O sol há de brilhar mais uma vez

Estamos todos esmorecidos e esgotados, ninguém aguenta mais, e não vislumbramos perspectiva de que isso acabe. O ar está denso, não é preciso ser Tirésias para prever nosso futuro. Ontem peguei um ônibus mais lotado que a manifestação do elenão e – pelo menos onde ando – percebi aquele clima de derrota em Copa. Uma mulher falava ao celular sobre uma pessoa que simplesmente chorava e chorava, e essa é a sensação geral – ao menos em quem ainda resta algum bom senso. A vantagem da burrice é que ela repele a melancolia de qualquer tragédia que não seja imediata. Na verdade, creio que negarão a existência da peixeira quando ela estiver em seus próprios pescoços. Já estão fazendo isso.

Cansado, desativei o Face por uns dias, e segunda-feira comecei a ouvir minha playlist de música clássica, quando chegou em “Clair de Lune”, de Debussy. Eu sempre gostei dela, porque é linda mesmo, só por isso, mas segunda ela me pareceu mais bela que nunca, porque, pensei, esses animais podem fazer a merda que quiserem, mas jamais serão capazes de destruir a beleza de “Clair de Lune”. Vocês entendem a força disso? Essas bestas jamais poderão destruir o prazer que sinto com uma música, que sentirei ao me lembrar dela, que eles mesmos são incapazes de sentir, e é por isso que têm tanto medo da arte e dos artistas. No mesmo dia, li a tradução de um conto magnífico de Ursula K. Le Guin, feita por um colega meu, em que ela diz:

O problema é que nós temos um mau hábito, encorajado por pedantes e sofisticados, de considerar a felicidade como algo um tanto estúpido. Somente a dor é intelectual, somente o mal é interessante. Essa é a traição do artista: uma recusa em admitir a banalidade do mal e o tédio terrível da dor. Se não consegue triunfar sobre eles, una-se a eles. Se dói, repita. Mas elogiar o desespero é condenar o deleite, abraçar a violência é perder todo o resto.

E é isso! Devemos nos apegar ao que nos dá prazer, ao que nos empolga, e isso é uma forma de resistência, e afinal a resistência não deixa de ser um ato estético; então percebi uma coisa que não acontece mais, não sei se uma das causas ou consequências dessa tristeza nacional: paramos de compartilhar coisas simplesmente porque achamos legais, para que outras pessoas também sintam prazer com elas. Sem ser para ostentar, ofender, divulgar o próprio trabalho, convencer alguém de algo; compartilhar algo apenas porque é belo ou massa, e talvez os amigos não conheçam. Ainda é possível, talvez ainda seja possível até com aquele amigo ou parente que defende ideais repugnantes, mas ainda curte coisas parecidas.

O Brasil não vai deixar de ser um lugar triste e nem vai perder do nada seu futuro tenebroso, mas já foi pior. O Brasil tampouco vai acabar, e por isso a arte faz cada vez mais sentido; devemos nos agarrar com toda força ao que eles não podem destruir. Finalmente entendi aquela frase famosa; e se não podemos nos entregar, tampouco podemos nos embrutecer, perder a ternura. Primeiro pensei em deixar aqui uma lista de obras que me empolgam, que pode ir de Serj Tankian berrando “disorder, disorder!” a Nelson Cavaquinho anunciando que o “sol há de brilhar mais uma vez”, a abertura de The Fall, uma página de Marcelo D’Salete, um poema de Iessiênin ou um daqueles sois de Antônio Carneiro.

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Logo depois li um textão de Eliane Brum e ela diz que:

Temos que ser contra e ao mesmo tempo ir tecendo um projeto de futuro, tanto no plano pessoal como no coletivo. Um projeto de futuro onde possamos viver. O presente no Brasil não será possível sem voltar a imaginar um futuro. É preciso compreender que criar um futuro serve muito mais ao presente do que ao próprio futuro. Não dá para viver vendo pela frente apenas horror ou vazio. Tem que sonhar fazendo. Sonhar com um país, sonhar com uma vida. É pelo desejo que nos humanizamos. Resistir nas próximas três semanas é principalmente desejar uma vida viva – vivendo uma vida viva. Se conseguirmos, voltaremos a ganhar mesmo antes de ganhar.

E, apesar de começar a montar uma playlist para ouvir no apocalipse, desisti da tarefa, porque as pessoas se empolgam com coisas diferentes, fora que não me empolgo apenas com obras de arte, mas também com uma gargalhada de Maria Flor, um witticism de Antônio, um shot de tequila, um filé diferente, em fazer um gol. A lista sempre muda, mas o princípio dela permanece. Não estou falando para nos alienarmos, pararmos de militar, de brigar, de discutir, de nos preocupar com os canalhas ou com quem não tem acesso a nada disso, e sim para resistirmos também em nossa rotina. Devemos ouvir música, decorar poemas, jogar futebol, contar piadas, desenhar, beber cachaça, fazer amor, planejar viagens. NÃO PODEMOS DEIXAR ESSES FILHOS DA PUTA NOS DESTRUIR.

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Resquícios de civilização

Mesmo nas civilizações supostamente mais desenvolvidas, a barbárie está sempre à espreita. Dos filósofos humanistas aos antropólogos, dos relatos dos exploradores aos romances distópicos, frequentemente somos lembrados de quão próximos estão esses extremos. Confira meu último texto para o Blog do IMS. Confira também os outros que publiquei lá antes.

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Refutação a Lavoisier

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Não faz uma semana eu estava lendo Civilização de Kenneth Clark e escrevendo um texto sobre como precisamos enfrentar a barbárie, sobre como precisamos defender as conquistas da civilização, e pensando em como é difícil fazer isso no Brasil. Aqui não há espaço para o livre-pensamento, pois mesmo os pensadores mais alheios às notícias são obrigados – pelas circunstâncias, porque é inevitável – a desviar suas ideias para algo comezinho. Aqui não dá para manter uma investigação civilizatória, contínua, de longa duração, porque o Brasil é o satanás do mundo e não vai te dar tranquilidade, não vai parar de fazer perguntas imbecis, e a cada semana jogará em sua cara uma, duas, três tragédias – Marielle, Paissandu, chacinas; Boate Kiss, Mariana, Chapada Diamantina, tudo relativizado pelos idiotas da objetividade, como se fosse possível relativizar a destruição –, para não mencionar o desastre cotidiano que é nossa política, que é o convívio com o próximo, tudo sendo dissolvido metodicamente, e agora mesmo eu preciso trabalhar e não consigo pensar em outra coisa além do incêndio no Museu Nacional. Quando soube, de imediato pensei no esqueleto de preguiça-gigante da cidade de Central, em meu sertão baiano, sobre o qual há dois anos fiz uma matéria em que um guia me falava com decepção que havia a promessa de ele ser devolvido à cidade; pensei em como lhes disseram que não poderiam mantê-lo lá, e por isso precisavam levá-lo para o Rio de Janeiro, e em como isso pode até ser justificável, por um lado, pois mais gente haverá de ter visto o esqueleto, estando ele no Rio – porém quase ninguém de minha região, eu mesmo jamais vi e verei –, mas pensei ainda em como muitos habitantes da própria cidade ignoram as migalhas que eles deixaram no Museu Arqueológico de Central, e em como eles mesmos vandalizam as pinturas rupestres do Riacho Largo, que não podem ser transportadas para metrópole alguma. Então penso na Agulha de Cleópatra coberta por centímetros de fuligem em Nova York, em Benim reclamando seus artefatos históricos que estão nos museus europeus, e em Poussin sendo restaurado no MASP, e sei que para alguém de fora faria mais sentido viajar ao Rio que a Central para ver uma preguiça-gigante – e realmente não sei o que pensar dos museus, mas, definitivamente, prefiro tê-los que não tê-los. Então penso nos cinquenta anos de O Bandido da Luz Vermelha, e em como os nossos problemas continuam exatamente os mesmos, e penso numa revistinha da Turma da Mônica que li em 1992, e em como os nossos problemas continuam exatamente os mesmos, e vejo a Pedra de Bendegó, sobre a qual havia lido num paradidático em 1998, o pedregulho encontrado no Monte Santo, mesmo local onde os soldados da república se instalaram durante a Guerra de Canudos, e vendo o meteoro intacto, imponente, isolado em meio às ruínas do museu, me é inevitável pensar que o sertanejo é mesmo um forte, antes de tudo, porém nossos problemas continuam exatamente os mesmos, e penso que o brasil é uma grande refutação a Lavoisier, pois aqui tudo se perde e nada se transforma, e penso em como é triste ser obrigado a pensar nisso tudo.

O Efeito Salenko

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Ilustração: Amine Barbuda

Depois de concluída a tragédia, pensamos sempre em como ela poderia ter sido evitada. Um centímetro a menos de trave ou a mais na espessura da linha do gol, a posição do pé contra a bola num chute decisivo, o impedimento mal marcado. “Se aquela bola…”

Ensaio um tanto amoroso sobre perrengues estatísticos e minha experiência assistindo Copas, na Barril. Para conferir minhas outras colaborações para a revista, clique aqui.

Cotidianas

Para não se perder nesse buraco negro do insight que é o Facebook, volta e meia reúno aqui as contradições cotidianas de que falo lá. Esta já é a quarta série. (Procurem as outras, I, II e III). Como nos últimos tempos Temer pediu ajuda ao PT, manifestantes levaram bala dos militares por pedir intervenção, e a assassina Suzane von Richthofen anunciou com empáfia que não era petista, ando pensando em rebatizar a série por “cotidianas”. (Sim, esta é uma delas).

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Imagine que você está andando sozinho num beco sinistro. O que você prefere encontrar?
1-Um cão raivoso

2-Uma onça faminta

3-Um bandido armado

4-Um policial violento

5-O Satanás

6-Um chato da internet

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“Daqui a 50 anos perceberão a cagada que fizeram”. Duvido; somos o “daqui a 50 anos” de 1968.

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Há três anos, numa atribulada manhã de sábado, meu filho, que na época tinha dois anos, me escutou comentar com a mãe que eu o levaria comigo à Irevel, onde tinha que resolver um problema no carro. Tinha de ir a muitos lugares, na verdade, e se o levasse comigo à Irevel simplesmente seria mais rápido. Não podia imaginar que ele faria birra durante toda a jornada: queria ir para a Irevel. Um inferno: Irevel! Irevel! Irevel! Não falava outra coisa, e eu entendia tanto quanto suportava (nada), até que finalmente o levei à Irevel. Quando chegamos, ele disse que lá não era a Irevel, que a Irevel era muito diferente, a Irevel era muito melhor. E o choro aumentou. Demorei a entender, mas o bichinho estava pensando que a Irevel era nome do parquinho aonde ele sempre ia naquele horário. Me diz se não parece com esse povo aí, clamando por uma intervenção militar achando que ela será uma Irevel?

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“O medo que ele tem é de deixar ainda mais evidente o que já deveria ser óbvio para todo mundo: ele não tem nem proposta nem preparo para se aventurar a ser presidente. Não vou nem entrar aqui no mérito de esquerda ou direita: ele é fraco até mesmo para o que se propõe” Douglas Utescher, no Facebook. É o que digo desde sempre. Se concordasse com a política dele, discordaria de ser com ele. JB fica nessa conversinha toda, mas nem precisamos de uma invasão zumbi – basta um tiroteio, desses corriqueiros no Brasil, pra ele se mostrar (ainda mais) o cagão que é. JB conversa, mas tremelica vendo Rambo. JB é o menino que brocha na primeira vez. JB é Higuaín na cara do gol na Final da Copa. JB se borra todo para dar uma pedrada numa lata enferrujada em cima de uma cerca. Mas JB conversa, como esse moleque conversa.

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Dois auto-enganos análogos: “nunca mais eu bebo” e “não compro mais nenhum livro até terminar de ler esses que comprei agora”. Até aguento ficar sem comprar livro até dar uma baixada substancial na pilha, por outro lado, não há engano, quando vou pra Bahia eu como mais cana que irlandês que saiu da cadeia, que russo em despedida de solteiro, que cigano no velório da mãe.

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A galera que sai por aí acusando quem “votou” em Temer, pode ver, votou em Aécio. Se vocês acham que está ruim com Temer, podem ter certeza que estaria bem pior com o mineiro. Apenas imaginem um Temer com o respaldo da eleição. O vampirão pelo menos precisou do golpe, o que por si é motivo de ira, de “fora Temer” dos dois lados. Se Aécio tivesse vencido, pode acreditar, antes da Olimpíada já teríamos chegado a esta lama onde estamos agora. (Mas o poço é mais fundo, e a culpa é sua, que votou em Aécio, tirou Dilma, se informa com o MBL e vai votar no fanfarrão do JB.)

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“Um jornal que publicasse, por definição, apenas notícias falsas não mereceria ser comprado (a não ser por intenção cômica); (…) jornais e horários de trem estabelecem com os usuários um pacto implícito de veracidade, que não pode ser violado salvo dissolução de qualquer contrato social. O que acontecerá se o principal instrumento de comunicação do novo milênio não for capaz de instaurar e controlar a observância deste pacto?” Umberto Eco, num longínquo ano 2000. Falo por experiência própria que a Lupa provavelmente é a agência de informação mais séria do país, com uma minúcia e uma clareza que chegam a incomodar (num texto meu, chegaram a conferir o número exato dos degraus de Machu Picchu [eu tinha um número arredondado]); então os membros do MBL, escravos da mentira e notórios produtores de fake news, entraram em desespero com a notícia de que suas postagens passarão por esse filtro, e, mafiosos que são, fazem fake news a respeito do fact-cheking.

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Pra certas coisas sou meio tradicional. Corto o cabelo do mesmo jeito desde 1995. Mando fazer o pé na máquina, pra não demorar demais, e o coco na tesoura, pra sentir que valeu o investimento. As exceções foram quando pintei de vermelho em 1996 e quando raspei ao passar no vestibular, no que em seguida deixei crescer por um ano, mas não aguentei e cortei. Certo expliquei como queria o corte e fui pensar no SPFC e em quais brasileiros se encaixariam no Gótico Sulista e ainda no macarrão horroroso, porém gostoso, que sobrara da janta e eu ainda deveria dar cabo (era 13h30, mas eu não tinha almoçado). Quando dou fé, o cara terminava de raspar o pé do meu cabelo todo, conforme a moda. Eu com cabelinho de botocudo. Ficou até charmoso, mas ia pra Bahia em menos de duas semanas, e se meus primos me vissem daquele jeito eles iriam me matar, disso eu tenho certeza. Então mandei logo raspar a porra toda. Custou 25 pilas.

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A galera quer cancelar a Netflix após ver O Mecanismo. Pelo trailer se vê que é uma furada, mas, se você gosta das outras coisas lá, melhor simplesmente evitar, dar dislike, criticar, rever Easy ou Black Mirror (ver Atlanta!) É muito difícil boicotar. Não conseguimos nem desinstalar este app pure evil do Face, veja lá… Há sempre um canalha lucrando com nossos hábitos. Dia desses eu falava pra minha irmã de um sorvete bom, e meu pai emendou com a amarga informação de que a rede pertence à filha de José Serra.

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Temer, autodeclarado um “escravo da Constituição”, usou a liberdade de expressão para justificar as ameaças do General. Quando começarem (abertamente) a espancar, torturar, atirar, ele dirá que é o direito de ir e vir; afinal, todos temos o direito de movimentar para onde quisermos nossas pernas, braços e mãos, não é mesmo?

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Ainda dá tempo, o problema é que agora não é mais possível uma resistência meramente verbal. Daí que, do mesmo modo que muito cão raivoso que vive postando fotos com os dentes de fora por aqui vai descobrir que não tem a húbris para puxar um gatilho, sendo JB o maior desses poltrões, que todos sabemos ladrar demais, e provavelmente quando o pau comer vai se mandar pro Canadá ou pra Suíça, ou para algum lugar onde nenhum brasileiro o reconhecerá; do mesmo modo, eu dizia, vai ter muito pacifista das flores que será obrigado a pegar em armas e em pouco tempo descobrirá um regozijo envergonhado em sentir o sangue quente do inimigo esguichar em seus cabelos desgrenhados – e que não saberá o que fazer pra controlar isso, depois que passar. E quem sofrerá mais está no meio, entre a extrema direita barulhenta e covarde, e a extrema esquerda que se recusa ou ignora a própria maldade latente. Está tudo lá em Victor Hugo e Dostoiévski.

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Prefiro o chato da internet. Os outros são ameaças evidentes, me cago de medo com tudo isso aí. O Satanás aqui, a depender, tanto pode ser aquela entidade que vai te torturar por seus pecados, como uma ideia diabólica que invadirá a sua mente conforme você avance no beco – uma mistura de Inception com Guimarães Rosa. Mas os chatos da internet, sabemos, perdem a valentia e a direção quando vão para o mundo real. Transformam-se em zumbis saciados. A maioria desaparece assim que aperta o botão de desligar. No mundo real, o chato da internet é quem se borra de medo de você.

Textos relacionados, aqui.

Os Sem-Boca, a Bandeira da Síria

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, tanta ideia misturada, que às vezes me perco e me esqueço de divulgar aqui.

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Ilustração: Amine Barbuda

Finalmente saiu a nova edição da Revista Barril, da qual agora sou editor de literatura, além de continuar como colaborador. Nessa edição, publiquei a tradução de um conto atordoante do francês Marcel Schwob, Os Sem-Boca. Nem preciso dizer para conferir os outros textos da revista, que está linda. Caso queira conferir o que já publiquei lá antes, é só clicar neste link.

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Poucos dias depois, saiu meu último ensaio no Blog do IMS, A Bandeira da Síria em seu Perfil, Dessa vez escrevo sobre a guerra disfarçada do Brasil, e sobre como nossa resistência caótica não dará conta de freá-la se assim continuar. Confiram também os outros ensaios que publiquei lá.