Esboço de amor em SP

Texto que escrevi para um exercício proposto por Joca Terron. Não sabia o que fazer com ele depois, e Geórgia me sugeriu postar no blog. Trata-se de um texto absolutamente ficcional: aqui não há um pixel que seja biográfico, não ficcional, auto-ficcional, até mesmo mera coincidência. Apenas a citação de Cervantes é um retalho desse tecido esfarrapado que a gente chama de realidade.

Esboço de amor em SP

“Eu não vim do nordeste pra tropeçar na calçada da Avenida Paulista”, eu dizia.

“Eu não vim do nordeste pra beber catuaba”, dizia você.

“Eu não vim do Nordeste pra ver o Corinthians vencer”, eu dizia.

“Eu não vim do Nordeste pra tomar bolo desses cafajestes”, dizia você, ganhando a disputa.

Difícil competir. Desconheço indivíduo mais agourento. No dia mais frio o chuveiro queimou com você no banho. “Na Inglaterra as crianças tomavam banho gelado de manhã cedo pra ‘desenvolver o caráter’”, eu disse quando você saiu. Depois de vinte e cinco flexões e quarenta abdominais pra suportar a chuveirada, também desenvolvi o caráter: entrei Macunaíma, saí Salomão. “Nem na ditadura usavam uma água gelada desse jeito”, disse você, tremendo ainda.

Posso até ser azarado, mas você tem o dedo podre. Foi no cinema com um francês e ele quis pagar seu uber pra não dormir contigo. Eu não cheguei a chamar pra sair a estudante de RI de cabelinho chanel que falava “eventualmente” e não me contou o que estava lendo, e “nisso de amores quem perde a ocasião perde a ventura”, disse Miguel de Cervantes. Você deu match com um canalha que escapou do boteco na cocó sem pagar a própria conta. Eu demorei pra reconhecer a cachaceira da revista independente.

“Por mim os mexicanos metiam pimenta em tudo e quem não aguentasse que fosse tomar milk shake”, eu disse.

“Daqui uns dias os japoneses vão oferecer sushi queimado”, disse ela.

“Os pés-sujos cerveja sem álcool”, eu disse.

“Espetinho de carne de soja”, disse ela.

Você jantou com um milionário que tentava esconder seus affairs das redes sociais, mas não escondia muito bem. Eu saí com uma jovem que ainda não havia bebericado de sua cota do sumo venenoso da vida. Seu casal de amigos tocou fogo um no outro por ciúmes e você finalmente descobriu aquilo que todos intuímos, que talvez a paixão não seja uma coisa assim tão boa.

E eu fiquei de ressaca e você tomou banho de arruda; e assisti no cinema a um filme húngaro genial que jamais terei saco para rever e você colocou na estante um santo de cabeça para baixo; e me era insuportável a ideia de morar com alguém que não tinha lido Pílulas Azuis e você me levou pra andar de bicicleta; e eu lia de uma vez todos livros que conseguia carregar porque meus dias estavam contados e infinita era a lista de obras que existiam somente naquela biblioteca e você pulou de paraquedas; e minha maior aventura foi almoçar o prato de ovo cru no coreano caro e você tatuou o “fail better” de Beckett com a naturalidade de alguém que apenas corta o cabelo.

E o amor em algum outro lugar – uma ausência latejante. Um dia apareci com uma conversa sobre uma menina mais velha que eu: a pálida pele de Vênus, o erre duro, Stella Artois, Elena Ferrante, as bochechas vermelhas de frio, ela delicada como um netsukê: talvez estivesse apaixonado.

Ou eu entre duas paredes de concreto num vagão imóvel na Linha Azul falando pelo celular sobre como estou desgraçadamente apaixonado, apaixonado igual ao eu-lírico do forró de Santana, eu queimando eu me roendo – e você pior, pois o carinha se mandou pra África do Sul, as suas amigas mais próximas estão todas na Bahia, e você não quer falar disso comigo, pois eu sabia que você esperava mais.

Talvez nem seja sofrimento o meu, porque não me sinto infeliz, mas se for é dos mais inúteis, pois não me serve nem como fonte para um roteiro tal qual o de Medianeras ou Frances Ha ou Annie Hall a ser produzido pela RT e nos deixar confortáveis por uns meses, pois se for sofrimento é um sofrimento platônico, se é que isso existe, um sofrimento insuficiente, insignificante, estagnado.

Você pensava em aprender a nadar, a fazer origami, em começar uma horta, em voltar pro Sertão, em fazer balé e rapel, em se demitir, em engravidar, em signos, em coisas para jogar no story do Instagram e falou com amargura que terminou muito cedo o que tinha pra fazer naquele dia.

Então percebi que nada te assusta mais que a perspectiva de um horizonte vazio.

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Trecho que traduzi de Finnegans Wake

Shize? I should shee! Macool, Macool, orra whyi deed ye diie? of a trying thirstay mournin? Sobs they sighdid at Fillagain’s chrissormiss wake, all the hoolivans of the nation, prostrated in their consternation and their duodisimally profusive plethora of ululation. There was plumbs and grumes and cheriffs and citherers and raiders and cinemen too. And the all gianed in with the shoutmost shoviality. Agog and magog and the round of them agrog.

Oushem! Tum visse? Macool, Macool, cê morreu porra quê? por quintentar abstemanhã? Lamentuniaram no faltalino velório de Fillaganho, todos os barbagundos da nação, prostrados em sua consternação e sua pletora de ululação duodizimalmente profusa. Tinha canhadores e garçãos e poliças e cifrarristas e escriratas e filécinos também. E todos se muntaram com clamaiorosa jovibilidade. Agoga em roda se agrogavam a mogar.

Contradições cotidianas (II)

Sequência de notas que evito deixar no face. A explicação detalhada pra isso e a primeira parte podem ser lidas aqui.

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Jamais boicotaria o Habib’s. Isso demandaria o consumo prévio da gororoba.

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Uma fala de Gus, da série Love, da Netflix: “Se em Friends Ross faz uma referência a Duro de Matar, isso significa que, no universo de Friends, Duro de Matar existe como filme, certo? Mas então por que quando Bruce Willis aparece depois, como o pai da namorada de Ross, todos os amigos não ficam: ‘puta que pariu, esse cara parece demais com Bruce Willis em Duro de Matar!’, ein?” E aí é que tá! Os caras falam tanto de Uber e Airbnb na série que até parece propaganda. Mas num universo em que eles existem enquanto aplicativos famosos, por que os personagens não falam nada da Netflix, ein? Mickey até vê Duro de Matar no PC, uma maneira de sinalizar a questão, mas no mundo real as pessoas usariam a palavra “Netflix”. O motivo, que também ajuda a explicar a indagação de Gus, é que o pouco que perdem em verossimilhança é recompensado com elegância. Quem aguentaria os personagens da Netflix falando da Netflix?

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Fora Temer nos discursos, Fora Temer nos grafites, Fora Temer nos perfis, Fora Temer nas estampas das camisas de marca. Fora Temer é o novo Che Guevara.

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Charles Cosac: “Fiz coisas horríveis¹ em bibliotecas. No mestrado, em Essex, descobri que mudando o livro de lugar poderia ter todos os livros que quisesse. Fiz minha biblioteca dentro da biblioteca, no departamento de química. Espero que ninguém faça o que fiz”.

Isso mostra quão por fora está o ex-editor. Frequento duas bibliotecas, uma pública e uma particular, e os livros que pesquiso no site, se existem, estão todos eles disponíveis. O leitor brasileiro simplesmente não precisa se preocupar em esconder um livro numa biblioteca, porque sabe ser uma coincidência demasiado improvável que alguém mais se interesse por ele.

¹ Sério? Pensei em coisas muito piores.

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Os elementos da felicidade são (C6H10O5)n, C2H6O e C8H18, necessariamente separados.

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O couro é o ouro dos outlets. Os vendedores tentam passá-lo adiante como se fosse a nova armadura de Aquiles. “Uma blusa como essa dura a vida inteira!” E assim saio da loja encapuzado, bem aquecido, me sentindo capaz de enfrentar a Guerra da Síria. Em poucos anos estarei lá novamente. Sempre enterrei minhas jaquetas esfarrapadas…

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Alguns setores não entram em crise em tempos interessantes como o nosso. Produção de notícias, administração de redes sociais e o humor. Sim, você não precisa ser nenhum Groucho Marx pra encher seu portfólio, sendo que até eu penso numa dezena de piadas todos os dias, sem nem me esforçar. Dá e sobra pra fazer sátira, paródia, escracho, boutade, tirinha, cartum, máximas, stand up, gag, esquete, videozinho de YouTube. Por outro lado, os ficcionistas tão lascados… A piada óbvia que ainda não vi foi uma montagem de Bolsonaro bela, recatada e do lar. Mas a coragem e a audácia de nossos deputados na verdade deve ser aplaudida. Que Ustra que nada! Votaram em nome de Deus poucos dias após a confirmação da ameaça de terrorismo no Brasil. Allahu akbar… (Aos incautos, a frase anterior é irônica, tá?) Mas quem sou eu pra dizer qualquer coisa? Depois da ressurreição de Raduan Nassar, eu acredito em TUDO.

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Ontem descobri que os canalhas de meus amigos andam falando bem de mim pelas costas.

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Quase morri de rir quando ouvi dizer que uns Policarpo Quaresmas da vida querem transformar o Halloween em “Dia do Saci e seus amigos”, pra gente não “pagar pau pra gringo”. Mas o que há de errado com “Dia das bruxas” (tradição ficcional milenar que passa por Homero, Shakespeare e pelo brasileiríssimo Lobato)? E muito mais importante, quem por acaso tem medo do saci? Qual criança acorda aterrorizada com ele? Falemos de nossos medos infantis. Meu pai e meus tios viveram na roça até a adolescência, no escuro, sem luz, e tinham medo era de defunto, de cascavel, de lacraia, e de minha avó (que é um anjo na Terra). Já eu cresci na cidade e durante a infância nutri certo terror que só faz aumentar conforme envelheço, que é o medo de sequestro e de assalto à mão armada. Portanto taí minha sugestão, genuinamente nacional, baseada num personagem cujo potencial aterrorizador brasileiro algum haverá de negar: DIA DO ASSALTANTE COM ARMA DE FOGO.

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Você sabe que a coisa tá feia é quando começa a depositar as suas esperanças no Amor e na Literatura.

Sobre a escrita

Ontem comentei com a professora Silvana Salerno que eu apreciava a leitura de livros sobre a escrita, e ela me perguntou se eu podia lhe fazer uma listinha. Pensei neste blog às moscas, coitado, então resolvi soltar aqui esses comentários apressados. São obras sobre estilo, narrativa e formação intelectual. Por sinal, meu texto favorito no blog é sobre o assunto: A declarar nada. Conforme o hábito, evitei livros inéditos no Brasil, e sei de muita coisa que (ainda) não li, como Vida de escritor, de Talese, O Arco e a Lira, de Paz, o Guia de Escrita de Pinker ou Comunicação em prosa moderna, de Othon M. Garcia. Também evitei gramáticas e livros sobre narrativa em outras mídias, que podem ser bastante úteis. Convido quem conhecer algo mais a postar suas sugestões nos comentários. Por fim, não posso deixar de informar que você pode substituir esses livros por uma leitura atenta dos melhores ensaios de Montaigne ou da primeira parte de No caminho de Swann, por exemplo.

 

Itinerário de Pasárgada – Manuel Bandeira

Partindo de sua infância, nosso grande poeta traça sua biografia intelectual. Conta anedotas, como quando pegou um bonde com Machado de Assis, explica porque se arrependeu de ter publicado um poema-piadinha, fala quais livros foram importantes em sua formação e discute suas próprias técnicas. A biographia literaria é um gênero pouco popular entre nossos escritores; essa de Bandeira é fundamental.

A tradução vivida – Paulo Rónai

Nascido Rónai Pál, na Hungria, Rónai teve que vir ao Brasil para escapar da Segunda Guerra Mundial. Aqui, se tornou um dos maiores intelectuais do país. Poliglota, coordenou a tradução da Comédia Humana, de Balzac (em 16 volumes!), e junto com Aurélio Buarque de Hollanda traduziu os contos que compõem a coleção Mar de Histórias. Nesse livro, ele faz o mesmo que Bandeira, porém sobre a função de tradutor.

Ex-Libris – confissões de uma leitora comum – Anne Fadiman

Grande coleção de ensaios sobre o amor aos livros em todos os seus aspectos. Escrevi sobre ele aqui.

Cartas a um jovem poeta – Rainer Maria Rilke

No comecinho do século XX, Rilke recebeu uma carta de um jovem lhe perguntando o que fazer para se tornar poeta. Após algum tempo, a troca de correspondência entre os dois praticamente se transformou numa gigantesca série de debates sobre a literatura, a vida, a morte, e o que é importante no meio disso tudo.

 

A arte da ficção – David Lodge

O romancista tinha uma coluna de jornal em que, quase sempre a partir de uma citação, discutia aspectos formais da criação literária. Nesses cinquenta textos curtos, que podem ser lidos isoladamente, ele põe em pauta assuntos como narrador, personagem, gêneros, ponto de vista, e tudo mais.

Confissões de um jovem romancista e Seis passeios pelos bosques da ficção – Umberto Eco

Umberto Eco tem por aí vários textos sobre como escreveu seus livros. Confissões de um jovem romancista é uma maneira organizada de falar disso, com algumas revelações estimulantes. Fundamental, no entanto, é a série de palestras que compõe Seis passeios pelos bosques da ficção, em que ele discute, numa linguagem gostosa e acessível, a arte da narrativa literária e percepções da realidade através da leitura.

Para ler como um escritor – Francine Prose

A ficcionista, que também é professora de criação literária, propõe aqui que os aspirantes a escritores façam uma close reading, leitura atenta, minuciosa, de grandes textos. O método seria um modo de tentar desvendar nuances e possibilidades de uma palavra, uma frase, um parágrafo e aprender como os mestres faziam. O que uma quebra de parágrafo pode dizer? Contar ou mostrar? O livro flui muito bem, e os exemplos de Prose são formidáveis.

 

Como funciona a ficção – James Wood

Partindo da literatura “realista” do século XIX, principalmente de Flaubert, o badalado crítico de literatura da New Yorker discute, nessas saborosas notas curtas, os mecanismos do texto que fazem a ficção ser interessante e verossímil. Destaque para as notas de rodapé completamente gratuitas e imperdíveis, como sua lista de personagens xarás de autores famosos ou o catálogo de metáforas que os grandes autores usaram mais de uma vez.

Sobre a escrita – Stephen King

Mistura de memórias, biografia literária e ensaio, nesse livro um dos escritores mais populares do mundo expõe seus métodos de trabalho, explica porque odeia advérbios e conta, por exemplo, que começou a escrever por causa de uma infecção no ouvido. A prosa fluida e elaborada deste livro é a prova de que, mesmo em seus momentos duvidosos, o homem sabe o que está fazendo.

Os ensaios de George Orwell

Espalhados nos livros Dentro da baleia e Como morrem os pobres, entre textos sobre assuntos diversos, apenas por “A política e a língua inglesa”, uma divertidíssima aula de estilo, Orwell já merecia entrar nesta lista. Mas ele também discute os motivos para se escrever (o primeiro, diz ele, é a vaidade), nos fala porque não aguentou trabalhar num sebo e, acima de tudo, foi o mais interessante debatedor das funções do escritor enquanto agente político.

schopenhauer
A arte de escrever – Arthur Schopenhauer

Schopenhauer foi um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. Nessa seleção de ensaios de seu livro Parerga e Paralipomena, nosso ranzinza favorito desopila sua bile para cima dos costumes literários de sua época. O resultado são textos hilários sobre a linguagem, a escrita e a leitura. Se pudesse, diz ele, condenaria os maus escritores a levar chibatadas em praça pública.

forsterAspectos do romance – E. M. Forster

Nesse clássico sobre a arte da escrita, o famoso romancista inglês discute aspectos formais da criação ficcional, com destaque para uma célebre distinção entre personagens redondos e achatados. Talvez algumas coisas soem meio datadas para leitores pós-tudo, mas vale dar uma olhada.

Outras listas de livros:

Os dez livros que TODOS devem ler

Vinte livros de ensaios imperdíveis

Off-10 – meus livros desconhecidos favoritos

Baforadas nos Andes

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Já está disponível na íntegra meu último texto publicado na Piauí. Desta vez falo sobre a cansativa subida até Machu Picchu. Durante a pesquisa para escrevê-lo, descobri que o sítio peruano tem algo a ver com o sítio de Central, aqui na Bahia, sobre o qual escrevi no começo do ano. Assim que tiver tempo, escrevo sobre isso aqui no blog.

Confira também minhas outras colaborações.