Baforadas nos Andes

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Já está disponível na íntegra meu último texto publicado na Piauí. Desta vez falo sobre a cansativa subida até Machu Picchu. Durante a pesquisa para escrevê-lo, descobri que o sítio peruano tem algo a ver com o sítio de Central, aqui na Bahia, sobre o qual escrevi no começo do ano. Assim que tiver tempo, escrevo sobre isso aqui no blog.

Confira também minhas outras colaborações.

A declarar nada

Segundo os anais da estilística, durante suas aulas de latim, o filósofo Erasmo demonstrava diversos modos de escrever a frase “sua carta me agradou bastante”. Podemos usar palavras do cotidiano (“gostei muito de sua carta”), litotes (“não me desagradou”), exagero (“a melhor coisa do mundo”), erudição (“vossa epístola muito me comprouve”), entre incontáveis maneiras. Se não pudéssemos, a arte da escrita estaria travada. Disse André Gide que “tudo já foi dito, mas como ninguém escuta é preciso repetir sempre”. Os escritores estão sempre a se repetir, mas de maneiras novas.

As metamorfoses de Erasmo, entretanto, só se aplicam a frases usuais. Certas sentenças são tão marcantes, proverbiais, intraduzíveis, que é impossível futucar nelas sem causar algum prejuízo: as aliterações bissilábicas de César (Veni, vidi, vinci), o Eclesiastes, Shakespeare, um witticism de Wilde (Work is the curse of drinking classes) ou de Millôr (O dinheiro não é só facilmente dobrável como dobra facilmente qualquer um), uma frase de Joyce (They lived und laughed ant loved end left); o alexandrino de Racine (Le jour n’est pas plus pur que le fond de mon coeur) sobre o qual Bandeira comentou: “este verso é um diamante; eu não sei traduzir diamantes”.

Porém a frase matadora não aparece para qualquer um. Escritores brilhantes, inúmeros, esperam por ela em vão. As modas emperram seu despertar. Além dos incansáveis apelos politicamente corretos para que evitemos palavras como “índio” e “esquimó”, a escrita na era digital tem seus vícios específicos. Pedir desculpas após uma figura de linguagem, por exemplo. Sendo um leitor literal (desculpa o pleonasmo e a aliteração), tenho um pé atrás (desculpa o clichê) com quem pede muitas desculpas (desculpa a metalinguagem). Uma indiscrição que não passa de um charme irônico, uma maneira descolada de ressaltar algo que simplesmente podemos escrever de modo direto: “por levá-los a sério, não aprecio tantos pedidos de desculpa”.

Outra mania em voga é a de se justificar como amadora qualquer tradução, independente de quão simples. “Um hábito comum entre literatos de épocas diversas é o de maldizer a decadência de seu idioma, um infortúnio que, de acordo com todos eles, calha sempre de acontecer exatamente em sua geração; um anacronismo circular semelhante àquele que em Meia Noite em Paris afligira os artistas da chamada lost generation – ‘geração perdida’, numa tradução livre”. Utiliza-se o “numa tradução livre” para as frases e expressões mais elementares, que não oferecem muitas possibilidades e quase sempre pedem apenas uma única e rígida tradução.

Hesitasse assim Nelson Rodrigues e jamais perceberíamos que “o sucesso do inimigo é tão doloroso quanto uma canivetada”. Impossível imaginá-lo se desculpando por generalizar, ao afirmar que “a pior forma de solidão é a companhia de um paulista”. Tais demonstrações de insegurança são apenas bijuteria e, ainda assim, apesar de inúteis, contêm algum brilho. A frase absolutamente opaca demanda mais sangue e suor. Veja esta passagem de O Mal de Montano, romance tão excitante quanto uma manhã de segunda:

Fui descobrindo que classe de escritor eu era, e também a não saber quem era, ou melhor, a saber quem eu era mas só um pouco, assim como meu estilo literário é tão somente um resíduo extremo, mas isto sempre será melhor que nada, e o mesmo pode se aplicar à minha existência.

Tendo em vista ser bem difícil escrever algo que não tenha ao menos uma imagem, ideia, ação, metáfora, piada, diálogo, tempo, reconheçamos o mérito de Vila-Matas. Sua frase tilinta como garrafas abandonadas num beco. Nada acontece, não há o mínimo fiapo de vida. A partir desse comentário, a única coisa que podemos inferir sobre esse narrador é que, além de inseguro, ele é um chato.

Enquanto muitos habitantes do mundo das letras dão valor sincero à pompa, a linguagem empolada e inexata existe para ludibriar o interlocutor, fazer permear a dúvida, distraí-lo, conduzi-lo com suavidade ao assunto conveniente. Recorrem a ela o político mentiroso, o jurista mal intencionado, o jornalista desonesto, o acadêmico flagrado em erro, o amante malandro, o empresário que tem algo a esconder. Quando confrontado por Bernardo Esteves sobre o recorde de casos de dengue em 2015, Antônio Nardi, do Ministério da Saúde, respondeu que “o dever de casa por parte dos poderes públicos muitas vezes não foi suficiente para a evitabilidade do mal maior”.

George Orwell criticaria, no mínimo, o sujeito longo, o nebuloso “muitas vezes não foi” em vez do cristalino “poucas vezes foi”, e o burocrático neologismo “evitabilidade”, que parece emprestado do jargão administrativo (ou do técnico Tite). Poderia ter dito que “fizemos apenas o dever de casa, o que não foi suficiente para evitar o mal maior”, porém correria o risco indesejável e desnecessário de ser prontamente compreendido. Numa passagem antológica do ensaio em que discute questões como essa, “A política e a língua inglesa”, Orwell adapta um trecho do Eclesiastes:

Voltei-me para outra direção e vi, debaixo do sol, que a corrida não é dos velozes, nem, dos fortes, a guerra; nem, dos sábios, o pão, nem dos instruídos a riqueza, nem dos prudentes a graça, pois todos dependem do tempo e do acaso.

Que no inglês moderno ficaria assim:

A consideração objetiva dos fenômenos contemporâneos obriga a conclusão de que o sucesso ou o fracasso em atividades competitivas não exibe nenhuma tendência a ser proporcional à capacidade inata, mas que um considerável elemento de imprevisibilidade deve invariavelmente ser levado em conta.

A adaptação desidrata o versículo; suga seu sangue, corta sua eletricidade. Desprovido dos exemplos, o versículo perde sua cor, como uma grande árvore cujas folhas acabaram de cair. Trata-se, evidentemente, duma paródia, que Orwell utiliza para discutir a decadência de seu idioma nativo. Curiosamente, ela é citada numa obra de teor semelhante, Elements of Style, o popular manual de estilo de William Strunk e E. B. White. Num verbete em que também o cita, Helen Sword enumera algumas funções do jargão, tais quais “demonstrar erudição”, “provar domínio sobre conceitos complexos”, “desafiar o raciocínio de seus leitores” e “brincar com a linguagem”, e termina com um alerta contra seu “sedutor poder de iludir, ofuscar e impressionar” – aparentemente sua principal função, tendo em vista o grosso da literatura acadêmica contemporânea. O poeta Paulo Henriques Britto, assim como Orwell, a parodia num soneto de Tarde:

  1. CIT., PP. 164-65
  • “No poema moderno é sempre nítida
  • uma tensão entre a necessidade
  • de exprimir-se uma subjetividade
  • numa personalíssima voz lírica
  • e, de outro lado, a consciência crítica
  • de um sujeito que se inventa e evade,
  • ao mesmo tempo ressaltando o que há de
  • falso em si próprio – uma postura cínica,
  • talvez, porém honesta, pois de boa-
  • fé o autor desconstrói seu artifício,
  • desmistifica-se para o leitor-
  • irmão”. Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,
  • em doze heptassílabos, já disse o
  • mesmo – não, disse mais – muito melhor.

Mas, ao contrário do autor britânico, Britto não deixa tão claro o que parodia. Sabemos provir de Pessoa, mas de que, exatamente? Quais são os heptassílabos que dizem o mesmo, mais, muito melhor? O que significa? Por tratar-se de um dos poemas mais famosos do poeta lusitano, talvez seja mais o caso de relacioná-los, que de simplesmente conhecê-lo. Sua primeira estrofe já é o suficiente para compreendermos a ironia:

  • O poeta é um fingidor
  • Finge tão completamente
  • Que chega a fingir que é dor
  • A dor que deveras sente.

Agora precisamos reler a paródia para captarmos suas nuances. Veja como o poema fica inesperadamente divertido, após percebermos suas reais intenções. Podemos equipará-lo com o melhor de notórios parodistas como Swift, Joyce ou Borges. Desde o título, Britto satiriza a linguagem acadêmica pós-moderna, essa carne fria que mastigamos sem conseguir engolir. A citação entre aspas, um gigantesco enjambement formado por palavras grandes, é uma brincadeira medida e rimada com essa linguagem prolixa, esnobe, vazia e sem personalidade – “um polvo esguichando tinta”, de acordo com Orwell.

Recentemente, recebi no celular a foto de um texto marcado com caneta verde-limão. Era uma citação de Pierre Bourdieu, um escritor-síntese do pós-modernismo francês – o incrível senhor que não hesitou em proferir que “a melhor maneira de falar claramente consiste em falar de modo complicado”. Na citação, ele afirma que,

Numa sociedade diferenciada, não se trata apenas de diferir do comum, mas de diferir diferentemente, e por conseguinte, a lógica das inversões do para e do contra acaba engendrando tais convergências, como por exemplo entre a simplicidade simples dos “simples” e a simplicidade elaborada dos refinados.

Uma obra-prima do esnobismo intelectual que parece mais produto do Fabuloso Gerador de Lero-Lero. Posso até ver os acadêmicos bolsistas de barbas trançadas, óculos grossos, calças laranjas e camisas de lenhador, a se vangloriarem mutuamente por conhecerem essa sopa de letrinhas insípida e turva. Buscar compreendê-lo é como ir a uma missa para tentar sarar de uma ressaca – possível, mas não recomendável.

Pedi a alguns amigos de humanas que me explicassem-na, caso fosse possível, mas tampouco foram capazes de entendê-la direito. Algumas semanas depois, encontrei uma frase do jornalista Daniel Piza que, com apenas duas linhas, acredito dizer basicamente o mesmo: “Temas ditos eruditos podem ser tratados com leveza, sem populismo; temas ditos de entretenimento podem ser tratados com sutileza, sem elitismo”. Não, disse mais – muito melhor.

O que podemos aprender com o Bispo Bienvenu

Tenho o mau hábito de ler os caras de direita, que escrevem melhor, e de bater papo com os de esquerda, que conversam melhor. Aí outro dia li no facebook um comentário de um eminente intelectual de direita, penso até que era editor ou escritor, pesquisador, talvez. O cara dizia coisas interessantes; pensava, e não apenas repetia, sem aquela enrolação de Power Rangers e coisa e tal, mas veio com algo assim: “Antônio Fernando Borges talvez seja o melhor escritor de sua geração, mas antes preciso averiguar se ele é de direita”. Eis a síntese da estupidez de nossos intelectuais, de leste a oeste.

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Crise? Nisso os franceses são mestres. Em vez de coreografias, santos quebrados, e gente xingando muito na internet, querelas entre pessoas de opiniões divergentes não raramente acabavam em pólvora e sangue. Uma vez, um sujeito foi atacado por uma multidão por causa de uma opinião, e terminou cozido e devorado (os canibais foram devidamente enforcados depois). Desde a Revolução de 1789, quando foi inventado a esquerda e a direita, os franceses ocasionalmente se veem divididos. Danton ou Robespierre, império ou república, Dreyfus ou anti-Dreyfus, colaboração ou resistência. Victor Hugo entendeu isso como poucos, e criou seus personagens não como estereótipos que se definem de acordo com essas escolhas, mas como pessoas reais com diversas nuances. Logo no começo de Os Miseráveis, ele nos apresenta ao homem mais generoso do mundo, o bispo Bienvenu Myriel, um sujeito tão bondoso que era capaz de defender o bandido que acabara de roubá-lo logo após ele oferecer-lhe uma grande ajuda. Havia apenas um homem que ele não gostava, e nele o bispo concentrava todo o seu desprezo. Tal homem, o octagenário G., que por toda sua vida havia defendido ideias opostas às de Bienvenu, vivia sozinho. Tendo recebido a notícia de que ele estava nas últimas, a obrigação do ofício fez com que o bispo, ainda que de malgrado, o visitasse. O que ele descobriu? Que, defendendo ideias que ele acreditava monstruosas, G. era um homem virtuoso. Sua essência bondosa, ainda que por caminhos diferentes, era a mesma.

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Nossas opções políticas e ideológicas são apenas uma parte de nós. Somos muito mais. Ninguém merece apanhar por isso. Se você não gosta, é só parar de seguir.

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Vivemos, no Brasil, uma França bárbara – uma França sem os poetas, os cozinheiros e os pintores. Nosso violento maniqueísmo, este diminuto demônio que até a Copa das Confederações só pensava em futebol, escapuliu-se para o cotidiano. Em um texto esclarecedor, Eliane Brum explica o fenômeno. Guardávamos para nós e nossos próximos nossas ideias mais desprezíveis, e não parecíamos tão selvagens ao vizinho com quem nos encontrávamos no elevador. Com as redes sociais, a cortina desabou. Só que em vez de nos refrearmos para não ofender nossos amigos, passamos a fazer o oposto; criamos uma máquina acusadora, absolutamente parcial, contraditória, aleatória e descontrolada. Reivindicamos o direito de julgar qualquer um que se atreva a passar diante de nossa mira. Agora, às vésperas de uma guerra civil, tendo chegado ao ponto de sairmos da frente do PC para gratuitamente agredir aqueles passantes que parecem pensar de modo diverso, é hora de perguntar: como você julgaria a obra de Shakespeare se ele fosse petista? Um Beethoven tucano agradaria a seus ouvidos? Muito fácil responder, quando a pessoa em questão morreu há tanto tempo. Mas e se, em vez de Shakespeare e Beethoven, usássemos nomes de artistas vivos que manifestam suas ideologias?

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Isto é engraçado, independentemente de sua orientação política.

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Rodrigo Constantino, um dos arquitetos intelectuais da guerra civil, e que provavelmente estará tomando margaritas na Flórida quando a pólvora começar a queimar por aqui, recentemente publicou uma lista com os nomes de artistas e intelectuais a serem boicotados por quem deseja livrar o Brasil da corrupção (sim, faz sentido pra certas pessoas). Nomes muitos deles inevitáveis em nossa cultura, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Laerte e Wagner Moura. Tal lista, escrita em seu tradicional estilo hiperbólico e bajulador (ele fala exatamente o que seus leitores querem ouvir), um amontoado de expressões batidas (seu legado intelectual), é a encarnação do que há de mais estúpido nisso tudo que vivemos, que é o desejo de transformar o outro num monstro, num nazista, como meio de justificar a necessidade de atacar estranhos gratuitamente. Paulo Nogueira, apesar de mais comedido, seria seu nêmesis, seu oposto, o Constantino de esquerda.

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Isto é impressionante, independentemente de sua orientação política.

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O complexo de vira-latas ainda está entranhado em nossa psique. Wagner Moura, brasileiro, é atacado despudoradamente por gente como Constantino, mas bastou que uma franzina atriz de Hollywood lhe contasse uma piadinha, e Bolsonaro – o terrível Hitler tupiniquim, o pica das galáxias, “ando-armado-e-não-tenho-medo-de-ninguém” – não soube o que fazer. “Não estou entendendo nada”, disse, dando um patético risinho envergonhado de pré-adolescente e colocando o rabo entre as pernas. De frente com uma mulher mais bruta, uma Lena Dunham, o coitado sairia com as calças borradas. Compare sua malvadeza com a de Trump; este topetudo Majin Boo Criança não hesitaria em transformá-la em biscoito antes de engoli-la.

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Isto é belo e profundo, independentemente de sua orientação política.

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Olavo de Carvalho, um dos intelectuais de direita que sempre reclamaram da arte influenciada pela ideologia, é incapaz de apreciar uma canção de Chico, apenas porque ele é petista. E antes que os intelectuais de esquerda me levantem em seus braços, lhes lembro que vocês fizeram o mesmo com Lobão. Ninguém nunca gostou dele, é bem verdade, mas antes disso tudo aí, quase todo mundo gostava de suas músicas.

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Isto é interessante, independentemente de sua orientação política.

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O infame Constantino, com sua habitual falta de noção, se anuncia como um novo “McCarthy”. Em minha inocência, de primeira pensei que o cara se comparava ao McCarthy de Meridiano de Sangue: “que presunçoso”. Mas é pior. Constantino se compara ao McCarthy da censura, aquele que dizia que os quadrinhos acabariam com as mentes das crianças. Logo em seguida foi bloqueado por sete dias pelo “facebook petralha” do qual tanto depende. Esbravejou como um cão barulhento que torce para que jamais alcance o carro. Ser censurado é a coisa mais engraçada que poderia acontecer com um cara que se anuncia como “o novo McCarthy”. Não me aguentei quando vi os furiosos comentários desse Policarpo Quaresma da ignorância. Genuinamente divertido, mas também uma barbaridade. Há algo maior em questão. Não tendo cometido nenhum abuso da lei, o fanfarrão do Constantino deveria ter todo o direito de publicar suas baboseiras.

Textos relacionados:
O nosso irrevogável direito de não deixar ninguém mais falar
Os polos horizontais
Algo de podre nos dois lados da maçã

Os deslizes metalinguísticos de Orwell e Ruy Castro

George Orwell, num de seus ensaios mais famosos, “A política e a língua inglesa”, demonstra alguns problemas da escrita de sua época. No texto, que é mais divertido que o título faz parecer, Orwell reclama que geralmente “a voz passiva é usada em lugar da ativa”. Não sei dizer se a frase é irônica, mas prefiro acreditar que ele cometeu um deslize metalinguístico, ao usar a voz passiva para criticar o uso da voz passiva.

Semana passada, encontrei um deslize metalinguístico de um dos maiores escritores de não ficção do Brasil. No volume A Palavra Mágica, que junto com A Canção Eterna compõe o livro Letra e Música, Ruy Castro reúne crônicas sobre a escrita. Uma delas, “O autor de inéditos”, é uma crítica a expressões como “Dalton Trevisan acaba de ganhar um prêmio literário com um livro de contos inéditos”. O problema estaria em ressaltar o ineditismo dos contos, o que Ruy sugere ser redundante. Ele segue:

Isso demonstra a grande coerência de Dalton. Quando ele estreou na literatura, em 1959, com “Novelas Nada Exemplares”, já era um livro de contos inéditos. Depois veio “Cemitério de Elefantes” (1964), idem, de inéditos. Em seguida, “Morte na Praça” (1964) e a obra-prima “O Vampiro de Curitiba” (1965), ambos também de inéditos. E assim continuou, até hoje. Desde cedo Dalton encontrou sua forma ideal de expressão: escrever contos inéditos.

É claro que não foi o primeiro a fazer isso. Antes dele, Shakespeare já escrevera uma peça inédita, “Hamlet” (c. 1600); Edgar Allan Poe, o poema inédito “O Corvo” (1845); e James Joyce, o romance inédito “Ulisses” (1922). Sem falar em Machado de Assis, Lima Barreto, Marques Rebelo. Parece que escrever inéditos é uma mania dos escritores. Os poucos que fugiram a essa regra –ou seja, escreveram coisas não inéditas– arriscaram-se a processos dos autores originais.

Tudo que um autor escreve deve sim, ser inédito, mas nem tudo o que ele publica. O engano está em achar que “inédito” deve se referir apenas a “livro”. Trevisan pode reunir em livro os contos publicados em revistas ou jornais, talvez na internet, e quem sabe até ganhar prêmios com eles – livros inéditos de contos éditos. Podemos até publicar romances inéditos de capítulos éditos. Dickens, Dumas, Machado, e a maioria dos romancistas do século XIX fizeram assim. E aí está a metalinguagem: o próprio livro de Ruy Castro, A Palavra Mágica, jamais havia sido publicado, era inédito; as crônicas, porém, já estavam todas na Folha, editíssimas. Um deslize metalinguístico, portanto, não muito diferente do de Orwell.

Soterrados pela poeira da glória

Será possível produzir literatura no Brasil depois de A Poeira da Glória? Lançado em outubro, o livro de Martim Vasques da Cunha propõe uma provocadora releitura de nosso cânone, como meio de radiografar uma degeneração moral presente na alma e na identidade brasileira. De acordo com o ele, os clássicos são encarados no Brasil – seja por um estudante, um intelectual ou um cidadão comum, – com “medo ou reverência”. Sua intenção é fazê-lo com honestidade, independentemente do prestígio ou influência da obra.

Particularmente formidável na narração de anedotas que marcaram as biografias de artistas e pensadores, Martim Vasques é um dos melhores críticos culturais do país. Fundador da revista Dicta & Contradicta, e atualmente publicando no jornal Rascunho, ele escreve com conhecimento e profundidade sobre áreas diversas, – literatura, cinema, música, política, história, teologia e filosofia –, interligando-as quando conveniente, sem deixar enfraquecer a fluência e a contundência de sua prosa.

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No ambicioso A Poeira da Glória, Martim examina nossa literatura com o despudor de um Samuel Johnson. A primeira crítica se dirige a ninguém menos que o patriarca de nossas letras, Machado de Assis. Seu diagnóstico inicial é chocante: “estes livros não correspondem a uma realidade vivida e experimentada de fato – mas a uma enigmática criação literária que só permanece por sua autonomia estética e que disfarça a superficialidade do autor”. Euclides da Cunha, por sua vez, seria infectado pela estetização da realidade, Lima Barreto devorado pelo ressentimento, Sérgio Buarque de Holanda contaminado pelo fetichismo do conceito, os modernistas envenenados pelo coletivismo cultural, Antônio Candido por preterir a realidade em nome da ideologia. Quase ninguém está a salvo da metralhadora conceitual de Martim Vasques. Em comum, todos eles teriam se recusado a se confrontar com o “abismo” que cada um possui dentro de si; falta a eles uma “imaginação moral”.

Tanta liberdade e desprendimento, entretanto, abrem vazão para leituras equivocadas. A primeira delas está justamente num texto de capa, que por sua vez foi adaptada da orelha escrita pelo jornalista Fábio S. Cardoso: “O livro que até mesmo o politicamente incorreto considerou imprudente”. De onde vem esta frase? Quem seria esse politicamente incorreto que considerou o livro imprudente? A impressão é que, devido ao teor da obra, na impossibilidade de chamá-la pelo vendável “O guia politicamente incorreto da literatura brasileira”, optou-se por algo mais discreto, mas ainda assim atrativo ao leitor que entrou por acaso na livraria.

Na orelha, Cardoso ainda afirma: “de Machado de Assis a Daniel Galera (…), são poucos os que se salvam”. E num comentário compartilhado pelo autor antes do lançamento, declara-se que “adoradores de Machado de Assis vão chorar. Seguidores do modernismo também. A Poeira da Glória, de Martim Vasques da Cunha, é um liquidificador que mói a mediocridade e separa o trigo do joio. Seus maiores heróis são Nabuco, Cecília Meirelles, os Inconfidentes, Rosa e Otto Lara Resende. Sobrou muita chibatada para os ídolos”. Tal citação faz o livro parecer – tendo em conta que, apesar da postura negativa, ela funcionou como propaganda – um paredão de reality show, e que Martim Vasques é uma espécie de Aldo Raine da literatura brasileira. Ou pior: que gerar polêmica é a principal finalidade do cartapácio.

Poder-se-ia argumentar que tais declarações têm o único e nobre intuito de plantar a expectativa no leitor, que compraria o livro e, logo, ampliaria seu alcance; mas elas são frutos do próprio ressentimento, ironicamente destrinchado no mesmo. Martim não considera descartáveis os autores “moídos” por ele, e faz questão de reconhecer as qualidades dos escritores que destrona. Não foi incluído quem não tenha sido de alguma forma notável. A Poeira da Glória é perturbador exatamente porque escrito com a seriedade de quem leu tudo de um autor antes de escrever a primeira linha sobre ele. Suas ideias são argumentadas e fundamentadas com centenas de referências e alusões (por sinal, o livro carece demais de um índice onomástico). Veja: “[Euclides da Cunha e Lima Barreto] são gênios, sem dúvida, mas quem disse que o Brasil precisa apoiar-se somente nos ‘homens da inteligência’?” O sentido está claro, mas o propósito está além.

A grande verdade é que, por mais que concorde com a argumentação, não deixarei de apreciar Machado, Euclides, Lima Barreto ou Raduan Nassar, e creio que poucos o farão com os autores de que realmente gostam. No máximo, e mesmo assim por pouco tempo, se tornarão guilty pleasures. Como nos ensaios de Theodore Dalrymple ou Joseph Epstein, temos aqui um minucioso estudo que, apesar da fluidez de best-seller, é digerido lentamente. É possível discordar de Martim Vasques, porém jamais acusá-lo de leviano ou desonesto. Não se deve confundir a polêmica como meio de chamar a atenção (o comentário de Paulo Coelho sobre Ulisses), e a polêmica como reação natural a uma publicação inesperadamente subversiva.

Martim parodia Orwell e brinca com a possibilidade: “Tenho certeza de que, enquanto escrevo as primeiras linhas do último capítulo deste livro, seres humanos extremamente cultos, lidos e esclarecidos tentarão me matar. Ou talvez não. Talvez não aconteça absolutamente nada”. Não poderia estar mais errado. De acordo com as postagens em seu perfil no Facebook (e o autor honesto há de optar entre não compartilhar nenhuma crítica, ou compartilhar qualquer uma, inclusive as desfavoráveis), ao menos neste primeiro momento, ele não encontrou nem o silêncio absoluto, nem a ira assassina dos rivais. Encontrou, em vez disso, a concórdia – a glória (às vezes com ressalvas).

E o maior equívoco de muitos de seus leitores está em acreditar que este rosário de denúncias só esteja dirigido ao outro, seja porque não leu, seja porque discordou – um engano semelhante ao da internauta que enfrenta o machismo com ferocidade, mas é incapaz de percebê-lo em suas próprias atitudes. Concordar com uma denúncia não nos isenta de ser alvo dela. Está explícito em muitos dos comentários elogiosos uma afinidade pessoal, intelectual ou política com o autor – como se ser de direita ou de esquerda, morar em São Paulo ou no Maranhão, acreditar ou não em Deus, gostar ou não de Lavoura Arcaica, pudesse nos livrar de escrutinar o “fundo insubornável do ser”. Eis um dos engodos da inteligência. A exortação de Martim Vasques não se dirige a grupos específicos, mas a cada um, inclusive a ele mesmo: “Todos os literatos e intelectuais do Brasil, sem exceção (inclusive este que profere tal sentença), sofrem da doença da estupidez e acreditam que são parte de uma elite – mas não passam de uma ralé”. É preciso antes retirar a trave do próprio olho.

Curiosamente, a reação mais interessante das publicadas em seu perfil proveio de um pedido dele mesmo. Nicolau Olivieri, num texto muito bem humorado, termina por admitir que “seu livro não foi simples. Foi difícil. Não pela questão teórica ou pelas alusões não pescadas ou pela densidade, mas pelo confronto. Lendo o Poeira, como eu disse, eu me senti parte integrante, quando não um entusiasta, do esteticismo e da dissimulação, da recusa, enfim da falsidade e absoluta ausência de coragem para enfrentar meus próprios abismos”. Se a maioria dos leitores que entenderam o livro não se sentir do mesmo jeito, estamos diante de uma onda de insinceridade, ou, sem ironia, talvez o país não esteja indo assim tão mal. E se Dalrymple e Epstein estiverem certos, talvez alguns dos problemas apontados por Martim não sejam tão específicos ao Brasil. Será possível produzir literatura depois de A Poeira da Glória?

Sim, porém sempre há mais a ser considerado.