Primeiras impressões de SP

De acordo com a geometria euclidiana, a menor distância entre dois pontos é uma linha reta. A maior distância é a da geografia ravieriana: o caminho que eu sempre acabo por fazer, todo garboso, com o celular na mão, admirando minha genialidade por ter tirado dois prints do Google Maps antes de sair de casa, achando que estou na rua certa. (Consideração esta que não vale para a Avenida Paulista).

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No busão 01

Maluco 01: “O que diabo é ‘avulso’?”

Maluco 02: “E eu vou lá saber?”

E eu no banco da frente segurando meus instintos professorais.

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Assim como na Bahia, o carnaval paulista só toca música baiana. Mas, exatamente por não me sentir deslocado, não me sinto em casa. Nada mais estranho pra mim que me sentir confortável num carnaval. Aqui as meninas pirraçam (tease) os caras, todo mundo dança mal, ninguém tem medo de ser roubado, gente muito rica bebe o afrodisíaco das roças, a barraquinha mais fuleira aceita cartão. Aí o meu foi clonado.

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O escritor William Golding, ao fim da vida, já consagrado e nobelizado, não aguentava mais dar autógrafos. “Um dia encontrarão uma edição original de Golding sem autógrafos”, afirmou certa vez, num festival literário canadense. “Valerá uma fortuna”. É assim que penso por provavelmente ser a única pessoa nesta cidade inteirinha a não ter nenhuma tatuagem, apesar de planejar fazer uma desde 2003.

***BOTOCUDOS

Sei que não é um fenômeno local, mas também devo ser o único a não ter cabelo de botocudo…

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Um mojito na Augusta custa o mesmo que em Irecê.

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Por debaixo a cidade já é minha, e ando de cabo a rabo. Por cima o sol me atordoa. De pé “boa tarde, poderia me dizer pra onde é?”, de carro “onde é que a gente tá mesmo?”

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No interior baiano as pessoas estão todas muito próximas: cai-me uma lágrima de emoção ao encontrar um desconhecido na multidão. Aqui sou eu o estranho; agrada-me demais o anonimato absoluto e a massa indiferente e heterogênea.

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A vista mais bonita até então é a da Estação Sumaré e mesmo assim ainda é um tanto cinzenta. Então já estou a pensar na decadência da Beleza, das cidades, da civilização como um todo, e saio duma sala de concerto – eu emocionado só por estar lá, por finalmente ouvir Shostakovich ao vivo, o violinista por tocar lá, o regente por apresentar lá uma peça de sua autoria; saio e vejo de longe a Estação da Luz.

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No busu 02

Adolescente com ares de inteligente: Quero entrar pro exército e servir na Amazônia, pra aprender a combater na floresta. Depois quero ir pro Sul.

Menina visivelmente apaixonada por ele (rindo): Por queeee?

Adolescente: Tem muita mulher lá.

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Baiano come água com baiano na BA: é um reggae. Paulista enche a cara com paulista em SP: balada (top). Paulista come água com baiano na BA: carnaval. Baiano enche a cara com paulista em SP: happy hour. Paulista enche a cara com paulista na BA: uma farrinha. Baiano come água com baiano em SP: cana dura da porra. Ireceense come água com ireceense em SP: quase uma revolução francesa!

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não existe banheiro maisamorporfavor foratemer o clamor nos bloquinhos nos túneis do metrô foratemer nas medianeras nos bancos de praça foratemer nas escadarias públicas da Vila Madalena foratemer foratemer em qualquer manifestação popular naotemer subliminar na propaganda de cerveja foratemer só não pode na copa e na MBL o amor é importante, porra a garota lê Manelzão e Miguilim o menino se levanta para o idoso sentar – nem era assento preferencial – um sorriso na saída da sessão de Moonlight cinco pilas pro bebum e pro cantor de folk na esquina da Paulista com a Rua Augusta. Talvez exista amor em SP.

I don’t speak English – esquina

No último sábado estava em Lapão, cidade daqui do sertão baiano, comendo água com meus colegas de ensino médio na casa da mãe de um deles. Para a minha surpresa, me deparei com uma pilha de piauís, a 124 no topo. O irmão de meu colega assina a revista há cinco anos e já havia lido textos meus.

É com alegria semelhante que vejo agora que liberaram na íntegra minha última esquina, sobre o tradutor José Francisco Botelho. De acordo com meu pai, foi o melhor texto que fiz pra revista.

Aqui dá pra conferir minhas outras colaborações para a revista. Abaixo deixo um cordel que Chico fez sobre sua primeira visita ao Nordeste.

chico-moqueca

O gaúcho e a moqueca.

O Pelourinho tem grutas
que só o Diabo vê…
Do que este diabo viu,
vou deixando o dossiê.
Com Igor por capitão,
mergulhei no fuzuê;
‒ Na Moqueca do Moreira,
revertério de dendê ‒
Marcão ecoou nas brumas,
num glorioso baianês,
debatendo com João,
num baiano debater;
não hei de olvidar a estampa
desse grande comitê
e sua Indaga famosa
no boteco libanês.
E ouvi na casa de Dante
serestas de enternecer
e achei pela madrugada
histórias de Pererê;
recitei no Campo Grande
poemas que ninguém lê
e encontrei no mesmo sítio
Bento Gonçalves Malê
‒ E o que mais que se passou,
diz-me tu, diga você?
Em Salvador conheci
O DEMIURGO DE IRECÊ.
(José Francisco Botelho)

O ano infame

Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé, en el quinientos seis y en el dos mil también.
Enrique Santos Discépolo

Foi um aninho bosta para todo mundo, fora Temer. Como possuo a desventura de dividir uma mesa de almoço com Cassandra, aquela menina troiana que previa coisas tão absurdas e exageradas que só lhe davam crédito depois de consumados os fatos, não me deixam esquecer que ainda faltam alguns dias. Tendo já previsto tudo isto que estamos vivendo, tais espíritos céticos nos alertam para a data. O ano ainda não chegou ao fim. Num 28 de dezembro um terremoto na Sicília acabou levando 100 mil. Enquanto houver vida existe a possibilidade da tragédia.

E a ironia é que Enrique Santos Discépolo escreveu “Cambalache” em 1934, antes de acontecerem as maiores desgraças que marcaram esse “despliegue de maldad” chamado século XX. Ninguém aprendeu nada de lá pra cá – o mundo continua uma porcaria e 2016 foi um ano interessante – no sentido maldito da palavra: desgraças causam interesse. Não vejo como desejar um feliz 2017 pra ninguém, porque acredito que seria recebido sem muita empolgação – foi um aninho merda em todos os aspectos. Político, econômico, nos relacionamentos, futebolístico, filosófico, intelectual, familiar, invente qualquer categoria e te direi porque foi uma merda. Meus primeiros dias no ano foram marcados por uma tragédia, que apenas se acumulou com as merdas conseguintes; tive alguns trunfos no aspecto intelectual e no pessoal guardo em meu coração uma semana no Peru e uma em Salvador, além de uma meia dúzia de noites, e só. Foram os únicos dias em que tive paz. Mas a sensação não é só minha; todos sacolejamos nesta mesma stultifera navis. A única lição a se tirar disso tudo é que a história nada ensina – a ignorância, o azar, a truculência são forças mais poderosas que a memória, a sapicência, a precisão, e elas sempre haverão de retornar, como cantou Discépolo pelas vozes de Gardel e Raul. O ano infame não serve sequer de exemplo para os que virão – poderia ser esquecido pelos historiadores. Não existe testemunha ocular que vença uma multidão de imbecis, não existe sábio que derrote a má sorte, não existe santo que sobreviva às maldades cotidianas.

Mas sigamos. O ano infame não é motivo o bastante para eu desistir de cortar o cabelo, de descobrir novas obras, de conversar abertamente com desconhecidos. Sigamos. Enquanto tiver meus filhos, enquanto tiver parentes e amigos, enquanto tiver meus braços, enquanto tiver meus livros, ou seja, enquanto ainda tiver qualquer coisa que ame ou estime, eu sei que é possível – e sei também que 2017 poderá ser pior. Enquanto houver vida existe a possibilidade… Uma vez que não há como descobrir sem encará-lo, que sigamos, então, com coragem. Que se foda toda esta merda, a húbris é mais forte que o medo. Sigamos.

Os Livros e os Dias (parte 2)

Um diálogo desamarrado

CALEB: Morremos, mas quero morrer velho. Quer dizer, se você morre com quarenta e cinco anos e tem religião, você morre achando que que vai para o céu se reunir com seus amados. Mas não creio em nada que não vejo como possível – que a vida após a morte depende da fé, que além de ser uma boa pessoa você tem que “acreditar e servir a Deus” ou coisa parecida, para entrar no paraíso.

DAVID: Há sempre uma pedra no jardim. Essa pedra é a mortalidade, ou o mal, ou ambos (…)

CALEB: Se você é um moralista religioso, você busca soluções na religião, mas o secularista ou moralista ateu carece de absolutos. Como dizer as pessoas como serem felizes se você não consegue definir isso pra você mesmo?

Na manhã do dia 15 de junho, uma quarta-feira, finalmente cheguei em Brasília, após 80 horas de ônibus. Ao chegar, fui direto para a Cultura, perto da rodoviária, em busca da revista Serrote. Eu já falei por aqui sobre o grande prazer que é rodar por uma livraria espontaneamente, sem saber o que vai encontrar; me bati com um volume estrangeiro que se anunciava “a quarrel”. Geralmente um livro se anuncia como “contos”, “romance”, “ensaios”, “peça”, mas nunca ouvi falar de um que se anuncia como uma “uma querela, disputa, indaga, bate-boca”. Fiquei como criança birrenta em shopping center, mas me recusei a pagar os cento e poucos pilas que pediam. Tirei uma foto da capa e perguntei a uma funcionária onde estava o diabo da Serrote. Fiz outras viagens, tirei centenas de fotos com o celular, e em novembro dava uma limpa nas imagens mais antigas quando encontrei a capa de I think you’re totally wrong, de David Shields e Caleb Powell. Havia dois na Estante Virtual, por uns dez contos cada.

David é um escritor bem-sucedido que dedicou sua vida à sua arte, viveu enfurnado entre livros e queria ter experimentado mais. Caleb é seu ex-aluno, um maluco que viajou o mundo inteiro, morou em diversos continentes, se machucou bastante, experimentou de tudo, foi músico e atleta profissional, trabalhou em construções, fez família e agora se dedica, sem muito sucesso, a uma carreira literária. Em 2011 eles fizeram uma viagem para conversar abertamente sobre o que rolasse. O tópico principal seria: “priorizar a vida (Caleb) ou a arte (David)?”, mas não forçariam a conversa.

DAVID: Você é o garoto-propaganda daquela frase de Fran Lebowitz: “O oposto de falar não é escutar. O oposto de falar é esperar”. Sempre tenho a sensação de que você está só esperando eu terminar pra poder começar a falar, e na verdade não tava nem aí pro que eu disse.

O livro consiste em transcrições das conversas entre os dois, com mínimas marcações de espaço. David é mais comedido, como se calculasse cada palavra, e Caleb é provocador, pois conhece minuciosamente a obra e as opiniões de seu interlocutor, e aparentemente se preparou para confrontá-lo. Geralmente é ele quem puxa os assuntos. Como os primeiros ensaístas, eles conversam sem amarras sobre tudo quanto é coisa: receber críticas, políticas raciais, a maldade de Bush, experiências sexuais, aborto espontâneo, o amor pelas filhas, o desinteresse das esposas por suas produções, ganhar dinheiro, vegetarianismo, pena de morte.

wrongCALEB: Quando Toni Morrison [Nobel de 1994] foi nomeada para o National Book Award e não ganhou, ela disse mesmo pra um juiz “Obrigado por arruinar minha vida”?

DAVID: De acordo com meu ex-professor, sim.

CALEB: Parece abaixo dela.

DAVID: Por que seria abaixo dela? Ela é apenas uma pessoa como qualquer outra.

A ritmo da querela é pontuada com conversas mais ordinárias, ou sobre assuntos banais que, devido ao modo como eles as desenvolvem, sempre soam interessantes. O tempo todo, por exemplo, Caleb sacaneia David por ele nunca ter trocado um pneu, e é sacaneado de volta por jamais ter publicado seus livros – uma espécie de piada interna. Discordam sobre muitas coisas, e um não tem medo de cutucar as feridas do outro, às vezes com uma sinceridade desconcertante até para eles – e mesmo assim não se ofendem – conseguem manter um diálogo interessante, inteligente e aberto.

DAVID: Escuta, Caleb. Você fez mais coisas no mundo que eu, mas eu descobri como escrever sobre ele numa voz própria. (…) É só o que sei fazer, mas isso, pra mim, é tudo. (…)

CALEB: Isso não é tudo.

DAVID: Pra mim é.

CALEB: Se isso é tudo o que você tem, não tem nada.

DAVID: Você diz isso porque não tem.

CALEB: Isso é uma coisa muito escrota pra se dizer assim, não acha?

A grande questão para David é a morte, como lidar com a ideia de que todos um dia vamos desaparecer. Um sofrimento metafísico. Caleb, por outro lado, viu o sofrimento real, e é obcecado com a dor física, tortura, genocídios, principalmente aquele perpetuado pelo Khmer Rouge no Camboja, onde ele morou.

CALEB: Um término doloroso. (…) Ela está fazendo sexo apaixonado mega-erótico. Aproveita, querida. Não me venha com sua dor. Me venha com viúvas de Cabul, me venha com os psicopatas de Krakauer, me venha com um membro do Khmer Rouge arrancando o dedo de Haing Ngor, me venha com os condenados à morte no Texas, me venha com Somaly Mam sendo comida num bordel por um ex-soldado que perdeu um olho e um braço, me venha com o amigo tetraplégico de Maggie, me venha com dor dolorosa.

Mas o mais velho nunca se deixa levar. Caleb fala tanto dos sofrimentos do mundo, que David vê naquilo uma espécie de torture porn, e cita Montaigne, que afirma que cada homem carrega em si a humana condição. Caleb não se importa com as dores dos americanos que levam uma vida confortável.

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CALEB: Há certo apelo no artista que mira a contradição, um artista problemático a atormentado que procura a dor. Há uma mística, validez e até credibilidade. Você pode discordar, mas uma coisa que observei em sua escrita é que parece que você queria ter sofrido mais do que sofreu de verdade.

DAVID: Então você realmente é um mau leitor e não sabe nada de minha vida.

CALEB: Epa, epa. Eu não disse isso como uma crítica.

DAVID: Você não acha que minha obra mira a contradição?

CALEB: Sim, mas-

DAVID: Você não acha que qualquer um que vive uma vida comum tem muitos problemas e tormentos sobre os quais escrever? Você não procura a dor; a dor-

CALEB: Talvez seja isso. Talvez você esteja interessado na vida comum e eu esteja interessado nos extremos da vida.

DAVID: Quer dizer, vamos todos morrer.

CALEB: Morremos de modo diferente. Você está interessado na “mortalidade”. Eu estou interessado em assassinato.

DAVID: Todos sofremos enquanto seres humanos.

CALEB: “A dor é obrigatória. O sofrimento é opcional”.

Eles também discutem amenidades, contam piadas, falam besteira, bebem cerveja, conversam com estranhos, e isso dita o ritmo da querela. Realmente flui como uma conversa em que o leitor está presente. Eu estava para abrir uma cerveja enquanto lia. Eles caminham pelas belas trilhas de cachoeiras e minas abandonadas, fofocam sobre personalidades literárias, às vezes fazem críticas duras a livros escritos por amigos, ironizam o comportamento das suas próprias famílias, e às vezes até se contradizem (o outro nunca deixa passar). Nos alternamos: às vezes estamos com Caleb, outras com David.

Quase sempre senti falta dessa fraternidade nas discussões mais polêmicas (não necessariamente que eu tenha participado). É possível discordar com elegância. Mas pegue qualquer debate, e geralmente o que se encontrará são surdos com síndrome de Tourette gritando ofensas uns com os outros. A internet é apenas um agravante em um mundo que sempre foi assim. I think you’re totally wrong contém algo interessante sobre todas as grandes questões atuais. Não foi o melhor livro de um ano em que li três Faulkners, mas certamente foi o mais estimulante, do tipo que faz você querer acreditar na civilização, mesmo com a consciência de que isso não passa de um delírio quixotesco.

O livro não foi lançado no Brasil. Todas as traduções aqui apresentadas foram feitas por mim.

Os Livros e os Dias (parte 1)

This is the way the world ends

Às vezes parece que a gente fica o tempo inteiro pesquisando, lendo, caçando referências, assistindo coisa nova, com o único nobre propósito de esperar dezembro para fazer ou checar listas. Mas não é; eu realmente aprecio o que consumo. Este texto é sobre duas experiências de leitura, uma em janeiro e outra agora esta semana. Como vocês sabem, além das listas, tenho por mania começar cada ano com um livro escrito por um Nobel de Literatura. No dia três de janeiro, estava numa lanchonete lendo a segunda novela de A Conexão Bellarosa, de Saul Bellow, enquanto esperava meu sanduíche, quando recebi a notícia de que um dos primos de meus filhos acabara de sofrer um acidente fatal.

Ele havia completado quatro anos um mês antes. Assim como hoje, eu estava de férias. Maria faria um ano dois dias depois, e programávamos uma festinha. Foi a única vez em que chorei no ano inteiro, ignorando-se as duas lágrimas carregadas de culpa que deixei para o Nobel de Bob Dylan. Enquanto pensei: “mais uma prova definitiva de que não existe deus nenhum ”, os familiares viram no acidente motivo para a reafirmação da existência divina. Mas não sou ninguém para interferir nas formas de conforto alheias.

Um dia depois, exatamente no momento em que o caixão da criança saiu da igreja começou um tempestade – a maior chuva do ano. Muitos a perceberam como um choro celestial; eu como uma espantosa coincidência. Ao chegar em casa, em outra cidade, descobri que havia uma infiltração em minha biblioteca. A água escorria como numa torneira e estava batendo da estante móvel. Alguns livros haviam sido danificados. Não foi fácil mover por meio metro a estante com trezentos exemplares – eu não dormira na noite anterior, estava esgotado. Minha biblioteca tinha uns três metros quadrados. Tive que retirar cada livro, empilhá-los onde não houvesse risco, mudar a estante e rearrumá-los. Não contei isso pra ninguém. Poderia ser lido como uma punição por meu ateísmo. I’ll show you fear in a handful of dust.

Por residir na cidade da mãe de meus filhos, o garoto acidentado era mais próximo deles que de mim. Mesmo assim, não pensei em outra coisa por durante muitas, mas muitas semanas. Escrevi longas mensagens para amigos virtuais, mas não mandei nenhuma. Esbocei um poema sobre a morte de quem não sabia o que era a morte. Tive insônia e pesadelos. Antônio tinha quase três anos; decidimos privá-lo do sofrimento, uma vez que ele naturalmente se esqueceria da existência do priminho. No dia da missa de sétimo dia, os dois primos mais velhos passaram uma tarde conosco. Eles conviviam com o menino, e por isso insistiam em falar sobre o assunto que os atormentava. Já entendiam bem o que tinha acontecido e, bastava um vacilo, tentavam explicar pra Antônio. Na viagem de volta, o mais velho desafivelou o cinto como provocação e perguntou enraivado se aquilo era só por causa do acidente. Também fez piadas e canções jocosas sobre o ocorrido.

Pensei em revisitar “Sobre a Morte de Criancinhas”, de Leigh Hunt, e nos dias seguintes consegui algum conforto com os “Quatro Quartetos” de Eliot – a mais bela paráfrase do Eclesiastes – o cabeçalho deste blog foi tirado dali. Time the destroyer is time the preserver. Eliot é meu poeta favorito, e sempre o releio aos nacos. Vocês já devem saber que tempero tanto meus traumas como minhas alegrias com literatura e bebida. Tento ler apenas livros bons; mas nosso tempo de vida é muito incerto e decidi que dedicaria 2016 a obras de qualidade incontestável. Li, entre outros, O Lobo do Mar, Notas do Subsolo, Luz em agosto, os ensaios de Orwell, metade de Anna Karenina, reli Hamlet, e quando dei por mim já estava mergulhado na literatura húngara.

Porém april is the cruellest month, e todos os projetos foram por água abaixo. Me separei e fiquei um bom tempo viajando sem planos, como um personagem de Wim Wenders – sem saber onde dormir, o que comer, com quem conversar; a vida intelectual ficou ainda mais largada, apesar de continuar ali, pesada, sonolenta, balançando a cabeça tal qual um compadre embriagado. Em dois meses não pensei uma única vez na tragédia do começo do ano, que tanto ocupara meus pensamentos. Não abro o Bellow desde o dia três de janeiro.

Contradições cotidianas

Estas notas foram originalmente pensadas para serem postadas no Facebook, como fazem brilhantemente Mariana Carvalho, Juliano Santana e Rodolfo Carneiro. Mas aí fui procurar uma das que Mari joga todos os dias em seu perfil e vi a trabalheira pra encontrar. O face é o buraco negro do insight. Apesar da recompensa imediata que oferta – o feedback, os comentários, os coraçõezinhos – pra mim não vale a pena. Minhas zombarias são um tanto vagabundas para uma postagem de blog, essa coisa comparativamente sisuda, mas ao menos aqui fica fácil achar depois. Conforme juntar mais notas, faço outro post semelhante (aproveitei e recuperei umas velhas do face; vocês irão reconhecê-las).

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Meu conselho para os jovens: nunca, jamais encontre cem reais na calçada. Na hora a sensação é boa, mas a ressaca depois é de lascar.

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Na casa de minha vó um opina na aparência do outro. Minha segunda comadre mesmo acha um absurdo que eu continue a usar uma camisa adquirida em agosto do ano 2000. Que posso fazer se, apesar de feia, ela continua inteira e confortável? Por outro lado, sempre que tem alguma festa mais solene, vejo as jovens matronas comprarem vestidos formais que andam pelos 400 pilas. “Qua-tro-cen-tos pilas num vestido?”, pergunto, tendo já ouvido a resposta várias vezes. “Sim”, me dizem com vergonha, “mas um vestido desses dura a vida inteira”. A ironia é que não poderão usar na solenidade seguinte, dois anos depois, porque senão nas fotos vai ficar parecendo que elas só têm um vestido. Agora me diga, pra que diabos serve um vestido que dura a vida inteira mas só pode ser usado uma vez?

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GoT é inverossímil. O problema nem tá nos dragões e no deus ex machina de Jon Snow, mas no fato de todas as mortes serem violentas. Onde estão os mortos por diarréia, cancer, velhice, acidente de cavalo, afogamento, infarto, cansaço? Que mundo terrível é esse em que todo mundo é obrigatoriamente torturado, esfaqueado, assassinado?

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É facil lutar pelos direitos de quem concorda com você, mas a prova mesmo é defender (ao menos deixar quieto) quem faz algo que você despreza profundamente. Vejo a galera em massa compartilhando memes irônicos ou bonitinhos sobre a liberdade de cada um dizer e fazer o que quiser, ir aonde quiser, amar como quiser. Porém basta o sujeito baixar o famigerado Pokémon Go que começa a indaga, uns defendendo, outros atacando. Acho tão empolgante quanto uma lata de kronenbier, mas porra, o camarada não precisa se justificar pra mim com dados de tímidos saindo de casa ou de vampiros tomando sol por causa do jogo. Se acha legal tá beleza, velho, não tem que se explicar. Fica difícil lutar pelas grandes causas se você não aceita nem que o vizinho jogue seu Pokémon em paz.

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As Testemunhas de Jeová que todo domingo vêm aqui deixar uma revistinha e citar exatamente o mesmo versículo de Timóteo é que estão certas: vivemos, hoje mesmo, a pior das épocas. Cheguei a esta constatação após perceber que, naqueles testes sobre quem fomos em vidas passadas – uma variação virtual do tarô –, JAMAIS cai uma pessoa comum. Ninguém foi índio, marceneiro, caixeiro-viajante, ladrão de pão, feiticeiro ou mercador de escravos – todos nós, sem exceção, fomos alguma celebridade histórica. A conclusão que se tira desses resultados, tão evidente que me ruboriza as bochechas, é que as pessoas comuns não existiam. Procure nos livros de história – no passado todos foram notáveis. Tendo em vista o elevado número de pessoas comuns com quem convivo – comuns, independentemente de meu apreço por elas e de suas qualidades ou defeitos enquanto indivíduos – e ainda exorbitância de pessoas comuns que desconheço, mas sei existirem (via fotos da Índia e likes no instagram de Neymar), não me é mais possível discordar de Timóteo e das TJs. Manrique estava certo: “cualquiera tiempo pasado fue mejor”.

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Balde de gelo… Pfff… Fala sério, aqui tá tão quente que um conhecido meu instalou umas placas de energia heliotérmica e o sol queimou o negócio. Balde de gelo é uma bênção. Desafio mesmo é um balde de água morna.

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Após a eleição, pensei numa coisa engraçada (sem ironia ou indignação). O maior doador para as campanhas dos candidatos foi a Friboi, o frigorífico mais rico do mundo, que doou quantias iguais (R$5 mi) a Aécio e a Dilma. Não entendo nada de campanha política, mas acho que boa parte dessa grana é convertida nas propagandas televisivas que vemos de graça e nos panfletos e adesivos que no fim vão para o lixo.

Aí quando eu estava jogando fora a papelada, pensei ser bem melhor encontrar umas picanhas na caixa de correio. A gente não pode entrar num açougue e pegar de graça meio quilo de filé, mas a papelada sem futuro sim. Não vem tudo da Friboi? Eu gosto mais de carne que de panfleto. Já imaginou R$10 mi em carne? Queria até poder converter, tipo “junte um quilo de propagandas e troque por meio quilo de cupim”.

Pensei ainda nos políticos com a mão esticada e os olhos arqueados em posição piedosa, pedindo umas doações aos executivos da carne:

“Pelamordedeus. Uma ajudinha ao político carente?”

Os executivos discutem entre si.

“Ih, não dê não, que esse cara vai gastar tudo em panfleto”.

“Será?”

“Claro. E só você virar as costas e ele já tá lá na primeira gráfica imprimindo propaganda. Político só quer saber dessas coisas. Em vez de dar dinheiro para ele torrar com papel, é melhor oferecer a ele algo que ele realmente precisa”.

O executivo então se dirige ao político coitado.

“Escuta, senhor. Podemos ajudar, mas em vez de te dar dinheiro, vamos te entregar tudo em carne, tá bem?”

Desconcertado, o miserável agradece sem saber o que fazer com a tonelada de alcatra a ser recebida nos próximos dias.

Baforadas nos Andes

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Já está disponível na íntegra meu último texto publicado na Piauí. Desta vez falo sobre a cansativa subida até Machu Picchu. Durante a pesquisa para escrevê-lo, descobri que o sítio peruano tem algo a ver com o sítio de Central, aqui na Bahia, sobre o qual escrevi no começo do ano. Assim que tiver tempo, escrevo sobre isso aqui no blog.

Confira também minhas outras colaborações.