O vazio, o Satanás, o esprit d’escalier

maia

Publiquei umas coisas nas últimas semanas, mas andei ocupado demais pra divulgar por aqui. A revista Barril, de Salvador, republicou o texto mais legal que já escrevi neste blog, o ensaio A declarar nada, sobre a linguagem empolada, os textos vazios, o que caracteriza os discursos que, por excesso, acabam por não dizerem muita coisa. Antes, já saiu lá O direito de interpretar Hamlet, em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural, e ano passado saiu A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; sempre tem muita coisa foda lá.

RevistaSeca_Ilustracao_Ficcao-04-1150x767

Pouco depois, o brasiliense Danilão, o cara mais legal do Facebook, me convidou para escrever na lindíssima Revista Seca. Mandei uma série de notas estranhas com as quais estava trabalhando na época, para um curso de escrita com Paloma Vidal. Em Plurais, mudanças, objetos essenciais, falo sobre a primeira pessoal do plural num ensaio de Virginia Woolf, apresento minha versão do Satanás e discorro sobre minhas mudanças e os objetos realmente essenciais.

lm

Por fim, semana passada saiu um ensaio que fiz para o Blog do IMS, Declínio e queda do esprit d’escalier, o texto que me deu mais trabalho pra escrever este ano, e também meu favorito. Entre um monte de coisas, cito um ex-presidente, parodio uma hashtag famosa e evoco Laranja Mecânica ao discorrer sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato. Quem quiser, pode também conferir o primeiro texto que publiquei lá, há alguns meses, Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

Sobre a escrita

Ontem comentei com a professora Silvana Salerno que eu apreciava a leitura de livros sobre a escrita, e ela me perguntou se eu podia lhe fazer uma listinha. Pensei neste blog às moscas, coitado, então resolvi soltar aqui esses comentários apressados. São obras sobre estilo, narrativa e formação intelectual. Por sinal, meu texto favorito no blog é sobre o assunto: A declarar nada. Conforme o hábito, evitei livros inéditos no Brasil, e sei de muita coisa que (ainda) não li, como Vida de escritor, de Talese, O Arco e a Lira, de Paz, o Guia de Escrita de Pinker ou Comunicação em prosa moderna, de Othon M. Garcia. Também evitei gramáticas e livros sobre narrativa em outras mídias, que podem ser bastante úteis. Convido quem conhecer algo mais a postar suas sugestões nos comentários. Por fim, não posso deixar de informar que você pode substituir esses livros por uma leitura atenta dos melhores ensaios de Montaigne ou da primeira parte de No caminho de Swann, por exemplo.

 

Itinerário de Pasárgada – Manuel Bandeira

Partindo de sua infância, nosso grande poeta traça sua biografia intelectual. Conta anedotas, como quando pegou um bonde com Machado de Assis, explica porque se arrependeu de ter publicado um poema-piadinha, fala quais livros foram importantes em sua formação e discute suas próprias técnicas. A biographia literaria é um gênero pouco popular entre nossos escritores; essa de Bandeira é fundamental.

A tradução vivida – Paulo Rónai

Nascido Rónai Pál, na Hungria, Rónai teve que vir ao Brasil para escapar da Segunda Guerra Mundial. Aqui, se tornou um dos maiores intelectuais do país. Poliglota, coordenou a tradução da Comédia Humana, de Balzac (em 16 volumes!), e junto com Aurélio Buarque de Hollanda traduziu os contos que compõem a coleção Mar de Histórias. Nesse livro, ele faz o mesmo que Bandeira, porém sobre a função de tradutor.

Ex-Libris – confissões de uma leitora comum – Anne Fadiman

Grande coleção de ensaios sobre o amor aos livros em todos os seus aspectos. Escrevi sobre ele aqui.

Cartas a um jovem poeta – Rainer Maria Rilke

No comecinho do século XX, Rilke recebeu uma carta de um jovem lhe perguntando o que fazer para se tornar poeta. Após algum tempo, a troca de correspondência entre os dois praticamente se transformou numa gigantesca série de debates sobre a literatura, a vida, a morte, e o que é importante no meio disso tudo.

 

A arte da ficção – David Lodge

O romancista tinha uma coluna de jornal em que, quase sempre a partir de uma citação, discutia aspectos formais da criação literária. Nesses cinquenta textos curtos, que podem ser lidos isoladamente, ele põe em pauta assuntos como narrador, personagem, gêneros, ponto de vista, e tudo mais.

Confissões de um jovem romancista e Seis passeios pelos bosques da ficção – Umberto Eco

Umberto Eco tem por aí vários textos sobre como escreveu seus livros. Confissões de um jovem romancista é uma maneira organizada de falar disso, com algumas revelações estimulantes. Fundamental, no entanto, é a série de palestras que compõe Seis passeios pelos bosques da ficção, em que ele discute, numa linguagem gostosa e acessível, a arte da narrativa literária e percepções da realidade através da leitura.

Para ler como um escritor – Francine Prose

A ficcionista, que também é professora de criação literária, propõe aqui que os aspirantes a escritores façam uma close reading, leitura atenta, minuciosa, de grandes textos. O método seria um modo de tentar desvendar nuances e possibilidades de uma palavra, uma frase, um parágrafo e aprender como os mestres faziam. O que uma quebra de parágrafo pode dizer? Contar ou mostrar? O livro flui muito bem, e os exemplos de Prose são formidáveis.

 

Como funciona a ficção – James Wood

Partindo da literatura “realista” do século XIX, principalmente de Flaubert, o badalado crítico de literatura da New Yorker discute, nessas saborosas notas curtas, os mecanismos do texto que fazem a ficção ser interessante e verossímil. Destaque para as notas de rodapé completamente gratuitas e imperdíveis, como sua lista de personagens xarás de autores famosos ou o catálogo de metáforas que os grandes autores usaram mais de uma vez.

Sobre a escrita – Stephen King

Mistura de memórias, biografia literária e ensaio, nesse livro um dos escritores mais populares do mundo expõe seus métodos de trabalho, explica porque odeia advérbios e conta, por exemplo, que começou a escrever por causa de uma infecção no ouvido. A prosa fluida e elaborada deste livro é a prova de que, mesmo em seus momentos duvidosos, o homem sabe o que está fazendo.

Os ensaios de George Orwell

Espalhados nos livros Dentro da baleia e Como morrem os pobres, entre textos sobre assuntos diversos, apenas por “A política e a língua inglesa”, uma divertidíssima aula de estilo, Orwell já merecia entrar nesta lista. Mas ele também discute os motivos para se escrever (o primeiro, diz ele, é a vaidade), nos fala porque não aguentou trabalhar num sebo e, acima de tudo, foi o mais interessante debatedor das funções do escritor enquanto agente político.

schopenhauer
A arte de escrever – Arthur Schopenhauer

Schopenhauer foi um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Nessa seleção de ensaios de seu livro Parerga e Paralipomena, nosso ranzinza favorito desopila sua bile para cima dos costumes literários de sua época. O resultado são textos hilários sobre a linguagem, a escrita e a leitura. Se pudesse, diz ele, condenaria os maus escritores a levar chibatadas em praça pública.

forsterAspectos do romance – E. M. Forster

Nesse clássico sobre a arte da escrita, o famoso romancista inglês discute aspectos formais da criação ficcional, com destaque para uma célebre distinção entre personagens redondos e achatados. Talvez algumas coisas soem meio datadas para leitores pós-tudo, mas vale dar uma olhada.

Outras listas de livros:

Os dez livros que TODOS devem ler

Vinte livros de ensaios imperdíveis

Off-10 – meus livros desconhecidos favoritos

Um método comprovadamente eficaz de estimular a leitura

Na última semana fui com dois pensamentos à famigerada Bienal do Livro de Salvador. O primeiro, deveria ser óbvio, era a possibilidade de encontrar algum livro barato e imprescindível. Sempre sonhei com um saldão em que eu pudesse encontrar obras de Javier Marias e Thomas Bernhard a preço de sebo. Acontece que o pensamento, me parece, não é tão óbvio, e os livros baratos estavam amontoados em pilhas grotescas, toneladas de livros desagradáveis com as lombadas viradas para dentro, como se quisessem se esconder dos compradores. Os ratos de biblioteca e os leitores da moda haverão de concordar: não dava pra encontrar porcaria de nada. Quando sim, os descontos não valiam a pena; a Estante Virtual haverá de acabar com a Bienal, se estes livreiros não tomarem vergonha na cara. (No final das contas, miraculosamente, e falo muito sério, saí com Quando Fui Mortal, do espanhol).

O segundo pensamento, creio, foi muito mais satisfatório. Era me divertir num lançamento de uma antologia com autores vivos baianos, e de quebra ainda comer uns camarões. O livro em questão reúne dezoito escritores e foi publicado em quatro idiomas, primeiramente na Feira de Frankfurt. A seleção, como é de praxe, rendeu alguma polêmica, por parte de quem ficou de fora. Nada que não tenha acontecido com a Granta. Alguns estão tão centrados em seus umbigos que não são capazes de entender que algo maior está em jogo; a possibilidade de que talvez, finalmente, comecem a ler os baianos fora da Bahia, ou melhor, de Salvador. É um passo inicial, que pode render bons frutos não só para os autores selecionados, mas para editores, futuros escritores, pesquisadores, para o público. O que não dá é pra publicar todo mundo de uma vez, de acordo com as vontades de cada um.

Mas deixemos estas confusões de lado. O mais interessante mesmo foi um comentário que me foi feito pela celebridade João Filho (procurem por ele nos jornais da semana!), que participa da antologia: “Sim, fui à Feira de Frankfurt. Acima de tudo, se trata de negócios. Aqueles livros maravilhosos eram apenas amostras; não estavam à venda, e eu os desejava. Consegui comprar alguns, mas os expositores eram muito cautelosos. Descobri que há uma alta incidência de roubos, por parte dos alemães. Pois é. Não são só os brasileiros. Eles também roubam livros”.

O comentário era informal, mas cá discordo publicamente. A questão é que aqui se rouba de tudo – chaveiros, motocicletas, celulares, carteiras, cavalos, e até uma perna de bode congelada já roubaram de minha casa uma vez – de tudo, menos livros. Em nossos filmes mais realistas os carros são arrombados e passam a noite inteira com os livros lá dentro, intocados. É verdade. Uma vez um amigo perdeu um Saramago meu numa rodoviária e o encontrou três semanas depois, no mesmo lugar, na viagem de volta. A maneira mais segura de guardar dinheiro é dentro de um dicionário. O livro do próximo jamais haverá de ser cobiçado. Ler mais que o feed de notícias é uma atividade deveras cansativa, por estas plagas.

Mas eis que, recentemente, descobri por acaso uma maneira deveras eficaz de estimular a leitura. Tenho um primo de uns treze anos que mora numa roça longínqua no último recanto do oeste do estado, distante de qualquer estímulo cotidiano, e é um leitor voraz. Descobri na última vez que o visitei, no último natal. De lá pra cá, lhe mandei uma pilha de livros que, para desagrado de alguns, já foram todos lidos. Não sabem o que fazer com o rapaz, que pede outros constantemente, contra todas as condições possíveis. Na Bienal comprei para ele (a preço de capa) a edição de bolso da Zahar de Um Estudo em Vermelho.

Repensando o assunto, creio ter descoberto porque ele se tornou um leitor tão ávido. Quando o visitávamos, para evitar a chatice de passar quatro, cinco dias sem fazer nada (e tenha certeza que lá o tempo flui num ritmo diferente!), eu e minha irmã levávamos em média um livro para cada dia de viagem. Eu me deitava numa rede e lia até escurecer, e o menino, louco por comunicação com os primos mais velhos, brincava de ler, com um Cem Anos de Solidão de cabeça para baixo. Minha reação mais óbvia e instintiva era tomar o exemplar da mão da criança. Ele pegava meu Vathek, eu mandava me devolver; agarrava meu Sepúlveda, eu o escondia. Era um prazer proibido, restrito aos mais velhos, aos mais legais, àqueles que dominavam esta entidade secreta chamada “palavra”. Uma habilidade que ele, coitado, deve ter esperado por anos antes de dominar. Agora é sua desforra.

Portanto, bravos entusiastas, esqueçam os milhões investidos pelo governo em editais de estímulo, esqueçam as bibliotecas bonitinhas e burocráticas, esqueçam todas as utilidades práticas e ganhos relacionados à leitura – quem mais vejo fazendo discursos sobre a nobre atividade, menos lê; o importante mesmo é proibir-lhes o acesso ao livro de adultos, é dar uns tapas na mão do guri que quer abrir seu catatau sem figuras, é tomar-lhe o volume e colocá-lo em cima da geladeira, onde pode ser visto o tempo inteiro, mas jamais ser alcançado.

Devemos ressaltar que, obviamente, o método perde toda sua eficácia se a criança não observar com alguma frequência, por mínima que seja, um adulto lendo por prazer.

O Livro Impossível (Parte I)

Texto escrito em 2007.Um leitor muito inexperiente normalmente lê qualquer coisa, pois ainda não sabe direito quais livros procurar, ainda não tem o seu gosto definido. Com o tempo de leitura vem a experiência, e ele vai aprendendo naturalmente a identificar as qualidades literárias dos livros com que depara. Com isso vai se tornando mais seletivo, de acordo com o seu gosto. No que se refere à leitura, Anne Fadiman vai chamar esta loucura que todos temos de estante excêntrica:

Uma pequena e misteriosa coleção de volumes, cujos assuntos não têm a menor relação com o restante da biblioteca, embora, numa investigação mais detalhada, revelem um bocado sobre seu dono.

Ela possui uma coleção de livros sobre explorações polares, já minha estante excêntrica talvez seja a minha bizarra coleção de gibis underground.  

Mas o ponto é que toda estante tem também uma parte reservada para os livros que ainda virão. Quanto mais experiente é um leitor, maior é sua lista de livros a serem lidos. Minha lista de livros pra ler sempre cresceu numa progressão geométrica, enquanto a de livros lidos sempre foi aritmética. Parece que quanto mais leio, menos leio. Os leitores mais experientes que eu já conheci sempre alegaram que tinham uma lista enorme de livros pra ler. Talvez essa seja uma lista que nunca poderá ser finalizada, por se tratar duma coisa pessoal demais para se administrar. Sempre aparece algum livro furão que eu leio antes dos que estão na fila. Aceito com felicidade que seja uma lista impossível de ser completada, pois é então um sinal de que sempre haverá em minha estante espaço para algo interessante.

Essa lista de livros a serem lidos aumenta com tanta velocidade porque um livro conduz a outro, e alguns escritores mais desaforados nos conduz a vários livros de uma só vez. Joca Reiners Terron beira a provocação quando lista do nada mais ou menos uns trinta livros, numa página do seu romance Não Há Nada Lá. Impossível ler Borges ou Umberto Eco sem sentir aquela discreta sensação que se é um completo ignorante em se tratando de leitura. Há ainda os livros aos quais praticamente todos os escritores conduzem.

Normalmente esses são os grandes clássicos. Não convém listar aqui.

Na lista “a serem lidos” sempre vai haver alguns livros que serão mais difíceis de ser encontrados. Haverá também entre eles o “livro impossível’. Todo leitor tem o seu livro impossível, que só mantém esse título até que, obviamente, é encontrado. Por vinte anos o do bibliófilo José Mindlin – que possuía a maior biblioteca particular brasileira, incluindo a única cópia existente na América do Sul do Hypnerotomachia Poliphilii – seu livro impossível foi a primeira edição d’O Guarani, do José de Alencar, que depois de muito penar para conseguir, ele esqueceu no avião que voltava de Paris, onde o livro foi comprado. Coisas da vida. 

Mais emocionante é a história Padre Cayetano Delaura, do livro Do Amor e Outros Demônios, do Garcia Márquez. Ele lia um livro sem capa nem indicações que diria que livro era ou por quem tinha sido escrito. Antes de terminá-lo, porém, um padre o avisou que era um livro proibido e o tomou. E por anos Delaura vagou sem saber como terminava o seu livro desconhecido, até que contou a um bibliófilo a sua história e finalmente descobriu que o tal livro era o Amadis de Gaula, sempre mencionado no Quixote.

A literatura e a história estão repletas de casos semelhantes ao do padre Caetano: O livro impossível da pequena e magricela Lispector era As reinações de Narizinho, que sua colega não queria emprestar; o do bibliômano de Memórias Póstumas de Brás Cubas podia ser qualquer um, contanto que fosse único; o corcunda de Enrique Vila-Matas não queria simplesmente um livro, mas as bibliotecas impossíveis do Quixote e do Capitão Nemo, a de Alexandria, além de ele se imaginar com o acervo de livros recusados que repousa na Biblioteca Brautigan. Numa rápida memorização passo ainda por Ítalo Calvino, por Borges, por Carlos Ruiz Zafón, por Flaubert, entre uma grande variedade de autores que escreveram sobre o tema, e que, como os grandes clássicos, não convém listar.

Os livros mais impossíveis hoje em dia são o First Folio – a primeira coleção das peças de Shakespeare – e a Bíblia de Gutemberg. A última cópia inteira do First Folio vendida custou 3,5 milhões de libras esterlinas. A última da Bíblia de Gutemberg por 2,2 milhões de dólares.

E o que dizer então de um livro tão raro que não existe? O marquês de Chalabre tanto atormentou o bibliófilo francês Charles Nodier, que este inventou uma edição da Bíblia para o marquês procurar. Tudo isso nos conta melhor o Alexandre Dumas, no ensaio entitulado Tunísia:

Jamais Cristóvão Colombo colocou tanta obstinação em descobrir a América. Jamais Vasco da Gama colocou mais persistência em encontrar a Índia do que o marquês de Chalabre em perseguir sua Bíblia. A América porém existia entre 70º de latitude norte e 53º e 54º de latitude sul. A Índia situava-se de fato aquém do Ganges, enquanto a Bíblia do marquês de Chalabre não se localizava em qualquer latitude, nem se localizava aquém ou além do Sena. O resultado foi que Vasco da Gama encontrou a Índia, Cristóvão Colombo descobriu a América, mas, por mais que o marquês procurasse de norte a sul, do oriente ao ocidente, não encontrou sua Bíblia.

 E o mais impressionante é que o marquês encontrou na Suécia uma Bíblia com quase todas as especificações impossíveis do Nodier.

Mas o livro impossível não é necessariamente raro. Como eu disse no começo, varia do gosto do leitor. Eu normalmente não saio à caça de edições, mas de títulos. O meu Livro Impossível que durou mais tempo foi O Homem que Ri, de Victor Hugo, que vi mencionado num artigo que abria o quadrinho O Vampiro que Ri. Pesquisei e descobri que ele baseou um filme, e que depois veio a inspirar o Coringa, inimigo do Batman.

Eu acreditava ser capaz de encontrar qualquer livro facilmente, depois que alguns que eu achava difíceis simplesmente pousaram em minhas mãos. Mas por muito tempo eu revirei os sebos e a internet (ainda não era tempo dos sebos virtuais) atrás d’O Homem que Ri e nada. Quando eu finalmente encontrei, era numa edição muito vagabunda e por um preço altamente abusivo. Desisti, não me interessava mais. Ironicamente, eu, o caçador de títulos, queria mais encontrá-lo que lê-lo. Já era uma questão de honra.