, onde vai dormir no dia seguinte, em que cidade, é extremamente excitante e ao mesmo tempo assustador – a longo prazo, a imprevisibilidade é o que há de mais apavorante. Há aí algum ponto de equilíbrio entre a modorra de poder prever seu dia– a segurança, a rotina –, e a abertura para as surpresas empolgantes. Acho que buscamos esse ponto intermediário, nós de trinta, e que a falta disso é uma das fontes de nossa desilusão.

Saltar num lago sem saber

Acontece que a cidade mais populosa do Brasil é também a mais solitária. Minha melhor amiga – a única pessoa com quem falo de tudo (vá, de quase tudo, hehehe) – tá morando lá, sozinha, e ontem bastou uma única palavra minha, uma palavra escrita, enviada pelo celular, nem era uma palavra bonita, para que ela mandasse de volta um áudio soluçante, choroso – e eu não reconheci sua voz. A garota estava emocionada. Depois de nosso habitual intercâmbio de desilusões irônicas, ela me revelou que a partir de então se tornaria gente ruim.

Digo a ela, basicamente, que isso não funciona, que as pessoas não se tornam ruins assim da noite para o dia, que é preciso um esforço intelectual incomensurável para se destruir uma moral interna edificada por durante décadas, e que, a conhecendo, o máximo que ela conseguiria, se muito, seria machucar alguém para depois sofrer bastante por isso – talvez mais que a suas possíveis vítimas. Eu sei porque também já caminhei por essa trilha – carrego uma metrópole dentro de mim.

A maldade, para funcionar, tem que vir ou naturalmente ou inconscientemente, sem se reconhecer como maldade. Tentar se tornar gente ruim não o sendo é como tentar se lembrar de se esquecer; é como se esforçar para não se importar. Ali não há melhora, não há alegria, não há prazer que não se transforme num langor que haverá de ser carregado por muito tempo.

Como proceder, então? O que fazer para sair deste limbo, desta melancolia, fruto único de sua bondade constante? Como se proteger do mal discreto e devagar que os outros nos causam rotineiramente sem que lhes tenhamos feito nada?

20160607_164710Não se importar me parece a única chance. Entretanto, como acabei de dizer, isso não acontece deliberadamente. Como a maldade, é preciso que seja natural ou inconsciente. Olhe para as crianças. E, caso exista alguma atitude a ser tomada, não existe fórmula; varia. Muita gente escapa ao colocar sua religião acima do próprio conforto; outros mergulham em alguma filosofia. Alguns transferem suas responsabilidades emocionais – as culpas, as esperanças – para outras pessoas, para o trabalho, o dinheiro, o futebol, para algum projeto, para a política. Uns se alienam.

Para mim, o que funcionou foi ligar o “foda-se”. Fazer o que tenho vontade mesmo sabendo das possibilidades desastrosas que poderão provir dessas decisões – quando elas se limitam a mim. Imagine que há um lago em sua frente e você não sabe nada sobre ele, se é fundo, sem tem pedras, se tem piranha ou jacaré. Mesmo sabendo que você pode se estropiar todo, vá lá, se jogue lá dentro só porque você tá com uma vontade da porra de pular. Garanto que quando você estiver todo lascado, sentido dor, se recuperando da pancada, vai ser muito mais fácil sarar disso que do arrependimento por ter feito mal a alguém gratuitamente.

a húbris é mais forte que o medo

Depois disso pensei que se foda toda esta merda a húbris é mais forte que o medo, não a a húbris a cólera, a desmedida, o vinho que transborda na taça, mas a húbris a energia motor, o ímpeto de viver, o calor, e o medo é rotina e a húbris é caos, e o medo é um céu azul e a húbris é um terremoto, e o medo é tédio e a húbris é ternura, e dirigi até o capão com a roupa do corpo, embebedei com leffe e cravinho, dormi com o carro aberto e a chave dentro, já todo detonado por causa da buraqueira, e tive uma conversa longa séria e reconfortante com minha chefe e outra leve curta e deliciosa com uma ex-aluna do cabelo rosa, brinquei de carrinho, desenhei, soletrei, levei meu filho pra comer pastel, organizei uns 500 livros, reli tudo sobre ensaísmo, aprendi a tocar “Elephant gun” no ukulelê, revisei Hazlitt e bebi uma garrafa de vinho suave com um amigo músico com quem não conversava fazia muito tempo e uma de vinho seco com um primo com quem converso sempre, transei com uma mulher que não gostava e repeti pra mim mesmo que não iria mais fazer isso e aí dei um fora em Paula Fernandes porque Clarice Falcão estava me dando mole, comi feijoada com um glutão que depois disso foi ver aulas de filosofia no YouTube, comi água com Heineken com uma ex-companheira de banda e um casal tatuado e fiquei com uma garota que já amei amargamente tanto quanto meus volumes de Proust, joguei travinha com um policial separado que também é pai, embebedei com conhaque no show de Asley e Scambo enquanto me esforçava para dançar com a irmã de uma grande amiga, fui ao Goiás morrendo de ressaca, pesquei no Araguaia com meu pai e fui quem pegou mais peixes, entrevistei um barqueiro, e no dia em que completei 30 anos Dilma foi impedida, peguei meu maior peixe, combinei com meu primo caminhoneiro de ir com ele ao Pará, embebedei com Chivas, e exatamente quando meu bolo surpresa foi posto na mesa esse meu primo descobriu que o pai dele acabara de falecer e voltamos para casa na hora, minha segunda viagem alcoolizado. Passei uma tarde com a menina que amara amargamente, passeei com minha filha, tive conversas online excelentes com um cartunista que foi meu colega e um gaúcho que nunca vi, escrevi um obituário, e uma esquina sobre a pescaria, comprei a piauí com meu texto, li Robert Capa, vi uma cerimônia apresentada pela melhor aluna que já tive, embebedei com Heineken e Baden-baden e meu primo órfão de pai me agradeceu pois se eu não o tivesse pressionado a mostrar seu filho a meu tio ele carregaria essa culpa por toda a vida, deixei a louca de minha ex-companheira de banda dirigir meu carro na contramão, dirigi até Salvador e a ressaca caiu sobre mim repentinamente e ficou até o meio da viagem, bebi pouco com meu compadre, fui driblado por um poeta laureado, comprei Sedaris, Mitchell, Nabokov, esqueci meia garrafa de cravinho no Porto Moreira, cantei mil vezes um verso do forrozeiro Santana e “Juizo Final” numa versão perfeita com os reis do violão e do bandolim, dancei forró com a galeguinha mais malandra da Bahia, voei para Brasília um pouco embriagado e sonhei com a irmã de meu compadre, irritamos passageiros (“que cherchent-ils au ciel tous ces aveugles?”), comi linguiça na feira do produtor, vi gêmeas recém-nascidas e comi rabada na casa do avô coruja, fui importunado por um poeta drogado, não embebedei após 28 cervas com um artista plástico meio punk que conhece todas as músicas do mundo, recebi um sermão de um editor, comprei Kohan, Kertesz, Marías, Márai, Malcolm, Chatwin, Francis, e um Calvino que li no mesmo dia, fui emboscado por um sarau de poesia enquanto discutia “hodor”, declamei um soneto de Bruno Tolentino, falei mal de Brasília para o máximo de brasilienses, viajei às 3h da manhã com um intelectual psicótico completamente embriagado que queria porque queria comprar cocaína num lugar perigoso e pensei que algo de ruim poderia acontecer, mas estava preparado para isso, pois a húbris é mais forte que o medo e que se foda toda esta merda, eu vou é pra Cusco. Caminhei no parque com o marido de minha tia, embebedei de dia com domecq e black tiger comendo coisa pesada e de noite com Porca de Murça, ice e margaritas, vi um show de jazz num posto de gasolina, comprei outro Márai, vi Tirúbio Santos desenhar o sertão com um violão, a ocupação zumbi da funarte e minha irmã embebedar com duas garrafas de ice, vi uns Mondrians meio pebas, comi madeleine com chá e não escrevi nada depois, comprei uma passagem para o Acre, um Vidal e um Manguel, vi o Atlético perder para o Real, ganhei sozinho no sinuca em dupla, vi o compadre dormir no bar pela décima oitava vez na semana, comprei pelúcias e cervejas com o artista meio punk e bebemos ouvindo Muse e Rammstein, imitei o Mr. Bob Dylan, you know, não embebedei com mojitos de montilla num show meio hipster onde encontrei um conterrâneo de Irecê, celebrei o aniversário de minha irmã com crepe e sushi e percebi que já fazia três semanas que eu não tinha nenhum de meus pesadelos recorrentes (os medos diurnos em estado exagerado, o medo de que algo aconteça com as crianças, ou que eu morra amanhã, ou que eu seja esquecido em vida), comprei Flaubert e uma almofada inútil e me enfurnei num ônibus por dois dias e meio e desenvolvi a inédita habilidade de ler e escrever em movimento, e li Márai e grande parte do Manguel (na volta ainda leria Kohan), saí com uma menina do cabelo azul que conheci no tinder, suei como nunca antes, conheci uma dupla quixotesca que me convidou para alimentar um jacaré e depois conhecer a cidade, entrei no carro velho e a mulher me apontou uma arma e eu tinha esquecido no bolso os R$200 que tinha reservado para o Acre e pensei que se foda toda esta merda a húbris é mais forte que o medo e meti a mão na arma e vi que ela atirava perfume, e o índio gigante me disse que já vira muitas armas e eu fiquei cismado pelo resto do dia e com eles comi tacacá, tucupi, cupuaçu e açaí, recebi um superlike e um estímulo incomensurável do editor, e esperei por 17 horas na rodoviária internacional e li Manguel, escrevi um poema péssimo sobre o meu ideal feminino, e um manuscrito não ficcional impublicável de 13 páginas, vi dois péssimos filmes dublados após um mês inteiro sem ver absolutamente nada, dei meu pacote de amendoim para um senegalês chamado Barak que falava um francês incompreensível, às 5h30 eu era o estrangeiro num busu peruano, tomei chichas e comi pollipapas com eles em mesas compartilhadas e cheguei em Cusco às 3h da manhã sentindo um frio da moléstia pois fazia 4 graus e eu ainda não tinha onde dormir, uma blogueira inglesa tentou me impressionar depois de ver meu manuscrito, comprei Llosas, um gorro, chaveiros, uma boneca, subi Sacsaywayman, prosei com um belga, vi um jogo da NBA, embebedei com blood bombs e cusqueñas no beer pong com uns israelenses desgraçados, comi ceviche e choclo, conheci um alemão que me atendera na noite anterior e me fez contar as cinco mentiras de Loki (1-I’m not going out tonight, 2- ok, I’m going out, but I’m not drinking, 3 – ok, I’m drinking, but I’m going home early, 4- ok, I’m getting smashed, but I’m leaving tomorrow, e 5 – I love you!?), apostei rodadas de bebida nos dados (perdi uma vez para uma polonesa), embebedei com pisco sour, white russian, sambuca, tequila, gliders, pisco puro, lowenbrau, e sabe-se lá o que mais, neguei weed (makes me kinda paranoid) acordei com vontade de vomitar, mas tinha que esperar uma van, e passei por uma estrada sem proteção a mil metros de altura com um motorista de húbris mais forte que a minha, e mesmo depois de dormir ainda queria vomitar e mesmo com a van parada ainda queria vomitar e fiz muita amizade com um mendozino que efetivamente vomitou do meu lado e nenhuma com o peruano de muletas que ia do lado dele de carona e vomitou mais ainda, uma fila de regurgitadores, e fiz amizade com uns chilenos e umas brasileiras contando essa história e comprando uma coca, os enganei (fi-los crer que sou um gênio dos números), neguei marijuana (“me quedo paranoico”), não embebedei com pisco sour, acordei às 3h30, masquei folhas de coca, citei Tchekhov para umas alemãs (“ich sterbe”) e fiz a trilha até Machu Picchu. Fui convencido a ficar mais um dia mesmo tendo pago apenas por um, joguei jenga, fiz a trilha de volta com pouca grana e sem saber se teria de pagar para voltar para Cusco e disse fodase toda ehta mierda, la hubris eh mah fuerte que la hambre e gastei quase tudo em cusqueñas e entrei numa van no lugar de um tal Paolo Moralez que nem sei se apareceu e foi a desgraça porque o hideputa do conductor não parava em lugar algum e descobri que nem a húbris nem o medo nem uma estrada mortal são mais fortes que uma bexiga prestes a estourar e a menina mais bonita da cidade bebeu todo o seu gatorade e me deu a garrafa mas eu não consegui mijar lá e a van parou dois minutos depois, ouvi um disco de música peruana genial e não tinha carga no celular para gravar no shazam, entrei de malandro numa boate e embebedei com TUDO, beijei uma americana que tentou bafar meu chapéu, e me lembro vagamente de uma xará de minha irmã, dormi na boate, acordei no albergue e achei 110 soles dentro do Kohan, ajudei uma abuelita a levantar um menino que se jogara na calçada, bebi um litro de água sentado na esquina tomando sol e um peruano com a camisa da argentina tentou me vender marijuana (“ahora no, gracias, ehtoy de resaca, pero conohco unos tipos que quieren”), comi chicken wings e dei minha coca para um cara de Liverpool, comprei um xale, uma aquarela, lhaminhas e mais um gorro, tentei em vão ligar para uma chica do tinder e vendo o movimento da rua me esbarrei com a moça do gatorade e sua esposa, fomos para seu albergue, ouvimos “Home” e Bob Marley, recusei um cachimbo (“senão vou achar que todos no ônibus querem me roubar”), me apaixonei por elas, atravessamos Cusco correndo duas vezes, a segunda com todas as minhas coisas, e confirmei que o ônibus se atrasaria, e confirmei que tenho horror ao que é permanente, e confirmei que não tenho mais medo de nada.

Feliz natal para todos

Cartão de natal - Salvador Dalí

Feliz natal para todos! Aos que amam alguém, que seja sempre assim. Aos que odeiam, que não se esqueçam que assim como o frio e o calor são gradações diferentes de uma mesma coisa chamada temperatura, o ódio nada mais é que uma gradação de algo inominável, onde no mesmo plano – ainda que do lado oposto – há o amor e a amizade.

Feliz natal a quem tem compaixão ou ternura, a quem nunca sentiu nada, a quem se importa demais. Feliz natal aos desgraçados que nos causam pena – o que, felizmente, não é sempre, mas somos todos nós. Feliz natal aos afortunados que nos causam inveja ou desprezo – onde todos nos incluímos também. Feliz natal aos cristãos, pois isso já é um motivo em si. Feliz natal a quem crê em coisas diversas. Feliz natal também àqueles não acreditam em nada, pois ao menos é festa e não há porque não querê-la.

E para aquela pessoa solitária que eu sei que não gosta do natal, e que até tem motivos para isso, festejemos por mais um dia entre os outros, e sinceramente desejo que ele seja um dia bom.

Sinceramente também espero que este desejo de um dia bom se espalhe para além dos meus três leitores, que passe adiante.

E que seja para todos.