Meu “Kit Comunista”

Comecemos a “doutrinação” o quanto antes. A resistência por enquanto é pacífica, porém precisa ser severa, para que não chegue ao ponto de requerer armas. Precisamos ocupar todos os espaços, incansavelmente – não somente a Av. Paulista, o Eixo Monumental, a Barra, mas também as ruas de nossas cidades pequenas, as ruas de Nova York, Londres, Berlim – a ONU, o Vaticano, o que for. Ninguém solta a mão, ninguém dá brecha. Pensei nessa lista há uns dias e desisti; mas então, num desses eventos, uma pessoa pediu sugestões de leitura aos debatedores; dois dias depois, vi nas ruas essa magnífica curadoria de livros que foi a eleição. Como sempre me pedem indicações, inclusive esta semana me pediram bastante, voilà. Penso mais no nazismo, e são apenas sugestões, ninguém realmente precisa ver nada;  acho que cada um pode montar o seu kit comunista pessoal; ou mesmo fazer kits comunistas temáticos, kits comunistas só com obras de capa vermelha, kits comunistas para adolescentes furiosos. No meu, não incluí músicas, que estão em minha Playlist do Apocalipse, uma mistura líquida de luto e revolta. Me concentrei em livros e filmes, e minha única restrição é que tenham sido lançados no Brasil. Não há ordem aqui – ordem, sabemos, é coisa de militar (esta é a piada).

The Wall – (Alan Parker)

Todo mundo conhece Roger Waters e o Pink Floyd, mas talvez nem todas tenham visto esse filme, uma espécie de musical psicodélico. No entanto, agora faz mais sentido cantar “Hey, kids, leave the teachers alone!”  Também sugiro a poesia de Roberto Piva.

Berlim – Joseph Roth

Série de crônicas que cobrem a ascensão gradual da barbárie na Berlim dos anos 30, escritas no momento em que a coisa crescia. É um livro curto e de prosa leve, apesar do peso que há em lê-lo hoje, com o conhecimento do que seria o futuro daquelas pessoas, e de como aquilo é semelhante ao que estamos vivendo. A ser visto com o filme O Ovo da Serpente.

A Arquitetura da Destruição

Neste documentário, o sueco Peter Cohen discorre sobre a estética nazista, reacionária às artes de vanguarda, e defende que a barbárie nazista foi também um projeto estético, um delírio de um megalomaníaco pintor frustrado, o próprio Hitler. Lembra algo?

George Orwell

A maioria haverá de pensar em A Revolução dos Bichos e 1984, mas eu penso principalmente na não ficção. Orwell viveu entre mendigos, entrou em minas de carvão, serviu na Ásia e resistiu na Catalunha, e escreveu ensaios como “Reflexões sobre Gandhi”, “Como morrem os pobres”, “Atirar num elefante” e “O Enforcado”. Para mim o ensaísta mais pertinente do século XX, junto com James Baldwin.

Investigação sobre um Cidadão acima de Qualquer Suspeita (Elio Petri)

Um inspetor de reputação ilibada assassina sua amante e começa a plantar pistas escandalosas contra si, para ver se será acusado pela polícia. Sobre como a justiça realmente funciona para os eleitos, sobre como o discurso se adequa aos interesses. Lembra algo (II)?

O Complô (Will Eisner)

Nesse quadrinho, Eisner conta a história do Protocolo dos Sábios de Sião, um panfleto mentiroso que denunciava uma suposta conspiração judaica para dominar o mundo, e que foi bastante usado pelos nazistas para incitar a população alemã a se revoltar contra os judeus. Lembra algo (III)? – tá, parei. A ser lido com Pape Satàn Aleppe, as “bustinas” de Umberto Eco.

O Grande Ditador (Charles Chaplin)

Por causa desta cena:

https://www.youtube.com/watch?v=R9RLNhK8UiQ

Ryzsard Kapuscinski

Esse escritor polonês passou décadas viajando por países de terceiro mundo, como correspondente de um jornal, enquanto fazia anotações particulares em caderninhos. Após se aposentar, transformou essas anotações em obras-primas como O Xá dos Xás, sobre Reza Pahlavi e o Irã, e O Imperador, sobre Hailé Selassié e a Etiópia.

Amém (Costa-Gavras)

Um soldado nazista que acreditava nas mentiras do partido descobre por acaso que um processo químico inventado por ele estava sendo usado para assassinar judeus. Ao tentar denunciar isso ao Papa Pio XII, não recebe resposta. Sobre a cumplicidade da igreja católica com o holocausto e como muitos nazistas não eram exatamente maus, mas apenas pessoas que foram enganadas.

Cumbe (Marcelo D’Salete)

Foi por essa HQ sobre escravos revoltosos que D’Salete ganhou o Eisner, maior prêmio do quadrinho mundial. Além de D’Salete ser um gênio da composição de página, toda sua obra é perfurante, com destaque para Angola Janga, um calhamaço sobre a resistência de Zumbi dos Palmares, e dos contos de Encruzilhada, sobre o racismo cotidiano numa metrópole. A ser lido com a poesia de Auden e a de Szymborska. 

Casablanca (Michael Curtis)

Casablanca é uma cidade costeira marroquina que, durante a durante a Segunda Guerra, foi a última parada dos judeus que fugiam do nazismo. O filme, witty e bittersweet, é uma história sobre como nossas complicações amorosas operam em tempos de guerra.

TAZ (Hakim Bey)

Como as próprias revoluções estão sujeitas à autodestruição, Hakim Bey apresenta as Zona Autônomas Temporárias, interregnos anarquistas que surgem entre a ascensão e a corrupção da tomada revoltosa. Vale checar a coleção Baderna, das editoras Conrad e Veneta e A Busca pela Imortalidade, de John Gray. Ou a série Mr. Robot. 

Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla)

Um filme selvagem, hipnótico e perturbador baseado na história real do criminoso que assombrou São Paulo nos anos 60. Este ano completa 50 anos, porém o que ele denuncia permanece fresco, como se tivesse sido lançado hoje, uma vez que estamos estagnados, sem resolver nenhum de nossos problemas históricos. A ser visto com os cartuns que Millôr fez nos anos 60 e 70.

Lacombe Lucien (Louis Malle)

A entrada num grupo de resistência é recusado a um jovem francês, que se torna colaboracionista. Sobre como o ressentimento corrói almas, e como uma única pessoa armada pode controlar todo um grupo. A se ver com Sunshine – O Despertar de um Século, Tony Manero, O Conformista, o cinema neorrealista em geral.

V de Vingança (Alan Moore e David Lloyd)

Também bastante conhecido por ter virado filme, é a história de um Revolucionário misterioso que tenta destruir sozinho um estado totalitário distópico. A ser visto com O Grupo Baader-Meinhof e a série Black Mirror. E tudo mais de Moore, principalmente Watchmen.

Aquarius (Kléber Mendonça Filho)

Nesse filme, que rendeu represálias ao diretor pelo foratemer em Cannes, é contada a história de uma jornalista que defende com unhas e dentes seu apartamento ameaçado pelos donos de uma construtora. Saí do cinema com vontade de jogar pedras na FIESP. O cinema pernambucano atual é, em si, resistência, é som e fúria; vejam também O Som ao Redor e Recife Frio, vejam A Febre do Rato, vejam tudo.

Outras listas:

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Lista de HQs para Paty

Volta e meia alguém me pede alguma lista. Nunca nego, nunca entrego. Faz mais de um ano, uma amiga me pediu uma de HQs – uma lista pessoal, não exatamente Os Fundamentais Que Todo Mundo Tem Que Conhecer – e coloquei aquelas que mal folheei a primeira vez, já pensei na releitura. Mandei pra ela uma listona seca, apenas título e autor, e só agora tomei coragem pra escrever umas duas linhas pra cada. Tudo publicado no Brasil: ao contrário de obras do cinema e da literatura, os quadrinhos brasileiros são vendidos aqui num bolo só, do mundo todo, de todo tipo, e são consumidos e apreciadas assim. A coisa mais saudável. Minha lista também é uma misturona doida, não tem ordem nenhuma.

 

 

Fun home – Alison Bechdel

Bechdel evoca autores como Joyce, Proust e Camus para recontar a história de sua criação numa casa de funerais, e da morte de seu pai, um misterioso professor de literatura. Apesar do texto denso, cheio de camadas, a narrativa é muito clara. Todo ano releio e percebo algo novo.

Lavagem – Shiko

“Gótico Sulista” sobre um casal que vive num mangue. A editora da Mino a usa como exemplo para explicar porque jamais pede patrocínios culturais. “Nada contra”, afirma Janaína de Luna, “mas não é todo mundo que quer seu nome associado a alguém que publica histórias sobre pessoas comidas por porcos ou coisa parecida.”

Laços – Vitor e Lu Caffaggi

Bem antes de Stranger Things, os irmãos Caffaggi se apropriaram de ícones temáticos dos anos 80 e fizeram a história mais legal da coleção de graphic novels adultas com os personagens da Turma da Mônica.

Diomedes – Lourenço Mutarelli

História em quatro partes sobre o desaparecimento de um mágico, protagonizado por um investigador tosco, gordão e bocó, porém insistente. Repleto de cenas e páginas geniais, minha favorita é uma perseguição com um trator, com “trilha” de Tom Zé.

 

 

Aqui – Richard McGuire

A história do mundo no canto de uma sala, vista de um único ângulo, em que épocas diversas se sobrepõem numa mesma página. Só lendo pra entender. Imagino “Aqui”, o volume impresso, como uma tradução palpável do “Aleph” de Borges.

Goela Negra – Antoine Ozanan (roteiro) e Lelis (arte)

Quadrinho brutal sobre a vida dos trabalhadores das minas de carvão na França anterior aos movimentos sociais. A arte é tão bonita que às vezes apenas fico olhando para as páginas como quem admira uma obra numa parede. Dá pra viver só de reler tudo da Mino.

Ordinário – Rafael Sica

Em suas tirinhas mudas experimentais Rafael Sica realiza uma contundente interpretação do desespero metropolitano e do delírio pós-moderno e do incessante conflito do eu contra o espaço, os eventos, os outros, o próprio eu.

Macanudo – Liniers

Já as tirinhas de Liniers seguem aquela linha agridoce de Mafalda e Calvin, ora melancólico, ora metafísico, poético às vezes, sempre sagaz.

 

 

Bando de dois – Danilo Beyruth

Rosa meets Leone. Dois cangaceiros sobreviventes de uma chacina decidem recuperar as cabeças de seus companheiros degolados. Preciso dizer mais?

Habibi – Craig Thompson

Épico sobre as transformações de duas crianças árabes que escapam da escravidão. Imagine a diligência para se desenhar um único arabesco de um tapete: Thompson demorou anos com centenas deles. Agora imagine um roteiro tecido com tanta ou mais minúcia.

Fracasso de público – Alex Robinson

Um quadrinista virgem, um pretendente a escritor, uma jornalista alcóolatra, um historiador tranquilo, um velho ranzinza explorado pelo mercado das HQs de Heróis. Acompanhamos lentamente, apreciando a evolução de cada personagem e, como em Ferrante ou Friends, acabamos por conhecer aquelas pessoas. Meus diálogos favoritos, junto com os de Ódio.

Estigmas – Claudio Piersanti (roteiro) e Lorenzo Mattotti (arte)

Um homem ordinário recebe por milagre as chagas de Cristo em suas mãos. Chega um momento em que parece que o livro vai estourar em nossa frente. A única HQ a me trazer o arrepio inexplicável daquela cena da explosão em Fonte da Vida ou da crise de Marcel em Sodoma e Gomorra.

 

 

Ódio – Peter Bagge

A hilária vida de um sujeito sem muitas perspectivas na Seattle dos anos 90. Diálogos surreais. Por durante vários anos também reli religiosamente. Há páginas das quais até hoje me basta um vislumbre para eu chorar de rir.

Três sombras – Cyril Pedrosa

Três seres aparecem numa fazenda pacata para levar o filho de um camponês, que faz de tudo para proteger seu filho. Fábula sobre a paternidade e a persistência. Desenho exuberante, páginas perfeitas.

O gato do rabino – Joann Sfar

O gato de um rabino argelino engole um papagaio e aprende a conversar. Não demora a falar umas verdades inconvenientes para os homens de Deus, a mentir, e a desejar fazer o Bar Mitzvah.

A pior banda do mundo – José Carlos Fernandes

Coletânea vertiginosa de histórias fantásticas curtas, à Borges e Calvino, que giram em torno duma banda de jazz que não consegue tocar nada. Filosófico, poético e erudito, tem a melhor galeria de personagens que já vi.

jimmy ancestry

Jimmy Corrigan – Chris Ware

Livro grande, lento, e triste sobre uma família. Tempos mortos, repetições, a distância, o tédio. Ware subverte a narrativa dos quadrinhos de modo ainda mais extremo que McGuire. Uso sempre em minhas aulas certa página circular que conta uma história de gerações de maneira brilhante.

 

 

Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

Provavelmente o quadrinho feito por brasileiros mais conhecido mundo afora, a série Daytripper é uma sobre Brás de Oliva Domingos, escritor de obituários, um brasileiro comum, que ama, come, sofre, viaja, grita, caminha, trabalha, envelhece, e morre, e morre, e morre, e morre…

Do inferno – Alan Moore (roteiro) e Eddie Campbell (arte)

Reconstituição minuciosa da história dos crimes de Whitechapel, em que se apresenta uma teoria para quem seria Jack, o estripador. Monumental e ambiciosa, Moore e Campbell dão uma de escritores do século XIX.

Corto Maltese – Hugo Pratt

A série de aventuras do marinheiro corso tem precisão matemática. Sempre chegamos ao único final possível. Numas das histórias, ele vem à Bahia e se envolve numa intriga com o cangaceiro Corisco. Um dos preto e brancos que mais me encantam.

Pílulas Azuis – Frederik Peeters

Bela memória de um homem que se apaixona por uma garota com AIDS. A Nemo anda lançando HQs fundamentais para compreendermos o outro, importantíssimas nestes tempos miseráveis. Não acredito que possa ser uma boa pessoa alguém que torça o nariz para qualquer HQ da Nemo.

cumbe

Cumbe – Marcelo D’Salete

Contos sobre a luta dos escravos no Brasil colonial. Os objetos e cenas cortadas pela metade de seus quadros são mosaicos de páginas perfeitas. D’Salete é um dos maiores narradores das HQs hoje, o que se comprova com Encruzilhada, passado na atualidade.

Outras listas:

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O fim da amizade

1) No final do quadrinho Fracasso de Público, de Alex Robinson, o narrador Ed Velasquez explica como terminou sua amizade de mais de 600 páginas com Sherman Davies: “A maioria das amizades, se é que terminam afinal, terminam não por causa de um terremoto, mas da erosão”.
Box Office Poison (1996) (GN) (digital-Empire) 594

2) Em 1990, o então baterista do Nirvana Dave Grohl estava no apartamento de Kurt Cobain em Olympia, quando encontrou um violão e compôs escondido uma esta singela canção com suas primeiras impressões sobre os novos amigos, Kurt e Krist. Juntos, estavam prestes a conhecer o sucesso mundial e a vivenciar uma tragédia. A canção foi lançada pelo Foo Fighters em 2005.