Sobre a escrita

Ontem comentei com a professora Silvana Salerno que eu apreciava a leitura de livros sobre a escrita, e ela me perguntou se eu podia lhe fazer uma listinha. Pensei neste blog às moscas, coitado, então resolvi soltar aqui esses comentários apressados. São obras sobre estilo, narrativa e formação intelectual. Por sinal, meu texto favorito no blog é sobre o assunto: A declarar nada. Conforme o hábito, evitei livros inéditos no Brasil, e sei de muita coisa que (ainda) não li, como Vida de escritor, de Talese, O Arco e a Lira, de Paz, o Guia de Escrita de Pinker ou Comunicação em prosa moderna, de Othon M. Garcia. Também evitei gramáticas e livros sobre narrativa em outras mídias, que podem ser bastante úteis. Convido quem conhecer algo mais a postar suas sugestões nos comentários. Por fim, não posso deixar de informar que você pode substituir esses livros por uma leitura atenta dos melhores ensaios de Montaigne ou da primeira parte de No caminho de Swann, por exemplo.

 

Itinerário de Pasárgada – Manuel Bandeira

Partindo de sua infância, nosso grande poeta traça sua biografia intelectual. Conta anedotas, como quando pegou um bonde com Machado de Assis, explica porque se arrependeu de ter publicado um poema-piadinha, fala quais livros foram importantes em sua formação e discute suas próprias técnicas. A biographia literaria é um gênero pouco popular entre nossos escritores; essa de Bandeira é fundamental.

A tradução vivida – Paulo Rónai

Nascido Rónai Pál, na Hungria, Rónai teve que vir ao Brasil para escapar da Segunda Guerra Mundial. Aqui, se tornou um dos maiores intelectuais do país. Poliglota, coordenou a tradução da Comédia Humana, de Balzac (em 16 volumes!), e junto com Aurélio Buarque de Hollanda traduziu os contos que compõem a coleção Mar de Histórias. Nesse livro, ele faz o mesmo que Bandeira, porém sobre a função de tradutor.

Ex-Libris – confissões de uma leitora comum – Anne Fadiman

Grande coleção de ensaios sobre o amor aos livros em todos os seus aspectos. Escrevi sobre ele aqui.

Cartas a um jovem poeta – Rainer Maria Rilke

No comecinho do século XX, Rilke recebeu uma carta de um jovem lhe perguntando o que fazer para se tornar poeta. Após algum tempo, a troca de correspondência entre os dois praticamente se transformou numa gigantesca série de debates sobre a literatura, a vida, a morte, e o que é importante no meio disso tudo.

 

A arte da ficção – David Lodge

O romancista tinha uma coluna de jornal em que, quase sempre a partir de uma citação, discutia aspectos formais da criação literária. Nesses cinquenta textos curtos, que podem ser lidos isoladamente, ele põe em pauta assuntos como narrador, personagem, gêneros, ponto de vista, e tudo mais.

Confissões de um jovem romancista e Seis passeios pelos bosques da ficção – Umberto Eco

Umberto Eco tem por aí vários textos sobre como escreveu seus livros. Confissões de um jovem romancista é uma maneira organizada de falar disso, com algumas revelações estimulantes. Fundamental, no entanto, é a série de palestras que compõe Seis passeios pelos bosques da ficção, em que ele discute, numa linguagem gostosa e acessível, a arte da narrativa literária e percepções da realidade através da leitura.

Para ler como um escritor – Francine Prose

A ficcionista, que também é professora de criação literária, propõe aqui que os aspirantes a escritores façam uma close reading, leitura atenta, minuciosa, de grandes textos. O método seria um modo de tentar desvendar nuances e possibilidades de uma palavra, uma frase, um parágrafo e aprender como os mestres faziam. O que uma quebra de parágrafo pode dizer? Contar ou mostrar? O livro flui muito bem, e os exemplos de Prose são formidáveis.

 

Como funciona a ficção – James Wood

Partindo da literatura “realista” do século XIX, principalmente de Flaubert, o badalado crítico de literatura da New Yorker discute, nessas saborosas notas curtas, os mecanismos do texto que fazem a ficção ser interessante e verossímil. Destaque para as notas de rodapé completamente gratuitas e imperdíveis, como sua lista de personagens xarás de autores famosos ou o catálogo de metáforas que os grandes autores usaram mais de uma vez.

Sobre a escrita – Stephen King

Mistura de memórias, biografia literária e ensaio, nesse livro um dos escritores mais populares do mundo expõe seus métodos de trabalho, explica porque odeia advérbios e conta, por exemplo, que começou a escrever por causa de uma infecção no ouvido. A prosa fluida e elaborada deste livro é a prova de que, mesmo em seus momentos duvidosos, o homem sabe o que está fazendo.

Os ensaios de George Orwell

Espalhados nos livros Dentro da baleia e Como morrem os pobres, entre textos sobre assuntos diversos, apenas por “A política e a língua inglesa”, uma divertidíssima aula de estilo, Orwell já merecia entrar nesta lista. Mas ele também discute os motivos para se escrever (o primeiro, diz ele, é a vaidade), nos fala porque não aguentou trabalhar num sebo e, acima de tudo, foi o mais interessante debatedor das funções do escritor enquanto agente político.

schopenhauer
A arte de escrever – Arthur Schopenhauer

Schopenhauer foi um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Nessa seleção de ensaios de seu livro Parerga e Paralipomena, nosso ranzinza favorito desopila sua bile para cima dos costumes literários de sua época. O resultado são textos hilários sobre a linguagem, a escrita e a leitura. Se pudesse, diz ele, condenaria os maus escritores a levar chibatadas em praça pública.

forsterAspectos do romance – E. M. Forster

Nesse clássico sobre a arte da escrita, o famoso romancista inglês discute aspectos formais da criação ficcional, com destaque para uma célebre distinção entre personagens redondos e achatados. Talvez algumas coisas soem meio datadas para leitores pós-tudo, mas vale dar uma olhada.

Outras listas de livros:

Os dez livros que TODOS devem ler

Vinte livros de ensaios imperdíveis

Off-10 – meus livros desconhecidos favoritos

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Da Desculpa como Figura de Linguagem.

Não sou necessariamente um leitor fanático por blogs, de modo que só leio uns oito com grande frequência, e mesmo assim só raramente, quando entro na internet. Ou seja: acordo, ligo o laptop, vejo se o Guina Médici leu mais algum livro, e então estou preparado para lavar a cara e escovar os dentes; saio, sem internet móvel, preocupado com a possível nova polêmica de Rafael Galvão; volto, e antes de tomar banho, dou uma olhada no blog do  Milton Ribeiro e no da Cia das Letras (desculpe pelas ironias).

Dou preferência a crônicas, anedotas, tiras, e pequenos ensaios, principalmente aos blogs sobre assuntos variados. Não percebo um estilo em comum, mas uma característica curiosa de alguns destes textos, que não creio ser motivo de louvores nem de engulhos, mas sempre me deixou com a pulga atrás da orelha (desculpe a expressão): a mania de se fazer a própria crítica, ou de se desculpar por usar figuras de linguagem, clichês e trocadilhos infames.

Num texto publicado essa semana no blog do Instituto Moreira Salles, a Luisa Geisler ressalta a terribilidade de seus trocadilhos, ao falar do “florescimento” dos hippies nos anos 60, e do estereotipo “batido” dos beats. O primeiro trocadilho nem é tão óbvio, e poderia passar despercebido, se ela não fizesse questão de mostrá-lo. O segundo é mais evidente, mas também não é nada tão grave assim.

Charlles Campos, num texto que li ontem por acaso, fala da veia “extrovertida, expansiva e exuberante” de alguns romances de Saul Bellow, para em seguida pedir desculpas pelas aliterações. Aí eu penso: que mal há em escrever aliterações? Já pensou o que seria de Nabokov sem elas?

Este ato se torna muito mais interessante por ocorrer nos meios virtuais (não quero dizer que esteja restrito a eles), onde a multidão mal-educada não tem vergonha de falar besteira, compartilhar porcaria, e de arrumar confusão com desconhecidos.

Sou um leitor muito literal (desculpe o possível pleonasmo), e se eu vejo um pedido de desculpas, acredito que haja uma razão para isto. A desculpa geralmente é um ato de humildade e renegação; se alguém a usa comigo, mesmo sendo eu apenas seu hipotético leitor, posso a interpretar como uma maneira de se tentar fazer diferente na próxima ocasião (desculpe a rima em oxítona [desculpe a repetição]).

Mas com textos escritos a coisa funciona diferente, pois há mais tempo para perceber e evitar um erro ou grosseria. Percebê-lo, e não consertá-lo, é no mínimo estranho. E mesmo que eu não veja, se um leitor me pede para ajeitar uma expressão, eu não peço desculpas; simplesmente vou lá e faço. Por que eles não fazem o mesmo e se livram das desculpas, coisas tão desagradáveis a se submeter?

Aí que está. A desculpa, penso, se tornou a própria figura de linguagem. Ela é usada não com sua função usual, – humilde, rouca, e cabisbaixa (desculpe as metonímias) -, mas como forma figurada de destacar o trocadilho, um meio cortês de ressaltar a metáfora, uma maneira conotada de evitar os comentários desagradáveis que fariam sobre o maldito clichê.

Ainda assim, o simples fato de se pedir desculpa por estas expressões dá aos textos um ar cool e ao mesmo tempo polido; aproxima o leitor de si, enquanto o bajula de leve, por julgá-lo conhecedor de retórica. E se o trocadilho for bom, ela é usada como fazia aquele jogador, que se dirigia à torcida adversária logo após marcar um gol: “desculpa aê”… Mas me desculpem, acho que já estou enchendo o saco, sempre falando de futebol.