Uma grande ressaca

“E a gente faz questão de complicar…” Cacá

No dia 21 de junho deste ano, logo após eu ter voltado de minha viagem improvisada, o artista plástico Akarneiro, pai de meu primeiro compadre, me chamou para ver seu novo projeto, uma série de pinturas de uma mesma paisagem sertaneja, em estações, horários e estilos diferentes. Carneiro queria um texto para ilustrar uma pequena publicação com elas, que até hoje estou devendo. Como é de costume, enquanto eu escrutinava aqueles explosivos sois brancos que sempre me lembram Turner, ele me ofereceu algo para bebericar.

“Desta vez vou te servir algo que você nunca provou na vida”, afirmou ele.

“Está difícil aparecer algo que nunca provei este mês”, gracejei, em resposta.

Era verdade. Exatamente na tarde em que chegara em casa, quatro dias antes, havia publicado em meu blog um apaixonado texto em que narrava parte de minhas aventuras, ao menos o que eu me lembrava delas, com algumas restrições a obscenidades e intimidades alheias. No texto, nada mais que uma lista vertiginosa do que havia feito, conto o que bebi no Capão, Irecê, Rio Araguaia, Salvador, Brasília, Aguas Calientes e Cusco, onde terminei minha história. Como fiz muitas outras coisas, a bebida ficou diluída no turbilhão de eventos inusitados. Listo as bebidas aludidas e mencionadas no texto:

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Leffe e cravinho/ Uma garrafa de vinho suave e uma de vinho seco/ Heineken/ Conhaque/ Chivas/ Heineken e Baden-baden/ “Bebi pouco com meu compadre” [Brahma]/ Meia garrafa de cravinho/ “Voei para Brasília um pouco embriagado” [Skol, Heineken e Seleta]/ 28 cervas/ “Viajei às 3h da manhã com um intelectual psicótico” [Heineken, Brahma, Serramalte]/ Domecq e black tiger/ Porca de Murça, ice e margaritas/ “Bebemos ouvindo Muse e Rammstein” [Heineken]/ Mojitos de montilla/ “Blood bombs e cusqueñas (…), pisco sour, white russian, sambuca, tequila, gliders, pisco puro, lowenbrau, e sabe-se lá o que mais”/ Pisco sour/ “Embebedei com TUDO”.

É importante ressaltar que cada item da lista equivale a uma noite (às vezes dia) de bebedeira, portanto deixei de mencionar muitos drinques perdidos que tomei em horas mortas – um licorzinho aqui, uma cachacinha acolá, chopes, caipiroscas – e ainda aquilo tudo que tomei quando já estava embriagado a ponto de não me lembrar depois. Portanto, não foi nenhuma surpresa quando Karneiro me ofereceu uma bebida que eu já conhecia: Licor 43.

Mas a grande questão é que a história continuou. Naquele dia mesmo comi água com Asa Branca e Absolut. Muita coisa aconteceu, e esse mês que narrei no blog foi apenas uma espécie de antecipação dos cinco meses que o seguiriam, em que troquei as viagens por ainda mais cana. Há uma correlação evidente entre minhas piores crises amorosas e grandes fases etílicas (a recíproca não vale), o que não é uma reação nada especial, na verdade – qualquer música ruim fala disso.

Quando tinha treze anos, em 1999, comecei a beber de leve, após beijar a irmã mais velha da garota por quem eu era apaixonado. Em 2006, depois que uma das duas moças que amei na vida parou de falar comigo do nada (hoje é uma amigona). Em 2010, a pior crise de todas, pois além de enfrentar o caso mais amargo ever (a outra moça que amei), tive que lidar com dois fins de relacionamento. Depois vivi anos de calmaria, volta e meia me embebedando com responsabilidade, geralmente dentro de casa, até que o ciclo reiniciou – simplesmente abri o portão e fui tirar o atraso de tão longo período sem beber de verdade. Nada calculado, that’s just something I do.

Não pretendo listar as canas que tomei de Cusco pra cá, pois suponho que o leitor esteja com um hálito catingoso só de ler tanto nome de bebida. Tive muitos bons momentos, mas nem sempre foram cachaçadas tranquilas e felizes. Mandei muitas mensagens desagradáveis, quebrei propositalmente alguma meia dúzia de copos e garrafas, sentei a mão num cara, golfei no braço de outro, tirei fotos de gente desconhecida, dei umas enforcadas num “Bolsomito” (todos acham legal, mas não se justifica), e não me lembro de muitas dessas coisas.

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Geralmente, ao despertar após uma dessas carraspanas, antes mesmo de escovar os dentes confiro as mensagens, as fotos, e o saldo de minha conta. Bebida e celular não combinam. Minha ressaca se resume a sede e insônia. Posso beber o tanto que quiser, não importa se até meia noite ou até o sol nascer, e no outro dia às oito horas da manhã estou pronto para jogar bola, transar, viajar, comer, e até pra beber mais – menos pra dormir. Ah, e ler, escrever, pensar. Tenho vocação pra Sócrates brasileiro, mas não pra um grego. Tendo em vista a quantidade razoável de textos com que lidei em todos esses anos, posso dizer que meus pileques, apesar de frequentes, não são dominantes (antes que me chamem de alcoólatra).

Mas é bem aí que está o problema. Na madrugada da última quinta-feira plantaram em mim a semente de uma ressaca magistral, uma ressaca moral que vale pelo semestre inteiro. Uma das meninas mais bonitas que conheço, uma pessoa que vejo muito pouco, cujo nome me basta uma menção para que meu sangue comece a ferver, ela, que jamais havia conversado comigo pela internet, me mandou a seguinte mensagem (aqui adaptada ao contexto):

“Você tá bebendo demais, cara. Segura a onda”.

Claro que em minhas veias já corria lava. Respondi:

“Você deu a sorte de me ver exatamente no dia em que eu bebi mais no Caatingueiros”.

“Tava morto”.

“Pior. Tava doido”.

“Por que isso?”

“Sei lá”

Numa conversa paralela a essa, ela disse:

“Tava lendo seus textos. Show de bola”.

Foi isso o estopim. Quando saí pra beber de verdade praticamente parei de escrever.

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No fim de semana pude confrontar meu término com o de outros casais que também se separaram este ano. A história é um poema de Drummond às avessas: M, uma das pessoas mais fodas a respirar nesta velha Bahia, se dá bem com a mãe da única filha de seu atual namorado, K, e com seu ex, N, sujeito tão bondoso que me deixa envergonhado, que agora namora uma cachaceira que cai de rir com qualquer bobagem, chamada E, que continua a dormir na mesma cama que seu ex marido, pai de seu filho, que também tem uma namorada que lida bem com a situação. Na viagem, lá estavam juntos os dois casais, MK e NE, sem ressentimentos, a sambar, beber, sorrir.

Meu mundo não é tão civilizado. Um dia depois disso, dei o azar de encontrar minha ex no festival. N se animou com a possibilidade de encontrá-la, mas só lhe mostrei ela quando já estava longe. Passamos direto um pelo outro. Nossas (poucas) conversas se restringem aos meninos. Bebi de uma vez toda a cachaça que encontrei pela frente, rogando-lhe pragas que não tenho coragem de publicar. Sim, o mundo é bárbaro. Meu primeiro compadre antigamente dizia que ex ideal é ex triste. Discordo, mesmo porque não acredito em sua existência. Minhas antigas senhorinhas parecem viver um perpétuo auge de suas vidas. Nada há de mais traiçoeiro que um encontro involuntário com uma ex com quem não se fala. Nenhum lado quer se mostrar vulnerável. Não invejo, mas admiro meus amigos civilizados. Para mim ex ideal é ex distante. A minha parecia se divertir, e – esqueçam o julgamento de Tiradentes – nunca na história da humanidade existiu maior injustiça.

Mas deixemos a coitada de lado. A mera alusão me desagrada, e naquela noite encontrei quem me resgatasse das trevas. Dois dias depois, quando voltei pra casa, meu segundo compadre veio falar comigo, macambúzio como sempre.

“Ressaca é uma palavra muito fraca pra descrever o que estou sentindo. Acho que se não começar a maneirar na cana eu bato as botas”.

“Comeu água assim ontem?”

“Acumulado. Muitos dias de farra”.

Depois eu viria a contar pra ele sobre a minha.

“Esta semana estou passando pela grande ressaca moral e física do semestre. A verdade é que este semestre não fiz nada”. Depois que cheguei da viagem só comi água, gastei muito tempo e energia com as moças erradas, fiquei três meses sem assistir filmes e séries, vi só uns quatro jogos de futebol, li apenas um terço da quantidade de livros dos anos anteriores, mal acompanhei a New Yorker, a Piauí e o blog de Charlles Campos, escrevi no máximo uns quatro textos, não adiantei uma página sequer no romance policial que comecei a escrever em janeiro, tampouco bolei poesia ou narrativa, dormi menos, não fiz exercícios, trabalhei pouco, não juntei grana e meus projetos não passaram no edital.

“É isso. Deu pra mim também”, disse o compadre. “Só vou beber de leve daqui pra 2017. Depois pego pesado de novo”.

“Em dezembro vamos comer água com Chico, e tu sabe que não vai pegar leve”.

“Vixe. Não podemos fazer feio na frente do gaúcho”.

E nem adianta prometer o contrário. Não produzi nada no último semestre, mas, apesar do peso, das tretas, das merdas, não me arrependo. Passei muito tempo com AJ, fiz muitos gols, voltei a falar com as pessoas importantes com quem tinha perdido contato nos últimos anos. Fiz planos. Publiquei na Piauí novamente. Finalmente vi meu roteiro virar desenho. Li uns quadrinhos. Também conheci umas garotas legais. E comi água. Comer água é um fim em si. O escritor Kingsley Amis, que era considerado o maior beberrão deste país de pinguços chamado Inglaterra, dá a receita perfeita para a cura de uma ressaca:

“Mais ou menos ao meio-dia e meia, não hesite em recorrer ao veneno da véspera”

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O prêmio literário mais importante do mundo

Desta vez a cheerleader sueca botou pocando. Contrariando as expectativas, premiou um americano, gênio indiscutível, e conseguiu manter a tradição de incomodar os leitores do mundo. Bob Dylan é um dos meus heróis. Todos os anos revejo I’m not there, pra mim a melhor montagem do milênio. Dylan é único compositor que não tenho vergonha de tocar no violão em qualquer lugar. Eu imito Bob Dylan. Um dos personagens de meu romance é um guitarrista fanho que se apelidou Bob. Deixei cair um par de lágrimas quando recebi a notícia, e quem me conhece sabe que meus olhos são dois desertos. Mesmo assim, fiquei meio cismado quando soube que o Nobel acabou indo pra ele.

Não pesquisei a reação geral do povo da cultura, mas entre meus amigos leitores e seus amigos do Facebook, percebi alguns padrões. Quem não está muito ligado no mundo livresco adorou. Quem está, mesmo amando e reconhecendo a genialidade do bardo de Duluth, achou um absurdo o prêmio ir pra um cara que praticamente não tem livros escritos. Isso piora, se levarmos em conta o grande número de mestres da literatura que esperam pelo seu há anos. O mais notório é o americano Philip Roth, autor de pelo menos uma dúzia de obras-primas, que, com o Nobel de Dylan, provavelmente morrerá sem, já que há certa rotação entre as nacionalidades galardoadas (nunca o Brasil). Pior para o Nobel. A cheerleader sueca é uma besta quadrada. A piada do dia, que recebi mais de uma vez hoje, é que no futuro haverão de premiar blogueiros, tuiteiros, youtubers – ou que Roth receberá um Grammy.

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Por outro lado, a grande verdade é que, para o bem e para o mal, nunca vi tamanha reação a um anúncio do Nobel de Literatura. Compare a notícia da morte de Umberto Eco (não venceu) no começo deste ano com a de Dario Fo (venceu), hoje mesmo. Quando aquele desconhecido poeta sueco ganhou em 2011, ninguém deu ousadia. Quando Llosa merecidamente recebeu o seu em 2010, pouca gente de fora se importou. Conheço mesmo grandes leitores que até esses dias ainda apostavam em Llosa. Hoje não se fala em outra coisa que no Nobel de Dylan. Isso me lembra uma história que aconteceu em Salvador três anos atrás. Há muito tempo ocorre no Porto da Barra um sarau chamado Pós-Lida. Geralmente vai esse velho povo da cultura: poetas, contistas, professores, tradutores, cineastas, músicos. Não chamava muito a atenção, até que James Martins, o organizador, convidou um polêmico pagodeiro chamado Igor Kannário (recentemente eleito vereador), o que foi motivo de chacota e indignação da parte de gente que jamais pisara no sarau. A resposta de James foi inteligente: “O brilhante tradutor de “O Mal-estar na Civilização” esteve aqui em nossa primeira edição e a imprensa só resolveu me fazer alguma pergunta (mesmo assim em tom de fofoca) pra saber porque convidei Igor Kannario. Agora me respondam, a culpa é minha ou dele se nossas discussões são banais?” Por que me lembrei desta história? Apesar de ser o maior prêmio do mundo, o Nobel acaba de receber a mídia que nunca teve. Seria esta a intenção? Só acho que, se era pra premiar um gênio indiscutível de outra mídia, que fosse pelo menos Alan Moore, que acaba de lançar um romance gigantesco.

Enfim, emocionalmente, me senti realizado pela premiação de Robert Zimmerman, cujo nome artístico, por sinal, vem de um dos maiores poetas a não ganhar o Nobel. Racionalmente, me senti envergonhado com mais uma péssima escolha da academia sueca. Que seja. Pra Literatura não muda nada. Para a grande obra de Dylan, tampouco. Mas aos sedentos de justiça, saiba que há no mundo outro rei, este também eterno candidato, pra mim o melhor escritor vivo em atividade, que oferece um prêmio muito mais justo e independente que o oferecido pelo rei da Suécia. Quem quer conhecer o fino da literatura corrente tem que conferir é o Prêmio do Reino de Redonda, oferecido por Javier Marías, que jamais errou e ainda antecipou o Nobel em duas ocasiões.