Morcegos dão o sangue

Está disponível na íntegra minha última matéria para a Piauí, sobre um time de futebol composto por góticos. Para conferir, clique aqui. Caso deseje ler minhas outras matérias para a revista, clique aqui.

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Ilustração: Andrés Sandoval

 

 

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Longa jornada dentro da noite

Apesar de no meio da semana o frio repentino ter invadido as moradias brasileiras pelas janelas e noticiários, suave era a noite de sexta em que o escritor mato-grossense Joca Reiners Terron, de 49 anos, anunciou os poetas que se apresentariam: Angélica Freitas, Fabiano Calixto, ele próprio, Júlia de Carvalho Hansen, Leda Cartum e Nuno Ramos. “É chegado o tempo dos poetas menores”, emendou em seguida. “A fama de vocês nunca vai ultrapassar o círculo familiar, ou talvez chegue a um ou dois amigos bacanas que se reuniram depois da janta ao redor de uma garrafa de vinho tinto.”

Cerca de quarenta pessoas escutavam a transcriação feita por ele a partir de um texto do sérvio Charles Simic. Sendo alto, troncudo, barbudo e careca, seu capote escuro contribuía para que se parecesse com um espião germânico. “Quando você lê um poema, o que importa não é entendê-lo”, continuou, agora com um parágrafo do catalão Jaime Gil de Biedma, também recriado por ele. A luz era baixa. O minúsculo palco era adornado por lâmpadas vermelhas e amarelas enfileiradas como num enfeite de natal. “O que importa é que se goste. Se você gostar, vai entender cada coisa que haja pra se entender nele. Em um bom poema não é possível se distinguir entre emoção e inteligência.”

O Estúdio Fita Crepe é uma apertada casa de música experimental que fica no primeiro andar de um prédio na Consolação, em São Paulo – um cubo de madeira feito na unha pelo dono, seguindo uma estrutura de isolamento acústico chamada “box in the box”. “Sarau não, pelo amor de deus”, reclamou, “o que fazemos é o oposto de sarau”. Era a quinta edição do Zapoeta, evento do qual ele é um dos curadores e mentores intelectuais. “Surgiu do zap-zap, quer dizer, do WhatsApp”, brincou. “Comecei a mandar poemas inéditos para um grupo de amigos através do aplicativo. Eu colocava um fundo sonoro e falava os poemas diretamente no celular”. Após sua breve aparição, Terron acompanhou os outros poetas da porta de entrada, como um leão de chácara que controla o fluxo de uma boate. “Daí minhas amigas Juliana Vettore e Joana Reiss resolveram ampliar o grupo, convidar outros poetas, e criaram o evento.”

Terron tem participação ativa na vida literária paulistana. Dá palestras, ministra cursos, faz performances e, boêmio, toma umas com literatos de toda estirpe, de aspirantes malditos a veteranos premiados. A disposição para dialogar com novos escritores talvez seja herança do tempo em que ele tinha a Ciência do Acidente, editora independente que durou de 1998 a 2004. “Prefiro conviver com meus personagens que suportar a realidade”, contou. Além dele próprio, editou vários do que atualmente são figuras carimbadas no mundo literário nacional, como Glauco Mattoso, Ronaldo Bressane e Marçal Aquino. Em 2007, passou um mês no Egito, como parte do projeto Amores Expressos. De suas noites árabes saiu Do fundo do poço se vê a lua, seu primeiro romance pela Companhia das Letras, casa em que permanece. “Escrever todos os dias é um plano de fuga e ao mesmo tempo uma desculpa que serve para escapar das obrigações que a realidade impõe.”

ndn jocaO ano de 2017 lhe tem sido especial, pois finalmente foi publicado Noite Dentro da Noite – Uma Autobiografia, sua obra mais ambiciosa. Nele é narrada a movediça história de um menino de onze anos que perde a memória após bater a cabeça numa brincadeira de pique-esconde, no dia em que nevou numa cidadezinha paranaense chamada Medianeira. A partir daí inicia-se a labiríntica investigação de sua existência, semelhante à do Rei Édipo, em que são costuradas histórias aparentemente desconexas. Guerrilheiros do Araguaia, cientistas nazistas, índios com poderes mágicos, estudantes psicopatas e uma planta-monstro chamada pyhareryepypepyhare fazem companhia a personagens baseados em pessoas reais, como Hilda Hilst, Curt Meyer-Clason, Elisabeth Föster-Nietzsche, irmã do filósofo famoso, e até mesmo um sindicalista que concorreu à presidência em 1989 – mencionado apenas por epítetos como “o metalúrgico comunista”.

“O processo de escrita desse romance, que se iniciou em 2007, envolveu centenas de leituras e outras experiências que esqueci por completo ao encerrar o trabalho”, afirmou. “Preenchi três cadernos de cem páginas com anotações, esquemas, esboços, que em grande parte não foram usados para nada. Apaguei cerca de trinta mil palavras da versão final, às quais provavelmente nunca voltarei.” De acordo com ele, o subtítulo “uma autobiografia” foi a última coisa a ser inserida no livro. Logo nas primeiras páginas descobre-se ser isso um artifício como o da Autobiografia de Alice B. Toklas, romance que poderia ser classificado como não ficção, não tivesse na verdade sido escrito por Gertrude Stein. No caso de Terron, a história do menino sem nome é contada segunda pessoa, principalmente por Curt Meyer-Clason, que detém informações detalhadas até mesmo sobre seus medos mais íntimos.

Conforme se avança, fica mais complicado. Conhecemos a suspeita família do protagonista (chamado apenas “você”) que viaja de Medianeira até Curva de Rio Sujo, cidade imaginária na fronteira do Mato Grosso com o Paraguai, que já batizou um volume de contos de Terron (este livro serve de base para o filme Não devore meu coração, dirigido por Felipe Bragança, previsto para estrear em novembro). Seus tios, como o autor, têm por sobrenome Reiners; sua suposta mãe é conhecida como “a rata”. Suas histórias também são contadas em segunda pessoa: não raro Curt Meyer-Clason conta ao menino o que a rata contara numa gravação, que, por sua vez, era algo que Karl Reiners havia contado pra ela décadas antes. Além das vozes, nessa viagem ao fim da noite os episódios se misturam: lugares (Ilha Grande, Bernburg, Curva de Rio Sujo, Medianeira, Casa do Sol) e épocas (1989, 1975, 1964, 1942) podem acontecer numa mesma página, um mise en abyme, como dois espelhos que se encaram – a noite dentro da noite.

“O livro tem muitas chaves de leitura” comentou o autor. “Pelas resenhas e ensaios mais criativos que gerou, ele parece exigir um esforço interpretativo, o que é bastante satisfatório, num tempo em que tudo passa muito fugazmente.” E, apesar da narrativa nebulosa e maleável, as descrições de ambientes e ações são realizadas em prosa palpável e objetiva, especialmente nas cenas violentas – um espancamento num pântano, uma explosão num banheiro escolar, uma perseguição numa ilha inóspita, um ataque terrorista numa grande cidade. “Enquanto escrevo eu me torno um especialista naqueles assuntos correlatos e marginais que alimentam a escrita. Depois que termino, mal me recordo do que se tratavam”, completou.

Quando chegou sua vez, Terron não usava mais o capote. Declamou um poema de sua autoria chamado “O sonâmbulo canta seus sonhos no topo do edifício em chamas”, parte de um livro inédito. A fala era acompanhada pelas distorções de seu amigo Mário Cappi, guitarrista da banda de jazz experimental Hurtmold. “Quem sabe/ os sonhos não sejam a vigília e tudo esteja ao contrário? Eu estou vivo/ e vocês estão mortos, mas ninguém se importa”, recitou com melancolia. Apesar de ter vários projetos de livro em andamento, Terron não sabe a qual deles se dedicará nos próximos anos. Enquanto o público esvaziava a salinha apertada, ele conversava com os poetas e tomava uma cerveja. Não estava tarde. A noite, lá fora, ainda escondia outra noite dentro de si.

Contradições Cotidianas (III)

Outras contradições cotidianas aqui. Seus princípios aqui.

Olho por olho, post por post, logro por logro. A existência desse “debate” sequer faz sentido, mas se mesmo após uma argumentação sólida e fundamentada seu camarada ainda insistir que o nazismo foi de esquerda, a única réplica que ele merece é que o stalinismo foi de direita.

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Onipresente é o mal, o mal não escolhe lado, o engenho do mal nunca para, o mal está em cada um. Há quem troque o mal por deus. Há quem o substitua pelo pensamento. Em ambos os modos, é muito perigoso reduzir o mundo a única linha reta. O mal é democrático. O mal não tem ideologia.

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A cana está pros infortúnios do boêmio como Deus para os sucessos do evangélico. Coisas ruins acontecem com todos, mas basta o sujeito esquecer as chaves na casa de alguém: “bêbado?” O cachaceiro torce o pé num paralelo irregular e lá vem a ladainha: “já tá virando alcoolismo!” Arruma uma inflamação na garganta e tem que explicar que tinha uns quinze dias que não tomava uma: “deve ter sido a abstinência então.” Seu conhecido, em outra cidade, é assaltado: “mas também queria o que, andando pra cima e pra baixo com um pé de cana daqueles?” Sofre um acidente de trem e comentam no funeral: “Era só uma questão de tempo… Do jeito que esse sacana bebia, se não fosse de acidente seria de cirrose.”

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Uma lógica rasteira: pegue qualquer coisa que seu inimigo tenha em comum com alguém abominável, notório por isso e nada mais. Coloque ambos numa tabela e enumere essas coisas em comum. Seu inimigo, por associação, será interpretado como abominável, mesmo que essas coisas em comum não tenham qualquer relação com a abominação em si.

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Das obras de arte chatas, nenhuma pior que as performáticas. Você pode fechar o livro ou passar direto pela escultura sem graça sempre que lhe der vontade; você pode ignorar o link, pausar o vídeo ou sair da sala de cinema. Mas a bailarina enrolada em fita crepe tem seus olhos de peixe morto sobre você; o ator no papel de estátua na peça onde não nada acontece está consciente de todos os que se levantam, seja para aplaudir ou para ir embora; o instrumentista emburrado te joga uma maldição enquanto você cochila na cadeira acolchoada. Escolha bem seu espetáculo antes de sair de casa. Você não vai querer arrumar problemas com essa gente.

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Majin Boo é uma poderosa criança crescida, rechonchuda e rosada; Trump também é uma poderosa criança crescida, rechonchuda e rosada; Majin Boo gargalha enquanto devora pessoas, logo, Trump também devora pessoas. Ok, ok, estou pior que Kataguiri, falando de desenhos animados… usemos um exemplo mais realista. Os inquisidores católicos distorciam informações para disseminar o medo e a discórdia, acusar seus adversários, e ganhar poder; o MBL distorce informações para disseminar o medo e a discórdia, acusar seus adversários, e ganhar poder. Os inquisidores torturavam e queimavam pessoas, logo… O MBL, até onde sei, não. Mas se fossemos seguir a lógica argumentativa que eles próprios usam, é óbvio que sim, dãa. Matemática elementar, diriam.

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Afirmo não ter mais disposição pra discutir nada (ninguém tem mais). Aí recebo o comentário: “temo ter de que pagar por nossa preguiça”. Não tema. Pagaremos por nossa preguiça, mas se nos esforçarmos pagaremos do mesmo jeito (e mais a taxa extra que pagaremos com nossa disposição desperdiçada).

Falácias familiares

Penso o dia inteiro nas contradições do mundo. Sério mesmo. O dia inteiro. Estou comendo um pastel de carne seca com queijo numa barraca e pensando em como é irônico provir de uma instituição religiosa o líder mais sapiente e progressista em exercício no planeta; estou com as pernas pra cima no sofá lendo a Serrote e me perguntando por que a Estação Consolação fica na Avenida Paulista e a Estação Paulista fica na Avenida Consolação (uma variação do bota calça, calça bota); estou subindo uma ladeira de tardezinha e calculando o prejuízo da otimização dos serviços bancários, logo agora que todos se distraem com seu celular e ninguém se irrita com a demora como antes.

Sem exageros, a fila de banco já foi uma instituição do pensamento nacional, um ambiente silencioso onde você não tinha nada pra fazer e ninguém te interrompia por horas – descrição de uma biblioteca ideal. Li em filas de bancos, de pé, uma grande fatia de Moby Dick e praticamente um volume inteiro da heptalogia de Proust; houve um tempo – pasmem – que a gente pegava fila pra pagar um boleto. Porém semana passada fui atendido tão prontamente que não deu tempo de terminar um panfleto como Sobre a Tirania, de Timothy Snyder. Uma decadência. A fila de banco, que já representou para o brasileiro o que a prisão siberiana foi para os russos, agora não passa de uma distração.

Tenho esses pensamentos caminhando para o metrô, a maioria bobagens semelhantes. Quando aparece algo levemente interessante, anoto em meu caderno para uso posterior. Muitos de meus textos surgiram assim do nada (banalogias, insights, epifanias?), mas a melhor fonte de ideias é a conversa. Publiquei aqui ao menos quatro postagens dessa natureza, as “Primeiras impressões de SP”, duas “Contradições Cotidianas” e “Desmedidas Brasileiras”, sendo que as três últimas provêm de papos com minha família. Recentemente passei umas semanas com meu povo e juntei uma antologia de estranhezas, não exatamente falácias lógico-matemáticas, todas, mas intitulei o conjunto como “falácias familiares” simplesmente porque acho que soa bem.

O paradoxo da dieta inalterada

Minha mãe, sozinha, é uma indústria de hipérboles e oxímoros. Nesses dias me senti como aquele repórter que não dava conta de registrar a cachoeira de frases geniais que jorrava de G. K. Chesterton. Confiram esta excelente caracterização feita por seu sobrinho. Pois bem, minha mãe mudou de carnívora para vegetariana sem alterar sua dieta. Uma falácia fácil de ser identificada – carnívoros comem carne, vegetarianos não comem carne, logo suas dietas são diferentes. Como explicar então essa contradição? Passo a palavra para meu pai: “era carnívora e não comia nada; virou vegetariana e continua sem comer nada”.

O princípio do aperto confortável

A história de minha irmã pertence mais às ciências sociais que à lógica. Dei carona para ela nesses dias. Com seus trinta e cinco quilos, a coitada quase nunca anda no banco da frente, sempre ocupado por gente mais velha ou mais gorda. Quando crianças, viajávamos no banco traseiro, ela atrás do motorista, meu pai, eu atrás do banco de minha mãe, ambos sempre aos berros, lágrimas e pontapés, um arrancando os cabelos do outro. Uma disputa bélica por centímetros na vaga do meio – a humanidade básica e instintiva das crianças, que ajuda a explicar nossa política corrupta e seu debate infantil: o espaço estava lá e seria um desperdício não ocupá-lo. Eu, maior, acreditava ter direito a um pedaço grande; ela, pequenina, lutava por uma divisão igualitária. Nos lembramos disso esses dias, dentro do carro: apesar da trégua, o conflito permanece irresoluto. A solução da época era convidar alguém para viajar conosco e sentar no meio. Cada um se conformava com seu lugar. Mais apertado, porém mais confortável.

As leis da ampliação espacial infantil

Trecho da melhor frase do último romance de Terron: “existem lugares a serem explorados até mesmo na superfície de nossa cama. (…) preste atenção, se você tiver a coragem necessária e esticar o pé até a extremidade da cama, poderá descobrir, com a ponta do dedão direito do pé e depois com a do esquerdo, um local nunca antes ocupado na Terra, um espaço vazio que está à nossa espera noite após noite, bem à nossa volta, um polo gelado que se oculta em cada um dos recantos da cama”. Certamente seu narrador não conhecia ninguém como minha filha, que com seus quarenta ou cinquenta centímetros quadrados ocupa todos os espaços de uma cama inteira. Basta, para isso, que você tente dormir com ela. Inicialmente você ocupará lá seus 30% do território, mas logo se verá com metade do corpo jogado pra fora, na afortunada hipótese de ter conseguido cochilar. De manhã você descobrirá que esteve dormindo no chão a noite inteira; mais tarde intuirá que foi exatamente por isso que conseguiu dormir. Antes de decidir mudar de vez pro chão, requisitará ao irmão mais velho (uns sessenta centímetros quadrados, ainda pior) que durma com ela: “Não cabe, papai”, responderá o pequeno demônio-da-Tasmânia. “Ela é espaçosa demais”.

Fundamentos estruturais do veneno-remédio

Tendo já passado mais de um ano, acho que posso discorrer sobre a fatalidade. Meu aniversário de trinta anos. Estávamos num churrasco na beira do Rio Araguaia, eu, uns primos, uns tios, devorando picanhas gordurosas, encharcando-nos com vodca, cerveja e uísque, quando recebemos a notícia do infarto fatal de um tio que não estava na viagem. Os presentes, entre trinta e sessenta anos de idade, tiveram a reação comum, ainda que não fossem segui-la, aquela conversinha de réveillon: vou passar a me cuidar melhor, vou beber menos, vou entrar numa dieta, vou fazer exercícios, vou fazer check-up, vou me preocupar. Meu pai, perpétuo propagador do hedonismo, se dirigiu a mim com gravidade. “Tá vendo aí, Paulin”. Ele estava falando sério. Acreditei ter aderido ao discurso vigente. “Ninguém sabe a hora que vai morrer. Temos mesmo é que aproveitar, temos que comer gordura e beber cachaça na hora que der vontade”.

Textos relacionados:

Desmedidas Brasileiras

Contradições Cotidianas

Contradições Cotidianas (II)

Primeiras impressões de SP

 

 

 

 

Atravessar a rua com o sinal fechado

 

Qual as implicações políticas do ato de atravessar a rua? Em Dois vivas ao anarquismo, ainda inédito em português, o sociólogo americano James C. Scott propõe a Lei de Scott da Calistenia Anarquista, que prega a importância de o indivíduo autônomo quebrar diariamente alguma lei que não faça sentido. Mas em sociedades como a brasileira, dominadas de cima a baixo pelo jeitinho, como isso funcionaria? Confiram meu texto de estreia para o blog do IMS.

Sangue na boca

Cinquenta Pilas

Venho duma linhagem de achadores de dinheiro. Minha vó sempre conta das surras que meu pai levou por achar dinheiro no chão – uma indignidade, para ela. Aprimorei a arte: ano passado estava indo pra rua beber e encontrei uma notona de cem reais balançando na calçada. No dia seguinte, numa ressaca mefistofélica, condenei o costume. Depois disso, o declínio – ultimamente só tenho achado notas pequenas e moedas.

Mês passado, mesmo com o frio da moléstia, decidi comer na padaria da rua debaixo, quando vi uma nota de cinquenta na calçada. Seria o símbolo do giro da Fortuna – “minha volta por cima!”, juro que pensei isso na hora. Fui pegá-la e ela flutuou uns vinte centímetros. Dei-lhe um pisão e quando a agarrei senti que era de plástico e estava sendo puxada com força por uma linha de anzol. Era uma pegadinha. Eu havia sigo enganado como um grande peixe (um Dourado, dirão!)

Não ajuda nada, não explica nada, mas senti isso como uma bela metáfora para as últimas semanas – não havia mais o que fazer, além de seguir pela calçada preso a um devaneio desfeito antes de definidos os seus contornos.

Sangue na boca

Dia desses il capo, meu maravilhoso e enrolado ilustrador, me disse que eu deveria aproveitar enquanto estou com o sangue na boca. “Como assim”, lhe perguntei. De acordo com ele, durante a adolescência, quando era goleiro de futsal, passava a jogar melhor após levar a primeira bolada na cara. O sabor do sangue que lhe encobria os dentes o deixava furioso e, ao mesmo tempo, era como se ele despertasse e insurgisse contra todos os medos das vésperas de decisões. Com o sangue na boca você perde os receios, pois precisa reagir naquele exato momento; com o sangue na boca você arrisca, você despreza a névoa que embaça seus amanhãs. O sangue na boca é a húbris, o sangue na boca é a metáfora original para catfish, o bagre que faz os bacalhaus se moverem, o sangue na boca é a luta cotidiana contra o horizonte vazio. Nas últimas semanas senti esse gosto ferruginoso ferver cada vez mais ácido na ponta de minha língua. Estejam certos de que alguma coisa haverá de acontecer.

O direito de interpretar Hamlet

Na última edição da revista Barril saiu um ensaio meu em que contraponho Aziz Ansari e Javier Marías para discutir as ansiedades da representação cênica diante das indagações relacionadas à apropriação cultural. Confira também este ensaio que publiquei lá ano passado, A visão personalíssima do clássico, sobre encenações pós-modernas de peças clássicas, e esta crítica algo ensaística de uma peça que vi este ano. Nem preciso sugerir que confiram a revista toda; tem muita coisa massa lá.