O nosso irrevogável direito de não deixar mais ninguém falar

Não é novidade pra ninguém que quem vem à Bahia – de Salvador a Barreiras, mas em qualquer povoado ou cidade pequena eu já pude presenciar – tem que se acostumar a dividir seu espaço com gente mal educada, invasiva, seja na fila, no trânsito, na praia, em seu quarto, ou no banco da praça, lendo um livro bem quietinho, sem mexer com ninguém. Não posso afirmar com propriedade sobre as atitudes alheias nos outros estados. Mas na Bahia ninguém fica quieto em seu canto. Se você não quer ouvir a música altíssima do carro estacionado indevidamente à sua janela, o mais certo, na opinião de todos, é comprar fones poderosos ou se mudar de uma vez por todas. Aqui não há nenhuma lei seguida com a mesma dedicação que o ditado “os incomodados que se mudem”. Mesmo que ninguém esteja gostando do som. É a liberdade de expressão.

Dois eventos deste ano, no entanto, me parecem sintomas de algo mais grave: o brado solipsista como meio de acobertar o diálogo.

Quando começou a polêmica em que um grupo de músicos defende que as biografias deveriam precisar de autorização prévia dos biografados antes de serem publicadas, uma multidão emergiu em defesa da liberdade de expressão, achincalhando os artistas como censores mascarados com o escuro do capuz do carrasco – eles próprios vítimas de censura em seu tempo. Evidentemente, ninguém hoje em dia é doido de defender a “censura”. No máximo defenderão ideias que os outros chamarão de censura – mas eles jamais. Se excluirmos as mesas de bar e a Paula Lavigne, o debate me parece civilizado. Os dois lados expõem suas ideias, que pesamos de acordo com nossos próprios julgamentos.

E qual a ideia mais bonita dos defensores da liberdade de expressão, aquelas que são declamadas em alto e bom tom nos palanques e diante de crianças inocentes sentadas de mal jeito em carteiras escolares? Geralmente atribuída a Voltaire, está na verdade em uma carta enviada a ele por Evelyn Beatrice Hall:

Eu não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las.

Defendem nosso direito de dizer bobagem, mas o que aconteceu nestes dois eventos foi a interrupção agressiva do direito de falar – eu nem sei direito o que essas pessoas estavam afirmando quando foram interrompidas por estas turbas furiosas.

Em fevereiro deste ano, a famosa blogueira cubana Yoani Sánchez discursava num auditório em Feira de Santana, antes da exibição de um documentário, quando uma multidão de estudantes a proibiu de continuar. Tudo isto por causa de um texto que demonstrava como algumas de suas afirmações não condiziam com a realidade mensurável de Cuba. Além de sua estrondosa imperícia, Yoani Sánchez foi acusada de joguete dos americanos – de ser inocente demais. Atacaram-na como se ela fosse o próprio Fulgencio Batista.

E se, nesta Sierra Maestra da burocracia, resolvessem atacá-la fisicamente, concretizando seu medo real? Depois do linchamento cego todos iriam alegar inocência, que eram defensores dos direitos humanos e da liberdade de expressão, que o crime havia sido praticado por algum irmão ideológico violento, no momento em outra sala de interrogatório. Devemos, sim, refletir sobre as atitudes da moça, em contraponto com as informações do Salim Lamranium, mas proibi-la de falar é uma violação de tudo que temos defendido há muito tempo.

Coisa parecida aconteceu no último sábado na FLICA, em Cachoeira, quando outra horda enraivecida obrigou os organizadores a cancelarem dois debates programados para o sábado, por motivos de segurança dos convidados. Demétrio Magnoli, que é contra as cotas, foi acusado de racismo (será que, por ser contra aquela destruição de santos na visita do Papa, serei automaticamente um machista?); outro, Luiz Felipe Pondé, apenas por ser de direita. Me parece com o evento de Feira de Santana.

Állex Leilla, que faz a melhor comida vegetariana que já provei, ficou chocada com a cabeça de porco que levaram pra o protesto. Nem por isso saiu atacando os comedores de carne; ou pior: generalizando. Eu também não curti – o que não me torna um vegetariano. Quem quer ser ouvido tem que aprender a permitir que os outros também se comuniquem, ainda que suas opiniões lhes pareçam absurdas, horríveis, criminosas, grotescas, ofensivas, chocantes, brutais ou uma grande falta de educação. Se acham correto quebrar santos de gesso em praça pública – que o façam, se os objetos não pertencerem a mais ninguém, mas que limpem os farelos na rua depois; e que respeitem a opinião alheia quando virem fogueiras com os livros de Betty Friedan, pois a barbaridade se equivale.

Vinte Livros de Ensaios Imperdíveis (11-20)

Imagem

11 – Como Cozinhar um Lobo (Companhia das Letras) – M. F. K. Fisher

Publicado originalmente durante a Segunda Guerra Mundial, Como Cozinhar um Lobo é sobre a comida – ovos, sopas, bolos, peixes – nos tempos de escassez. Antes que me perguntem novamente, o “lobo” do título é a fome, aquela que sempre bate à nossa porta. Estes ensaios são preparados com grandes doses de informações, nacos de histórias e pitadas de receitas. Anos mais tarde, a autora ainda temperou o texto original com comentários sagazes.

12 – O Mundo Assombrado pelos Demônios (Companhia das Letras) – Carl Sagan

Muitos dos chamados divulgadores de ciência – Russel, Sacks, Jay Gould, Mlodinow, Dyson – são grandes ensaístas. Mas foi o astrônomo Carl Sagan quem mais se aproximou do cidadão comum. Além da série televisiva Cosmos, seus livros divertidos e instigantes sempre fizeram grande sucesso. Em O Mundo Assombrado pelos Demônios, seu objetivo é enterrar o analfabetismo científico e a crença cega em superstições. Ele aborda temas como bruxaria, satanismo, paranormais, OVNIs, ETs, com o olhar criterioso de uma investigação.

13 – O Livro dos Insultos (Companhia das Letras) – H. L. Mencken

Ferino e explosivo, o jornalista Henry Louis Mencken tinha aquilo que os ingleses chamam witty. Seus ensaios são de uma sagacidade embaraçosa – Mencken ataca tudo o que discorda ou lhe desagrada. No Livro dos Insultos, com ensaios, esquetes e aforismos selecionados por Ruy Castro, não importa o perfil do leitor: ele haverá de se sentir insultado de alguma maneira. Insultado, porém com inteligência; um insulto tão bem feito, que poderia ser tomado por elogio.

14 – Como Morrem os Pobres (Companhia das Letras) – George Orwell

George Orwell marcou a história da literatura com 1984 e A Revolução dos Bichos, mas também legou uma abrangente obra de não-ficção, apesar de não tão conhecida. Como Morrem os Pobres faz par com o livro Dentro da Baleia, e neles podemos descobrir a versatilidade do anglo-indiano, que fala de chá a assassinatos, de política à culinária, de jornais a lareiras, numa linguagem viciante. É impossível largar no meio um ensaio de Orwell.

15 – Contemporâneo de Mim – Daniel Piza

Piza foi um onígrafo, que é como designo quem escreve sobre tudo. Ele era imprevisível: discorre com estudo e propriedade sobre literatura, cidades, tecnologia, cinema, medicina, música, sociedade, história, política, pintura, etc., sempre com estilo, em sua linguagem aconchegante. Ele também amava futebol. No Questão de gosto está o melhor parágrafo que já li sobre Pelé. Em suas percepções, Piza encarna a elegância; em sua alegria por compartilhá-los, transverbera civilização.

16 – A Pessoa em Questão (Companhia das Letras) – Vladimir Nabokov

Sim, os quinze capítulos que compõem a famosa autobiografia de Nabokov são na verdade ensaios, originalmente publicados em revistas, numa ordem diferente. Reorganizados cronologicamente, estes proustianos mosaicos – textos vibrantes, coloridos, palpáveis – englobam seus primeiros quarenta anos de vida. Seus grandes interesses estão misturados: borboletas, trens, duelos, xadrez, idiomas, coleções, a família, poesia. Sua memória coordena a busca pelas “evidências conclusivas” de que ele existiu.

17 – Engolido pelas Labaredas (Companhia das Letras) – David Sedaris

O primeiro ensaio, sobre a histeria com higiene, induz as pessoas a sujarem a roupa com comida mastigada; outro, sobre uma visita a um necrotério, as faz cair da cama. Aquele sobre uma vizinha rabugenta causará gargalhadas que incomodarão a todos no ponto de ônibus, e não haverá nada mais embaraçoso. Por aí vai. Todos os livros de Sedaris são perigosamente engraçados; Engolido pelas Labaredas tem uma vantagem descarada sobre os outros: é o maior disponível.

18 – O Casaco de Marx (Autêntica) – Peter Stallybrass

Confesso que nutro preconceito contra o nome de Marx na capa. Nada contra a pessoa, mas contra os teóricos pedantes, os entusiastas que não o leram, e as edições chatas, abarrotadas de notas de rodapé. Mudei de opinião sobre este livro ao começar o tocante ensaio sobre uma jaqueta de beisebol que Stallybrass herdou de um amigo. E no final das contas, “O Casaco de Marx” é um texto magnífico sobre um homem, seu casaco e suas circunstâncias. A edição da Autêntica, única no mundo, ainda contém um ensaio sobre o ato de caminhar.

19 – Ficando meio Longe do Fato de Estar meio que Longe de Tudo (Companhia das Letras) – David Foster Wallace

Reportagens sobre uma feira rural, um cruzeiro e um festival de lagostas; Roger Federer; o riso; um discurso. Apesar do tema nem sempre atrativo, estes seis textos são muito interessantes. DFW é o pintor da vida pós-moderna; todos estes ensaios estão repletos de breves observações, pequenos insights, aparentemente despretensiosos, que, quando finalmente abstraídos, te derrubam da cadeira do ônibus. Como se sempre conhecêssemos estes pensamentos, sem saber formulá-los em palavras. Ovos de Colombo. Obviedades ululantes.

20 – Pulphead (Companhia das Letras) – John Jeremiah Sullivan

Sullivan sempre entra nos lugares de acesso restrito: o palco do Guns n’ Roses, uma caverna indígena, a produção de One Tree Hill, – ele fuma maconha com Bunny Wailer! (Há mais no livro). Mas não são tão poucas, as pessoas que o conseguem – e delas, quem fez uma obra tão carregada de interesse genuíno? Imagino os olhos curiosos de Sullivan perscrutando o universo. Em suas páginas não há vaidade. Não só os objetos são interessantes, mas também aquele que consegue decifrá-los.

Vinte Livros de Ensaios Imperdíveis (01-10)

Esta lista tem como principal critério unificador a escolha de livros publicados no Brasil. Quem confere uma lista não vai atrás apenas da confirmação de seus gostos, mas quer também descobrir novidades. Qual a graça de encontrar Cidadão Kane nos 10 primeiros do cinema? Todo mundo sabe que vai estar lá, junto com O Poderoso Chefão e Um Corpo que Cai… Ninguém aguenta mais ler aquele texto de meia lauda sobre Cidadão Kane nessas listinhas de revista. Por isso justifico apenas uma ausência, a de Michel de Montaigne, que está de fora porque todos já sabemos que é imperdível. Minha lista provavelmente carece de outros autores, que eu desconheço ou não couberam. Sugestões são bem vindas. Como poderão ver, tenho pendor para a diversificação temática; assim, tive que limitar o número de críticos e ficcionistas que praticaram o ensaio, muitos deles brilhantes, magníficos, geniais, mas que concentraram sua produção ensaística em áreas de especialidade. Mais exclusões serão discutidas ao longo dos textos. Não uso nenhum critério para a ordenação – certamente não estão por ordem de preferência, como muita gente espera.

01 – Ensaístas Ingleses (Clássicos Jackson V. XXVII) – Vários autores

O volume traz vinte e um ensaios de dezoito autores, como Samuel Johnson, William Hazlitt e John Ruskin, além de um esclarecedor prefácio escrito por Lúcia Miguel Pereira. Os assuntos se diversificam: tristeza, amizade, jardins, solteirice, morte de crianças, escrita, personalidades históricas. A maioria dos autores permanece sem mais nada traduzido no Brasil. A coleção tem ainda um volume dedicado ao ensaísmo norte-americano, com Poe, Emerson, Thoreau.

02 – Modesta Proposta (Editora UNESP) – Jonathan Swift

O ensaio satírico que batiza este livro é um dos mais famosos de todos os tempos. Como era hábito, ele precede um enorme subtítulo: “para evitar que as crianças dos pobres da Irlanda se tornem um fardo para seus pais ou para seu país, e para torná-las benéficas ao público”. Prefiro que o leitor descubra por si esta surpreendente proposta. Outros três textos completam a antologia, entre eles uma divertida meditação sobre um cabo de vassoura. O livro faz parte da luxuosa coleção Pequenos Frascos, junto com obras de outros ensaístas.

03 – A Decadência da Mentira (Imago) – Oscar Wilde

Quem já conhece as narrativas de Wilde pode intuir o teor destes quatro ensaios, que giram em torno da criação e da apreensão das artes. Com suas sentenças talhadas em mármore, Wilde dinamita tudo o que pode ser encaixado no senso comum. Dois ensaios são apresentados como longos diálogos filosóficos, sobre natureza ficcional das artes, e sobre a importância da crítica. Há um sobre Thomas Wainewright, crítico, pintor e envenenador e, por fim, um belo ensaio sobre a importância das vestimentas em Shakespeare.

04 – O Leitor Comum (Graphia) – Virginia Woolf

O título vem de uma citação de Samuel Johnson, que alega concordar com o leitor comum, pois ele não sofre do preconceito e do dogmatismo do aprendizado. É impossível dedicar indiferença a estes ensaios de Woolf sobre literatura. Mesmo que não conheçamos, queremos saber um pouco mais sobre Evelyn ou Beaumont e Fletcher. E quando ela discorre sobre nossos velhos amigos, como Montaigne ou Conrad, lhe reservamos na estante aquela vaga de fácil acesso, em que o sol nunca bate diretamente.

05 – Ex Libris: Confissões de uma Leitora Comum (Zahar) – Anne Fadiman

Apesar de sua dedicação quase que exclusiva ao gênero de Montaigne, Fadiman produziu apenas dois livros de ensaios, frutos de um trabalho minucioso, o equilíbrio perfeito entre memória, paixão e pesquisas avassaladoras. Em Ex Libris, ela parte da mesma frase de Johnson para montar uma apaixonada coleção de ensaios sobre temas relacionados com a leitura: dedicatórias, sesquipedais, sebos, canetas tinteiro, mastigação de páginas, casamento de estantes. E seu outro livro, At Large and at Small, é tão bom que me dá ganas de mudar os critérios desta lista; continua inédito no Brasil.

06 – O Tempero da Vida (Graphia) – G. K. Chesterton

Chesterton foi um gênio natural, automático, – como Picasso ou Beethoven – que deixou um legado pantagruélico, com milhares de artigos e ensaios, centenas de contos, e alguns romances, poemas, peças, biografias, desenhos. Os ensaios de O Tempero da Vida estão separados por cinco blocos temáticos: literatura em geral; livros específicos; religião; viagens; cotidiano. Todos repletos de aforismos sagazes e ideias interessantes, transbordantes da alegria infantil que o caracterizava. Recentemente foi lançado no Brasil o Tremendas Trivialidades.

07 – Mitologias (Bertrand Brasil) – Roland Barthes

Mitologias é uma reunião de pequenos ensaios que, no todo, montam uma crítica ao vazio da burguesia francesa e uma virulenta interpretação da cultura de massa. Mesmo construído a partir de elementos cotidianos – vinho, detergentes, brinquedos, luta livre, filmes, plástico –, curiosamente, Barthes não deixa espaço para o humor. Escreve sempre com seriedade (às vezes excede nos galicismos pós-modernos), e ainda assim é um livro muito agradável. Ele serve de modelo ao Banalogias, do brasileiro Francisco Bosco.

08 – Viagem à Terra das Moscas (Companhia das Letras) – Aldo Buzzi

Em suas viagens, escrito após seus oitenta anos, Buzzi pouco nos mostra sobre os lugares por onde passou. Em vez disso, fala de modo aleatório sobre o que dá vontade, “do queijo gorgonzola à vodca russa, dos clubes ingleses às prisões siberianas, dos seios de Joana de Aragão ao mausoléu de Lênin”, como quem passeia sem planos, num saboroso fluxo de consciência, “seguindo os caprichos do olfato, da gula e da erudição”.

09 – Alhos e Bugalhos (Nova Fronteira) – Gilberto Freyre

Estes ensaios devem ser lidos com lerdeza. Numa sequência imediata, podem parecer repetitivos suas menções a Portugal, Inglaterra, Pernambuco, José Lins do Rego, batidas de pitanga e a palavra “telúrico”. Mas talvez nenhum grande intelectual brasileiro declarou tão enfaticamente sua filiação com o ensaísmo. Freyre descarrega sua paixão ao alternar assuntos prosaicos e literários, como cachaça, Marx, cartões postais, Joyce, Recife, obscenidades.

10 – O Álbum Branco (Nova Fronteira) – Joan Didion

Durante a década de 60, Didion estava no olho do furacão, a Califórnia. O Álbum Branco é sua lírica, caótica, e tateante tentativa de compreender aqueles tempos. Enquanto fala de consumismo, revolucionários, mansões e mesmo sobre distribuição de água, seus ensaios pessoais estão povoados por gente como Jim Morrison, Sam Peckimpah, Huey Newton e a Sra. Reagan, que vêm e vão como se estivessem num Shopping Center.