Crime & Poesia + Orwell + Livros de Sangue V. 4 + Sou Mais Eu

Foi um semestre de muitos lançamentos e anúncios de traduções que fiz para a infalível DarkSide Books.

Junto com Bruno Dorigatti, fiz a tradução de minha primeira HQ, logo uma das maiores HQs dos últimos tempos, Uma História Real de Crime & Poesia, de David L. Carlson e Landis Blair. É a história de um rapaz órfão de mãe que vai morar com o pai cego e erudito, e descobre segredos de sua passagem pela prisão. Bom demais, equiparável a Fun Home e Maus.

Traduzi os ensaios, cartas e entradas de diário de George Orwell, que acompanham a edição de 1984, que também editei.

Sigo com as traduções dos Livros de Sangue, de Clive Barker, que revolucionaram a literatura de horror nos anos 80, e estavam há décadas fora de catálogo. Os contos seguem geniais! Agora lançamos o V.3.

E lanço também minha primeira tradução de livro infantil, Sou Mais Eu, escrita por Richard Brehm e ilustrada magnificamente por Rogério Coelho. É a história de uma garota que vai estudar pintura num casarão, e é recebida por um senhor soturno e misterioso.

Fiquem de olho, que agora no segundo semestre tem mais!!

Particularidades do palavreado sudestino

VIU
Dentre as diversas coisas estranhas do palavreado de São Paulo, o “viu” tem lugar de destaque. Na BA o “viu” encerra a conversa, seria tipo “beleza”, “ok”, “visse”. Mas em SP, sabe-se lá por que, ela inicia; seria tipo um “ei”, “hey”, “venha cá”. Até hoje, no meio da conversa jamais me lembro desse “viu” que me soa tão vil. Hoje que sei a diferença, explico ao interlocutor, porém no começo tive papos bem estranhos.

Após uma longa conversa, boas noites dados, reencontros pré-marcados, eu dizia:

“Viu”.
Dois minutos se passavam, e a pessoa continuava olhando pra minha cara, antes de perguntar.
“O quê?”
“O que o quê?”
“É que você disse ‘viu’.”
“Então.”

Eu mandava esse “então” com a bazófia dos que têm certeza absoluta, e lá ficavam dois otários, sem saber o que falar.

O ARTIGO DEFINIDO
Outra coisa que me chama bastante atenção no palavreado sudestino é o artigo definido acompanhando um nome próprio, tipo “O Paulo” ou “A Maria”. Como o nome próprio já é por natureza definido, isso soa tão estranho aos meus ouvidos baianos quanto “Le Paulo” ou “The Maria” soaria a sudestinos poliglotas.

Mas vá, os cabas cresceram falando assim e não tão nem aí pra estas elucubrações teóricas sem futuro. Ninguém vai mudar o jeito de falar em nome da lógica. Portanto, reservo toda minha indaga pra baiano descarado que passa a usar esse artigo definido depois de duas semanas morando aqui em SP.
Mas hoje meu argumento sofreu um grave revés.

Enquanto na BA os apelidos de modo geral consistem basicamente em diminutivos e aumentativos, ou em destaques de atributos físicos, tipo “Cabelo”, “Cabeça”, “Cotonete”, “Palito”, “Bola”, aqui em SP eles usam SÍLABAS SOLTAS dos nomes! “Fê”, “Rô”, “Má”. Quando muito, têm duas sílabas, “Fêfê”, “Lelê”, “Mari”. E aí este combalido militante do baianês teve um diálogo surreal.

Meu compadre, um desses baianos descarados, me disse:
“Antes de sair vamos passar na casa de Rapha.”
Note que ele não usou o artigo pra evitar a minha indaga mais uma vez. Como no reggae estava prevista a presença de um e uma Raphas, perguntei:
“Rapha o caba ou a nega?” (“Nega” é “mina” em baianês.)
Compadre: “A nega.”
Eu: “Cadê o artigo definido nessas horas?”

Nesse caso, estando desdefinido o nome próprio, o artigo definido se faz necessário, em nome da clareza do discurso. Não chega a derrubar completamente meu argumento, mas é uma porrada e tanto. Agora convenhamos, assim como os sobrenomes, um apelido é uma maneira de deixar o nome próprio ainda mais específico, ainda mais definido, tanto que geralmente não damos apelidos a estranhos. Mas depois dessa desdefinição, eu é que não indago mais com nada.

VEJA TAMBÉM:
Primeiras Impressões de SP
Esboço de Amor em SP
Plurais, Mudanças, Objetos Essenciais
Cosmópolis-Província: Outras Impressões de SP

Ossinhos de Belém

Ando tão à toa que esqueci de postar aqui o conto de horror natalino que escrevi para a maneiríssima coleção da DarkSide Books, junto com outros autores da casa, cada um mais massa que o outro, tudo diagramado, bonitinho. O meu se chama Ossinhos de Belém, um body horror soteropolitano sobre um estudante de intercâmbio que vai a uma festa estranha, descobre os perigos que se escondem na noite soteropolitana e ainda lança uma pergunta filosófica no ar. Talvez seja estranho postar um conto natalino no final de fevereiro, mas acho que continua fazendo sentido fora de época, então aqui vai. Aproveitei também pra atualizar a lista de Produção Literária.

https://darkside.blog.br/wp-content/uploads/2021/12/NatalDark2021_vol5_Paulo-Raviere.pdf

Estatísticas pessoais pandêmicas

Tenho uma memória boa e sou obcecado por listas. Volta e meia escrevo pra mim mesmo essas listas profundamente pessoais, randômicas e ostensivas. A única que joguei aqui é o post que a galera mais curte neste blog. Vai mais uma, sobre o que fiz entre 15 de março de 2020 e hoje.

Aluguei um carro 1.0 e vim com meu primo de São Paulo a Irecê cortando pelas estradas de terra pois o povo no começo sentia medo da doença e não deixava a gente entrar nas cidades, então estive em São Paulo Corinto Caetité Irecê (e região) Lençois Costa do Sauípe Jacobina e Salvador, fiquei 67 dias ininterruptos sem cruzar do portão de casa, e desde 2005-7 eu não ficava tanto tempo sem sair da BA (and still counting), voltei a morar com AJ e depois também com MF e um pug descarado, bebi uma dúzia e meia de garrafas de conhaque duas de royal salute e centenas de garrafas de bebidas várias, mas gastei menos dinheiro com bebida do que o habitual, preparei lasanha galinha com batatas yakisoba carne com cerveja preta churrasco tacos almôndegas buta no kakuni paella mexilhões ragu bobó escondidinho cebola recheada porco assado negronis mojitos roscas tônicas margaritas aperois, engordei sete quilos e perdi três e meio sem fazer dieta, estourei as costas para ver pinturas rupestres numa montanha, fiz fisioterapia alongamento academia, organizei meu sono, organizei num lugar só as coisas que tenho online, organizei todas as minhas pastas e arquivos do PC e criei mais um monte pra bagunçar tudo de novo, fiz apresentações em seis eventos literários e acadêmicos, assisti a outras dezenas de eventos, participei de inúmeras lives etílicas, ministrei dois cursos de escrita, fui aluno em uma matéria da USP e num curso de narrativa de HQ, dei três entrevistas, entrevistei duas pessoas, perdi e depois passei na qualificação do doutorado, joguei dominó xadrez futebol dixit e videogame, aprendi “Killing in the name” “God’s gonna put you down” “Aerials” “O milionário” e “It ain’t me babe” mas já esqueci quase tudo delas, perdi em oito editais mas trabalhei em três projetos contemplados, assinei a carteira e deixei de receber bolsa, recusei trampos massas reggaes massas viagens massas e textos mais ou menos, traduzi onze livros, escrevi um roteiro um conto nove poemas cinco ensaios talvez 2/5 de um romance três letras de canções cinco crônicas um artigo acadêmico doze releases uma orelha e um prefácio para amigos, amigos e camaradas lançaram 21 livros até onde contei, trabalhei na edição de 32 livros e 16 textos de revista, recebi em mãos oito traduções impressas que fiz, anunciei que vou publicar meu livro, comprei duas estantes, um kindle, adquiri mais de cem livros e HQs somando presentes compras e os que recebo da editora, comprei uma edição do século XIX, perdi dois livros por causa de um pug descarado, aprendi a ler caminhando, li 79 livros, 109 HQs, vi ao menos uma centena de filmes, 32 temporadas de seriados, fiz dois aniversários, 57 postagens no instagram, 16 no meu blog (com esta), aderi ao twitter e aos podcasts, perdi a conta de quantas vezes xinguei o presidente (and still not counting), tive algo estranho e indefinido com uma moça que eu não sabia que era casada, tomei uma bota repentina mas nada estranha e indefinida, fui em duas cachoeiras, peguei dengue, depois tive uma coceira terrível nas mãos e usei luvas por dois meses e todo mundo achava que era por precaução excessiva com a pandemia, não peguei covid, não peguei gripe, não quebrei nada, não passei sufoco, não surtei, não tive burnout, não tive insônia, não tive pesadelos, não senti medo, não perdi ninguém, não cheguei nem perto disso, tomei duas doses da vacina, e, balizando os pontos positivos e os negativos, o saldo são as estatísticas de um privilegiado.

Coração das Trevas + Livros de Sangue: Volume 2 + O perrengue de cada dia

No primeiro semestre foram lançados pela DarkSide Books mais dois livros que traduzi.

Um de meus livros favoritos da vida, e que muito me orgulha, Coração das Trevas, de Joseph Conrad. De todas que saíram, foi a que me deu mais trabalho, a que mais demandou releituras, a mais demorada. Aí na pesquisa para a Introdução descubro que Conrad escreveu o livro em dois meses! Mas valeu a pena, e cá estamos com mais esse livro bonitão da Caveirinha. Contém ainda os “Diários do Congo”, ensaio de Virginia Woolf, posfácio do pesquisador Carlos da Silva Jr. e magníficas ilustrações de Braziliano Braza.

Saiu também o segundo volume da clássica antologia de contos de horror Livros de Sangue, de Clive Barker. A sequência é igualmente brutal e conta com introdução do escritor Bruno Ribeiro, que foi anunciado vencedor do Prêmio Machado exatamente no fim de semana que terminei esta tradução, em novembro do ano passado.

Além disso, fiz o texto de abertura da nova coluna do DarkBlog, chamada Ossos do Ofício, sobre os processos editoriais. Meu texto se chama O Perrengue de Cada Dia, e falo sobre a treta que foi o processo de tradução do romance O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock. Ele é apenas o primeiro de uma série sobre os bastidores das traduções que fiz. Logo logo sai mais.

Paulo Raviere (@pauloraviere) | Twitter

Outras traduções e textos:

Produção Literária

PRODUÇÃO LITERÁRIA

CONTOS
Ossinhos de Belém. DarkSide Books (Coletânea Dark de Natal). 2021
O cego do acordeão. Zine Despacho (p.52). 2021.
Penugem, pedra. Revista Barril. 2020.
Alguma coisa que eu bebi. Amazon KDP. 2015
Suspiros que cortam o ar. Revista Flaubert. 2015.
A terceira resposta. Revista Flaubert. 2014.
Bartolomeu Lourenço, inventor. Pesquisa FAPESP. 2012.

ENSAIOS
Substituir José de Alencar, por exemplo. Blog do IMS. 2018.
Resquícios de civilização. Blog do IMS. 2018.
A diversidade do insulto. Blog do IMS. 2018.
A bandeira da Síria em seu perfil. Blog do IMS. 2018.
Somos todos críticos. Blog do IMS. 2018.
Declínio e queda do esprit d’escalier Blog do IMS. 2017.
Atravessar a rua com o sinal fechado. Blog do IMS. 2017.
Todos os ensaios do Blog do IMS

O Efeito Salenko. Revista Barril. 2018.
A declarar nada. Revista Barril. 2017.
O direito de interpretar Hamlet. Revista Barril. 2017.
A visão personalíssima do clássico. Revista Barril. 2016.
Todos os textos na Barril

ARTIGOS
Morcegos dão o sangue.  Revista piauí. 2017.
I don’t speak English. Revista piauí. 2017.
Baforadas nos Andes. Revista piauí. 2016.
O sol e o peixe. Revista piauí. 2016.
Velhos baianos. Revista piauí. 2016.
Professor de ludopedismo. Revista piauí. 2015.
Todos artigos da piauí

Os seis degraus: por trás da tradução de Psicopata Americano. DarkBlog. 2021.
Experimento de sonho: por trás da tradução de O Médico e o Monstro. DarkBlog. 2021.
O perrengue de cada dia: por trás da tradução de O Mal Nosso de Cada Dia. DarkBlog. 2021.
Sonho americano? DarkBlog. 2020.
O baque solto na Lapa. Outros Críticos. 2019.
Plurais, mudanças, objetos essenciais. Revista Seca. 2017.

A noite é de São Joyce. 2019.
O azulejo invertido no banheiro do posto de gasolina. 2018.
Longa jornada dentro da noite. 2017.
Falácias familiares. 2017.
Desmedidas brasileiras. 2016.

POESIA
Três poemas sobre a Era do Ódio. 2019.
O fim do universo. 2020.
No silêncio da rima oculta. 2020.

TRADUÇÕES
Livros
Livros de Sangue V.2 – Clive Barker. DarkSide Books. 2021.
Coração das Trevas – Joseph Conrad. DarkSide Books. 2021.
Livros de Sangue V.1 – Clive Barker. DarkSide Books. 2020.
O Mal Nosso de Cada DiaDonald Ray Pollock. DarkSide Books. 2020.
Psicopata Americano – Bret Easton Ellis – DarkSide Books. 2020.
 Antologia Dark – Hans-Åke Lilja (org.). DarkSide Books. 2020.
O Médico e o Monstro e Outros Experimentos – Robert Louis Stevenson. DarkSide Books. 2019.

Textos
Sobre os preconceitos de nacionalidade – Oliver Goldsmith. Revista Serrote. 2021.
Crianças de sonho: um devaneio – Charles Lamb. Casa Guilherme de Almeida. 2020.
Dois ensaios – Karel Čapek. Oficina do Prelo. 2020.
Uma apologia dos ociosos – Robert Louis Stevenson. Revista Serrote. 2020.
Reunindo Feministas Resistentes – Elke Krasny. História das mulheres, Histórias Feministas: Antologia. MASP. 2019.
Os Sem-boca – Marcel Schwob. Revista Barril. 2018.

Dois Ensaios – Karel Čapek. 2019.
A morte da mariposa – Virginia Woolf. 2013.
Sobre correr atrás de chapéus – G. K. Chesterton. 2013.
Todas as traduções de ensaios no Issuu

Entrevista sobre tradução. DarkBlog. 2020.

TEXTOS ACADÊMICOS
L’Anglaise Condition: sobre as formas do ensaio literário e seu desenvolvimento na Inglaterra. Revista Inventário. 2013.
A língua infinita. Antologia da EDUFBA. 2009.

O cego do acordeão + tradução na Serrote 27

Publiquei o conto “O cego do acordeão” no belo zine Despacho, dos guerreiros da editora @satacorsario. Pode ser lido neste link.


Também saiu por agora minha tradução do ensaio “Sobre os Preconceitos de Nacionalidade”, de Oliver  Goldsmith, na Serrote 37. A Serrote é minha revista favorita, e ano passado publiquei a tradução do ensaio “Uma apologia dos ociosos”, de Robert Louis Stevenson, na Serrote 34.



Ensaios de Lamb e de Čapek

Amanhã participo da live de lançamento de uma plaquete com a tradução do ensaio “Crianças de Sonho: um Devaneio”, de Charles Lamb. A tradução já está disponível na coleção da Casa Guilherme de Almeida.

Está rolando também uma versão impressa dos ensaios de Karel Čapek que traduzi ano passado. Dei uma retrabalhada nas traduções, e agora contamos com as magníficas ilustrações de Iuri Casaes. Pode ser adquirido no site da Oficina do Prelo.

Mostrar e contar: a arte da não ficção

Visualização da imagem

Ano passado ministrei esse curso de não ficção num dos lugares mais legais de São Paulo, a @taperatapera, e foi uma experiência sensacional. Muita gente me pediu que eu ministrasse o curso em outros locais, e aqui está. Será na Tapera, mas também em Irecê, e espero que em muitos outros lugares.

“Mostrar e contar é o título de um livro sobre a escrita criativa de não ficção do ensaísta e antologista Phillip Lopate. Este e outros livros sobre escrita e não ficção, em conjunção com atividades práticas, serão o norte desse curso. Cada aula será dividida em dois momentos no primeiro (mostrar), uma explanação sobre alguns gêneros e formas de não ficção; no segundo (contar), conversas sobre sua prática, com ênfase em publicações do ministrante e na produção dos inscritos.”

Peço que divulguem a quem possa se interessar.

Mais detalhes e inscrições por este link.

Entrevista + Livros de Sangue: Volume 1

Semana passada saiu no blog da Editora DarkSide Books uma entrevista comigo e mais três tradutores. Aqui.

Semana passada saiu também a pré-venda, pela mesma editora, de minha tradução de Livros de Sangue: Volume 1, esperadíssimo volume de contos de horror de Clive Barker, lançado originalmente em 1984.

Sobre outras traduções:
Psicopata Americano – Bret Easton Ellis e O Mal Nosso de Cada Dia – Donald Ray Pollock
Antologia Macabra – Hans-Ake Lilja
O Médico e o Monstro e Outros Experimentos – Robert Louis Stevenson 
Apologia dos Ociosos – Robert Louis Stevenson
Dois ensaios – Karel Capek