Contradições cotidianas (II)

Sequência de notas que evito deixar no face. A explicação detalhada pra isso e a primeira parte podem ser lidas aqui.

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Jamais boicotaria o Habib’s. Isso demandaria o consumo prévio da gororoba.

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Uma fala de Gus, da série Love, da Netflix: “Se em Friends Ross faz uma referência a Duro de Matar, isso significa que, no universo de Friends, Duro de Matar existe como filme, certo? Mas então por que quando Bruce Willis aparece depois, como o pai da namorada de Ross, todos os amigos não ficam: ‘puta que pariu, esse cara parece demais com Bruce Willis em Duro de Matar!’, ein?” E aí é que tá! Os caras falam tanto de Uber e Airbnb na série que até parece propaganda. Mas num universo em que eles existem enquanto aplicativos famosos, por que os personagens não falam nada da Netflix, ein? Mickey até vê Duro de Matar no PC, uma maneira de sinalizar a questão, mas no mundo real as pessoas usariam a palavra “Netflix”. O motivo, que também ajuda a explicar a indagação de Gus, é que o pouco que perdem em verossimilhança é recompensado com elegância. Quem aguentaria os personagens da Netflix falando da Netflix?

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Fora Temer nos discursos, Fora Temer nos grafites, Fora Temer nos perfis, Fora Temer nas estampas das camisas de marca. Fora Temer é o novo Che Guevara.

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Charles Cosac: “Fiz coisas horríveis¹ em bibliotecas. No mestrado, em Essex, descobri que mudando o livro de lugar poderia ter todos os livros que quisesse. Fiz minha biblioteca dentro da biblioteca, no departamento de química. Espero que ninguém faça o que fiz”.

Isso mostra quão por fora está o ex-editor. Frequento duas bibliotecas, uma pública e uma particular, e os livros que pesquiso no site, se existem, estão todos eles disponíveis. O leitor brasileiro simplesmente não precisa se preocupar em esconder um livro numa biblioteca, porque sabe ser uma coincidência demasiado improvável que alguém mais se interesse por ele.

¹ Sério? Pensei em coisas muito piores.

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Os elementos da felicidade são (C6H10O5)n, C2H6O e C8H18, necessariamente separados.

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O couro é o ouro dos outlets. Os vendedores tentam passá-lo adiante como se fosse a nova armadura de Aquiles. “Uma blusa como essa dura a vida inteira!” E assim saio da loja encapuzado, bem aquecido, me sentindo capaz de enfrentar a Guerra da Síria. Em poucos anos estarei lá novamente. Sempre enterrei minhas jaquetas esfarrapadas…

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Alguns setores não entram em crise em tempos interessantes como o nosso. Produção de notícias, administração de redes sociais e o humor. Sim, você não precisa ser nenhum Groucho Marx pra encher seu portfólio, sendo que até eu penso numa dezena de piadas todos os dias, sem nem me esforçar. Dá e sobra pra fazer sátira, paródia, escracho, boutade, tirinha, cartum, máximas, stand up, gag, esquete, videozinho de YouTube. Por outro lado, os ficcionistas tão lascados… A piada óbvia que ainda não vi foi uma montagem de Bolsonaro bela, recatada e do lar. Mas a coragem e a audácia de nossos deputados na verdade deve ser aplaudida. Que Ustra que nada! Votaram em nome de Deus poucos dias após a confirmação da ameaça de terrorismo no Brasil. Allahu akbar… (Aos incautos, a frase anterior é irônica, tá?) Mas quem sou eu pra dizer qualquer coisa? Depois da ressurreição de Raduan Nassar, eu acredito em TUDO.

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Ontem descobri que os canalhas de meus amigos andam falando bem de mim pelas costas.

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Quase morri de rir quando ouvi dizer que uns Policarpo Quaresmas da vida querem transformar o Halloween em “Dia do Saci e seus amigos”, pra gente não “pagar pau pra gringo”. Mas o que há de errado com “Dia das bruxas” (tradição ficcional milenar que passa por Homero, Shakespeare e pelo brasileiríssimo Lobato)? E muito mais importante, quem por acaso tem medo do saci? Qual criança acorda aterrorizada com ele? Falemos de nossos medos infantis. Meu pai e meus tios viveram na roça até a adolescência, no escuro, sem luz, e tinham medo era de defunto, de cascavel, de lacraia, e de minha avó (que é um anjo na Terra). Já eu cresci na cidade e durante a infância nutri certo terror que só faz aumentar conforme envelheço, que é o medo de sequestro e de assalto à mão armada. Portanto taí minha sugestão, genuinamente nacional, baseada num personagem cujo potencial aterrorizador brasileiro algum haverá de negar: DIA DO ASSALTANTE COM ARMA DE FOGO.

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Você sabe que a coisa tá feia é quando começa a depositar as suas esperanças no Amor e na Literatura.

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Sobre a escrita

Ontem comentei com a professora Silvana Salerno que eu apreciava a leitura de livros sobre a escrita, e ela me perguntou se eu podia lhe fazer uma listinha. Pensei neste blog às moscas, coitado, então resolvi soltar aqui esses comentários apressados. São obras sobre estilo, narrativa e formação intelectual. Por sinal, meu texto favorito no blog é sobre o assunto: A declarar nada. Conforme o hábito, evitei livros inéditos no Brasil, e sei de muita coisa que (ainda) não li, como Vida de escritor, de Talese, O Arco e a Lira, de Paz, o Guia de Escrita de Pinker ou Comunicação em prosa moderna, de Othon M. Garcia. Também evitei gramáticas e livros sobre narrativa em outras mídias, que podem ser bastante úteis. Convido quem conhecer algo mais a postar suas sugestões nos comentários. Por fim, não posso deixar de informar que você pode substituir esses livros por uma leitura atenta dos melhores ensaios de Montaigne ou da primeira parte de No caminho de Swann, por exemplo.

 

Itinerário de Pasárgada – Manuel Bandeira

Partindo de sua infância, nosso grande poeta traça sua biografia intelectual. Conta anedotas, como quando pegou um bonde com Machado de Assis, explica porque se arrependeu de ter publicado um poema-piadinha, fala quais livros foram importantes em sua formação e discute suas próprias técnicas. A biographia literaria é um gênero pouco popular entre nossos escritores; essa de Bandeira é fundamental.

A tradução vivida – Paulo Rónai

Nascido Rónai Pál, na Hungria, Rónai teve que vir ao Brasil para escapar da Segunda Guerra Mundial. Aqui, se tornou um dos maiores intelectuais do país. Poliglota, coordenou a tradução da Comédia Humana, de Balzac (em 16 volumes!), e junto com Aurélio Buarque de Hollanda traduziu os contos que compõem a coleção Mar de Histórias. Nesse livro, ele faz o mesmo que Bandeira, porém sobre a função de tradutor.

Ex-Libris – confissões de uma leitora comum – Anne Fadiman

Grande coleção de ensaios sobre o amor aos livros em todos os seus aspectos. Escrevi sobre ele aqui.

Cartas a um jovem poeta – Rainer Maria Rilke

No comecinho do século XX, Rilke recebeu uma carta de um jovem lhe perguntando o que fazer para se tornar poeta. Após algum tempo, a troca de correspondência entre os dois praticamente se transformou numa gigantesca série de debates sobre a literatura, a vida, a morte, e o que é importante no meio disso tudo.

 

A arte da ficção – David Lodge

O romancista tinha uma coluna de jornal em que, quase sempre a partir de uma citação, discutia aspectos formais da criação literária. Nesses cinquenta textos curtos, que podem ser lidos isoladamente, ele põe em pauta assuntos como narrador, personagem, gêneros, ponto de vista, e tudo mais.

Confissões de um jovem romancista e Seis passeios pelos bosques da ficção – Umberto Eco

Umberto Eco tem por aí vários textos sobre como escreveu seus livros. Confissões de um jovem romancista é uma maneira organizada de falar disso, com algumas revelações estimulantes. Fundamental, no entanto, é a série de palestras que compõe Seis passeios pelos bosques da ficção, em que ele discute, numa linguagem gostosa e acessível, a arte da narrativa literária e percepções da realidade através da leitura.

Para ler como um escritor – Francine Prose

A ficcionista, que também é professora de criação literária, propõe aqui que os aspirantes a escritores façam uma close reading, leitura atenta, minuciosa, de grandes textos. O método seria um modo de tentar desvendar nuances e possibilidades de uma palavra, uma frase, um parágrafo e aprender como os mestres faziam. O que uma quebra de parágrafo pode dizer? Contar ou mostrar? O livro flui muito bem, e os exemplos de Prose são formidáveis.

 

Como funciona a ficção – James Wood

Partindo da literatura “realista” do século XIX, principalmente de Flaubert, o badalado crítico de literatura da New Yorker discute, nessas saborosas notas curtas, os mecanismos do texto que fazem a ficção ser interessante e verossímil. Destaque para as notas de rodapé completamente gratuitas e imperdíveis, como sua lista de personagens xarás de autores famosos ou o catálogo de metáforas que os grandes autores usaram mais de uma vez.

Sobre a escrita – Stephen King

Mistura de memórias, biografia literária e ensaio, nesse livro um dos escritores mais populares do mundo expõe seus métodos de trabalho, explica porque odeia advérbios e conta, por exemplo, que começou a escrever por causa de uma infecção no ouvido. A prosa fluida e elaborada deste livro é a prova de que, mesmo em seus momentos duvidosos, o homem sabe o que está fazendo.

Os ensaios de George Orwell

Espalhados nos livros Dentro da baleia e Como morrem os pobres, entre textos sobre assuntos diversos, apenas por “A política e a língua inglesa”, uma divertidíssima aula de estilo, Orwell já merecia entrar nesta lista. Mas ele também discute os motivos para se escrever (o primeiro, diz ele, é a vaidade), nos fala porque não aguentou trabalhar num sebo e, acima de tudo, foi o mais interessante debatedor das funções do escritor enquanto agente político.

schopenhauer
A arte de escrever – Arthur Schopenhauer

Schopenhauer foi um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Nessa seleção de ensaios de seu livro Parerga e Paralipomena, nosso ranzinza favorito desopila sua bile para cima dos costumes literários de sua época. O resultado são textos hilários sobre a linguagem, a escrita e a leitura. Se pudesse, diz ele, condenaria os maus escritores a levar chibatadas em praça pública.

forsterAspectos do romance – E. M. Forster

Nesse clássico sobre a arte da escrita, o famoso romancista inglês discute aspectos formais da criação ficcional, com destaque para uma célebre distinção entre personagens redondos e achatados. Talvez algumas coisas soem meio datadas para leitores pós-tudo, mas vale dar uma olhada.

Outras listas de livros:

Os dez livros que TODOS devem ler

Vinte livros de ensaios imperdíveis

Off-10 – meus livros desconhecidos favoritos

Marcha dos Humildes Desejos

  • Ao esfregar sonolento uma xícara suja,
  • Me abordou de repente um sujeito barbudo:
  • “Agora és meu amo; tudo a ti realizo
  • Farei o que queres, se pedes com estilo”
  • Não sabia o que era com estilo pedir:
  • Quais desejos faria, o que queria para mim
  • Pedir coisas banais seria fácil demais
  • Por estilo é difícil desejar pros iguais.
  • Pois eu bem gostaria de ser mais esperto
  • Por estilo eu escolhia o fracasso de Neto!
  • Eu queria mais amores, riquezas e glórias,
  • Por estilo um ataque da mídia no Dória
  • Bem queria vida longa, saúde e preparo
  • Por estilo o silêncio de seu Bolsonaro
  • Desviar de patifes cujas vidas me ferram
  • Por estilo o desejo inclui José Serra
  • Gostaria das memórias de muitos sucessos
  • Por estilo o avanço do processo de Aécio
  • Para mim mais vantagens, viagens e fama
  • Por estilo a ruína do ‘poeta’ e sua dama.
  • Respondi: “Descobri o que de tudo prefiro!
  • Que os canalhas do mundo desejem com estilo”.

Primeiras impressões de SP

De acordo com a geometria euclidiana, a menor distância entre dois pontos é uma linha reta. A maior distância é a da geografia ravieriana: o caminho que eu sempre acabo por fazer, todo garboso, com o celular na mão, admirando minha genialidade por ter tirado dois prints do Google Maps antes de sair de casa, achando que estou na rua certa. (Consideração esta que não vale para a Avenida Paulista).

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No busão 01

Maluco 01: “O que diabo é ‘avulso’?”

Maluco 02: “E eu vou lá saber?”

E eu no banco da frente segurando meus instintos professorais.

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Assim como na Bahia, o carnaval paulista só toca música baiana. Mas, exatamente por não me sentir deslocado, não me sinto em casa. Nada mais estranho pra mim que me sentir confortável num carnaval. Aqui as meninas pirraçam (tease) os caras, todo mundo dança mal, ninguém tem medo de ser roubado, gente muito rica bebe o afrodisíaco das roças, a barraquinha mais fuleira aceita cartão. Aí o meu foi clonado.

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O escritor William Golding, ao fim da vida, já consagrado e nobelizado, não aguentava mais dar autógrafos. “Um dia encontrarão uma edição original de Golding sem autógrafos”, afirmou certa vez, num festival literário canadense. “Valerá uma fortuna”. É assim que penso por provavelmente ser a única pessoa nesta cidade inteirinha a não ter nenhuma tatuagem, apesar de planejar fazer uma desde 2003.

***BOTOCUDOS

Sei que não é um fenômeno local, mas também devo ser o único a não ter cabelo de botocudo…

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Um mojito na Augusta custa o mesmo que em Irecê.

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Por debaixo a cidade já é minha, e ando de cabo a rabo. Por cima o sol me atordoa. De pé “boa tarde, poderia me dizer pra onde é?”, de carro “onde é que a gente tá mesmo?”

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No interior baiano as pessoas estão todas muito próximas: cai-me uma lágrima de emoção ao encontrar um desconhecido na multidão. Aqui sou eu o estranho; agrada-me demais o anonimato absoluto e a massa indiferente e heterogênea.

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A vista mais bonita até então é a da Estação Sumaré e mesmo assim ainda é um tanto cinzenta. Então já estou a pensar na decadência da Beleza, das cidades, da civilização como um todo, e saio duma sala de concerto – eu emocionado só por estar lá, por finalmente ouvir Shostakovich ao vivo, o violinista por tocar lá, o regente por apresentar lá uma peça de sua autoria; saio e vejo de longe a Estação da Luz.

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Adolescente com ares de inteligente: Quero entrar pro exército e servir na Amazônia, pra aprender a combater na floresta. Depois quero ir pro Sul.

Menina visivelmente apaixonada por ele (rindo): Por queeee?

Adolescente: Tem muita mulher lá.

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Baiano come água com baiano na BA: é um reggae. Paulista enche a cara com paulista em SP: balada (top). Paulista come água com baiano na BA: carnaval. Baiano enche a cara com paulista em SP: happy hour. Paulista enche a cara com paulista na BA: uma farrinha. Baiano come água com baiano em SP: cana dura da porra. Ireceense come água com ireceense em SP: quase uma revolução francesa!

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não existe banheiro maisamorporfavor foratemer o clamor nos bloquinhos nos túneis do metrô foratemer nas medianeras nos bancos de praça foratemer nas escadarias públicas da Vila Madalena foratemer foratemer em qualquer manifestação popular naotemer subliminar na propaganda de cerveja foratemer só não pode na copa e na MBL o amor é importante, porra a garota lê Manelzão e Miguilim o menino se levanta para o idoso sentar – nem era assento preferencial – um sorriso na saída da sessão de Moonlight cinco pilas pro bebum e pro cantor de folk na esquina da Paulista com a Rua Augusta. Talvez exista amor em SP.

I don’t speak English – esquina

No último sábado estava em Lapão, cidade daqui do sertão baiano, comendo água com meus colegas de ensino médio na casa da mãe de um deles. Para a minha surpresa, me deparei com uma pilha de piauís, a 124 no topo. O irmão de meu colega assina a revista há cinco anos e já havia lido textos meus.

É com alegria semelhante que vejo agora que liberaram na íntegra minha última esquina, sobre o tradutor José Francisco Botelho. De acordo com meu pai, foi o melhor texto que fiz pra revista.

Aqui dá pra conferir minhas outras colaborações para a revista. Abaixo deixo um cordel que Chico fez sobre sua primeira visita ao Nordeste.

chico-moqueca

O gaúcho e a moqueca.

O Pelourinho tem grutas
que só o Diabo vê…
Do que este diabo viu,
vou deixando o dossiê.
Com Igor por capitão,
mergulhei no fuzuê;
‒ Na Moqueca do Moreira,
revertério de dendê ‒
Marcão ecoou nas brumas,
num glorioso baianês,
debatendo com João,
num baiano debater;
não hei de olvidar a estampa
desse grande comitê
e sua Indaga famosa
no boteco libanês.
E ouvi na casa de Dante
serestas de enternecer
e achei pela madrugada
histórias de Pererê;
recitei no Campo Grande
poemas que ninguém lê
e encontrei no mesmo sítio
Bento Gonçalves Malê
‒ E o que mais que se passou,
diz-me tu, diga você?
Em Salvador conheci
O DEMIURGO DE IRECÊ.
(José Francisco Botelho)

O ano infame

Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé, en el quinientos seis y en el dos mil también.
Enrique Santos Discépolo

Foi um aninho bosta para todo mundo, fora Temer. Como possuo a desventura de dividir uma mesa de almoço com Cassandra, aquela menina troiana que previa coisas tão absurdas e exageradas que só lhe davam crédito depois de consumados os fatos, não me deixam esquecer que ainda faltam alguns dias. Tendo já previsto tudo isto que estamos vivendo, tais espíritos céticos nos alertam para a data. O ano ainda não chegou ao fim. Num 28 de dezembro um terremoto na Sicília acabou levando 100 mil. Enquanto houver vida existe a possibilidade da tragédia.

E a ironia é que Enrique Santos Discépolo escreveu “Cambalache” em 1934, antes de acontecerem as maiores desgraças que marcaram esse “despliegue de maldad” chamado século XX. Ninguém aprendeu nada de lá pra cá – o mundo continua uma porcaria e 2016 foi um ano interessante – no sentido maldito da palavra: desgraças causam interesse. Não vejo como desejar um feliz 2017 pra ninguém, porque acredito que seria recebido sem muita empolgação – foi um aninho merda em todos os aspectos. Político, econômico, nos relacionamentos, futebolístico, filosófico, intelectual, familiar, invente qualquer categoria e te direi porque foi uma merda. Meus primeiros dias no ano foram marcados por uma tragédia, que apenas se acumulou com as merdas conseguintes; tive alguns trunfos no aspecto intelectual e no pessoal guardo em meu coração uma semana no Peru e uma em Salvador, além de uma meia dúzia de noites, e só. Foram os únicos dias em que tive paz. Mas a sensação não é só minha; todos sacolejamos nesta mesma stultifera navis. A única lição a se tirar disso tudo é que a história nada ensina – a ignorância, o azar, a truculência são forças mais poderosas que a memória, a sapicência, a precisão, e elas sempre haverão de retornar, como cantou Discépolo pelas vozes de Gardel e Raul. O ano infame não serve sequer de exemplo para os que virão – poderia ser esquecido pelos historiadores. Não existe testemunha ocular que vença uma multidão de imbecis, não existe sábio que derrote a má sorte, não existe santo que sobreviva às maldades cotidianas.

Mas sigamos. O ano infame não é motivo o bastante para eu desistir de cortar o cabelo, de descobrir novas obras, de conversar abertamente com desconhecidos. Sigamos. Enquanto tiver meus filhos, enquanto tiver parentes e amigos, enquanto tiver meus braços, enquanto tiver meus livros, ou seja, enquanto ainda tiver qualquer coisa que ame ou estime, eu sei que é possível – e sei também que 2017 poderá ser pior. Enquanto houver vida existe a possibilidade… Uma vez que não há como descobrir sem encará-lo, que sigamos, então, com coragem. Que se foda toda esta merda, a húbris é mais forte que o medo. Sigamos.