Dois Ensaios – Karel Čapek

Meu grande vício este ano foi a obra de Karel Čapek. Li Histórias Apócrifas há três anos, e consegui convencer muita gente a ir atrás do livro apenas mencionando um conto genial sobre um padeiro que aprecia as ideias de Jesus Cristo, mas o odeia por ter acabado com seu comércio. Foi o primeiro de uma sequência de obras tchecas, húngaras, polonesas, ucranianas que li na época. Desenvolvi um preconceito com obras desses lugares: acho que todas serão geniais. Minha teoria é que um livro meia-boca escrito em inglês ou francês é facilmente traduzível, pronunciável, vendável – é bem mais fácil (menos difícil, vá) se arriscar a publicá-lo em outro país; mas se alguém correu atrás de um tradutor, um preparador do tcheco, e depois ainda de divulgar esses caras de nomes complicados, uma trabalheira, é porque esses livros devem compensar o esforço por sua qualidade. Minha experiência apenas reforça esse preconceito.

Então este ano finalmente me aventurei a ler A Guerra das Salamandras, nada menos que uma distopia polifônica com um humor à Sterne. Muito antes de Orwell ou de O Planeta dos Macacos, Čapek imaginou as questões sociais, políticas, econômicas, biológicas, filosóficas, teológicas e até linguísticas que viriam à tona com o surgimento de salamandras superdesenvolvidas que suplantassem as atividades humanas. Além do enredo sensacional, a narrativa é contada por meio de artigos científicos, recortes de jornal, relatórios de reuniões, manifestos, ensaios filosóficos, fluxos de consciência, metalinguagem. Muitos a leem como metáfora para a ascensão do nazismo, e faz sentido. Durante vários anos Čapek foi cotado para receber um Nobel, mas não ganhou devido à influência dos nazistas na Academia Sueca. Ele foi um dos mais famosos antifascistas de sua época, e quando Hitler invadiu Praga, sua casa foi uma das primeiras a serem vasculhadas, porém àquela altura ele já havia morrido. Seu irmão Josef não teve a mesma sorte, e foi morto num campo de concentração.

Os irmãos Čapek também são famosos por terem inventado a palavra “robô”, derivadas de robota, trabalhos forçados, em tcheco. Diz a lenda que Josef é seu verdadeiro inventor, enquanto Karel foi o primeiro a registrá-la, na peça R.U.R., também traduzido por aqui como A Fábrica de Robôs. Li essa peça imediatamente após A Guerra das Salamandras, e fiquei igualmente empolgado. Na sequência li um volume americano, Toward the Radical Center, com três peças na íntegra, além de inúmeros contos, ensaios, textos biográficos – e minha sensação é que se Čapek não houvesse escrito em tcheco, uma língua pouco falada, ele seria muito mais celebrado. Basta pensar que outro grande escritor tcheco da época, Franz Kafka, escreveu em alemão e é reconhecido internacionalmente. Mas essa foi uma decisão deliberada; Čapek era poliglota, chegou a traduzir para o tcheco alguns poemas franceses, e junto com Jaroslav Hašek foi um dos primeiros escritores de expressão tcheca, abrindo caminho para outros grandes autores como Bohumil Hrabal e Milan Kundera.

Ele também inventou o conto de detetive existencialista – à maneira de Poe, Conan Doyle e Chesterton, porém muitas vezes sem a solução final, pois o que importava para ele eram os percursos da investigação. Apenas imaginem a destreza de um conto de detetive sem a resolução, mas que mesmo assim consiga ser empolgante até o final. Uma das peças do volume, traduzida como The Makropulos Street, fala sobre as implicações morais, sociais e filosóficas na vida de uma mulher imortal. Outra, Mother, por sua vez, é uma das mais tocantes obras declaradamente antifascistas de todos os tempos – impossível sair incólume da história da mãe que perde o marido e os filhos para a guerra, o fanatismo, os riscos voluntários, as provas de virilidade, os martírios da honra desmotivada, comuns entre os homens até hoje. Porém mesmo quando ele escreve sobre coisas que em si não me interessam nem um pouco, como jardinagem ou aspiradores de pó, Čapek me diz mais que muita gente falando sobre o amor, a guerra, a morte.

Depois disso, passei o resto do ano enchendo o saco das pessoas, tagarelando sobre Čapek em bares, restaurantes, pontos de ônibus, nas redes sociais. Um amigo fez um samba de brincadeira, apenas com o nome Čapek Čapek Čapek. Alguns editores se interessaram, mas esbarraram na dificuldade que seria arranjar um bom tradutor de tcheco, ainda que o fato de estar em domínio público facilitem os trâmites da publicação. Certa tarde, há algumas semanas, descobri que sairia uma nova tradução de R.U.R., feita a partir do inglês por uma amiga minha, e isso me instigou a também traduzir do inglês dois ensaios curtos presentes no Toward the Radical Center que provavelmente não sairiam aqui por tão cedo. Chamam-se, na tradução, “Boa Vontade” e “Elogio aos Desastrados”. Para tanto, reativei meu perfil no Issuu, que fiz em 2013 para publicar traduções de ensaios em domínio público, onde já postei Thomas de Quincey, Virginia Woolf, G. K. Chesterton, e desde então estava parado. Os ensaios de Čapek estão no link abaixo. Espero que apreciem a leitura.

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