Os Sem-Boca, a Bandeira da Síria

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, tanta ideia misturada, que às vezes me perco e me esqueço de divulgar aqui.

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Ilustração: Amine Barbuda

Finalmente saiu a nova edição da Revista Barril, da qual agora sou editor de literatura, além de continuar como colaborador. Nessa edição, publiquei a tradução de um conto atordoante do francês Marcel Schwob, Os Sem-Boca. Nem preciso dizer para conferir os outros textos da revista, que está linda. Caso queira conferir o que já publiquei lá antes, é só clicar neste link.

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Poucos dias depois, saiu meu último ensaio no Blog do IMS, A Bandeira da Síria em seu Perfil, Dessa vez escrevo sobre a guerra disfarçada do Brasil, e sobre como nossa resistência caótica não dará conta de freá-la se assim continuar. Confiram também os outros ensaios que publiquei lá.

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Somos todos críticos

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Em meu último texto para o Blog do IMS, Somos todos críticos, eu catalogo algumas das diversas formas de feedback, do elogio de mãe ao insulto gratuito.

Antes, já havia publicado o ensaio Declínio e queda do esprit d’escalier, sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato, e Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, a desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

 

O vazio, o Satanás, o esprit d’escalier

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Publiquei umas coisas nas últimas semanas, mas andei ocupado demais pra divulgar por aqui. A revista Barril, de Salvador, republicou o texto mais legal que já escrevi neste blog, o ensaio A declarar nada, sobre a linguagem empolada, os textos vazios, o que caracteriza os discursos que, por excesso, acabam por não dizerem muita coisa. Antes, já saiu lá O direito de interpretar Hamlet, em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural, e ano passado saiu A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; sempre tem muita coisa foda lá.

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Pouco depois, o brasiliense Danilão, o cara mais legal do Facebook, me convidou para escrever na lindíssima Revista Seca. Mandei uma série de notas estranhas com as quais estava trabalhando na época, para um curso de escrita com Paloma Vidal. Em Plurais, mudanças, objetos essenciais, falo sobre a primeira pessoal do plural num ensaio de Virginia Woolf, apresento minha versão do Satanás e discorro sobre minhas mudanças e os objetos realmente essenciais.

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Por fim, semana passada saiu um ensaio que fiz para o Blog do IMS, Declínio e queda do esprit d’escalier, o texto que me deu mais trabalho pra escrever este ano, e também meu favorito. Entre um monte de coisas, cito um ex-presidente, parodio uma hashtag famosa e evoco Laranja Mecânica ao discorrer sobre línguas ferinas, enfants terribles, ideologias perigosas, escritores arrependidos, redes sociais, assassinato. Quem quiser, pode também conferir o primeiro texto que publiquei lá, há alguns meses, Atravessar a rua com o sinal fechado, sobre a “calistenia anarquista”, desobedicência civil, e o jeitinho brasileiro.

O direito de interpretar Hamlet

Na última edição da revista Barril saiu um ensaio meu em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural. Confira também este ensaio que publiquei lá ano passado, A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas, e esta crítica algo ensaística de uma peça que vi este ano. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; tem muita coisa massa lá.

Esboço de amor em SP

Texto que escrevi para um exercício proposto por Joca Terron. Não sabia o que fazer com ele depois, e Geórgia me sugeriu postar no blog. Trata-se de um texto absolutamente ficcional: aqui não há um pixel que seja biográfico, não ficcional, auto-ficcional, até mesmo mera coincidência. Apenas a citação de Cervantes é um retalho desse tecido esfarrapado que a gente chama de realidade.

Esboço de amor em SP

“Eu não vim do nordeste pra tropeçar na calçada da Avenida Paulista”, eu dizia.

“Eu não vim do nordeste pra beber catuaba”, dizia você.

“Eu não vim do Nordeste pra ver o Corinthians vencer”, eu dizia.

“Eu não vim do Nordeste pra tomar bolo desses cafajestes”, dizia você, ganhando a disputa.

Difícil competir. Desconheço indivíduo mais agourento. No dia mais frio o chuveiro queimou com você no banho. “Na Inglaterra as crianças tomavam banho gelado de manhã cedo pra ‘desenvolver o caráter’”, eu disse quando você saiu. Depois de vinte e cinco flexões e quarenta abdominais pra suportar a chuveirada, também desenvolvi o caráter: entrei Macunaíma, saí Salomão. “Nem na ditadura usavam uma água gelada desse jeito”, disse você, tremendo ainda.

Posso até ser azarado, mas você tem o dedo podre. Foi no cinema com um francês e ele quis pagar seu uber pra não dormir contigo. Eu não cheguei a chamar pra sair a estudante de RI de cabelinho chanel que falava “eventualmente” e não me contou o que estava lendo, e “nisso de amores quem perde a ocasião perde a ventura”, disse Miguel de Cervantes. Você deu match com um canalha que escapou do boteco na cocó sem pagar a própria conta. Eu demorei pra reconhecer a cachaceira da revista independente.

“Por mim os mexicanos metiam pimenta em tudo e quem não aguentasse que fosse tomar milk shake”, eu disse.

“Daqui uns dias os japoneses vão oferecer sushi queimado”, disse ela.

“Os pés-sujos cerveja sem álcool”, eu disse.

“Espetinho de carne de soja”, disse ela.

Você jantou com um milionário que tentava esconder seus affairs das redes sociais, mas não escondia muito bem. Eu saí com uma jovem que ainda não havia bebericado de sua cota do sumo venenoso da vida. Seu casal de amigos tocou fogo um no outro por ciúmes e você finalmente descobriu aquilo que todos intuímos, que talvez a paixão não seja uma coisa assim tão boa.

E eu fiquei de ressaca e você tomou banho de arruda; e assisti no cinema a um filme húngaro genial que jamais terei saco para rever e você colocou na estante um santo de cabeça para baixo; e me era insuportável a ideia de morar com alguém que não tinha lido Pílulas Azuis e você me levou pra andar de bicicleta; e eu lia de uma vez todos livros que conseguia carregar porque meus dias estavam contados e infinita era a lista de obras que existiam somente naquela biblioteca e você pulou de paraquedas; e minha maior aventura foi almoçar o prato de ovo cru no coreano caro e você tatuou o “fail better” de Beckett com a naturalidade de alguém que apenas corta o cabelo.

E o amor em algum outro lugar – uma ausência latejante. Um dia apareci com uma conversa sobre uma menina mais velha que eu: a pálida pele de Vênus, o erre duro, Stella Artois, Elena Ferrante, as bochechas vermelhas de frio, ela delicada como um netsukê: talvez estivesse apaixonado.

Ou eu entre duas paredes de concreto num vagão imóvel na Linha Azul falando pelo celular sobre como estou desgraçadamente apaixonado, apaixonado igual ao eu-lírico do forró de Santana, eu queimando eu me roendo – e você pior, pois o carinha se mandou pra África do Sul, as suas amigas mais próximas estão todas na Bahia, e você não quer falar disso comigo, pois eu sabia que você esperava mais.

Talvez nem seja sofrimento o meu, porque não me sinto infeliz, mas se for é dos mais inúteis, pois não me serve nem como fonte para um roteiro tal qual o de Medianeras ou Frances Ha ou Annie Hall a ser produzido pela RT e nos deixar confortáveis por uns meses, pois se for sofrimento é um sofrimento platônico, se é que isso existe, um sofrimento insuficiente, insignificante, estagnado.

Você pensava em aprender a nadar, a fazer origami, em começar uma horta, em voltar pro Sertão, em fazer balé e rapel, em se demitir, em engravidar, em signos, em coisas para jogar no story do Instagram e falou com amargura que terminou muito cedo o que tinha pra fazer naquele dia.

Então percebi que nada te assusta mais que a perspectiva de um horizonte vazio.

Trecho que traduzi de Finnegans Wake

Shize? I should shee! Macool, Macool, orra whyi deed ye diie? of a trying thirstay mournin? Sobs they sighdid at Fillagain’s chrissormiss wake, all the hoolivans of the nation, prostrated in their consternation and their duodisimally profusive plethora of ululation. There was plumbs and grumes and cheriffs and citherers and raiders and cinemen too. And the all gianed in with the shoutmost shoviality. Agog and magog and the round of them agrog.

Oushem! Tum visse? Macool, Macool, cê morreu porra quê? por quintentar abstemanhã? Lamentuniaram no faltalino velório de Fillaganho, todos os barbagundos da nação, prostrados em sua consternação e sua pletora de ululação duodizimalmente profusa. Tinha canhadores e garçãos e poliças e cifrarristas e escriratas e filécinos também. E todos se muntaram com clamaiorosa jovibilidade. Agoga em roda se agrogavam a mogar.