O que podemos aprender com o Bispo Bienvenu

Tenho o mau hábito de ler os caras de direita, que escrevem melhor, e de bater papo com os de esquerda, que conversam melhor. Aí outro dia li no facebook um comentário de um eminente intelectual de direita, penso até que era editor ou escritor, pesquisador, talvez. O cara dizia coisas interessantes; pensava, e não apenas repetia, sem aquela enrolação de Power Rangers e coisa e tal, mas veio com algo assim: “Antônio Fernando Borges talvez seja o melhor escritor de sua geração, mas antes preciso averiguar se ele é de direita”. Eis a síntese da estupidez de nossos intelectuais, de leste a oeste.

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Crise? Nisso os franceses são mestres. Em vez de coreografias, santos quebrados, e gente xingando muito na internet, querelas entre pessoas de opiniões divergentes não raramente acabavam em pólvora e sangue. Uma vez, um sujeito foi atacado por uma multidão por causa de uma opinião, e terminou cozido e devorado (os canibais foram devidamente enforcados depois). Desde a Revolução de 1789, quando foi inventado a esquerda e a direita, os franceses ocasionalmente se veem divididos. Danton ou Robespierre, império ou república, Dreyfus ou anti-Dreyfus, colaboração ou resistência. Victor Hugo entendeu isso como poucos, e criou seus personagens não como estereótipos que se definem de acordo com essas escolhas, mas como pessoas reais com diversas nuances. Logo no começo de Os Miseráveis, ele nos apresenta ao homem mais generoso do mundo, o bispo Bienvenu Myriel, um sujeito tão bondoso que era capaz de defender o bandido que acabara de roubá-lo logo após ele oferecer-lhe uma grande ajuda. Havia apenas um homem que ele não gostava, e nele o bispo concentrava todo o seu desprezo. Tal homem, o octagenário G., que por toda sua vida havia defendido ideias opostas às de Bienvenu, vivia sozinho. Tendo recebido a notícia de que ele estava nas últimas, a obrigação do ofício fez com que o bispo, ainda que de malgrado, o visitasse. O que ele descobriu? Que, defendendo ideias que ele acreditava monstruosas, G. era um homem virtuoso. Sua essência bondosa, ainda que por caminhos diferentes, era a mesma.

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Nossas opções políticas e ideológicas são apenas uma parte de nós. Somos muito mais. Ninguém merece apanhar por isso. Se você não gosta, é só parar de seguir.

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Vivemos, no Brasil, uma França bárbara – uma França sem os poetas, os cozinheiros e os pintores. Nosso violento maniqueísmo, este diminuto demônio que até a Copa das Confederações só pensava em futebol, escapuliu-se para o cotidiano. Em um texto esclarecedor, Eliane Brum explica o fenômeno. Guardávamos para nós e nossos próximos nossas ideias mais desprezíveis, e não parecíamos tão selvagens ao vizinho com quem nos encontrávamos no elevador. Com as redes sociais, a cortina desabou. Só que em vez de nos refrearmos para não ofender nossos amigos, passamos a fazer o oposto; criamos uma máquina acusadora, absolutamente parcial, contraditória, aleatória e descontrolada. Reivindicamos o direito de julgar qualquer um que se atreva a passar diante de nossa mira. Agora, às vésperas de uma guerra civil, tendo chegado ao ponto de sairmos da frente do PC para gratuitamente agredir aqueles passantes que parecem pensar de modo diverso, é hora de perguntar: como você julgaria a obra de Shakespeare se ele fosse petista? Um Beethoven tucano agradaria a seus ouvidos? Muito fácil responder, quando a pessoa em questão morreu há tanto tempo. Mas e se, em vez de Shakespeare e Beethoven, usássemos nomes de artistas vivos que manifestam suas ideologias?

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Isto é engraçado, independentemente de sua orientação política.

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Rodrigo Constantino, um dos arquitetos intelectuais da guerra civil, e que provavelmente estará tomando margaritas na Flórida quando a pólvora começar a queimar por aqui, recentemente publicou uma lista com os nomes de artistas e intelectuais a serem boicotados por quem deseja livrar o Brasil da corrupção (sim, faz sentido pra certas pessoas). Nomes muitos deles inevitáveis em nossa cultura, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Laerte e Wagner Moura. Tal lista, escrita em seu tradicional estilo hiperbólico e bajulador (ele fala exatamente o que seus leitores querem ouvir), um amontoado de expressões batidas (seu legado intelectual), é a encarnação do que há de mais estúpido nisso tudo que vivemos, que é o desejo de transformar o outro num monstro, num nazista, como meio de justificar a necessidade de atacar estranhos gratuitamente. Paulo Nogueira, apesar de mais comedido, seria seu nêmesis, seu oposto, o Constantino de esquerda.

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Isto é impressionante, independentemente de sua orientação política.

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O complexo de vira-latas ainda está entranhado em nossa psique. Wagner Moura, brasileiro, é atacado despudoradamente por gente como Constantino, mas bastou que uma franzina atriz de Hollywood lhe contasse uma piadinha, e Bolsonaro – o terrível Hitler tupiniquim, o pica das galáxias, “ando-armado-e-não-tenho-medo-de-ninguém” – não soube o que fazer. “Não estou entendendo nada”, disse, dando um patético risinho envergonhado de pré-adolescente e colocando o rabo entre as pernas. De frente com uma mulher mais bruta, uma Lena Dunham, o coitado sairia com as calças borradas. Compare sua malvadeza com a de Trump; este topetudo Majin Boo Criança não hesitaria em transformá-la em biscoito antes de engoli-la.

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Isto é belo e profundo, independentemente de sua orientação política.

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Olavo de Carvalho, um dos intelectuais de direita que sempre reclamaram da arte influenciada pela ideologia, é incapaz de apreciar uma canção de Chico, apenas porque ele é petista. E antes que os intelectuais de esquerda me levantem em seus braços, lhes lembro que vocês fizeram o mesmo com Lobão. Ninguém nunca gostou dele, é bem verdade, mas antes disso tudo aí, quase todo mundo gostava de suas músicas.

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Isto é interessante, independentemente de sua orientação política.

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O infame Constantino, com sua habitual falta de noção, se anuncia como um novo “McCarthy”. Em minha inocência, de primeira pensei que o cara se comparava ao McCarthy de Meridiano de Sangue: “que presunçoso”. Mas é pior. Constantino se compara ao McCarthy da censura, aquele que dizia que os quadrinhos acabariam com as mentes das crianças. Logo em seguida foi bloqueado por sete dias pelo “facebook petralha” do qual tanto depende. Esbravejou como um cão barulhento que torce para que jamais alcance o carro. Ser censurado é a coisa mais engraçada que poderia acontecer com um cara que se anuncia como “o novo McCarthy”. Não me aguentei quando vi os furiosos comentários desse Policarpo Quaresma da ignorância. Genuinamente divertido, mas também uma barbaridade. Há algo maior em questão. Não tendo cometido nenhum abuso da lei, o fanfarrão do Constantino deveria ter todo o direito de publicar suas baboseiras.

Textos relacionados:
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Os polos horizontais
Algo de podre nos dois lados da maçã

Soterrados pela poeira da glória

Será possível produzir literatura no Brasil depois de A Poeira da Glória? Lançado em outubro, o livro de Martim Vasques da Cunha propõe uma provocadora releitura de nosso cânone, como meio de radiografar uma degeneração moral presente na alma e na identidade brasileira. De acordo com o ele, os clássicos são encarados no Brasil – seja por um estudante, um intelectual ou um cidadão comum, – com “medo ou reverência”. Sua intenção é fazê-lo com honestidade, independentemente do prestígio ou influência da obra.

Particularmente formidável na narração de anedotas que marcaram as biografias de artistas e pensadores, Martim Vasques é um dos melhores críticos culturais do país. Fundador da revista Dicta & Contradicta, e atualmente publicando no jornal Rascunho, ele escreve com conhecimento e profundidade sobre áreas diversas, – literatura, cinema, música, política, história, teologia e filosofia –, interligando-as quando conveniente, sem deixar enfraquecer a fluência e a contundência de sua prosa.

poeira gloria

No ambicioso A Poeira da Glória, Martim examina nossa literatura com o despudor de um Samuel Johnson. A primeira crítica se dirige a ninguém menos que o patriarca de nossas letras, Machado de Assis. Seu diagnóstico inicial é chocante: “estes livros não correspondem a uma realidade vivida e experimentada de fato – mas a uma enigmática criação literária que só permanece por sua autonomia estética e que disfarça a superficialidade do autor”. Euclides da Cunha, por sua vez, seria infectado pela estetização da realidade, Lima Barreto devorado pelo ressentimento, Sérgio Buarque de Holanda contaminado pelo fetichismo do conceito, os modernistas envenenados pelo coletivismo cultural, Antônio Candido por preterir a realidade em nome da ideologia. Quase ninguém está a salvo da metralhadora conceitual de Martim Vasques. Em comum, todos eles teriam se recusado a se confrontar com o “abismo” que cada um possui dentro de si; falta a eles uma “imaginação moral”.

Tanta liberdade e desprendimento, entretanto, abrem vazão para leituras equivocadas. A primeira delas está justamente num texto de capa, que por sua vez foi adaptada da orelha escrita pelo jornalista Fábio S. Cardoso: “O livro que até mesmo o politicamente incorreto considerou imprudente”. De onde vem esta frase? Quem seria esse politicamente incorreto que considerou o livro imprudente? A impressão é que, devido ao teor da obra, na impossibilidade de chamá-la pelo vendável “O guia politicamente incorreto da literatura brasileira”, optou-se por algo mais discreto, mas ainda assim atrativo ao leitor que entrou por acaso na livraria.

Na orelha, Cardoso ainda afirma: “de Machado de Assis a Daniel Galera (…), são poucos os que se salvam”. E num comentário compartilhado pelo autor antes do lançamento, declara-se que “adoradores de Machado de Assis vão chorar. Seguidores do modernismo também. A Poeira da Glória, de Martim Vasques da Cunha, é um liquidificador que mói a mediocridade e separa o trigo do joio. Seus maiores heróis são Nabuco, Cecília Meirelles, os Inconfidentes, Rosa e Otto Lara Resende. Sobrou muita chibatada para os ídolos”. Tal citação faz o livro parecer – tendo em conta que, apesar da postura negativa, ela funcionou como propaganda – um paredão de reality show, e que Martim Vasques é uma espécie de Aldo Raine da literatura brasileira. Ou pior: que gerar polêmica é a principal finalidade do cartapácio.

Poder-se-ia argumentar que tais declarações têm o único e nobre intuito de plantar a expectativa no leitor, que compraria o livro e, logo, ampliaria seu alcance; mas elas são frutos do próprio ressentimento, ironicamente destrinchado no mesmo. Martim não considera descartáveis os autores “moídos” por ele, e faz questão de reconhecer as qualidades dos escritores que destrona. Não foi incluído quem não tenha sido de alguma forma notável. A Poeira da Glória é perturbador exatamente porque escrito com a seriedade de quem leu tudo de um autor antes de escrever a primeira linha sobre ele. Suas ideias são argumentadas e fundamentadas com centenas de referências e alusões (por sinal, o livro carece demais de um índice onomástico). Veja: “[Euclides da Cunha e Lima Barreto] são gênios, sem dúvida, mas quem disse que o Brasil precisa apoiar-se somente nos ‘homens da inteligência’?” O sentido está claro, mas o propósito está além.

A grande verdade é que, por mais que concorde com a argumentação, não deixarei de apreciar Machado, Euclides, Lima Barreto ou Raduan Nassar, e creio que poucos o farão com os autores de que realmente gostam. No máximo, e mesmo assim por pouco tempo, se tornarão guilty pleasures. Como nos ensaios de Theodore Dalrymple ou Joseph Epstein, temos aqui um minucioso estudo que, apesar da fluidez de best-seller, é digerido lentamente. É possível discordar de Martim Vasques, porém jamais acusá-lo de leviano ou desonesto. Não se deve confundir a polêmica como meio de chamar a atenção (o comentário de Paulo Coelho sobre Ulisses), e a polêmica como reação natural a uma publicação inesperadamente subversiva.

Martim parodia Orwell e brinca com a possibilidade: “Tenho certeza de que, enquanto escrevo as primeiras linhas do último capítulo deste livro, seres humanos extremamente cultos, lidos e esclarecidos tentarão me matar. Ou talvez não. Talvez não aconteça absolutamente nada”. Não poderia estar mais errado. De acordo com as postagens em seu perfil no Facebook (e o autor honesto há de optar entre não compartilhar nenhuma crítica, ou compartilhar qualquer uma, inclusive as desfavoráveis), ao menos neste primeiro momento, ele não encontrou nem o silêncio absoluto, nem a ira assassina dos rivais. Encontrou, em vez disso, a concórdia – a glória (às vezes com ressalvas).

E o maior equívoco de muitos de seus leitores está em acreditar que este rosário de denúncias só esteja dirigido ao outro, seja porque não leu, seja porque discordou – um engano semelhante ao da internauta que enfrenta o machismo com ferocidade, mas é incapaz de percebê-lo em suas próprias atitudes. Concordar com uma denúncia não nos isenta de ser alvo dela. Está explícito em muitos dos comentários elogiosos uma afinidade pessoal, intelectual ou política com o autor – como se ser de direita ou de esquerda, morar em São Paulo ou no Maranhão, acreditar ou não em Deus, gostar ou não de Lavoura Arcaica, pudesse nos livrar de escrutinar o “fundo insubornável do ser”. Eis um dos engodos da inteligência. A exortação de Martim Vasques não se dirige a grupos específicos, mas a cada um, inclusive a ele mesmo: “Todos os literatos e intelectuais do Brasil, sem exceção (inclusive este que profere tal sentença), sofrem da doença da estupidez e acreditam que são parte de uma elite – mas não passam de uma ralé”. É preciso antes retirar a trave do próprio olho.

Curiosamente, a reação mais interessante das publicadas em seu perfil proveio de um pedido dele mesmo. Nicolau Olivieri, num texto muito bem humorado, termina por admitir que “seu livro não foi simples. Foi difícil. Não pela questão teórica ou pelas alusões não pescadas ou pela densidade, mas pelo confronto. Lendo o Poeira, como eu disse, eu me senti parte integrante, quando não um entusiasta, do esteticismo e da dissimulação, da recusa, enfim da falsidade e absoluta ausência de coragem para enfrentar meus próprios abismos”. Se a maioria dos leitores que entenderam o livro não se sentir do mesmo jeito, estamos diante de uma onda de insinceridade, ou, sem ironia, talvez o país não esteja indo assim tão mal. E se Dalrymple e Epstein estiverem certos, talvez alguns dos problemas apontados por Martim não sejam tão específicos ao Brasil. Será possível produzir literatura depois de A Poeira da Glória?

Sim, porém sempre há mais a ser considerado.

Praias infestadas por máquinas destruidoras de carne humana

A premissa do filme Tubarão (1975), dirigido por Spielberg a partir do romance de Peter Benchley, por improvável que pareça, é bastante semelhante à de Um Inimigo do Povo, peça escrita em 1882 pelo norueguês Henrik Ibsen, que foi sensação numa Europa dominada pelo teatro francês.

Em Tubarão, que é melhor que sua herança cinematográfica faz parecer, conhecemos a cidade costeira de Amity Island, que tem no turismo sua principal fonte de renda. Após um violento ataque de tubarão, o delegado Martin Brody sugere ao prefeito Hendricks que sejam interditadas até segunda ordem as praias da cidade, o que acarretaria em grande prejuízo para a população, uma vez que estavam no início da alta temporada. Após mais dois ataques, finalmente, as praias são fechadas; o público temeroso clama por vingança e o xerife parte para a caça do enorme animal.

Um Inimigo do Povo começa com praticamente a mesma história, inclusive com a envolvente presença do prefeito, da mídia, e da família do protagonista. A diferença básica é que o balneário em que vive o Dr. Stockman é atacado não por um gigantesco e assustador assassino dos mares, mas pela invisível e silenciosa contaminação da água.

A comparação entre obras e suportes tão diferentes pode parecer inusitada, quiçá esdrúxula, porém uma rápida análise em nossos medos mais íntimos revelará que tememos mais os tubarões pernambucanos que, por exemplo, a poluição que assola a Baía de Guanabara, ainda que, entre as duas, seja a última que tem mais risco de afligir seus banhistas diretamente.

Enquanto no filme de Spielberg os poucos, porém cruéis, ataques do tubarão branco traumatizam os banhistas de Amity Island, os inúmeros casos de doenças no balneário norueguês, além de detalhados relatórios científicos, em nada influem na decisão de sua população. Para evitar prejuízos financeiros, o prefeito (irmão de Dr. Stockman), os jornalistas e o povo decidem liberar o acesso à praia, e nada fazem para impedir sua contaminação. Dezenas de doentes discretamente alojados em suas câmaras escuras não carregam o apelo gráfico de uma única vítima da violência marinha.

ibsen

Mesmo em posse de documentos e argumentos que comprovam seu discurso (afinal, ele pensa apenas no bem do povo), Dr. Stockman é pressionado por quase todos da cidade a negar o problema, ainda que essa atitude ponha em risco a vida de muitas pessoas. Descobre-se que, intimamente, muitos dos habitantes concordam com ele, tendo até defendido sua proposta anteriormente; porém, após ele ser declarado inimigo do povo, ninguém tem coragem de bater de frente contra a maioria e sua discordante decisão unânime. “O partido político é uma máquina de moer carne… carne humana!”, afirma Stockman, numa metáfora semelhante à feita com o tubarão branco: “uma máquina de comer”. A mentira sobre si mesmo, e até para si mesmo, é uma das bases morais do cidadão civilizado. A peça de Ibsen é uma tradução narrativa do aforismo de Nelson Rodrigues, que afirma ser burra toda a unanimidade.

Assim, enquanto em Tubarão assistimos à luta do indivíduo contra a natureza, em Um Inimigo do Povo vemos a batalha do indivíduo contra uma sociedade egoísta, hipócrita e estúpida, definitivamente muito mais perniciosa e com potencial de destruição muito maior que o de um terrível monstro marinho engolidor de pessoas – batalha de modo algum aterrorizante, porém muito mais perturbadora.

Algo de podre nos dois lados da maçã

“Um partido é como uma máquina de moer carne… Carne humana!”     Ibsen

“My feeling is that the hero has now been defined by phrases like the odious one that we were all raised with – crimes does not pay. Of course it pays, you schmuck. That’s not why we don’t do it. We don’t do it because it is wrong.”     Frank Miller

O escritor cubano Leonardo Padura certa vez anunciou sentir inveja de Paul Auster. O americano não precisa justificar seus escritos. Seus livros não serão julgados a partir de suas opiniões políticas. Auster pode escrevê-los sem a preocupação em explicar a crise financeira ou sem explicitar se é democrata, republicano, apolítico, ou alguma outra coisa. Já a Padura, ainda que famoso autor de romances policiais, é quase impossível participar de uma entrevista em qualquer lugar do mundo em que a política de seu país não esteja na pauta.

No Brasil, país em que escritores não fazem muito sucesso (ou fazem, mas raramente com seus livros), instituiu-se o hábito de se julgar as pessoas a partir do lado dos dois polos horizontais em que se sentam. Se eu afirmasse estar na esquerda ou na direita, as reações a este breve texto já estariam estabelecidas antes mesmo de sua leitura ser terminada. “Admirável é aquele que concorda comigo”. Nem é preciso declará-lo abertamente: um simples compartilhamento ou, vá lá, até a cor de uma camisa já prenuncia uma série de filosofias de vida, opiniões, religião, opção sexual, meio de transporte, modelo do celular, hábitos alimentares e proveniência geográfica. Mas faça o teste: uma conversa mais íntima sempre revelará surpresas interessantes.

Mesmo nas atividades mais banais é extremamente difícil nos distanciarmos de nós mesmos, de nossos preconceitos. O texto “5 truques de lavagem cerebral que funcionam, não importa quanto inteligente você seja“, daqueles que realmente valem a pena ler com atenção, levanta uma questão interessante:

Admita: você secretamente tem certeza de que se tivesse vivido no Brasil escravo como um homem branco, teria sido um dos menos racistas. Você também teria sido um dos jovens alemães que não foram sugados por Hitler. Ao imaginar-nos transportados para outro tempo e lugar, nós sempre assumimos que nosso Ambiente Moral Padrão de alguma forma viaja com a gente, porque não podemos conceber uma vida sem ele.

Só que aí ainda estamos em nossa zona de conforto, pois todos nós já sabemos ser errados a escravidão e o nazismo. Mas e quanto aos pequenos delitos e deslizes do cotidiano? Quando nos deparamos com alguma daquelas listas impessoais de denúncias vetorizadas, fáceis de compartilhar – “o brasileiro fura fila, incomoda a vizinhança com música alta, joga lixo no chão, fecha garagem, para na calçada atrapalhando o fluxo” –, quem realmente faz uma reavaliação de consciência? Quem pensa “pode ser que eu faça isso e talvez eu devesse parar” ao invés de “preciso urgentemente prestar atenção nos erros dos outros”?

As críticas de comportamento – mesmo as críticas diretas – são quase sempre recebidas com uma abordagem defensiva. Um exemplo: os flamenguistas são vistos como os torcedores mais chatos do Brasil, pois são insistentes em sua superioridade mesmo quando o time vai muito mal. Mas pergunte seriamente a qualquer um deles qual o torcedor mais chato e ilógico, e a resposta estará em outro lugar; o mesmo vale para qualquer rivalidade: ninguém admite o próprio erro, e os defeitos daqueles que pertencem ao nosso grupo são mais facilmente perdoados.

Dois eventos me chamaram a atenção nas manifestações deste ano:

Em março foi amplamente divulgada uma fotografia em que era possível ver parte de uma faixa com suposta apologia ao nazismo. A esquerda compartilhou a imagem com alegre ferocidade, pois a suástica é símbolo de tudo o que há de ruim no mundo. São as mesmas pessoas que compartilham a hipocrisia de cidadãos comprovadamente corruptos que levantam cartazes contra a corrupção, e que o ano inteiro nos mostraram como a mídia é golpista e seletiva. Provou-se, entretanto, que o cartaz era uma mera comparação do PT com o nazismo. O tiro havia saído pela culatra, uma vez que os manifestantes é quem ficaram com a alcunha de nazistas. A comparação com o nazismo é uma maneira reconhecida internacionalmente de se realizar uma ofensa vazia e gratuita. A outra foto, mais aproximada, era a prova concreta de que ninguém fazia apologia à suástica. Não vi a segunda foto entre os posts de ninguém entre os que compartilharam a primeira, mesmo quando informados da mesma. Agiram exatamente como a mídia seletiva que denunciavam.

Já da manifestação de ontem, assisti a uma assombrosa gravação que mostrava um morador da Avenida Paulista que decidira sair na rua com seu bebê, vestindo uma camisa vermelha. O homem estava cercado por um círculo de manifestantes que incomodavam ele e a criança, e os expulsavam de sua rua em nome de um Brasil melhor. Assobios, panelaços, brados retumbantes. Como se o pobre bebê fosse autor de detestáveis opiniões, um senhor branco, olhos azuis vidrados, se aproxima deles de modo ameaçador. Uma multidão contra um homem e um bebê que não haviam feito nada. Sufocados, porém cercados por câmeras, eles conseguem escapar ilesos.

O que mais me assusta nesses eventos, apesar das legiões de cínicos e imbecis que integram ambos os lados, é que muitas pessoas realizam atos semelhantes porque realmente acreditam no que defendem. São pessoas que se desumanizam e corrompem valores básicos da civilidade em nome da felicidade geral do nosso povo. Não compartilho postagens que explicitam a estupidez e a falta de noção, seja numa caixa de comentários ou num cartaz, porque não é incomum se tratarem de opiniões sinceras, passíveis de serem emitidas mesmo pelos mais inteligentes e melhores informados entre nós.

Ocultar informações, ameaçar bebês, clamar pela ditadura ou atacar gratuitamente adversários são males que, em vez de aversão, me causam tristeza. Bem mais nocivo que o mal autoconsciente é o mal que se defende transvestido de bem, pois é contagiante. Um mal cujo oposto, fosse eu a me manifestar, talvez se tornasse objeto de escárnio de quem pensa de modo diferente. E, no cerne da questão, nunca vi ninguém declarando defender a ruína do país e a decadência de seus habitantes, como os membros de cada lado se acusam mutuamente – ambos, quase sempre, sinceramente procuram a prosperidade. Estão em lados opostos, mas pertencem ao mesmo horizonte. São dois lados de uma mesma maçã.

Os Polos Horizontais

Por ficar de cá, do alto de minha torre de marfim (um lugar em que as coisas pesam e é real o barulho de um choque entre corpos), quase sempre observando sem participar, não me sinto confortável em fazer julgamentos definitivos sobre o mundo virtual. Nos últimos meses venho usando a internet com muita cautela; você pode dizer que por covardia, eu que por falta de interesse: tenho posições claras e definidas sobre meu voto, e não as exponho aqui porque não te interessa e não tenho saco para os comentários histéricos que viriam de quem não vota como eu. Basta estar do lado diferente do seu, não importa qual seja ele. Não quero convencer nem ser convencido – por sinal, o elo em comum entre os mais histriônicos dos galos de rinha conectados, sejam vermelhos ou azuis: ninguém quer ser convencido.

A ideia é que o texto sirva para os dois lados. Se você me conhece de verdade terá total certeza sobre minhas posições; se não, tem 50% de chances de acertar, uma vez que não votarei em branco ou nulo, nem deixarei de votar. Pessoalmente, e mesmo virtualmente, numa conversa privada (um terreno vazio em que uma ofensa direta e gratuita é inibida [mas não improvável], pois só pode ser dirigida a você e não a este ente amorfo, ao mesmo tempo Todos e Ninguém: um grupo), não tenho nada a esconder, apesar de nem sempre estar disposto ao debate (não tentar convencer nem permitir ser convencido). Bem, esse texto é mais sobre os comentaristas das redes sociais que sobre as famigeradas Eleições 2014.

Em 2012 tivemos uma prévia do que viria, porém nada foi tão selvagem e brutal quanto esse ano, uma conversa de interesse abrangente sobre pessoas específicas, a mesma discussão para o país inteiro. E de lá pra cá tive a “oportunidade” de ganhar um smartphone, arrumar um facebook que me acompanha para cima e para baixo, entrar nuns grupos de zapzap até populosos, e ser bombardeado com imagens, vídeos e diálogos indesejados. Meu celular é a Palestina do lixo virtual: fotos de tragédias recentes, assassinatos, musiquinhas, hard porn, gente tosca falando besteira ou brigando na rua, mendigos/bêbados/animais dançando, propagandas, montagens bobas, piadinhas fuleiras, o cotidiano banal de quem pretende se exibir, opiniões, opiniões, opiniões, mais piadinhas. A nova doença mundial.

xkcd

Ah, e o ódio ou desprezo contra quem pensa de modo diferente. Eu frequento a internet há tempo o bastante para saber que só dá pra conversar com um desconhecido se você concorda com ele. Discordar é ser sempre um idiota ou um nazista do pescoço duro. Fizeram até uma piada dizendo que toda discussão online acabará com uma comparação com Hitler (a Lei de Godwin). Argumentum ad Hitlerum ou Reductio ad Nazium. E a verdade é que grande parte da população mundial, entre eles esses alemães do passado, é sempre muito cheia de certezas. Falo isso com base nos debates alheios. Foi-se o tempo em que eu respondia com fúria apaixonada os enganos e as bobagens que me enviavam pela rede – um idiota rosnando para uma tela brilhante. Hoje só dou uma olhadinha nas caixas de comentários mundo afora; vejo a mesma conversa de sempre.

Bem, a internet móvel ao menos acabou com as discussões de bar sobre dados checáveis. A capital da Austrália é Sidney ou Adelaide? – É Camberra. Em que ano Ronaldinho Gaúcho fez aquele golaço contra a Venezuela? – 1999 (discussões reais que duraram horas). Antes, como um pedaço de carne fria que a gente mastiga mastiga e não engole, a indaga durava uma noite inteira, sem chegar a lugar nenhum. Agora brigamos por causa de opiniões, que, no mundo virtual, geralmente são divididas em dicotomias – certo/errado, a favor/contra, sim/não.

Faço uma breve lista de opiniões pessoais:

1) verde ou amarelo (verde)

2) chiclete ou chocolate (chocolate)

3) Madrid ou Barcelona (BCN)

4) Tolstoi ou Dostoiévski (Tolstoi, apesar de Dostô ser maior desbravador da alma humana).

Pensei numas mil aqui; o mero ato de gostar já implica, de certa forma, numa competição. Minhas escolhas estão corretas, pois sou eu que estou afirmando sobre meus gostos, mas a lista em si está errada. Veja, nem gosto de chiclete ou de amarelo, passei muito pouco tempo em Madrid e li poucos livros de Dostoiévski. E a lista nem está errada por isso, mas porque quase sempre, nesse tipo de escolhas, há mais que duas opções: 1) roxo 2) sorvete 3) Tarragona 4) Tchekhov – posso escolher entre dúzias de opções em cada uma dessas categorias.

As dualidades, no entanto, não são sempre assim divertidas. Afirmar suas opiniões publicamente pode não ser tão simples. Escolha: Religião ou ateísmo? Buda ou Maomé? Maconha ou cerveja? Bahêa ou Vitória? Com homens ou com mulheres? Não precisam responder; mas percebem o que ficou de fora? Tenho certeza que para alguma dessas perguntas você escolheria uma opção que não estava entre as duas. A personalidade é um gigantesco caldeirão de sopa de letrinhas cheio de respostas desse tipo. Muita gente, entretanto, não consegue aceitar que uns gostam de cristo, maconha, Tolstoi e amarelo ao mesmo tempo. Outros não conseguem aceitar que aquele paquiderme torça pro mesmo time que você ou que um usuário de drogas possa ter religião. Inúmeras são as variações, nenhuma aceitável pra quem está do outro lado da tela. O que fazer então? “Oxe, brigar na internet, é claro”. Daí surgem os haters, trolls, e todas essas classificações curiosas, como vimos na última edição da Superinteressante.

dilmecio

E o que isso tem a ver com as Eleições 2014? Primeiramente, é preciso esclarecer que temos cá polos extremos, dois polos horizontais, pois ao contrário dos polos do planeta Terra, nossa linha faz par com a do Equador: de um lado a extrema esquerda, do outro a extrema direita. Não falo aqui dos nulos e dos moderados, essa galera que não comenta na internet; meu comentário é dirigido aos extremos. Se ainda não ficou claro, deixa eu falar mais uma vez: meu texto aqui é sobre gente que publica na internet, não necessariamente sobre eleitores ou políticos, mesmo porque muita gente publica, mas não vota e vice-versa – e além do mais já tenho minha escolha; não estou aqui pra falar bem de ninguém.

Então, podemos perceber que há dois espelhos ali, no meio exato da linha horizontal, ou então um está arremedando o outro, porque agem do mesmo jeito. Ambos acusam o ódio do lado oposto, um alardeia a corrupção do outro, ambos respondem com a falibilidade das fontes da informação, a desconfiança das pesquisas só acontece quando o favorecido está do outro lado, fazem escárnio do eleitor diverso, e denunciam a falta de patriotismo, compaixão e inteligência de quem não consegue votar como ele. O polo direito tem a Veja, o polo esquerdo a Carta Capital; o direito Olavo, o esquerdo Boff; o esquerdo Chico, o direito Lobão; Jean Willys de um lado, Malafaia do outro; Rodrigo Constantino fala bobagem sobre a logomarca da Copa, Paulo Nogueira não lê o livro que critica com ferocidade; a esquerda contra o final do milênio velho, a direita contra o começo do milênio novo.

Quem recebe esta enxurrada de veneno não aguenta mais, não vê a hora de acabar, porém não faz nada para evitá-lo – pior ainda é não saber do que andam falando pelas ruas; a velha doença da informação… Mas por que, em tempos do irreparável discurso do politicamente correto – época na qual uma breve pressão no print screen pode gerar processo judicial – é tão aceitável ofender e esculachar grupos inteiros?

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Oras, porque os grupos dos eleitores, como eu disse acima, são entes amorfos. Ou seja, comportam ali todas as formas e expressões. Diferentemente das divergências raciais, étnicas, religiosas, sexuais, financeiras e tudo mais que possa causar uma guerra de comentários, diferenças per se exclusivas e excludentes, os grupos de eleitores querem sempre mais gente. A guerra une. Uma eleição se vence pela maioria, e o voto do pobre tem o mesmo peso que o do rico, o do católico e o do evangélico, o do negro e o do nipônico. A união faz a força contra os energúmenos que votam na outra cor – inimigos se juntam contra o mal comum.

Um grupo de eleitores se assemelha, assim, a um grupo de torcedores de futebol. Não há requisitos para se torcer por um time – escolhemos aquele que nos agrada, que acreditamos ser o melhor, que nos acostumamos. O motivo é sempre particular, sempre. Mas quem acompanha futebol sabe que os times estão constantemente oscilando, ano sim, ano não, entre a vitória e a derrota, a falha e a conquista. Ninguém é o melhor por muito tempo seguido. Mesmo assim, os torcedores haverão de sempre defender seus clubes com garras e dentes, torcer até morrer.

Nas redes sociais a rinha insuportável entre os eleitores está no mesmo patamar que a conversa mole dos torcedores fanáticos. Por isso esse ano a disputa está tão ferrenha e exagerada. Tanta gente “falando” de política, pela primeira vez em muito tempo. Por isso tanta acidez e virulência. É a linguagem corrente da internet. O ódio, o desrespeito, o escárnio e a proteção do anonimato: é assim que se expressa uma opinião sincera! Nas redes sociais é mais fácil brigar. Lá você existe de acordo com suas projeções, mostra apenas o que deseja mostrar, e está fisicamente protegido contra possíveis rompantes de fúria. Há um trato oculto entre os dois lados: “eu não admito minhas falhas, nem as falhas em minhas escolhas, ideias e ideologias, nem você admite as suas, então tentamos um convencer ao outro com a caixa alta e a linguagem mais detestável possível. Não nos conhecemos, não vamos trocar porrada na vida real nem sofrer consequências para além do estresse e da perda de tempo, portanto relaxemos”. Então começa a batalha. A briga como um fim em si, a arte pela arte.

O insuportável sofrimento dos outros

Por algum tempo relutei em assistir No, último filme do chileno Pablo Larraín, que concorreu contra Amour (de Michael Haneke) ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013. Penso que meu motivo, se não justo, é ao menos compreensível: o outro filme de Larraín que conheço, jubilosamente intitulado Tony Manero, mesmo sendo uma obra-prima, é simplesmente o filme mais pesado que eu já vi. Ao terminá-lo, o fel transbordava por minha boca, um amargor que durou mais de uma semana. Assim deduzi que No, por se tratar da ditadura chilena, também o seria.

Fui muito bobo, pois não poderia estar mais errado. Um trailer daria conta de me mostrar que o filme, camaradas, não é nada pesado. Por sorte, minha irmã é a cinéfila mais idiossincrática que eu conheço, da espécie que começa a ver a lista do Oscar pelos concorrentes a Filme Estrangeiro. Foi ela, portanto, que me contou que o filme na verdade é sobre a gigantesca contribuição que um publicitário teve para a queda do General Pinochet.

Em 1988, após grande pressão internacional, o general, já com quinze anos de ditadura, abre um plebiscito para saber se a população desejaria que ele permanecesse por mais oito anos no governo. “Sim” ou “não”? O célebre publicitário René Saavedra é contratado para coordenar a propaganda da oposição ao general. Se antes queriam denunciar os atos de tortura do governo (o tipo de propaganda-denúncia que não interessa ao cidadão comum), após sua chegada decidem basear suas propagandas na previsão de um futuro alegre para o país. O álacre é o melhor convencimento. Os momentos de pura tensão do filme estão no prato mais alto da balança; estão em menor quantidade, por exemplo, que as divertidas gravações dos comerciais do partido do “não”.

A questão é que em nenhum momento desisti de minha intenção de ver o filme. Apenas adiei a tarefa continuamente, como se fosse uma daquelas atividades indispensáveis, porém jamais urgentes, que nunca riscamos da lista de afazeres: comprar uma estante, fazer abdominais, ler A Montanha Mágica. Há meses já tinha o filme gravado no HD da Sky, e sempre que cogitava vê-lo, escolhia outro. Eu pensava que era mais um filme-denúncia-fundamental.

A triste verdade é que estamos sempre cansados, quando se trata de um filme-denúncia-fundamental. Nossa resistência a eles é naturalmente nutrida com água, sol e oxigênio, e nada mais. Adiamos ao máximo ver aquela obra-prima sobre a situação no Egito ou sobre a fome na Etiópia que nossos colegas acadêmicos tanto recomendam, porque sabemos que ela nos perturbará profundamente. Já sabemos que o mundo é cruel e que enquanto nos divertimos com produções de Hollywood, as injustiças ocorrem a cada segundo, sem parar, em todos os lugares; grandes números não tocam o coração de ninguém, mas nem por isso queremos ser atingidos por cada infelicidade particular que reside num ponto fixo do planeta. Precisamos respirar um ar leve de vez em quando.

Creio ser este o único motivo que justificaria tanta resistência das pessoas a filmes de países de história recente maculados pela severidade e truculência, como o Irã ou a República Tcheca. Tomemos o caso deste último: vejo muitos cinéfilos que levam em conta somente seu imaginário raso, o de que se trata de um lugar em que todas as narrativas das décadas passadas são propagandas soviéticas camufladas, e todas as narrativas das décadas recentes são a denúncia desse período. Ignoram toda a hilária e agridoce extravagância sexual de autores como Kundera e Hrabal, e até de americanos como Roth e Chabon, com personagens que já se aventuraram em Praga. Ignoram, também, aquela série de filmes divertidos e fundamentais que fizeram a cabeça do mundo nos anos sessenta; filmes que abocanharam dois Oscars de Filme Estrangeiro, dos três que concorreram em três anos seguidos; o cinema que revelou o brilhantismo de Milos Forman, diretor de Um Estranho no Ninho e Amadeus; o país marcado exatamente pelo humor, pela sensualidade, pelas grandes canecas de cerveja, pela profundidade com que estuda a natureza humana. Tal resistência não se justificaria por qualquer outro motivo que não o puro preconceito contra a densidade, a lentidão e a pretensão que estão somente na cabeça desse tipo de expectador. Exatamente como minha relutância em ver No.

No entanto, essa mesma pessoa espera com ansiedade filmes violentos, se provindos de países que alardeiam alegria ou qualidade de vida (ou, no mínimo, a liberdade). A violência gráfica nos filmes de diretores como Padilha, Tarantino, Robert Rodriguez, Oliver Stone, Guy Ritchie ou Scorsese, apesar de bem mais palpáveis que em muitos dos filmes-denúncia que relutamos em ver, são bem mais palatáveis. Apreciamos a violência, mas não suportamos o sofrimento.

E qual a diferença?

Em primeiro lugar, não há simpatia nos filmes violentos. Ver um gangster entrar num banco e rapidamente assassinar meia dúzia de funcionários é bem mais fácil de digerir que a árdua trajetória de um pianista judeu que luta para sobreviver em tempos brucutus. É mais fácil tolerar o sofrimento de um mafioso psicopata que o de uma criança faminta dos olhos grandes.

E há também a identificação com a História. Saber que realmente aconteceu, perto de nós, é sempre terrível. No romance Noturno do Chile, de Roberto Bolaño, descobrimos com horror que no casarão onde os poetas se reuniam, a poucos metros do salão onde ocorriam os maravilhosos saraus, eram aplicadas sessões de tortura. O mesmo ocorre conosco e o mundo cão que nos rodeia. Incomoda demais saber que neste mesmo planeta em que respiramos e sorrimos e dançamos e vivemos felizes, pessoas são atacadas, exploradas e massacradas todos os dias, e suas vozes morrerão sem que tenham a chance de contar sua história… O mundo lá fora sempre foi pior.