Falácias familiares

Penso o dia inteiro nas contradições do mundo. Sério mesmo. O dia inteiro. Estou comendo um pastel de carne seca com queijo numa barraca e pensando em como é irônico provir de uma instituição religiosa o líder mais sapiente e progressista em exercício no planeta; estou com as pernas pra cima no sofá lendo a Serrote e me perguntando por que a Estação Consolação fica na Avenida Paulista e a Estação Paulista fica na Avenida Consolação (uma variação do bota calça, calça bota); estou subindo uma ladeira de tardezinha e calculando o prejuízo da otimização dos serviços bancários, logo agora que todos se distraem com seu celular e ninguém se irrita com a demora como antes.

Sem exageros, a fila de banco já foi uma instituição do pensamento nacional, um ambiente silencioso onde você não tinha nada pra fazer e ninguém te interrompia por horas – descrição de uma biblioteca ideal. Li em filas de bancos, de pé, uma grande fatia de Moby Dick e praticamente um volume inteiro da heptalogia de Proust; houve um tempo – pasmem – que a gente pegava fila pra pagar um boleto. Porém semana passada fui atendido tão prontamente que não deu tempo de terminar um panfleto como Sobre a Tirania, de Timothy Snyder. Uma decadência. A fila de banco, que já representou para o brasileiro o que a prisão siberiana foi para os russos, agora não passa de uma distração.

Tenho esses pensamentos caminhando para o metrô, a maioria bobagens semelhantes. Quando aparece algo levemente interessante, anoto em meu caderno para uso posterior. Muitos de meus textos surgiram assim do nada (banalogias, insights, epifanias?), mas a melhor fonte de ideias é a conversa. Publiquei aqui ao menos quatro postagens dessa natureza, as “Primeiras impressões de SP”, duas “Contradições Cotidianas” e “Desmedidas Brasileiras”, sendo que as três últimas provêm de papos com minha família. Recentemente passei umas semanas com meu povo e juntei uma antologia de estranhezas, não exatamente falácias lógico-matemáticas, todas, mas intitulei o conjunto como “falácias familiares” simplesmente porque acho que soa bem.

O paradoxo da dieta inalterada

Minha mãe, sozinha, é uma indústria de hipérboles e oxímoros. Nesses dias me senti como aquele repórter que não dava conta de registrar a cachoeira de frases geniais que jorrava de G. K. Chesterton. Confiram esta excelente caracterização feita por seu sobrinho. Pois bem, minha mãe mudou de carnívora para vegetariana sem alterar sua dieta. Uma falácia fácil de ser identificada – carnívoros comem carne, vegetarianos não comem carne, logo suas dietas são diferentes. Como explicar então essa contradição? Passo a palavra para meu pai: “era carnívora e não comia nada; virou vegetariana e continua sem comer nada”.

O princípio do aperto confortável

A história de minha irmã pertence mais às ciências sociais que à lógica. Dei carona para ela nesses dias. Com seus trinta e cinco quilos, a coitada quase nunca anda no banco da frente, sempre ocupado por gente mais velha ou mais gorda. Quando crianças, viajávamos no banco traseiro, ela atrás do motorista, meu pai, eu atrás do banco de minha mãe, ambos sempre aos berros, lágrimas e pontapés, um arrancando os cabelos do outro. Uma disputa bélica por centímetros na vaga do meio – a humanidade básica e instintiva das crianças, que ajuda a explicar nossa política corrupta e seu debate infantil: o espaço estava lá e seria um desperdício não ocupá-lo. Eu, maior, acreditava ter direito a um pedaço grande; ela, pequenina, lutava por uma divisão igualitária. Nos lembramos disso esses dias, dentro do carro: apesar da trégua, o conflito permanece irresoluto. A solução da época era convidar alguém para viajar conosco e sentar no meio. Cada um se conformava com seu lugar. Mais apertado, porém mais confortável.

As leis da ampliação espacial infantil

Trecho da melhor frase do último romance de Terron: “existem lugares a serem explorados até mesmo na superfície de nossa cama. (…) preste atenção, se você tiver a coragem necessária e esticar o pé até a extremidade da cama, poderá descobrir, com a ponta do dedão direito do pé e depois com a do esquerdo, um local nunca antes ocupado na Terra, um espaço vazio que está à nossa espera noite após noite, bem à nossa volta, um polo gelado que se oculta em cada um dos recantos da cama”. Certamente seu narrador não conhecia ninguém como minha filha, que com seus quarenta ou cinquenta centímetros quadrados ocupa todos os espaços de uma cama inteira. Basta, para isso, que você tente dormir com ela. Inicialmente você ocupará lá seus 30% do território, mas logo se verá com metade do corpo jogado pra fora, na afortunada hipótese de ter conseguido cochilar. De manhã você descobrirá que esteve dormindo no chão a noite inteira; mais tarde intuirá que foi exatamente por isso que conseguiu dormir. Antes de decidir mudar de vez pro chão, requisitará ao irmão mais velho (uns sessenta centímetros quadrados, ainda pior) que durma com ela: “Não cabe, papai”, responderá o pequeno demônio-da-Tasmânia. “Ela é espaçosa demais”.

Fundamentos estruturais do veneno-remédio

Tendo já passado mais de um ano, acho que posso discorrer sobre a fatalidade. Meu aniversário de trinta anos. Estávamos num churrasco na beira do Rio Araguaia, eu, uns primos, uns tios, devorando picanhas gordurosas, encharcando-nos com vodca, cerveja e uísque, quando recebemos a notícia do infarto fatal de um tio que não estava na viagem. Os presentes, entre trinta e sessenta anos de idade, tiveram a reação comum, ainda que não fossem segui-la, aquela conversinha de réveillon: vou passar a me cuidar melhor, vou beber menos, vou entrar numa dieta, vou fazer exercícios, vou fazer check-up, vou me preocupar. Meu pai, perpétuo propagador do hedonismo, se dirigiu a mim com gravidade. “Tá vendo aí, Paulin”. Ele estava falando sério. Acreditei ter aderido ao discurso vigente. “Ninguém sabe a hora que vai morrer. Temos mesmo é que aproveitar, temos que comer gordura e beber cachaça na hora que der vontade”.

Textos relacionados:

Desmedidas Brasileiras

Contradições Cotidianas

Contradições Cotidianas (II)

Primeiras impressões de SP

 

 

 

 

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Sangue na boca

Cinquenta Pilas

Venho duma linhagem de achadores de dinheiro. Minha vó sempre conta das surras que meu pai levou por achar dinheiro no chão – uma indignidade, para ela. Aprimorei a arte: ano passado estava indo pra rua beber e encontrei uma notona de cem reais balançando na calçada. No dia seguinte, numa ressaca mefistofélica, condenei o costume. Depois disso, o declínio – ultimamente só tenho achado notas pequenas e moedas.

Mês passado, mesmo com o frio da moléstia, decidi comer na padaria da rua debaixo, quando vi uma nota de cinquenta na calçada. Seria o símbolo do giro da Fortuna – “minha volta por cima!”, juro que pensei isso na hora. Fui pegá-la e ela flutuou uns vinte centímetros. Dei-lhe um pisão e quando a agarrei senti que era de plástico e estava sendo puxada com força por uma linha de anzol. Era uma pegadinha. Eu havia sigo enganado como um grande peixe (um Dourado, dirão!)

Não ajuda nada, não explica nada, mas senti isso como uma bela metáfora para as últimas semanas – não havia mais o que fazer, além de seguir pela calçada preso a um devaneio desfeito antes de definidos os seus contornos.

Sangue na boca

Dia desses il capo, meu maravilhoso e enrolado ilustrador, me disse que eu deveria aproveitar enquanto estou com o sangue na boca. “Como assim”, lhe perguntei. De acordo com ele, durante a adolescência, quando era goleiro de futsal, passava a jogar melhor após levar a primeira bolada na cara. O sabor do sangue que lhe encobria os dentes o deixava furioso e, ao mesmo tempo, era como se ele despertasse e insurgisse contra todos os medos das vésperas de decisões. Com o sangue na boca você perde os receios, pois precisa reagir naquele exato momento; com o sangue na boca você arrisca, você despreza a névoa que embaça seus amanhãs. O sangue na boca é a húbris, o sangue na boca é a metáfora original para catfish, o bagre que faz os bacalhaus se moverem, o sangue na boca é a luta cotidiana contra o horizonte vazio. Nas últimas semanas senti esse gosto ferruginoso ferver cada vez mais ácido na ponta de minha língua. Estejam certos de que alguma coisa haverá de acontecer.

Primeiras impressões de SP

De acordo com a geometria euclidiana, a menor distância entre dois pontos é uma linha reta. A maior distância é a da geografia ravieriana: o caminho que eu sempre acabo por fazer, todo garboso, com o celular na mão, admirando minha genialidade por ter tirado dois prints do Google Maps antes de sair de casa, achando que estou na rua certa. (Consideração esta que não vale para a Avenida Paulista).

***

No busão 01

Maluco 01: “O que diabo é ‘avulso’?”

Maluco 02: “E eu vou lá saber?”

E eu no banco da frente segurando meus instintos professorais.

***

Assim como na Bahia, o carnaval paulista só toca música baiana. Mas, exatamente por não me sentir deslocado, não me sinto em casa. Nada mais estranho pra mim que me sentir confortável num carnaval. Aqui as meninas pirraçam (tease) os caras, todo mundo dança mal, ninguém tem medo de ser roubado, gente muito rica bebe o afrodisíaco das roças, a barraquinha mais fuleira aceita cartão. Aí o meu foi clonado.

***

O escritor William Golding, ao fim da vida, já consagrado e nobelizado, não aguentava mais dar autógrafos. “Um dia encontrarão uma edição original de Golding sem autógrafos”, afirmou certa vez, num festival literário canadense. “Valerá uma fortuna”. É assim que penso por provavelmente ser a única pessoa nesta cidade inteirinha a não ter nenhuma tatuagem, apesar de planejar fazer uma desde 2003.

***BOTOCUDOS

Sei que não é um fenômeno local, mas também devo ser o único a não ter cabelo de botocudo…

***

Um mojito na Augusta custa o mesmo que em Irecê.

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Por debaixo a cidade já é minha, e ando de cabo a rabo. Por cima o sol me atordoa. De pé “boa tarde, poderia me dizer pra onde é?”, de carro “onde é que a gente tá mesmo?”

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No interior baiano as pessoas estão todas muito próximas: cai-me uma lágrima de emoção ao encontrar um desconhecido na multidão. Aqui sou eu o estranho; agrada-me demais o anonimato absoluto e a massa indiferente e heterogênea.

***

A vista mais bonita até então é a da Estação Sumaré e mesmo assim ainda é um tanto cinzenta. Então já estou a pensar na decadência da Beleza, das cidades, da civilização como um todo, e saio duma sala de concerto – eu emocionado só por estar lá, por finalmente ouvir Shostakovich ao vivo, o violinista por tocar lá, o regente por apresentar lá uma peça de sua autoria; saio e vejo de longe a Estação da Luz.

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No busu 02

Adolescente com ares de inteligente: Quero entrar pro exército e servir na Amazônia, pra aprender a combater na floresta. Depois quero ir pro Sul.

Menina visivelmente apaixonada por ele (rindo): Por queeee?

Adolescente: Tem muita mulher lá.

***

Baiano come água com baiano na BA: é um reggae. Paulista enche a cara com paulista em SP: balada (top). Paulista come água com baiano na BA: carnaval. Baiano enche a cara com paulista em SP: happy hour. Paulista enche a cara com paulista na BA: uma farrinha. Baiano come água com baiano em SP: cana dura da porra. Ireceense come água com ireceense em SP: quase uma revolução francesa!

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não existe banheiro maisamorporfavor foratemer o clamor nos bloquinhos nos túneis do metrô foratemer nas medianeras nos bancos de praça foratemer nas escadarias públicas da Vila Madalena foratemer foratemer em qualquer manifestação popular naotemer subliminar na propaganda de cerveja foratemer só não pode na copa e na MBL o amor é importante, porra a garota lê Manelzão e Miguilim o menino se levanta para o idoso sentar – nem era assento preferencial – um sorriso na saída da sessão de Moonlight cinco pilas pro bebum e pro cantor de folk na esquina da Paulista com a Rua Augusta. Talvez exista amor em SP.

The Windmills of your Mind

Esta canção está na bela abertura do primeiro Thomas Crown Affair, o dirigido por Norman Jewison e estrelado por Steve McQueen. Ganhou o Oscar e o Globo de Ouro por melhor canção original. É versão de uma canção francesa, Les Moulins de Mon Coeur.

Round,
Like a circle in a spiral
Like a wheel within a wheel
Never ending or beginning
On an ever-spinning reel
Like a snowball down a mountain
Or a carnival balloon
Like a carousel that’s turning
Running rings around the moon
Like a clock whose hands are sweeping
Past the minutes on its face
And the world is like an apple
Spinning silently in space
Like the circles that you find
In the windmills of your mind
Like a tunnel that you follow
To a tunnel of its own
Down a hollow to a cavern
Where the sun has never shone
Like a door that keeps revolving
In a half-forgotten dream
Like the ripples from a pebble
Someone tosses in a stream
Like a clock whose hands are sweeping
Past the minutes on its face
And the world is like an apple
Spinning silently in space
Like the circles that you find
In the windmills of your mind
Keys that jingle in your pocket
Words that jangle in your head
Why did summer go so quickly?
Was it something that I said?
Lovers walk along a shore
And leave their footprints in the sand
Was the sound of distant drumming
Just the fingers of your hand?
Pictures hanging in a hallway
Or the fragment of a song
Half-remembered names and faces
but to whom do they belong?
When you knew that it was over
Were you suddenly aware
That the autumn leaves were turning
To the colour of her hair?
Like a circle in a spiral
Like a wheel within a wheel
Never ending or beginning
On an ever-spinning reel
As the images unwind
Like the circles that you find
In the windmills of your mind

Coisas que ninguém me contou

Stuff no one told me, cartuns do catalão Alex Noriega.

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Trabalhe tão devagar quanto puder, mas finja que é impossível trabalhar mais rápido.

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É bom ter grandes esperanças e expectativas, mas mantenha a lógica.

– Quero ser o próximo Michael Jackson.

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Quando a maioria dos bares da cidade estiverem mais limpos que sua casa, está na hora de limpar…

Ou ir pros bares.
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Marca nenhuma é sua amiga.

Que música é essa? – All the Rowboats, de Regina Spektor

A Spektor lançou um album novo. Não é nem de longe meu favorito, e essa canção escolhida nem é a melhor. Mas como a letra é bonita!

All the rowboats in the paintings
They keep trying to row away
And the captains’ worried faces
Stay contorted and staring at the waves
They’ll keep hanging in their gold frames
For forever, forever and a day
All the rowboats in the oil paintings
They keep trying to row away, row away

Hear them whispering french and german
Dutch, italian, and latin
When no one’s looking i fetch a sculpture
Marble, gold, and soft as satin
But the most special are the most lonely
God, i pity the violins
In glass coffins they keep coughing
They’ve forgotten, forgotten how to sing

First there’s lights out, then there’s lock up
Masterpieces serving maximum sentences
It’s their own fault for being timeless
There’s a price you pay and a consequence
All the galleries, the museums
Here’s your ticket, welcome to the tombs
They’re just public mausoleums
The living dead fill every room

Tradução aqui.