Resquícios de civilização

Mesmo nas civilizações supostamente mais desenvolvidas, a barbárie está sempre à espreita. Dos filósofos humanistas aos antropólogos, dos relatos dos exploradores aos romances distópicos, frequentemente somos lembrados de quão próximos estão esses extremos. Confira meu último texto para o Blog do IMS. Confira também os outros que publiquei lá antes.

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Os Sem-Boca, a Bandeira da Síria

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, tanta ideia misturada, que às vezes me perco e me esqueço de divulgar aqui.

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Ilustração: Amine Barbuda

Finalmente saiu a nova edição da Revista Barril, da qual agora sou editor de literatura, além de continuar como colaborador. Nessa edição, publiquei a tradução de um conto atordoante do francês Marcel Schwob, Os Sem-Boca. Nem preciso dizer para conferir os outros textos da revista, que está linda. Caso queira conferir o que já publiquei lá antes, é só clicar neste link.

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Poucos dias depois, saiu meu último ensaio no Blog do IMS, A Bandeira da Síria em seu Perfil, Dessa vez escrevo sobre a guerra disfarçada do Brasil, e sobre como nossa resistência caótica não dará conta de freá-la se assim continuar. Confiram também os outros ensaios que publiquei lá.

Oito maneiras possíveis de enfrentar o MBL (sem se estressar muito)

A política é o ópio do povo. E, apesar da aversão aos extremistas, sintetizados na figura de Bolsonaro, penso ser o MBL mais difícil de se combater, tamanho o convencimento de seu cinismo e hipocrisia. São “sem partido”, mas lançam candidatos. Enquanto Bolsonaro é escancarado, o MBL é aquele primo que nos pirraçava o dia inteiro, sempre na ausência dos adultos, até não aguentarmos mais e darmos um tapa nele, para então ele berrar para nossas mães que foi espancado. Talvez não sejam fascistas num sentido literal, mas, como bem afirmou Mark Bray: “Embora seja verdade que o epíteto “fascista” perde parte da força se aplicado de forma muito di­fusa, um elemento fundamental do antifascismo é promover a organização contra políticas fascistas e contra políticas fascistoides, em solidariedade a todos aqueles que sofrem e lutam. Questões con­ceituais deveriam influenciar nossas estratégias e táticas, não nossa solidariedade”.

01 – Entender a guerra

Saiba escolher “o que” e “como”. Na guerra não existe isso de se rebaixar ao nível do adversário, pois seguimos lógicas diferentes. Não queira discutir com eles e seus seguidores do modo com que você discute com os seus amigos. Eles não estão dispostos a ouvir seus argumentos, a ler suas fontes, sequer a abrir seus links. Por isso, seja claro, o mais sintético e elementar possível, e não perca muito tempo tentando desmentir toda e cada bobagem deles.

02 – A sala não é lugar de jogar lixo

Critique sem compartilhar. Aquela máxima “falem mal, mas falem de mim” podia ser o lema dos caras. Ao compartilhar para criticar, muitas vezes você está divulgando algo para pessoas que de outro modo não a veriam. A depender, você ainda corre o risco de ser mal interpretado por quem lê o post original, mas não a sua legenda. A contagem de compartilhamentos é uma coisa rígida que ignora a sua intenção de discordar.

03 – Evitar os apaixonados

Mude de assunto. Sabe aquele seu amigo apaixonado? Por mais que, racionalmente, ele entenda que a pessoa não o deseja de volta, e todos de fora vejam a solução com clareza, ele não consegue resistir. Não o alimente. Você não pode fazer nada, além de evitar falar do assunto quando seu amigo o traz à tona.

04 – Textão é alimento e exercício, não arma

A arma deve atingir na hora. Use o textão para informar, estimular, difundir, em momentos oportunos, mas não para ganhar uma treta. O textão é particular, é uma experiência íntima. Imagine-se numa indaga de boteco, com várias pessoas; você pararia para ler? Nem nos julgamentos estão fazendo isso. Em casa, textão; na rua, máximas.

05 – Olho por olho, meme por meme

Olho por olho, meme por meme. Esses caras mentem, distorcem e simplificam tudo. Daí Gregório Duvivier vem com quinze minutos de fontes explícitas, o Casal Nerd vem com anos de estudos, e eles treplicam com “é mentira”, ou “é canalha”, ou “é petista”. Quando alguém disser que o nazismo era de esquerda, a única resposta digna é “Sério? Pois Churchill, que derrotou Hitler, também era”, e eles que se virem para provar o contrário.

06 – Não limpar a sujeira com mais sujeira

Não é porque Alexandre Frota é inimigo dos caras que ele é seu amigo. Por outro lado, não é porque você discorda de algumas políticas de Freixo, que ele é seu inimigo, ou amigo dos caras. Saber escolher também com quem lutar.

07 – Não falar mal de parentes na frente de estranhos

Seus companheiros têm defeitos: não os exponha. É aquela lógica do brasileiro que fala mal do Brasil o dia inteiro, mas quando aparece um argentino, aqui é o melhor lugar do mundo. Discussões públicas sobre incoerências internas fornecem material para esses sujeitos. Nessa hora (apenas) eles ouvirão com bastante atenção, e farão questão de exagerar tudo o que puderem. Deixe os problemas internos para lugares privados.

08 – Lembrar desta foto

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Somos todos críticos

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Em meu último texto para o Blog do IMS, Somos todos críticos, eu catalogo algumas das diversas formas de feedback, do elogio de mãe ao insulto gratuito.

Antes, já havia publicado o ensaio Declínio e queda do esprit d’escalier, sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato, e Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, a desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

 

O azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina

Não gosto de funk, não suporto o “Despacito”, odeio pagode e sertanejo, mas conheço até bem isso tudo. Ao contrário de outros tipos de informação – como a palavra ou as imagens – que precisam do mínimo de atenção para serem captados, a música pode nos alcançar naturalmente, mesmo enquanto estamos de olhos fechados, sem pensar em nada, no fim de um cochilo fora de hora. Não que eu precise explicar, mas conheço as novidades do funk, do pagode e do sertanejo porque frequento uma academia e sou um boêmio eclético – mais fácil deixar de ir a um lugar por causa das pessoas que o frequentam que pelo tipo de música que toca nele, especialmente aqui no sertão da Bahia, um lugar surreal onde se ouve de tudo nos botecos, de jazz improvisado a thrash metal, mas em proporção desigual. Ah, vou falar logo a verdade: volta e meia me envolvo com garotas que amam tudo o que odeio. Mas a questão mesmo é que enquanto os textos e os memes hoje em dia circulam em bolhas de conteúdo, a música as estoura e acaba chegando aos ouvidos que mais as evitam. Mesmo que você goste apenas do pagodão, eventualmente escutará a “Habanera” num filme policial ou “Chop Suey” num vídeo de seu youtuber favorito.

Nenhum problema até então. Para isso existem as paredes e os fones de ouvido. E no geral isso me é benéfico, pois foi assim que descobri muitas músicas que adoro em gêneros que conheço muito pouco, como o samba, o rap, o hip hop. Mas a questão fica cabeluda quando transformam isso em imposição: pior, quando também a enfiam a política nela. O tempo corrói tudo, mas a política é mais rápida, barata e eficiente. A política corrói até a matemática. E o maior problema da polarização política é a homogeneização das pessoas. No meio dessa bagunça atual, acaba-se por supor que o cidadão de direita deve ser um branquelo rico, cristão, a favor das armas, leitor de Chesterton, contra o aborto e a maconha, e os direitos humanos, das mulheres, dos negros e de quem vai na parada gay, que tenha o cabelo curto e a barba bem-feita, que use ternos e cheire bem, jamais use vermelho, e que o esquerdista seja o oposto disso tudo.

Por causa da dissonância política, sujeitos como Rodrigo Constantino são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Chico Buarque. Por causa da dissonância política, sujeitos como Paulo Nogueira são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Lobão. Mas na verdade os extremistas são a mesma coisa. Uns fazem manifestação para impedir a exibição do documentário O Jardim das Aflições, mas acham um horror, um descalabro, uma ofensa aos direitos do cidadão, que os outros façam o mesmo para censurar a palestra de Judith Butler. Ambos são idiotas, no sentido mais intrínseco do termo, o daquele que age contra si mesmo acreditando atuar em favor próprio. Lutar pelo irrevogável direito de calar o próximo apenas atiça a curiosidade de quem não conhecia o objeto de seu desprezo. O filme é um sucesso, suponho que devido a um público de direita, mas por causa dos esquerdistas; muitos deles, afinal, só foram atrás de Butler após as tentativas de embargo dos direitistas.

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Mas eis que resolveram transformar em política a música comercial, e, de acordo com aqueles padrões de homogeneização, quem não gosta de funk é de direita, porém se você é mesmo de esquerda, deve não apenas se dispor a escutar, mas apreciar o funk em todos os seus aspectos. Aí começa o conflito, primeiro porque, bem, há muitos sujeitos de direita que adoram descer até o chão (como deve haver muito mais que nem sabem quem diabos é Chesterton); segundo porque, bem, pelo meu conhecimento dos funks, quase todos eles falam basicamente sobre armas e regiões genitais femininas, isso quando não misturam logo tudo e falam sobre bundas-granadas, ou alguma metáfora do tipo.

Aí, assim como muitos direitistas se incomodam em gostar de qualquer coisa que os esquerdistas defendem, fica difícil para um suposto intelectual feminista a favor dos direitos humanos defender as letras das músicas que os seus inimigos direitistas odeiam. Muitos deles caem numa hermenêutica ridícula para tentar explicar o valor de canções monossilábicas criadas unicamente com o propósito de entreter um público específico, já formado (e também gerar dinheiro, sucesso, likes). Repetindo, não há problema algum em criar, gostar, dançar, em suma, se divertir com a música comercial popular – meu problema é com quem tenta politizá-la com teses forçadas que tentam justificar seu valor intelectual e artístico, como se a música precisasse de uma validação acadêmica. Meu problema é com os ataques furiosos contra qualquer um que ouse questionar esses trabalhos. É a mesma “hermenêutica do assassino” de que falei em outro texto.

Mas pior ainda é quem tenta problematizá-la para que se adeque aos seus próprios valores e crenças. Dia desses li uma carta de uma jornalista a um funkeiro em que, após mencionar sua “poesia musicada”, ela propõe a alteração de um verso machista. A solução que ela oferece é mais sem sal que “Amor, I love you”. Apesar de alegar gostar de funk, o que ela propõe alterar é exatamente o que está em qualquer letra do gênero. A impressão deixada é a de alguém que afirma gostar de algo apenas para se integrar, ou em nome de uma ideia, mas não por apreciar de verdade. Nada que não encontramos às pencas na faculdade de letras e nas redes sociais. Nem precisamos checar a biografia da remetente e do destinatário para sabermos que têm origens opostas. Imaginem então como não enchem o saco de quem tem o leque de assuntos mais amplo. Concordo com Carol Bensimon, quando diz que seu compromisso é não cair nos discursos engajados, ao menos dentro de sua obra.

O resultado da politização e tentativa de justificativa acadêmica da música comercial popular é apenas um deslocamento aberrante, como um candidato a deputado que finge apreciar buchada de bode para ganhar uns votos, um ariano fantasiado de indiano para receber o cachê de uma propaganda, Antônio Prata fugindo da torcida de seu próprio time, Ronaldinho Gaúcho recebendo um prêmio da ABL, um autor de novelas da globo dar uma carteirada de intelectual-criador para desancar o político que detesta. Criticar o machismo numa letra de funk é reclamar do azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina. Por mais que alguns cantores tentem se meter, a música comercial não tem nada a ver com ideologia política. Eu não gosto de funk, mas nada tenho contra os funkeiros. Que eles toquem a sua ladainha à vontade: bebo minha cerveja na mesa enquanto eles, na pista, balançam as suas bundas em paz.

O vazio, o Satanás, o esprit d’escalier

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Publiquei umas coisas nas últimas semanas, mas andei ocupado demais pra divulgar por aqui. A revista Barril, de Salvador, republicou o texto mais legal que já escrevi neste blog, o ensaio A declarar nada, sobre a linguagem empolada, os textos vazios, o que caracteriza os discursos que, por excesso, acabam por não dizerem muita coisa. Antes, já saiu lá O direito de interpretar Hamlet, em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural, e ano passado saiu A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; sempre tem muita coisa foda lá.

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Pouco depois, o brasiliense Danilão, o cara mais legal do Facebook, me convidou para escrever na lindíssima Revista Seca. Mandei uma série de notas estranhas com as quais estava trabalhando na época, para um curso de escrita com Paloma Vidal. Em Plurais, mudanças, objetos essenciais, falo sobre a primeira pessoal do plural num ensaio de Virginia Woolf, apresento minha versão do Satanás e discorro sobre minhas mudanças e os objetos realmente essenciais.

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Por fim, semana passada saiu um ensaio que fiz para o Blog do IMS, Declínio e queda do esprit d’escalier, o texto que me deu mais trabalho pra escrever este ano, e também meu favorito. Entre um monte de coisas, cito um ex-presidente, parodio uma hashtag famosa e evoco Laranja Mecânica ao discorrer sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato. Quem quiser, pode também conferir o primeiro texto que publiquei lá, há alguns meses, Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

Marcha dos Humildes Desejos

  • Ao esfregar sonolento uma xícara suja,
  • Me abordou de repente um sujeito barbudo:
  • “Agora és meu amo; tudo a ti realizo
  • Farei o que queres, se pedes com estilo”
  • Não sabia o que era com estilo pedir:
  • Quais desejos faria, o que queria para mim
  • Pedir coisas banais seria fácil demais
  • Por estilo é difícil desejar pros iguais.
  • Pois eu bem gostaria de ser mais esperto
  • Por estilo eu escolhia o fracasso de Neto!
  • Eu queria mais amores, riquezas e glórias,
  • Por estilo um ataque da mídia no Dória
  • Bem queria vida longa, saúde e preparo
  • Por estilo o silêncio de seu Bolsonaro
  • Desviar de patifes cujas vidas me ferram
  • Por estilo o desejo inclui José Serra
  • Gostaria das memórias de muitos sucessos
  • Por estilo o avanço do processo de Aécio
  • Para mim mais vantagens, viagens e fama
  • Por estilo a ruína do ‘poeta’ e sua dama.
  • Respondi: “Descobri o que de tudo prefiro!
  • Que os canalhas do mundo desejem com estilo”.