O azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina

Não gosto de funk, não suporto o “Despacito”, odeio pagode e sertanejo, mas conheço até bem isso tudo. Ao contrário de outros tipos de informação – como a palavra ou as imagens – que precisam do mínimo de atenção para serem captados, a música pode nos alcançar naturalmente, mesmo enquanto estamos de olhos fechados, sem pensar em nada, no fim de um cochilo fora de hora. Não que eu precise explicar, mas conheço as novidades do funk, do pagode e do sertanejo porque frequento uma academia e sou um boêmio eclético – mais fácil deixar de ir a um lugar por causa das pessoas que o frequentam que pelo tipo de música que toca nele, especialmente aqui no sertão da Bahia, um lugar surreal onde se ouve de tudo nos botecos, de jazz improvisado a thrash metal, mas em proporção desigual. Ah, vou falar logo a verdade: volta e meia me envolvo com garotas que amam tudo o que odeio. Mas a questão mesmo é que enquanto os textos e os memes hoje em dia circulam em bolhas de conteúdo, a música as estoura e acaba chegando aos ouvidos que mais as evitam. Mesmo que você goste apenas do pagodão, eventualmente escutará a “Habanera” num filme policial ou “Chop Suey” num vídeo de seu youtuber favorito.

Nenhum problema até então. Para isso existem as paredes e os fones de ouvido. E no geral isso me é benéfico, pois foi assim que descobri muitas músicas que adoro em gêneros que conheço muito pouco, como o samba, o rap, o hip hop. Mas a questão fica cabeluda quando transformam isso em imposição: pior, quando também a enfiam a política nela. O tempo corrói tudo, mas a política é mais rápida, barata e eficiente. A política corrói até a matemática. E o maior problema da polarização política é a homogeneização das pessoas. No meio dessa bagunça atual, acaba-se por supor que o cidadão de direita deve ser um branquelo rico, cristão, a favor das armas, leitor de Chesterton, contra o aborto e a maconha, e os direitos humanos, das mulheres, dos negros e de quem vai na parada gay, que tenha o cabelo curto e a barba bem-feita, que use ternos e cheire bem, jamais use vermelho, e que o esquerdista seja o oposto disso tudo.

Por causa da dissonância política, sujeitos como Rodrigo Constantino são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Chico Buarque. Por causa da dissonância política, sujeitos como Paulo Nogueira são incapazes de apreciar um gênio-vivo de nossa música, Lobão. Mas na verdade os extremistas são a mesma coisa. Uns fazem manifestação para impedir a exibição do documentário O Jardim das Aflições, mas acham um horror, um descalabro, uma ofensa aos direitos do cidadão, que os outros façam o mesmo para censurar a palestra de Judith Butler. Ambos são idiotas, no sentido mais intrínseco do termo, o daquele que age contra si mesmo acreditando atuar em favor próprio. Lutar pelo irrevogável direito de calar o próximo apenas atiça a curiosidade de quem não conhecia o objeto de seu desprezo. O filme é um sucesso, suponho que devido a um público de direita, mas por causa dos esquerdistas; muitos deles, afinal, só foram atrás de Butler após as tentativas de embargo dos direitistas.

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Mas eis que resolveram transformar em política a música comercial, e, de acordo com aqueles padrões de homogeneização, quem não gosta de funk é de direita, porém se você é mesmo de esquerda, deve não apenas se dispor a escutar, mas apreciar o funk em todos os seus aspectos. Aí começa o conflito, primeiro porque, bem, há muitos sujeitos de direita que adoram descer até o chão (como deve haver muito mais que nem sabem quem diabos é Chesterton); segundo porque, bem, pelo meu conhecimento dos funks, quase todos eles falam basicamente sobre armas e regiões genitais femininas, isso quando não misturam logo tudo e falam sobre bundas-granadas, ou alguma metáfora do tipo.

Aí, assim como muitos direitistas se incomodam em gostar de qualquer coisa que os esquerdistas defendem, fica difícil para um suposto intelectual feminista a favor dos direitos humanos defender as letras das músicas que os seus inimigos direitistas odeiam. Muitos deles caem numa hermenêutica ridícula para tentar explicar o valor de canções monossilábicas criadas unicamente com o propósito de entreter um público específico, já formado (e também gerar dinheiro, sucesso, likes). Repetindo, não há problema algum em criar, gostar, dançar, em suma, se divertir com a música comercial popular – meu problema é com quem tenta politizá-la com teses forçadas que tentam justificar seu valor intelectual e artístico, como se a música precisasse de uma validação acadêmica. Meu problema é com os ataques furiosos contra qualquer um que ouse questionar esses trabalhos. É a mesma “hermenêutica do assassino” de que falei em outro texto.

Mas pior ainda é quem tenta problematizá-la para que se adeque aos seus próprios valores e crenças. Dia desses li uma carta de uma jornalista a um funkeiro em que, após mencionar sua “poesia musicada”, ela propõe a alteração de um verso machista. A solução que ela oferece é mais sem sal que “Amor, I love you”. Apesar de alegar gostar de funk, o que ela propõe alterar é exatamente o que está em qualquer letra do gênero. A impressão deixada é a de alguém que afirma gostar de algo apenas para se integrar, ou em nome de uma ideia, mas não por apreciar de verdade. Nada que não encontramos às pencas na faculdade de letras e nas redes sociais. Nem precisamos checar a biografia da remetente e do destinatário para sabermos que têm origens opostas. Imaginem então como não enchem o saco de quem tem o leque de assuntos mais amplo. Concordo com Carol Bensimon, quando diz que seu compromisso é não cair nos discursos engajados, ao menos dentro de sua obra.

O resultado da politização e tentativa de justificativa acadêmica da música comercial popular é apenas um deslocamento aberrante, como um candidato a deputado que finge apreciar buchada de bode para ganhar uns votos, um ariano fantasiado de indiano para receber o cachê de uma propaganda, Antônio Prata fugindo da torcida de seu próprio time, Ronaldinho Gaúcho recebendo um prêmio da ABL, um autor de novelas da globo dar uma carteirada de intelectual-criador para desancar o político que detesta. Criticar o machismo numa letra de funk é reclamar do azulejo invertido do banheiro do posto de gasolina. Por mais que alguns cantores tentem se meter, a música comercial não tem nada a ver com ideologia política. Eu não gosto de funk, mas nada tenho contra os funkeiros. Que eles toquem a sua ladainha à vontade: bebo minha cerveja na mesa enquanto eles, na pista, balançam as suas bundas em paz.

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O vazio, o Satanás, o esprit d’escalier

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Publiquei umas coisas nas últimas semanas, mas andei ocupado demais pra divulgar por aqui. A revista Barril, de Salvador, republicou o texto mais legal que já escrevi neste blog, o ensaio A declarar nada, sobre a linguagem empolada, os textos vazios, o que caracteriza os discursos que, por excesso, acabam por não dizerem muita coisa. Antes, já saiu lá O direito de interpretar Hamlet, em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural, e ano passado saiu A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; sempre tem muita coisa foda lá.

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Pouco depois, o brasiliense Danilão, o cara mais legal do Facebook, me convidou para escrever na lindíssima Revista Seca. Mandei uma série de notas estranhas com as quais estava trabalhando na época, para um curso de escrita com Paloma Vidal. Em Plurais, mudanças, objetos essenciais, falo sobre a primeira pessoal do plural num ensaio de Virginia Woolf, apresento minha versão do Satanás e discorro sobre minhas mudanças e os objetos realmente essenciais.

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Por fim, semana passada saiu um ensaio que fiz para o Blog do IMS, Declínio e queda do esprit d’escalier, o texto que me deu mais trabalho pra escrever este ano, e também meu favorito. Entre um monte de coisas, cito um ex-presidente, parodio uma hashtag famosa e evoco Laranja Mecânica ao discorrer sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato. Quem quiser, pode também conferir o primeiro texto que publiquei lá, há alguns meses, Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

Marcha dos Humildes Desejos

  • Ao esfregar sonolento uma xícara suja,
  • Me abordou de repente um sujeito barbudo:
  • “Agora és meu amo; tudo a ti realizo
  • Farei o que queres, se pedes com estilo”
  • Não sabia o que era com estilo pedir:
  • Quais desejos faria, o que queria para mim
  • Pedir coisas banais seria fácil demais
  • Por estilo é difícil desejar pros iguais.
  • Pois eu bem gostaria de ser mais esperto
  • Por estilo eu escolhia o fracasso de Neto!
  • Eu queria mais amores, riquezas e glórias,
  • Por estilo um ataque da mídia no Dória
  • Bem queria vida longa, saúde e preparo
  • Por estilo o silêncio de seu Bolsonaro
  • Desviar de patifes cujas vidas me ferram
  • Por estilo o desejo inclui José Serra
  • Gostaria das memórias de muitos sucessos
  • Por estilo o avanço do processo de Aécio
  • Para mim mais vantagens, viagens e fama
  • Por estilo a ruína do ‘poeta’ e sua dama.
  • Respondi: “Descobri o que de tudo prefiro!
  • Que os canalhas do mundo desejem com estilo”.

O que podemos aprender com o Bispo Bienvenu

Tenho o mau hábito de ler os caras de direita, que escrevem melhor, e de bater papo com os de esquerda, que conversam melhor. Aí outro dia li no facebook um comentário de um eminente intelectual de direita, penso até que era editor ou escritor, pesquisador, talvez. O cara dizia coisas interessantes; pensava, e não apenas repetia, sem aquela enrolação de Power Rangers e coisa e tal, mas veio com algo assim: “Antônio Fernando Borges talvez seja o melhor escritor de sua geração, mas antes preciso averiguar se ele é de direita”. Eis a síntese da estupidez de nossos intelectuais, de leste a oeste.

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Crise? Nisso os franceses são mestres. Em vez de coreografias, santos quebrados, e gente xingando muito na internet, querelas entre pessoas de opiniões divergentes não raramente acabavam em pólvora e sangue. Uma vez, um sujeito foi atacado por uma multidão por causa de uma opinião, e terminou cozido e devorado (os canibais foram devidamente enforcados depois). Desde a Revolução de 1789, quando foi inventado a esquerda e a direita, os franceses ocasionalmente se veem divididos. Danton ou Robespierre, império ou república, Dreyfus ou anti-Dreyfus, colaboração ou resistência. Victor Hugo entendeu isso como poucos, e criou seus personagens não como estereótipos que se definem de acordo com essas escolhas, mas como pessoas reais com diversas nuances. Logo no começo de Os Miseráveis, ele nos apresenta ao homem mais generoso do mundo, o bispo Bienvenu Myriel, um sujeito tão bondoso que era capaz de defender o bandido que acabara de roubá-lo logo após ele oferecer-lhe uma grande ajuda. Havia apenas um homem que ele não gostava, e nele o bispo concentrava todo o seu desprezo. Tal homem, o octagenário G., que por toda sua vida havia defendido ideias opostas às de Bienvenu, vivia sozinho. Tendo recebido a notícia de que ele estava nas últimas, a obrigação do ofício fez com que o bispo, ainda que de malgrado, o visitasse. O que ele descobriu? Que, defendendo ideias que ele acreditava monstruosas, G. era um homem virtuoso. Sua essência bondosa, ainda que por caminhos diferentes, era a mesma.

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Nossas opções políticas e ideológicas são apenas uma parte de nós. Somos muito mais. Ninguém merece apanhar por isso. Se você não gosta, é só parar de seguir.

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Vivemos, no Brasil, uma França bárbara – uma França sem os poetas, os cozinheiros e os pintores. Nosso violento maniqueísmo, este diminuto demônio que até a Copa das Confederações só pensava em futebol, escapuliu-se para o cotidiano. Em um texto esclarecedor, Eliane Brum explica o fenômeno. Guardávamos para nós e nossos próximos nossas ideias mais desprezíveis, e não parecíamos tão selvagens ao vizinho com quem nos encontrávamos no elevador. Com as redes sociais, a cortina desabou. Só que em vez de nos refrearmos para não ofender nossos amigos, passamos a fazer o oposto; criamos uma máquina acusadora, absolutamente parcial, contraditória, aleatória e descontrolada. Reivindicamos o direito de julgar qualquer um que se atreva a passar diante de nossa mira. Agora, às vésperas de uma guerra civil, tendo chegado ao ponto de sairmos da frente do PC para gratuitamente agredir aqueles passantes que parecem pensar de modo diverso, é hora de perguntar: como você julgaria a obra de Shakespeare se ele fosse petista? Um Beethoven tucano agradaria a seus ouvidos? Muito fácil responder, quando a pessoa em questão morreu há tanto tempo. Mas e se, em vez de Shakespeare e Beethoven, usássemos nomes de artistas vivos que manifestam suas ideologias?

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Isto é engraçado, independentemente de sua orientação política.

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Rodrigo Constantino, um dos arquitetos intelectuais da guerra civil, e que provavelmente estará tomando margaritas na Flórida quando a pólvora começar a queimar por aqui, recentemente publicou uma lista com os nomes de artistas e intelectuais a serem boicotados por quem deseja livrar o Brasil da corrupção (sim, faz sentido pra certas pessoas). Nomes muitos deles inevitáveis em nossa cultura, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Laerte e Wagner Moura. Tal lista, escrita em seu tradicional estilo hiperbólico e bajulador (ele fala exatamente o que seus leitores querem ouvir), um amontoado de expressões batidas (seu legado intelectual), é a encarnação do que há de mais estúpido nisso tudo que vivemos, que é o desejo de transformar o outro num monstro, num nazista, como meio de justificar a necessidade de atacar estranhos gratuitamente. Paulo Nogueira, apesar de mais comedido, seria seu nêmesis, seu oposto, o Constantino de esquerda.

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Isto é impressionante, independentemente de sua orientação política.

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O complexo de vira-latas ainda está entranhado em nossa psique. Wagner Moura, brasileiro, é atacado despudoradamente por gente como Constantino, mas bastou que uma franzina atriz de Hollywood lhe contasse uma piadinha, e Bolsonaro – o terrível Hitler tupiniquim, o pica das galáxias, “ando-armado-e-não-tenho-medo-de-ninguém” – não soube o que fazer. “Não estou entendendo nada”, disse, dando um patético risinho envergonhado de pré-adolescente e colocando o rabo entre as pernas. De frente com uma mulher mais bruta, uma Lena Dunham, o coitado sairia com as calças borradas. Compare sua malvadeza com a de Trump; este topetudo Majin Boo Criança não hesitaria em transformá-la em biscoito antes de engoli-la.

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Isto é belo e profundo, independentemente de sua orientação política.

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Olavo de Carvalho, um dos intelectuais de direita que sempre reclamaram da arte influenciada pela ideologia, é incapaz de apreciar uma canção de Chico, apenas porque ele é petista. E antes que os intelectuais de esquerda me levantem em seus braços, lhes lembro que vocês fizeram o mesmo com Lobão. Ninguém nunca gostou dele, é bem verdade, mas antes disso tudo aí, quase todo mundo gostava de suas músicas.

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Isto é interessante, independentemente de sua orientação política.

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O infame Constantino, com sua habitual falta de noção, se anuncia como um novo “McCarthy”. Em minha inocência, de primeira pensei que o cara se comparava ao McCarthy de Meridiano de Sangue: “que presunçoso”. Mas é pior. Constantino se compara ao McCarthy da censura, aquele que dizia que os quadrinhos acabariam com as mentes das crianças. Logo em seguida foi bloqueado por sete dias pelo “facebook petralha” do qual tanto depende. Esbravejou como um cão barulhento que torce para que jamais alcance o carro. Ser censurado é a coisa mais engraçada que poderia acontecer com um cara que se anuncia como “o novo McCarthy”. Não me aguentei quando vi os furiosos comentários desse Policarpo Quaresma da ignorância. Genuinamente divertido, mas também uma barbaridade. Há algo maior em questão. Não tendo cometido nenhum abuso da lei, o fanfarrão do Constantino deveria ter todo o direito de publicar suas baboseiras.

Textos relacionados:
O nosso irrevogável direito de não deixar ninguém mais falar
Os polos horizontais
Algo de podre nos dois lados da maçã

Soterrados pela poeira da glória

Será possível produzir literatura no Brasil depois de A Poeira da Glória? Lançado em outubro, o livro de Martim Vasques da Cunha propõe uma provocadora releitura de nosso cânone, como meio de radiografar uma degeneração moral presente na alma e na identidade brasileira. De acordo com o ele, os clássicos são encarados no Brasil – seja por um estudante, um intelectual ou um cidadão comum, – com “medo ou reverência”. Sua intenção é fazê-lo com honestidade, independentemente do prestígio ou influência da obra.

Particularmente formidável na narração de anedotas que marcaram as biografias de artistas e pensadores, Martim Vasques é um dos melhores críticos culturais do país. Fundador da revista Dicta & Contradicta, e atualmente publicando no jornal Rascunho, ele escreve com conhecimento e profundidade sobre áreas diversas, – literatura, cinema, música, política, história, teologia e filosofia –, interligando-as quando conveniente, sem deixar enfraquecer a fluência e a contundência de sua prosa.

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No ambicioso A Poeira da Glória, Martim examina nossa literatura com o despudor de um Samuel Johnson. A primeira crítica se dirige a ninguém menos que o patriarca de nossas letras, Machado de Assis. Seu diagnóstico inicial é chocante: “estes livros não correspondem a uma realidade vivida e experimentada de fato – mas a uma enigmática criação literária que só permanece por sua autonomia estética e que disfarça a superficialidade do autor”. Euclides da Cunha, por sua vez, seria infectado pela estetização da realidade, Lima Barreto devorado pelo ressentimento, Sérgio Buarque de Holanda contaminado pelo fetichismo do conceito, os modernistas envenenados pelo coletivismo cultural, Antônio Candido por preterir a realidade em nome da ideologia. Quase ninguém está a salvo da metralhadora conceitual de Martim Vasques. Em comum, todos eles teriam se recusado a se confrontar com o “abismo” que cada um possui dentro de si; falta a eles uma “imaginação moral”.

Tanta liberdade e desprendimento, entretanto, abrem vazão para leituras equivocadas. A primeira delas está justamente num texto de capa, que por sua vez foi adaptada da orelha escrita pelo jornalista Fábio S. Cardoso: “O livro que até mesmo o politicamente incorreto considerou imprudente”. De onde vem esta frase? Quem seria esse politicamente incorreto que considerou o livro imprudente? A impressão é que, devido ao teor da obra, na impossibilidade de chamá-la pelo vendável “O guia politicamente incorreto da literatura brasileira”, optou-se por algo mais discreto, mas ainda assim atrativo ao leitor que entrou por acaso na livraria.

Na orelha, Cardoso ainda afirma: “de Machado de Assis a Daniel Galera (…), são poucos os que se salvam”. E num comentário compartilhado pelo autor antes do lançamento, declara-se que “adoradores de Machado de Assis vão chorar. Seguidores do modernismo também. A Poeira da Glória, de Martim Vasques da Cunha, é um liquidificador que mói a mediocridade e separa o trigo do joio. Seus maiores heróis são Nabuco, Cecília Meirelles, os Inconfidentes, Rosa e Otto Lara Resende. Sobrou muita chibatada para os ídolos”. Tal citação faz o livro parecer – tendo em conta que, apesar da postura negativa, ela funcionou como propaganda – um paredão de reality show, e que Martim Vasques é uma espécie de Aldo Raine da literatura brasileira. Ou pior: que gerar polêmica é a principal finalidade do cartapácio.

Poder-se-ia argumentar que tais declarações têm o único e nobre intuito de plantar a expectativa no leitor, que compraria o livro e, logo, ampliaria seu alcance; mas elas são frutos do próprio ressentimento, ironicamente destrinchado no mesmo. Martim não considera descartáveis os autores “moídos” por ele, e faz questão de reconhecer as qualidades dos escritores que destrona. Não foi incluído quem não tenha sido de alguma forma notável. A Poeira da Glória é perturbador exatamente porque escrito com a seriedade de quem leu tudo de um autor antes de escrever a primeira linha sobre ele. Suas ideias são argumentadas e fundamentadas com centenas de referências e alusões (por sinal, o livro carece demais de um índice onomástico). Veja: “[Euclides da Cunha e Lima Barreto] são gênios, sem dúvida, mas quem disse que o Brasil precisa apoiar-se somente nos ‘homens da inteligência’?” O sentido está claro, mas o propósito está além.

A grande verdade é que, por mais que concorde com a argumentação, não deixarei de apreciar Machado, Euclides, Lima Barreto ou Raduan Nassar, e creio que poucos o farão com os autores de que realmente gostam. No máximo, e mesmo assim por pouco tempo, se tornarão guilty pleasures. Como nos ensaios de Theodore Dalrymple ou Joseph Epstein, temos aqui um minucioso estudo que, apesar da fluidez de best-seller, é digerido lentamente. É possível discordar de Martim Vasques, porém jamais acusá-lo de leviano ou desonesto. Não se deve confundir a polêmica como meio de chamar a atenção (o comentário de Paulo Coelho sobre Ulisses), e a polêmica como reação natural a uma publicação inesperadamente subversiva.

Martim parodia Orwell e brinca com a possibilidade: “Tenho certeza de que, enquanto escrevo as primeiras linhas do último capítulo deste livro, seres humanos extremamente cultos, lidos e esclarecidos tentarão me matar. Ou talvez não. Talvez não aconteça absolutamente nada”. Não poderia estar mais errado. De acordo com as postagens em seu perfil no Facebook (e o autor honesto há de optar entre não compartilhar nenhuma crítica, ou compartilhar qualquer uma, inclusive as desfavoráveis), ao menos neste primeiro momento, ele não encontrou nem o silêncio absoluto, nem a ira assassina dos rivais. Encontrou, em vez disso, a concórdia – a glória (às vezes com ressalvas).

E o maior equívoco de muitos de seus leitores está em acreditar que este rosário de denúncias só esteja dirigido ao outro, seja porque não leu, seja porque discordou – um engano semelhante ao da internauta que enfrenta o machismo com ferocidade, mas é incapaz de percebê-lo em suas próprias atitudes. Concordar com uma denúncia não nos isenta de ser alvo dela. Está explícito em muitos dos comentários elogiosos uma afinidade pessoal, intelectual ou política com o autor – como se ser de direita ou de esquerda, morar em São Paulo ou no Maranhão, acreditar ou não em Deus, gostar ou não de Lavoura Arcaica, pudesse nos livrar de escrutinar o “fundo insubornável do ser”. Eis um dos engodos da inteligência. A exortação de Martim Vasques não se dirige a grupos específicos, mas a cada um, inclusive a ele mesmo: “Todos os literatos e intelectuais do Brasil, sem exceção (inclusive este que profere tal sentença), sofrem da doença da estupidez e acreditam que são parte de uma elite – mas não passam de uma ralé”. É preciso antes retirar a trave do próprio olho.

Curiosamente, a reação mais interessante das publicadas em seu perfil proveio de um pedido dele mesmo. Nicolau Olivieri, num texto muito bem humorado, termina por admitir que “seu livro não foi simples. Foi difícil. Não pela questão teórica ou pelas alusões não pescadas ou pela densidade, mas pelo confronto. Lendo o Poeira, como eu disse, eu me senti parte integrante, quando não um entusiasta, do esteticismo e da dissimulação, da recusa, enfim da falsidade e absoluta ausência de coragem para enfrentar meus próprios abismos”. Se a maioria dos leitores que entenderam o livro não se sentir do mesmo jeito, estamos diante de uma onda de insinceridade, ou, sem ironia, talvez o país não esteja indo assim tão mal. E se Dalrymple e Epstein estiverem certos, talvez alguns dos problemas apontados por Martim não sejam tão específicos ao Brasil. Será possível produzir literatura depois de A Poeira da Glória?

Sim, porém sempre há mais a ser considerado.

Praias infestadas por máquinas destruidoras de carne humana

A premissa do filme Tubarão (1975), dirigido por Spielberg a partir do romance de Peter Benchley, por improvável que pareça, é bastante semelhante à de Um Inimigo do Povo, peça escrita em 1882 pelo norueguês Henrik Ibsen, que foi sensação numa Europa dominada pelo teatro francês.

Em Tubarão, que é melhor que sua herança cinematográfica faz parecer, conhecemos a cidade costeira de Amity Island, que tem no turismo sua principal fonte de renda. Após um violento ataque de tubarão, o delegado Martin Brody sugere ao prefeito Hendricks que sejam interditadas até segunda ordem as praias da cidade, o que acarretaria em grande prejuízo para a população, uma vez que estavam no início da alta temporada. Após mais dois ataques, finalmente, as praias são fechadas; o público temeroso clama por vingança e o xerife parte para a caça do enorme animal.

Um Inimigo do Povo começa com praticamente a mesma história, inclusive com a envolvente presença do prefeito, da mídia, e da família do protagonista. A diferença básica é que o balneário em que vive o Dr. Stockman é atacado não por um gigantesco e assustador assassino dos mares, mas pela invisível e silenciosa contaminação da água.

A comparação entre obras e suportes tão diferentes pode parecer inusitada, quiçá esdrúxula, porém uma rápida análise em nossos medos mais íntimos revelará que tememos mais os tubarões pernambucanos que, por exemplo, a poluição que assola a Baía de Guanabara, ainda que, entre as duas, seja a última que tem mais risco de afligir seus banhistas diretamente.

Enquanto no filme de Spielberg os poucos, porém cruéis, ataques do tubarão branco traumatizam os banhistas de Amity Island, os inúmeros casos de doenças no balneário norueguês, além de detalhados relatórios científicos, em nada influem na decisão de sua população. Para evitar prejuízos financeiros, o prefeito (irmão de Dr. Stockman), os jornalistas e o povo decidem liberar o acesso à praia, e nada fazem para impedir sua contaminação. Dezenas de doentes discretamente alojados em suas câmaras escuras não carregam o apelo gráfico de uma única vítima da violência marinha.

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Mesmo em posse de documentos e argumentos que comprovam seu discurso (afinal, ele pensa apenas no bem do povo), Dr. Stockman é pressionado por quase todos da cidade a negar o problema, ainda que essa atitude ponha em risco a vida de muitas pessoas. Descobre-se que, intimamente, muitos dos habitantes concordam com ele, tendo até defendido sua proposta anteriormente; porém, após ele ser declarado inimigo do povo, ninguém tem coragem de bater de frente contra a maioria e sua discordante decisão unânime. “O partido político é uma máquina de moer carne… carne humana!”, afirma Stockman, numa metáfora semelhante à feita com o tubarão branco: “uma máquina de comer”. A mentira sobre si mesmo, e até para si mesmo, é uma das bases morais do cidadão civilizado. A peça de Ibsen é uma tradução narrativa do aforismo de Nelson Rodrigues, que afirma ser burra toda a unanimidade.

Assim, enquanto em Tubarão assistimos à luta do indivíduo contra a natureza, em Um Inimigo do Povo vemos a batalha do indivíduo contra uma sociedade egoísta, hipócrita e estúpida, definitivamente muito mais perniciosa e com potencial de destruição muito maior que o de um terrível monstro marinho engolidor de pessoas – batalha de modo algum aterrorizante, porém muito mais perturbadora.

Algo de podre nos dois lados da maçã

“Um partido é como uma máquina de moer carne… Carne humana!”     Ibsen

“My feeling is that the hero has now been defined by phrases like the odious one that we were all raised with – crimes does not pay. Of course it pays, you schmuck. That’s not why we don’t do it. We don’t do it because it is wrong.”     Frank Miller

O escritor cubano Leonardo Padura certa vez anunciou sentir inveja de Paul Auster. O americano não precisa justificar seus escritos. Seus livros não serão julgados a partir de suas opiniões políticas. Auster pode escrevê-los sem a preocupação em explicar a crise financeira ou sem explicitar se é democrata, republicano, apolítico, ou alguma outra coisa. Já a Padura, ainda que famoso autor de romances policiais, é quase impossível participar de uma entrevista em qualquer lugar do mundo em que a política de seu país não esteja na pauta.

No Brasil, país em que escritores não fazem muito sucesso (ou fazem, mas raramente com seus livros), instituiu-se o hábito de se julgar as pessoas a partir do lado dos dois polos horizontais em que se sentam. Se eu afirmasse estar na esquerda ou na direita, as reações a este breve texto já estariam estabelecidas antes mesmo de sua leitura ser terminada. “Admirável é aquele que concorda comigo”. Nem é preciso declará-lo abertamente: um simples compartilhamento ou, vá lá, até a cor de uma camisa já prenuncia uma série de filosofias de vida, opiniões, religião, opção sexual, meio de transporte, modelo do celular, hábitos alimentares e proveniência geográfica. Mas faça o teste: uma conversa mais íntima sempre revelará surpresas interessantes.

Mesmo nas atividades mais banais é extremamente difícil nos distanciarmos de nós mesmos, de nossos preconceitos. O texto “5 truques de lavagem cerebral que funcionam, não importa quanto inteligente você seja“, daqueles que realmente valem a pena ler com atenção, levanta uma questão interessante:

Admita: você secretamente tem certeza de que se tivesse vivido no Brasil escravo como um homem branco, teria sido um dos menos racistas. Você também teria sido um dos jovens alemães que não foram sugados por Hitler. Ao imaginar-nos transportados para outro tempo e lugar, nós sempre assumimos que nosso Ambiente Moral Padrão de alguma forma viaja com a gente, porque não podemos conceber uma vida sem ele.

Só que aí ainda estamos em nossa zona de conforto, pois todos nós já sabemos serem errados o nazismo e a escravidão. Mas e quanto aos pequenos delitos e deslizes do cotidiano? Quando nos deparamos com alguma daquelas listas impessoais de denúncias vetorizadas, fáceis de compartilhar – “o brasileiro fura fila, incomoda a vizinhança com música alta, joga lixo no chão, fecha garagem, para na calçada atrapalhando o fluxo” –, quem realmente faz uma reavaliação de consciência? Quem pensa “pode ser que eu faça isso e talvez eu devesse parar” ao invés de “preciso urgentemente prestar atenção nos erros dos outros”?

As críticas de comportamento – mesmo as críticas diretas – são quase sempre recebidas com uma abordagem defensiva. Um exemplo: os flamenguistas são vistos como os torcedores mais chatos do Brasil, pois são insistentes em sua superioridade mesmo quando o time vai muito mal. Mas pergunte seriamente a qualquer um deles qual o torcedor mais chato e ilógico, e a resposta estará em outro lugar; o mesmo vale para qualquer rivalidade: ninguém admite o próprio erro, e os defeitos daqueles que pertencem ao nosso grupo são mais facilmente perdoados.

Dois eventos me chamaram a atenção nas manifestações deste ano:

Em março foi amplamente divulgada uma fotografia em que era possível ver parte de uma faixa com suposta apologia ao nazismo. A esquerda compartilhou a imagem com alegre ferocidade, pois a suástica é símbolo de tudo o que há de ruim no mundo. São as mesmas pessoas que compartilham a hipocrisia de cidadãos comprovadamente corruptos que levantam cartazes contra a corrupção, e que o ano inteiro nos mostraram como a mídia é golpista e seletiva. Provou-se, entretanto, que o cartaz era uma mera comparação do PT com o nazismo. O tiro havia saído pela culatra, uma vez que os manifestantes é quem ficaram com a alcunha de nazistas. A comparação com o nazismo é uma maneira internacionalmente reconhecida de se realizar uma ofensa vazia e gratuita. A outra foto, mais aproximada, era a prova concreta de que ninguém fazia apologia à suástica. Não vi a segunda foto entre os posts de ninguém entre os que compartilharam a primeira, mesmo quando informados da mesma. Agiram exatamente como a mídia seletiva que denunciavam.

Já da manifestação de ontem, assisti a uma assombrosa gravação que mostrava um morador da Avenida Paulista que decidira sair na rua com seu bebê, vestindo uma camisa vermelha. O homem estava cercado por um círculo de manifestantes que incomodavam ele e a criança, e os expulsavam de sua rua em nome de um Brasil melhor. Assobios, panelaços, brados retumbantes. Como se o pobre bebê fosse autor de detestáveis opiniões, um senhor branco, olhos azuis vidrados, se aproxima deles de modo ameaçador. Uma multidão contra um homem e um bebê que não haviam feito nada. Sufocados, porém cercados por câmeras, eles conseguem escapar ilesos.

O que mais me assusta nesses eventos, apesar das legiões de cínicos e imbecis que integram ambos os lados, é que muitas pessoas realizam atos semelhantes porque realmente acreditam no que defendem. São pessoas que se desumanizam e corrompem valores básicos da civilidade em nome da felicidade geral do nosso povo. Não compartilho postagens que explicitam a estupidez e a falta de noção, seja numa caixa de comentários ou num cartaz, porque não é incomum se tratarem de opiniões sinceras, passíveis de serem emitidas mesmo pelos mais inteligentes e melhores informados entre nós.

Ocultar informações, ameaçar bebês, clamar pela ditadura ou atacar gratuitamente adversários são males que, em vez de aversão, me causam tristeza. Bem mais nocivo que o mal autoconsciente é o mal que se defende transvestido de bem, pois é contagiante. Um mal cujo oposto, fosse eu a me manifestar, talvez se tornasse objeto de escárnio de quem pensa de modo diferente. E, no cerne da questão, nunca vi ninguém declarando defender a ruína do país e a decadência de seus habitantes, como os membros de cada lado se acusam mutuamente – ambos, quase sempre, sinceramente procuram a prosperidade. Estão em lados opostos, mas pertencem ao mesmo horizonte. São dois lados de uma mesma maçã.

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