O Baque Solto na Lapa

Há uma semana publiquei na Outros Críticos uma matéria sobre o grande percussionista Mestre Nico, que toca principalmente com Siba, e seu bloco Lapa de Urso, criado para os pernambucanos que não conseguem pegar o carnaval do Recife. Me diverti bastante fazendo essa matéria, e espero que sua leitura também seja divertida. Vai lá.

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Conje ou conge?

Dada a sagacidade dos últimos cartuns, memes e comentários, desconfio que seja óbvio para a maioria – mas vi algumas pessoas de esquerda problematizando um de nossos poucos consolos cotidianos, em meio a tanta notícia absurda, que é esculhambar com a indigência linguística, lógico-argumentativa, comportamental da rat family, do melindroso Marreco de Curitiba, de toda essa manada que alega ter estudado em “ravard” sem conhecer a tabuada. Nosso sarcasmo não seria também o preconceito linguístico e a arrogância intelectual que tanto nos esforçamos para evitar? Muita gente faz essa pergunta com sinceridade, e ela me parece válida. A resposta é não.

A famigerada marcha do orgulho hétero explica. Como qualquer pessoa, os orgulhosos héteros também necessitam de dinheiro e companhia, de comida, diversão e arte, também buscam reconhecimento, amor e conforto, e ficam frustrados e infelizes quando não conseguem o que desejam; mas nem por isso é justificável que marchem por direitos básicos, à maneira dos vilipendiados, dos perseguidos, dos massacrados, dos que sofrem por motivos sistêmicos, motivos religiosos, ideológicos, políticos, geográficos, de classe, raça, gênero, orientação sexual, condição social, financeira. Mesmo porque, se analisadas a fundo, a raiz das tristezas e frustrações dos orgulhosos héteros, embora eles externalizem a culpa, está nos próprios orgulhosos héteros, muitas vezes em orgulhosos héteros igualmente frustrados e infelizes – e não na falta de direitos básicos, e mesmo de privilégios.

Do mesmo modo, não convém cogitar pegar leve com a burrice dos canalhas, pois tal preocupação seria injusta com aqueles que não tiveram chance de aprender. Uma coisa é fazer piada com a linguagem de alguém que mal tinha o que comer e precisou enfrentar intempéries inimagináveis por sua sobrevivência, outra é esculachar com as patetices de quem teve todas as oportunidades do mundo, não aprendeu nada, e mesmo assim se deu bem em nossa demeritocracia; um coisa é zombar de um analfabeto, outra é avacalhar com a insipiência de gurus terraplanistas, de promotores que confundem Engels com Hegel, de energúmenos incapazes ler um teleprompter mas que ainda assim chamam estudantes e educadores de idiotas úteis, de um verme que não perde a chance arrogar erudição citando Horácio em latim, ainda que todos conheçamos seu português desprezível [e a maior ironia é que, quando estiveram frente a frente, a Jararaca sem estudo jantou o pomposo Marreco de Curitiba]. Esculhambar com quadrúpedes desse quilate não apenas é aceitável, como também nossa obrigação cívica.

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Mas e o gado – como lidar com a parvoíce dos minions? Em primeiro lugar, é preciso avaliar o contexto, se os arredores estão seguros. A estupidez é feroz, e uma piada bem bolada pode ser respondida com um coice. Não quero ver ninguém aqui se lascando por um witticism. Também recomendo evitar os chatos – uma infestação de bots e zumbis tampouco será proveitosa. A maioria não passará pela peneira, mas são normas de segurança. Excluídos tais riscos, sugiro ainda avaliar se o minion em questão é ignorante porque não teve oportunidade de aprender, ou se sua mendicância cerebral provém da teimosia. Se o sujeito não estudou, seria uma malvadeza fazer piadas sobre sua estultice – mas calma lá, recomendo evitar apenas o ad hominem; não precisa pegar leve com os bandidos de estimação que ele cultua.

Agora se a pessoa é burra por teimosia, meu amigo, não tenha dó: esmague o infame. Houve a época de se tentar dialogar, houve a época de ignorá-los em nome da sanidade, mas ele insiste em nos arrastar para o abismo – então é chegada a época de bater. Exponha sua cegueira, atropele seus memes, destroce seu moralismo, massacre seus mitos, estraçalhe TODA E QUALQUER maluquice que o asno trouxer à tona. É tudo culpa dele. Não foi por falta de aviso – não está sendo por falta de aviso –, portanto não nos privemos de nossa perspicácia. Certas amizades não valem o sacrifício de uma boa piada.

E assim, encerrada a questão, aproveito o momento para também expor uma dúvida sincera. Qual a nova grafia, “conje” ou “conge”?

A NOITE É DE SÃO JOYCE

Solene, o poeta Marcelo Tápia surgiu no alto da escada de um silencioso casarão no bairro paulistano de Perdizes, usando paletó e gravata-borboleta. O terno preto sustentava delicadamente dois bottons com símbolos irlandeses: um trevo de três folhas e uma fotografia de James Joyce. Detido, Tápia, então com 63 anos, examinou o escuro recurvo da escada e invocou preocupado: “Talvez não venha muita gente por causa desse feriado prolongado.” A véspera daquela noite fria de 2017 fora dia de Corpus Christi. Diretor da Casa das Rosas e da Casa Guilherme de Almeida, ele é responsável pelo Bloomsday da cidade. “Colaboro desde 1992. O primeiro foi organizado por Haroldo de Campos em 1988.” Referia-se ao poeta e tradutor falecido em 2003, de quem era amigo. Segundo Tápia, é o evento literário mais longevo a acontecer ininterruptamente em São Paulo.

O Bloomsday é a celebração do romance Ulysses, publicado em 1922 por James Joyce, tido como um dos escritores mais complicados de todos os tempos. Apaixonado pela obra do irlandês, Tápia combate a mística em torno da dificuldade de sua leitura. “Antes de adentrar os romances mais longos e inventivos”, afirmou, “é recomendável começar pelos contos de Dublinenses, mais tradicionais, depois seguir pelo Retrato do Artista Quando Jovem.” Estava rodeado de diversas edições da obra, enquanto traçava a rota para uma aventura na metrópole joyciana. “É uma leitura inesgotável. Quanto mais referências tiver o leitor, mais a leitura vai se abrindo.”

Composto por dezoito capítulos de estilos variados que somam por volta de mil páginas, em Ulysses é narrado um dia na vida de Leopold Bloom. Estruturado em paralelo com episódios da Odisseia, de Homero (Ulisses é o nome latino do protagonista, Odisseu), a obra de Joyce é a grande aventura do homem comum de sua época. Nele, o leitor acompanha os pensamentos de Bloom enquanto ele caminha por Dublin e interage com a fauna humana da cidade. Num resumo conciso, ele acorda, toma café da manhã, vai a um funeral, é atacado na rua, ouve música, vê um nascimento, delira em um bordel, volta para casa e se deita com sua mulher. Comemora-se o Bloomsday todo dia 16 de junho, data em que se passa o romance.

“Costumávamos fazer num pub, mas não cabia muita gente”, disse Tápia, ainda receoso. Quando desceu a escada do anexo da Casa Guilherme de Almeida, viu que suas preocupações eram infundadas. A sala estava cheia. Mestre de cerimônias, ele iniciou a noite cantando a capela Molly Malone, canção que está para Dublin assim como Garota de Ipanema está para o Rio de Janeiro. Após alguns segundos, uma plateia tão heterogênea quanto os estilos de Ulysses acompanhava o anfitrião. Os joycianos batiam palmas e cantavam o refrão com vivacidade: Crying cockels and mussels, alive, alive-o. Quem não encontrou lugar bebericava uísque irlandês fora da sala.

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A gênese do Bloomsday está numa festa dada pelos amigos de Joyce dois anos após a publicação do romance. A partir de 1954, treze anos depois da morte do autor, o festejo passou a ser comemorado com regularidade, primeiro em Dublin, logo nas grandes cidades no mundo. O romance, que em seus primeiros anos havia sido proibido em alguns países, já era considerado um dos mais importantes do século xx. No Brasil, a primeira celebração foi aquela mencionada por Tápia, organizada por Haroldo de Campos, que, em parceria com o irmão Augusto, traduziu excertos de Finnegans Wake, último romance de Joyce.

Parte da dificuldade da leitura de Ulysses, para muitos, está em acompanhar a torrente de pensamentos dos personagens, em vozes e estilos variados, muitas vezes abarrotados de referências obscuras e neologismos aparentemente incompreensíveis. “Existem alguns livros que podem auxiliar o iniciante em Joyce”, comentou Tápia. “Recomendo o mais recente, de Caetano Galindo.” Referia-se a Sim, Eu Digo Sim: Uma Visita Guiada ao Ulysses de James Joyce, publicado em 2016 pelo curitibano, último tradutor da obra no Brasil, cuja proposta é apresentar detalhes do romance com clareza.

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A trama de Ulysses se desenrola em 24 horas, mas o Bloomsday paulistano só acabou no dia seguinte. Na noite de 17 de junho, os fãs de Joyce voltaram a se reunir, dessa vez na Casa das Rosas, uma das construções mais baixas e antigas da avenida Paulista. O homenageado agora era Finnegans Wake, romance cuja dificuldade cria barreiras até mesmo para os cultores de Ulysses. “Joyce é quase o dicionário de uma língua”, disse ao público o experiente tradutor catarinense- Donaldo Schüler, que tem 85 anos. “Enquanto um acadêmico utiliza em média 5 mil palavras em sua obra, Joyce lida com um vocabulário de cerca de 60 mil verbetes, sendo que uns 3 ou 4 mil são neologismos que ele emprega uma única vez e depois descarta.”

Finnegans Wake é a nebulosa narrativa de um casal e seus três filhos, e se passa numa única noite. O título provém de uma canção folclórica irlandesa que só não é homônima por causa do apóstrofo: Finnegan’s Wake – e devido ao tal apóstrofo ela tanto pode significar “O velório” como “O despertar de Finnegan”. Aqui foi publicado como Finnicius Revém. Na canção, que Joyce reescreve no livro, um pedreiro morre depois de cair de uma escada e quebrar a cabeça, mas ressuscita no próprio funeral após derramarem uísque sobre ele. Nesse Bloomsday, pela primeira vez no Brasil velou-se o “cadáver” de Finnicius, um boneco que jazia num caixão, diante de um barril de bebida.

Schüler, que acabava de lançar um livro sobre a loucura em Joyce, é responsável por verter para o português tanto a Odisseia como nossa única versão integral do Finnegans Wake. Assim como na tradução de Campos, em sua pena o protagonista se transformou em Finnicius, uma mescla de “fim”, “início” e “Vinícius”. Bem-humorado, sua conversa estava longe da sisudez tantas vezes associada à erudição. Ele discorria sobre Joyce com leveza: “Meu inglês é precário”, afirmou, modesto, para a estupefação dos ouvintes. “Mas não houve problema, porque o livro não foi escrito em inglês.” A linguagem utilizada no livro é uma mistura de mais de sessenta idiomas.

Cotidianas (II)

Para não se perder nesse buraco negro do insight que é o Facebook, volta e meia reúno aqui as Contradições Cotidianas que posto lá. (Procurem as outras: a I, a II e a III). Ano passado, dado o contexto, rebatizei a série por “Cotidianas”.

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JK Rowling diz que Voldemort é de direita. Brasileiros retrucam: “mas que diabos Rowling entende de Harry Potter?!”.

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Teoria da conspiração: Após a peixeirada no bucho, JB descobriu que o general pretendia dar cabo dele e botar a culpa no PT. Então tentou entregar a campanha para salvar a vida. Primeiro correu dos debates, de qualquer conversa com os candidatos na TV; porém, para a sua surpresa, aumentou os seus votos. Depois pagou uns neonazistas pra cometer uns crimes em seu nome e acabar de vez com a piada de que o nazismo é de esquerda. Mais votos. Contratou artistas e intelectuais do mundo inteiro para esculhambar com ele. Votos. Tirou umas fotos com gays, negros, nordestinos, pra ver se perdia os votos dos extremistas. Ainda mais votos. Por fim partiu pro tudo ou nada, vazou a informação do caixa 2 e admitiu publicamente. Eleito!

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Tanto podre surgindo duma empresa chamada “Livraria Cultura”, que não quero nem imaginar o que se passa na Havan.

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Faz uns meses que tou sem app do face no celular e só entro pelo PC. Aí entro e de cara me bato com uma postagem massa de uma menina tão massa que converso até sobre signos e novelas mexicanas com ela, mas como ela postou faz cinco minutos, decido esperar uma meia hora antes de curtir pra ela não pensar que sou um stalker. Então saio de casa e entro nessa vertigem posicional paroxística benigna que é o fim de semana paulistano, e quatro dias depois (fds de frila, vá) vejo que ainda não curti a postagem massa da menina tão massa e que se eu curtir quatro dias e cinco minutos depois, ela vai pensar que sou um stalker.

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Exame: “O amadorismo do governo está surpreendendo todos. O mercado está alarmado desde quinta-feira e em compasso de espera. O investidor está pronto para tirar dinheiro do país.” – “Todos” é muita gente. Eu conheço uma galera que não esperava outra coisa dos patetas/bandidos lá. Estão fazendo exatamente o que prometeram e #euavisei.

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Véspera do aniversário de quatro anos de MF. Dei carta branca pra ela numa loja de brinquedos, já pensando na facada que iria tomar (vocês já compraram brinquedos? Eu temia uma facada de verdade, não uma como aquela do presidente). Ela me disse que já sabia o que queria, mas era segredo. Tremi nas bases, mas trato é trato; eu estava disposto a adiar minha próxima HQ do Pipoca e Nanquim para cumpri-lo. Chegando lá, acabou pegando um troço de maquiagem, um pirulitão rosa, nem era caro. Passou o dia repetindo que o presente era perfeito. MF adora rosa. Eu não gosto muito. Nem de azul. Sempre gostei de vermelho. AJ detesta rosa, mas bebeu o suco de laranja do copo rosa de MF: o marketing batendo na ideologia – o suco de laranja batendo no marketing. Essa questão das cores é inócua, cada um usa o que quer e foda-se. A meu ver, isso é firehosing – em minha timeline não vi ninguém falando de um possível impeachment de Trump.

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Padre Antônio Vieira: “Os homens não amam aquilo que cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é o que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há. Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que são perfeições, perfeições ama, e não defeitos. Cuidais que amais diamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade: cuidais que amais perfeições Angélicas, e amais imperfeições humanas. Logo os homens não amam o que cuidam que amam.”

Parafraseando (deturpando mesmo) o Padre: “Quem estima bandidos, cuidando que são vigilantes, vigilantes estima e não bandidos”, só assim pra acreditar que essa galerinha aí realmente não tem bandido de estimação. Afinal, não estaria o Padre Vieira falando exatamente dos Minions?

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No panteão das versões nacionais, “juntos e shallow now” faz par com “gatinha, cê gosta mais de red label ou ice?” (“my dream is to fly over the rainbow so high”).

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Se eu fosse Amoedo, pedia logo uma recontagem dos votos.

Três poemas sobre a Era do Ódio

Palimpsesto

Meu coração é um palimpsesto
de cicatrizes: escara devora
escara; o sangue se mistura
com os sangues; os tecidos
sofrem eclipses; a pele tece
lençóis sobre as feridas. Nódoa
na memória: o sonho se afoga
no sangue do sol; o olho implora
para ver as veredas verdes de uma
verdade; a ferida se degenera,
se regenera o tecido; somente
o sonho me ensina a renascer.
Palimpsesto é resistência: jamais
houve pensamento que não fosse
canibal; cada novo nascimento
é uma punhalada na História.

As maçãs do fel

Planto a semente das maçãs do fel
não conto fruto antes da estação
não sai uma flor até que o vasto céu
seu choro, em luto, despeja no chão;
Da vil semente salta um morador
de um caule bruto a primavera brota
e finalmente cresce de uma flor
o grande fruto cujo galho entorta;
Um jardineiro cuida das maçãs
desconhecendo aquele mel secreto
que mesmo podre pulsa nas manhãs
e o envenena quando um galho o espeta;
Precisamos podar de nossas mentes
o ramo torto que abriga a serpente.

 

carro queimado

Mise en abyme

vira-latas que estão roendo os ossos
expostos de uma metrópole nua,
contaminada por hordas hidrofóbicas
de fous littéraires, paranoides
hipnotizados por espelhos negros
que refletem caricaturas elétricas
de seus pálidos cocurutos dopados,
cérebros depilados por exasperantes
foices de luz azul que transportam
seus espíritos das avenidas solares
e retilíneas para obtusos labirintos
salpicados pelo miasma dos bueiros
que arrotam fel e chapiscam baratas
nas carcaças resfolegantes de angélicos
vagabundos, baratas no demônio amarelo
que recende a arcanjo mefistofáustico
colecionador das caveiras calcinadas
de cavalheiros polidos e aquecidos
que há exatos cinquenta anos regavam
em suas mentes a maldade voluntária
que haveriam de levar aos próprios afetos
com a suavidade do garçom que serve
outro martini seco ao habitué que sempre
lhe dá as gorjetas mais gordas, e a mão
que paga também afaga as bicheiras
ressequidas das costelas sulfúricas dos
vira-latas que estão roendo os ossos
expostos de uma metrópole nua,
contaminada

Estes poemas fazem parte do livro As Maçãs do Fel (inédito)

Lista de livros de mulheres contemporâneas para Fabrício

Um amigo meu vai ter uma filha, e disse que até lá só vai ler livros escritos por mulheres. Eu lhe prometi uma lista, coisa que geralmente não nego, nem entrego. Há uns anos, houve certa polêmica com uma lista de cem escritores contemporâneos que incluía apenas uma meia dúzia de mulheres, algo assim; Harper Lee ainda estava viva, eu tinha acabado de ler Os luminares, e na época acabei anotando num caderninho uma lista com minhas contemporâneas favoritas. Como este blog está às moscas, agora atualizei essa lista, incluí umas escritoras mortas faz pouco tempo e escrevi umas duas linhas sobre cada livro. Comparando minhas leituras com as listas de outras pessoas, percebi que essa é uma grande deficiência intelectual minha. Nunca li nada de Atwood, Noemi Jaffe ou de Selva Almada. Falta muita coisa – fora que tenho lido contos, poemas, artigos, ensaios geniais de contemporâneas de quem não li livros inteiros, como Rebecca Solnit, Ursula K. Le Guin, Angélica Freitas, Zadie Smith. Alguns poderão questionar a validade de uma lista como esta, capenga, ainda mais feita por um homem; mas dificilmente poderão questionar a qualidade das obras aqui listadas. Enfim, trata-se apenas de uma visão pessoal de um leitor curioso. Quem desejar uma lista mais completa, feita pelas próprias mulheres, confira esta, a melhor que já vi.

Os luminares – Eleanor Catton

Um homem por acaso entra num salão de um hotel em que está havendo uma reunião com doze pessoas, e se envolve num mistério. Esse romance histórico-policial passado na Nova Zelândia segue algumas regras à Oulipo: cada capítulo tem a metade do tamanho do anterior, e os personagens são associados aos signos. É um tijolo, mas flui tão bem que dá pra ler em alguns dias.

As pequenas virtudes – Natalia Ginzburg

Formidáveis ensaios pessoais de Ginzburg sobre, entre outras coisas, Pavese, a guerra, a Inglaterra, sapatos e a criação de crianças. O ensaio-título é um daqueles textos que mudam a vida do leitor.

A arte do descaso – Cristina Tardáguila

Em 2006, quatro homens roubaram um Dalí, um Monet, um Matisse e dois Picassos num museu do Rio de Janeiro. O que começa como uma reportagem investigativa, termina como uma denúncia do descaso geral de nossos museus. Lembra alguma notícia recente?

Ex-libris: confissões de uma leitora comum  – Anne Fadiman

Ensaios sobre o amor aos livros. Um de meus livros favoritos, já escrevi sobre ele aqui também.

Longitude: A verdadeira história do gênio solitário que resolveu o maior problema científico do século XVIII – Dava Sobel

Deliciosa narrativa de não ficção sobre o cientista John Harrison e a invenção do cronômetro.

A amiga genial – Elena Ferrante

Não é, mas leio a obra de Ferrante como se fosse terror. Todas as minhas amigas a quem emprestei/indiquei o livro disseram que ele consegue transmitir exatamente o que elas sentem. E acho horripilante…

A história secreta – Donna Tartt

Romance policial viciante sobre uma turma de estudantes de grego que comete um crime. Sabemos na primeira página quem fez o quê; depois descobrimos como.

O jornalista e o assassino – Janet Malcolm

Após escrever um livro-reportagem sobre um sujeito condenado por assassinar a própria família, um jornalista é processado pelo assassino – Malcolm, por sua vez, acompanha esse processo para demonstrar como o jornalismo é uma “profissão moralmente indefensável”.

O louco de palestra – Vanessa Bárbara

A crônica que empresta o título ao volume é um clássico contemporâneo. Mas também estão lá “o popular exaltado”, “o sem-carro”, o Mandaqui, e a divertida obsessão de Bárbara por ônibus e hortaliças.

Coisas que perdemos no fogo – Mariana Enriquez

Mulheres que protestam tocando fogo em si mesmas, pessoas torturadas por traficantes, rituais, fantasmas que surgem num rio, a pobreza, os resquícios da ditadura. Impecáveis contos de horror relacionados com a política e a sociedade argentina.

Johnathan Strange & Mr. Norrell – Suzanna Clarke

Copio o comentário que fiz aqui há uns anos: “Inglaterra. Guerras napoleônicas. Dois mundos se unem. Um velho ranzinza e um alegre jovem conseguem realizar atos mágicos, o que será útil ao país. Com grande influência de Neil Gaiman, Clarke consegue superá-lo, nessa mistura de romance histórico com fantasia e aventura, escrito num estilo que remete aos escritores vitorianos.”

O talentoso Ripley – Patricia Highsmith

Um dos três melhores livros sobre pessoas viajando e contando mentiras.

O sol é para todos – Harper Lee

Clássico romance sobre um advogado que defende um negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos. Li numa viagem de alguns dias de ônibus, e à noite era obrigado a ler com a lanterna do celular. Não por acaso é best-seller desde o lançamento.

Poemas – Wislawa Szymborska

A polonesa, que ganhou o Nobel de Literatura em 1995, faz aquele tipo de poesia de simples compreensão, mas bem profunda, que sempre acerta no rim.

A morte do gourmet – Muriel Barbery

Novela polifônica narrada pelo ponto de vista das pessoas do convívio de um crítico de gastronomia (entre elas uma mendiga e uma estatueta). Eis as melhores descrições de comida que já li.

Outras listas